Part 2
Christovão Jaques commandava a esquadrilha lusitana, de reconhecimento, a que seguiu-se o grosso da expedição, sob as ordens de Martim Affonso de Souza, em 1531. Este desembarcou na pequena praia, fóra da barra, que se estende do morro da Babylonia ao da Urca, e que ainda hoje é conhecida pelo nome de porto de Martim Affonso.
Expulsos os intrusos, o commissario de D. João III, voltou, com as suas caravellas, para a Bahia de Todos os Santos, ficando novamente Rio de Janeiro desguarnecido.
Foi preciso que, vinte e quatro annos depois, em 1555, os francezes voltassem á carga, sob o commando do almirante Nicolas Durand de Villegaignon, para que o rei de Portugal, passados cinco annos, ordenasse a Mem de Sá, terceiro governador geral do Brasil, que expellisse os invasores.
Villegaignon, que sonhára fundar a França Antartica em terras de Santa Cruz, desembarcou á entrada da barra, na ilha da Lage, hoje fortificada, passando a occupar e a guarnecer a ilha de Serygipe, que, desde então, é conhecida pelo nome do almirante bretão, não obstante elle havêl-a baptisado _Fort Coligny_.
Quando, em 1560, Mem de Sá entrou, com onze navios, o porto do Rio de Janeiro, encontrou os francezes na melhor harmonia com os tamoyos, e reforçados por uma esquadrilha, ao mando de Bois Le Comte. Batidos, os invasores fugiram nos destroços dos seus navios, porém voltaram quatro annos, mais tarde, e estabeleceram-se na actual ilha do Governador, então Moracaia, ou Paranapuan.
D’esta vez foi um sobrinho de Mem de Sá, Estacio de Sá, que partiu directamente de Portugal ao Rio de Janeiro, a fazer frente aos obstinados usurpadores.
Foi em Abril de 1565 que a nova expedição deu entrada na bahia de Guanabara, e depois de reconhecer as fortes posições dos francezes, desembarcou no porto de Martim Affonso. Ahi, entre os morros da Urca e de Babylonia, o oceano Atlantico e a enseada de Botafogo, fundou Estacio de Sá uma povoação, Villa de S. Sebastião, Durante dois annos conservou-se o commandante portuguez n’esta posição, em continuas escaramuças com os francezes e os tamoyos, seus alliados, até que em 18 de Janeiro de 1567, appareceu Mem de Sá com cinco galeões e seis caravellas, bem guarnecidas, em auxilio do sobrinho. Logo tres dias depois, em 20 de Janeiro, os indios e os francezes fôram atacados e destroçados por mar e por terra. Em pleno combate, Estacio de Sá, teve o rosto varado por uma flexa, morrendo trinta dias depois e sendo sepultado na ermida de S. Sebastião.
Para celebrar a victoria, Mem de Sá, elevou a nascente povoação á cathegoria de cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, resolvendo transferil-a para o actual morro do Castello, sitio mais central e menos accessivel aos ataques dos inimigos.
Realisado este intento, e depois de cercar a nova cidade de muralhas e de fazer erigir no cume da montanha uma capella sob a invocação do orago da localidade, o governador geral regressou á Bahia, entregando o governo do Rio de Janeiro, a outro sobrinho seu, Salvador Corrêa de Sá. Este, alguns annos depois, fez trasladar a ossada do primo, da velha ermida, junto do Pão de Assucar, para a capella-mór do novo santuario. Cobre o tumulo uma lapide, com os seguintes dizeres:
«Aqui jaz Estacio de Sá Capitão e conquistador d’esta terra e Cidade. E a campa mandou fazer Salvador Corrêa de Sá, seu primo, segundo capitão e Governador, com suas armas. E esta capella acabou no anno de 1583».
A inscripção esquece-se de mencionar o principal titulo e a gloria immortal da pessôa a quem se refere—a de fundador do Rio de Janeiro. Da sua leitura conclúe-se que Estacio de Sá conquistou a cidade, o que não é verdade.
Salvador Corrêa de Sá, que governou durante trinta annos e morreu na idade de 113 annos, teve a habilidade de transformar os tamoyos em amigos dos portuguezes, e a tal ponto que o chefe indigena Ararygboia, foi o seu principal auxiliar nas luctas que teve de sustentar com os francezes, que não podiam conformar-se com a ideia de dar de mão á sua sonhada colonia Anctartica.
Taes foram os progressos da nova cidade, e tambem das suas immediações que, em 1608, o governo de Lisbôa elevou-a á cathegoria de governo geral, comprehendendo as capitanias de S. Paulo, do Espirito Santo e do Rio de Janeiro.
Depois da audaciosa tentativa de Villegaignon, o mais sério ataque dos francezes contra a preciosa perola de Portugal, realisou-se em 1710, sob o commando de Duclerc. Tendo desembarcado, em 11 de Setembro d’esse anno, na praia de Guaratiba, o inimigo conseguiu penetrar até ao centro da cidade, onde foi batido pela pequena guarnição militar, poderosamente auxiliada pelo povo e, especialmente, pelos estudantes. Dos 1:100 invasores, 400 pagaram, com a vida, as velleidades de conquista, entregando-se os restantes á benevolencia dos vencedores.
Quanto a Duclerc, foi assassinado por um desconhecido, seis mezes após estes acontecimentos.
O celebre Duguay-Trouin foi encarregado de vingar a derrota do collega, o que conseguiu, ganhando um combate naval, nas aguas guanabarinas, contra a armada lusitana e obrigando os habitantes da cidade a pagar-lhe um tributo de 610:000 cruzados, cem caixas de assucar e 200 bois.
Quando, em 1733, o conde de Bobadella, general Gomes Freire de Andrade, foi nomeado governador do Rio de Janeiro, esta cidade entrou em activa phase de prosperidades, sendo, em 1762, elevada a capital do Brasil, e recebendo o conde de Bobadella o titulo de vice-rei. No seu governo foi importada, de Cayenna, a planta do café e construido, entre outros melhoramentos, o famoso aqueducto da Carioca.
Desde 1763, anno em que falleceu Gomes Freire de Andrade, até 1808, data da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, governaram o Brasil, o conde da Cunha, o conde de Azambuja e o marquez de Lavradio.
Com a presença e demora da côrte portugueza, pelo espaço de treze annos, desenvolveu-se extraordinariamente a capital brasileira.
O fugitivo monarcha começou por franquear os portos do Brasil ao commercio de todo o mundo, em 1 de Junho de 1808, memoravel data, cujo centenario foi, no anno passado, celebrado pela Exposição Nacional. D. João VI fundou, no Rio de Janeiro, a Côrte de Justiça, a Academia de Marinha, o Supremo Conselho Militar, a Fabrica de Polvora, o Banco do Brasil, a Escola de Medicina, o Tribunal do Commercio, os Archivos Militares, a Imprensa Real, o Jardim Botanico, a Bibliotheca Nacional, etc. Em 10 de Setembro de 1808, publicava-se a «Gazeta do Rio de Janeiro», primeiro jornal fluminense, impresso em uma typographia da rua dos Barbonos. Foi de 1:200 contos de réis o primeiro capital do Banco do Brasil, inaugurado em 12 de Outubro de 1808, data inolvidavel na prosperidade e grandeza da nação brasileira.
O _rei tabaqueiro_, na phrase dos seus detractores, que na metropole fizéra má politica e pessima administração, acabando por abandonar a patria ao jugo dos invasores, com a mudança de hemispherio, mudou de temperamento e quiçá de ideias politicas e administrativas, a tal ponto, que a sua viagem forçada á grande colonia sul-americana, assignalou um periodo de assombroso desenvolvimento para o Brasil.
O rei cercou-se de gente de grande valor e de prestigio, tal como Lebreton, membro do Instituto de França, os irmãos Taunay, João Baptista Delbret, Zeferino Ferrez, sabios e artistas do pincel e do escopro e, acima de todos, Grandjean de Montigny, que nos legou a admiravel concepção architectonica da Academia das Bellas Artes, álem de outros trabalhos de que teremos conhecimento.
Em 26 de Abril de 1821, D. João VI regressou a Lisbôa, deixando na regencia do Brasil, o principe D. Pedro, seu filho. Logo no anno seguinte, em 7 de Setembro, andando o regente a viajar por S. Paulo, taes noticias recebeu da côrte de Portugal, inadmissiveis pelas suas exigencias, que alli mesmo, nas margens do Ipyranga, proclamou a independencia do Brasil.
A 30 d’esse mez, apresentou-se o principe no Rio de Janeiro, em um camarote do theatro S. Pedro d’Alcantara, ostentando a legenda—Independencia ou Morte.
Este acto é especialmente notavel por antecipar acontecimentos que forçosamente teriam de realisar-se em breve futuro, devido ao gráu de prosperidade da mais preciosa joia de Portugal e ás absurdas medidas adoptadas pelas côrtes portuguezas, no intuito de contrariar os desejos de independencia, que já começavam a manifestar-se no Brasil. Foi a antiga colonia transformada em imperio e o seu regente em imperador. Este facto teve logar no Rio de Janeiro, em 12 de Outubro de 1822.
Em 7 de Abril de 1831, D. Pedro I foi obrigado a abdicar a corôa em seu filho D. Pedro d’Alcantara, criança de 5 annos, e a retirar-se para a Europa. As principaes causas d’esta resolução foram os actos absolutistas do novo imperador, entre os quaes avultaram a dissolução da Assembleia Constituinte e um vergonhoso tratado celebrado com Portugal. Á abdicação precederam as noites das _garrafadas_, ou de motins populares, sangrentos para a população do Rio de Janeiro.
Durante o reinado de D. Pedro II, e álem do facto capital da guerra do Paraguay, muitos acontecimentos politicos se deram na capital do imperio, que seria longo e fastidioso enumerar, e augmentariam demasiadamente este capitulo.
Não podemos, todavia, deixar de mencionar o 13 de Maio de 1888 e o 15 de Novembro de 1889, datas, respectivamente, da abolição da escravidão em todo o territorio nacional e da proclamação da Republica dos Estados Unidos do Brasil.
O aureo e glorioso decreto de 13 de Maio, foi assignado por D. Izabel, regente do imperio, ex-princeza imperial e ainda hoje condessa d’Eu, na ausencia de seu pae, o imperador D. Pedro II, que viajava pela Europa. Não obstante os protestos dos conservadores, interessados e tradicionalistas, tal acontecimento foi motivo de grande regosijo para a população fluminense, e teve por immediata consequencia a mudança de instituições politicas, em 15 de novembro do anno seguinte, pelo exercito e pela armada, com o tacito consentimento do povo brasileiro, em geral, e muito especialmente dos habitantes do Rio de Janeiro.
Na presidencia do marechal Floriano José Vieira Peixoto, 2.º presidente da Republica e successor do marechal Manoel Deodoro da Fonseca, teve logar, na bahia de Guanabara, de 1892 a 1894, a revolta da armada, sob o commando do contra-almirante Custodio José de Mello. No espaço de muitos mezes, a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada e muito damnificada, se bem que com a hostilidade da esquadra mais soffresse a sua visinha fronteira, a cidade de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro.
No Arsenal de Marinha, um soldado de infantaria tentou assassinar o dr. Prudente José de Moraes Barros, presidente da Republica, de 1894 a 1898, conseguindo trespassar, com a bayoneta, o marechal Machado Bettencourt, ministro da guerra, que se interpuzéra. Desde então, a paz não tem sido perturbada, na capital da Republica, que Municipio Neutro, por decreto de 1884, e Districto Federal, pela Constituição de 24 de Fevereiro de 1891, conta hoje uma população superior a 900 mil habitantes e, concluidos os melhoramentos que a transformam, por completo, será, indiscutivelmente, a primeira cidade da America do Sul e uma das mais bellas e importantes metropoles do mundo.
Phases Fluminenses
Nos dois primeiros seculos de existencia civica, Rio de Janeiro progrediu morosamente, por duas causas principaes—o abandono da metropole e as constantes hostilidades dos francezes e dos indios. Em 1618, isto é, 43 annos depois da sua fundação, a cidade apenas contava uns 3:500 habitantes, incluindo a guarnição militar.
Dois seculos mais tarde, quando D. João VI desembarcou na capital do Brasil, apenas havia, mal edificadas, 46 ruas, 19 praças, campos e largos e 4 travessas. Foi n’essa epocha que teve inicio o grande desenvolvimento da cidade. Em cincoenta annos de progresso, o seu activo era de 284 ruas, 47 praças, 42 travessas, 27 morros e 30 praias habitadas, nas proximidades.
A povoação, já immensa, galgava e contornava as collinas que a pejam e circumdam, estendendo-se pelo Engenho de Dentro, Laranjeiras, Andarahy Grande, Gavea, Tijuca, Villa Izabel e outros pontos.
A segunda fortaleza construida para defeza da cidade occupava o logar da actual egreja da Cruz dos Militares, que era então beira-mar.
As egrejas de S. Domingos e da Lampadosa foram construidas, no seculo XVIII, fóra da cidade que, em 1700, apenas attingia o ponto por onde hoje passa a rua de Uruguayana.
Em 1572 foi uma temeridade edificar-se, _no sertão_, o templo de S. Francisco Xavier. O primitivo santuario da Candelaria, foi construido em 1604, e as egrejas de Santa Luzia e de N. S. da Conceição, em 1592 e 1600, respectivamente.
A actual egreja de S. Sebastião do Castello é a terceira erguida no mesmo local, desde a trasladação da cidade, não obstante a data que encima o portico ser a da fundação do primeiro santuario, inscripção conservada no mesmo logar, assim como, na capella-mór, tem sido respeitado o tumulo de Estacio de Sá, o primeiro dos fluminenses.
O primeiro corpo administrativo e municipal que teve o Rio de Janeiro, com o nome de Senado da Camara, era constituido por tres vereadores, um procurador, um escrivão, dois almotacés e o Juiz de Fóra, que presidia.
No anno da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, este senado estabeleceu, por meio de marcos de pedra, os limites da cidade junto aos rios das Laranjeiras e Comprido, por um lado, e por outro junto ao mar, em toda a circumferencia.
Foi tal o desenvolvimento commercial e civico da capital, no primeiro quartel do seculo XIX, e eram tão estreitas, tortuosas e deficientes as arterias publicas existentes n’essa epocha que, em 1838, a Camara publicou uma postura ordenando que todas as vias publicas da cidade, e seu termo, tivessem, pelo menos, sessenta palmos de largura. Em 1893, a Prefeitura decretou que essa amplitude fôsse, no minimo, de 17 metros.
O primeiro nivelamento das ruas, calçamento e illuminação, foi começado em 1854, e dois annos depois a municipalidade prohibiu as aguas furtadas e mandou que todos os projectos de construcção fôssem submettidos ao seu exame e approvação.
Deve-se, porém, á Republica, em geral e, especialmente, a tres eminentes patriotas—o dr. Rodrigues Alves, presidente da Republica; dr. Lauro Müller, ministro da Viação e Obras Publicas e dr. Francisco Pereira Passos, Prefeito Municipal, a transformação do Rio de Janeiro colonial, com todos os defeitos das povoações da metropole, aggravados pelos caprichos dos mandões locaes, em uma grande cidade, moderna, rival das mais bellas capitaes do nosso planeta.
Pertence á iniciativa e execução do Governo, principalmente, a construcção do porto, com cáes acostaveis, na extensão de 3:500 metros; a magestosa e formosissima Avenida Central, de mar a mar, rasgando 16 das velhas e movimentadas ruas da cidade, e as obras especiaes de saneamento da capital, que déram em resultado a extincção da febre amarella e de outras molestias endemicas e epidemicas, de ha muito acclimadas no sólo fluminense.
A Prefeitura, ou Municipalidade, no espaço de 4 annos, de 1903 a 1906, executou e iniciou os seguintes melhoramentos:
—Avenida á Beira-Mar, do Passeio Publico á Praia Vermelha, no comprimento de 5:200 metros e com a largura de 33 metros.
—Avenida Mem de Sá, na extensão de 1:540 metros, desde o largo da Lapa até á rua Frei Caneca, atravessando as ruas dos Arcos, Lavradio, Riachuelo, Rezende e Invalidos.
—Avenida Salvador de Sá, ligando a rua Estacio de Sá, com a rua Frei Caneca.
—Alargamento, para 17 metros, d’esta rua e das do Visconde do Rio Branco, Carioca e Assembléa.
—Prolongamento e alargamento da antiga rua de S. Joaquim, hoje Marechal Floriano, até ao largo de Santa Rita.
—Prolongamento da rua Visconde de Inhaúma até ao mar, na extensão total de 1:500 metros e largura de 23.
—Prolongamento da rua do Sacramento até á rua do Marechal Floriano, com a largura de 15,ᵐ60.
—Alargamento da rua Camerino.
—Prolongamento e alargamento da rua da Prainha, hoje do Acre, até ás ruas Marechal Floriano e Uruguayana.
—Transformação d’esta rua, com a largura de 17 metros, arborisação e edificação de grandiosos predios.
—Alargamento e transformação da rua Treze de Maio.
—Ajardinamento do largo da Gloria, da esplanada de Botafogo, do Alto da Boa Vista, na Tijuca, e da praça Quinze de Novembro.
—Ampliação e embellezamento do Cáes Pharoux.
—Prolongamento da travessa de S. Francisco ao largo da Carioca.
—Transformação da praça Marechal Deodoro.
—Ampliação do palacio da Prefeitura.
—Construcção da estrada das Furnas, na Tijuca.
—Canalização do Rio Carioca.
—Construcção do Theatro Municipal.
—Construcção do Mercado Central e de mais tres mercados regionaes.
—Decretação do alargamento e recúo de oitenta ruas.
—Aperfeiçoamento do calçamento de numerosas ruas e augmento da sua illuminação.
—Transformação do quadrilatero da praça da Republica, defronte do Quartel General do Exercito.
Para tão pequeno espaço de tempo é assombroso o trabalho realisado pela municipalidade do Rio de Janeiro.
O governo geral está procedendo á construcção de uma gigantesca avenida, que começando junto da Avenida Central, passe defronte do novo porto e vá terminar na praia de S. Christovão, communicando assim esta com a bellissima praia de Botafogo, na extensão de 10:500 metros. Será, incontestavelmente, a primeira arteria do mundo, em dimensões, porque em belleza, supplantal-a-ha a Avenida Oceanica que, partindo da Avenida Beira-Mar, na Praia Vermelha, contornará, exteriormente, o Pão de Assucar e, pelas praias da Copacabana, do Leme e de Ipanema irá terminar no extremo-sul da praia da Gavea.
E de tudo isso que ahi fica exposto, o que ainda não está prompto ou iniciado, será concluido no espaço de poucos annos, porque o Brasil, em geral, e muito especialmente a sua esplendorosa capital, entraram, decididamente, pela descentralisação administrativa e sob a egide de instituições democraticas, na rapida e brilhantissima senda dos seus gloriosos destinos.
Monumentos
Candelaria
Ha duas versões sobre a fundação d’este santuario.
Segundo a maioria dos auctores, Antonio Martins da Palma, hespanhol, da ilha de Palma, e com mandante de um navio de trafego, vendo-se naufragado, prometteu á Virgem da Candelaria, muito venerada na sua ilha, erigir-lhe uma capella no primeiro terreno que pisásse, vindo aportar ao Rio de Janeiro e desembarcando no local do actual templo, acompanhado de sua mulher, Leonor Gonçalves.
Outros escriptores affirmam que á primitiva ermida foi dado o nome de uma velha náu, chamada N. S. da Candelaria, encalhada n’aquelle local, e que foi com o madeiramento d’essa embarcação que se edificou o primeiro santuario, em 1604.
As obras do actual monumento foram começadas em 1776, e cento e vinte e dois annos se passaram antes da sua conclusão.
Francisco João Roscio, engenheiro e sargento-mór de Portugal, fez o desenho do exterior do templo, em estylo barroco. Concluiu a obra, em 1898, o engenheiro civil dr. Antonio de Paula Freitas, que a dirigiu durante vinte annos, succedendo aos architectos Job Justino de Alcantara, Gustavo Waehnldt, Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.
A frontaria, toda de granito e ladeada por dois soberbos campanarios, é de magestoso aspecto, e melhor sobresairia se mais vasto fôsse o espaço em que se eleva.
Quatro portas de bronze dão entrada ao imponente e artistico santuario, ellas mesmas primôres de arte e devidas á genial concepção do esculptor portuguez Teixeira Lopes.
A decoração interior é em estylo corinthio e constitue o principal valor e attractivo do monumento.
É marmoreo todo o revestimento mural, niveo, de Carrara, nas pilastras, cornijas e entablamento, preto nos pedestaes e vermelho nos paineis. Álem d’estas tres côres e qualidades, o altar-mór ostenta o lapis-lazuli, o brocatello, o verde antigo, o malachito e o amarello de Verona.
Os nove altares lateraes são de marmore branco, de Carrara.
Nas abobadas, revestidas de alvenaria de tijolo, ha pinturas historicas de Zeferino da Costa.
Numerosos quadros, bellas esculpturas e preciosos dourados completam a decoração interior da Candelaria, santuario da religião e da arte.
O templo é aberto em tres naves, a do centro formosa e vastissima; as lateraes apenas a communicar os altares. Todo o monumento occupa a area de 3:520 metros.
As suas dimensões, quanto á planta geral do edificio, são de 80 metros de comprimento por 44 de largura. O corpo de entrada, ou principal, tem 43,ᵐ40 de comprimento, por 12 de largo, excluindo as naves lateraes.
A altura total do edificio, sobre o nivel do mar, é de 76 metros.
As torres teem 57 metros de altura. Este precioso monumento é coroado por um zimborio de cantaria, tijolo e marmore de Lisbôa, formado por 1:422 blócos de pedra, com o pêso de 630 toneladas, e alto de 64 metros. Do seu vértice descortina-se amplo e bello panorama geral da cidade, bahia, arrabaldes e suburbios.
O zimborio foi construido, successivamente, pelos engenheiros-architectos Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.
Álem das pinturas decorativas das abobadas e muralhas, executadas, principalmente, pelos artistas Costa e Tunes, e cujos assumptos prendem-se á lenda dos fundadores do santuario e ás phases da sua construcção, ha a admirar, entre outras artisticas curiosidades, o Baptisterio, á esquerda da entrada principal. A pia é de roseo marmore da Arrabida, e a tampa é de bronze cinzelado, trabalho de Manoel Ferreira Tunes. É dourada a fogo e produz maravilhoso effeito.
Do lado posterior do baptisterio vê-se um precioso tabernaculo, sobre uma banqueta.
Na parede do fundo avulta um baixo-relevo, em cedro, representando o baptismo de Christo, trabalho do mesmo artista.
Theatro Municipal
Dez annos antes da inauguração das obras, que teve logar em 20 de Novembro de 1904, já a municipalidade tributava as companhias theatraes, as emprezas de diversões publicas e até os vendedores de bilhetes para espectaculos, com destino á edificação do Theatro Municipal.
No momento da publicação d’este livro estará elle concluido e, talvez, inaugurado. É um grandioso e bello monumento, que occupa a area de 4:127 metros quadrados, entre a Avenida Central, o becco Manoel de Carvalho, a rua Treze de Maio e a praça Ferreira Vianna. Está edificado sobre cêrca de 1:700 estacas de massaranduba, sapucaia, oleo vermelho, graúna e angelim pedra, batidas em terreno barrento e arenoso.
Trabalharam regular e diariamente 500 operarios, durante os cinco annos da sua construcção e decoração, que consumiram quantia superior a 12:000 contos de réis.
O auctor do projecto e engenheiro-chefe da sua execução, foi o dr. Francisco de Oliveira Passos.
Eis algumas notas escriptas durante uma visita a este monumento, em Maio de 1908:
No rez-do-chão, deposito d’agua com a capacidade de 200:000 litros. Motor da força de 115 cavallos, para ventilação.
Entradas especiaes, para o Presidente da Republica, do lado da Avenida Central e para o Prefeito Municipal, pela rua Treze de Maio.
Paredes decoradas a mosaico francez, representando scenas das principaes peças do theatro universal. Escadarias de marmore branco, decoradas a bronze dourado. Sala de espectaculo.
Uma ordem de frisas, duas de camarotes e uma de amplas galerias. Pintura em branco e profusa illuminação. Camarotes especiaes, á direita, para o Chefe do Estado, á esquerda para o Prefeito Municipal. Tecto pintado sobre téla, por Visconti. Lotação total, para 1:700 pessôas. Cinco entradas para a plateia.
Todo o pavimento dos corredores dos camarotes é a mosaico, bem como o das frisas e galerias.
O vestibulo é em marmore de côres, avultando o verde e o côr de rosa. Elegantes columnas de roseo marmore circumdam os pavimentos superiores, ornamentando a escadaria. Os capiteis das columnas são a bronze dourado.
Todo o marmore empregado no edificio foi importado de Portugal, da França e da Italia.