Tratado das Cores Que consta de tres partes: analytica, synthetica, hermeneutica

Part 2

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§ 31. Fiz muitas outras experiencias, combinando em differentes proporçoens, todas as sinco Cores; e de todas estas combinaçoens naõ resultou cousa alguma, que podesse formar principios, ou destruir os que ficaõ estabelecidos. As combinaçoens de cinco, ou quatro Cores, tomando quatro ou tres por primeiro termo, e combinando-as em proporção de 1/2, me deraõ resultados quasi similhantes; isto he, huma Cor escura, algumas vezes insensivelmente affectada de Vermelho, ou Verde; e por isso as regeitei todas. A combinaçaõ de tres Cores, tomando duas por primeiro termo, e comparando-as com a outra, me deu as Cores que constaõ da Tab. II, e III. A Tab. IIII, e seguintes me deraõ huma grande variedade de Cores, todas bastantemente fortes, e capazes de serem empregadas como Cores locaes.

§ 32. Era inutil passar adiante; por que já na Tab. XI., que he feita em proporçaõ de 1/5, os resultados saõ quasi iguaes ao primeiro termo dos antecedentes: e a Tab. XII. he quasi igual ás Tab. VI. e VIII. E se se fizessem outras Taboas em proporção de 1/7 e 1/8 parte, em humas seriaõ os resultados quasi iguaes a os elementos; e nas outras coincidiriaõ os resultados com os da Tab. IIII.; pelo que era inutil o passar adiante. E como destas ultimas experiencias nada mais resultava, que a composiçaõ de diversas Cores, eu vi bem que a minha analysis degenerava em synthesis, e que consequentemente era tempo de passar á Segunda Parte.

TRATADO DAS CORES.

PARTE SEGUNDA,

QUE CONTEM A SYNTHESIS DAS CORES.

Como nesta Segunda Parte se trata da composiçaõ das Cores, e esta ou he feita pela Natureza, ou pela Arte; pede o methodo que ella seja dividida em duas Secçoens. Na primeira se exporá o mechanismo, de que se serve a Natureza, para com duas Cores unicas, ornar taõ diversamente o seu vasto imperio. Na segunda porem se assignará o modo, com que a Arte deve combinar estas duas Cores, com quatro outras, para imitar todas as Cores naturaes.

SECÇAÕ PRIMEIRA,

QUE CONTEM A SYNTHESIS NATURAL DAS CORES.

§ 34. Assim como o reyno animal, e vegetal nos presentaõ as duas Cores primitivas, e dominantes, assim tambem o reyno mineral, que he principalmente composto da quelles dous, nos offerece huma infinita variedade de Cores, com que se achaõ embellecidas todas as obras da Natureza. E para conhecermos o modo, com que ella formou esta admiravel variedade de Cores, consideremos os meyos, que devem necessariamente concorrer para recebermos as suas sensaçoens.

§ 35. O Sentido da vista, assim como he o mais espiritual [NOTA XVII.] dos sinco, pelos quaes recebemos todas as impressoens das causas externas, he tambem o que depende demais circunstancias, para se formarem as suas sensaçoens. A luz, os corpos naturaes, e o orgaõ sensorio da vista, saõ de absoluta necessidade, para se cooperar este fim: e he em todos estes meyos, ou em parte delles, que devemos procurar a formaçaõ das Cores; para o que eu passo a considerallos em particular.

§ 36. He indubitavel, que as qualidades secundarias dos corpos consistem em certos accidentes, que inherem a os mesmos corpos. E se o orgaõ sensorio recebe a sensaçaõ das qualidades primarias dos corpos, que indubitavelmente existem fóra delle; da mesma sorte recebe a impressaõ das suas secundarias qualidades, que tambem existem fóra delle com os corpos que as sustem. Neste concludente raciocinio se estabelece o seguinte Principio.

SEXTO PRINCIPIO.

§ 37. O orgaõ sensorio da vista nada contribue para a formaçaõ das Cores; as quaes sendo qualidades secundarias dos corpos, existem com elles, fóra de nós mesmos.

§ 38. Naõ contribuindo assim o orgaõ sensorio nada mais para a formaçaõ das Cores, do que huma camara obscura, onde os objectos se representaõ já coloridos; ponhamos de parte esta divisaõ, e passemos a examinar os phenomenos, que os corpos naturaes nos presentaõ a respeito das mesmas Cores.

§ 39. Se tomamos hum papel branco, e fazemos sobre elle as experiencias da luz do Sol affectada da Cor da Aurora, achamos que o mesmo papel, quasi no mesmo instante, nos presenta quatro Cores differentes. Antes da experiencia, e vendo o papel sem ser ao Sol elle nos presenta a sua Cor branca e natural. Expondo o mesmo papel ao Sol, o vemos tincto de huma especie de Cor de roza. Fazendo cahir sobre elle a sombra de huma palheta de marfim, ou de qualquer outro corpo semelhante, nas circunstancias do § 27, entaõ nos faz ver ou huma Cor de Azul claro, ou hum Branco mais escuro que a sua propria Cor. E resultando estes diversos phenomenos da mesma luz, do mesmo papel, e de huma observaçaõ feita em hum momento, sem que na superficie do papel possa ter acontecido alguma alteraçaõ, segue-se outro Principio.

SEPTIMO PRINCIPIO.

§ 40. A Diversidade das Cores naõ resulta só da differente contextura dos corpos naturaes; pois que sobre huma superficie homogenea vemos, ao mesmo tempo, diversas Cores.

§ 41. Consideremos agora os phenomenos da luz, os quaes necessariamente nos haõ de dar toda a clareza, que ainda falta a esta indagaçaõ.

§ 42. Se a luz se propaga por continuaçaõ, ou por contiguidade, isto he, se ella consiste em rayos, que partem em linha direita dos corpos lucidos athe os objectos illuminados; ou se consiste somente em huma continuaçaõ de urtos das molleculas ethereas, causada pela rotaçaõ do Sol, ou vivo movimento, que existe em todos os corpos lucidos: he huma questaõ que eu deixo a decidir aos partidistas de Euler, e de Newton [NOTA XVIII.]; e qual quer que seja a sua decisaõ, naõ offenderá nada este systema. A luz terá sempre a qualidade de nos fazer visiveis os corpos, e de affectar-se de mil modos differentes, pelo reflexo, e refracçaõ, que sofre urtando contra os mesmos corpos. E como a luz he huma substancia clara, refraccivel e reflexivel, onde residem as Cores primitivas; mas que naõ as manifesta, nem as combina e varía senaõ por meyo do reflexo e refracçaõ, com que se modifica, urtando os corpos naturaes: e este reflexo e refracçaõ devem ser diversos segundo a differente contextura dos corpos, a qual naõ he mais homogenea em especies diversas; segue-se outro Principio.

OITAVO PRINCIPIO.

§ 43. As Cores originarias e primitivas, e as que dellas nascem e se compoem, necessitaõ para se manifestar e compor, e da luz, e da diversa contextura dos corpos, que as refringem, e reflectem.

§ 44. A Natureza da luz, e das Cores seraõ sempre taõ desconhecidas, como a natureza do espirito, e da materia; mas as propriedades da luz, e das Cores, nós as podemos conhecer de hum certo modo. A luz he huma substancia subtilissima, em que residem as duas Cores primitivas, como no puro ether reside o fogo electrico. O fogo electrico naõ se manifesta, sem que se perca o equilibrio, ou se descomponhaõ as molleculas, ou sejaõ pequenas partes do ether que o contem: perdido o equilibrio, por mil causas diversas, o fogo se faz visivel, por outros tantos modos differentes [NOTA XIX.].

§ 45. O Fogo do rayo, a que nenhum corpo natural póde resister, he o mesmo fogo, que nos gabinetes de physica se faz sahir impunemente da ponta dos nossos dedos; e que em huma bella noute, illumina pacificamente o horizonte. O fogo, que faz jogar as batarias de hum navio de tres pontes, he o mesmo, com que os artilheiros fumaõ sensualmente o tabaco. O incendio de huma casa nasce do mesmo fogo, que nutria seu dono, e o aquentava. O Etna, e hum graõ de polvora naõ differem que nas grandezas. Os horrorozos phenomenos dos Vulcanos [NOTA XX.], e hum agradavel fogo de artificio, naõ differem senaõ nas quantidades. Basta de exemplos: e deixo tambem de trazer outra similhante analogia tirada dos dous sons, de que se compoem todas as lingoas, toda a sorte de canto, e harmonia, por ser inteiramente superfluo.

§ 46. A Respeito das Cores vemos na Natureza o mesmo mechanismo. Os rayos da luz illuminaõ os corpos naturaes, e pela opposiçaõ que encontraõ urtando os mesmos corpos, se descompoem em tantos modos diversos, quanto he differente a sua superficie; e entaõ se manifestaõ as duas Cores primitivas, ou puras, ou combinadas de mil modos differentes; e quanto mais heterogeneos saõ os corpos, que a luz encontra, tanto mais irregular he a refracçaõ, e tanto mais composta he a Cor que della resulta.

§ 47. A luz affectada de huma refracçaõ recebe sempre huma Cor, mais ou menos sensivel, a qual conserva sem alteração alguma, athe novamente se descompor, com o encontro, de outros corpos. A lux do Sol, por exemplo, chega á superficie da atmosphera da Terra, sem receber talvez alteraçaõ alguma; mas apenas entra na atmosphera do nosso Globo começa a refringir-se e a descompor-se, e nos manifesta huma Cor azul com alguma mixtura de Verde, que he a Cor do Ceo. Se a mesma luz, ao nascer do Sol, encontra os vapores, que ordinariamente cobrem o horizonte, se descompoem novamente, e nos faz ver huma Cor, que participa do Amarello e Vermelho, que he a Cor da Aurora. Esta Cor se conserva, athe que a luz toque a superficie da Terra, onde no mar, e grandes maças de agoa, se descompoem como na atmosphera, em huma Cor azul, mais ou menos verde, segundo o movimento ou altura da agoa: e cahindo sobre a superficie secca de nosso Globo, entaõ se descompoem em tantos modos differentes, quantas saõ as diversas organisaçoens dos corpos naturaes; da mesma sorte que encontrando sobre o horizonte nuvens de differentes configuraçoens, no las faz ver diversamente coloridas. Donde resulta o ultimo e fundamental Principio [NOTA XXI.].

NONO PRINCIPIO.

§ 48. As Duas Cores primitivas, que residem na luz, se manifestaõ pela descomposiçaõ, que a mesma luz padece urtando os corpos naturaes: e todas as outras Cores, de qual quer genero que sejaõ, resultaõ da differente combinaçaõ das duas primitivas, nascida das diversas refracçoens, com que a luz se modifica, tocando a superficie dos corpos.

§. 49. Com estes simplez, e naturaes principios, fundados todos sobre exactas observaçoens, naturaes analogias, e repetidas experiencias, se explicaõ todos os phenomenos das Cores. O Prisma, o Iris, o pescoço da Pomba, a cauda do Pavaõ [NOTA XXII.] &c., saõ phenomenos identicos, que resultaõ da mera descomposiçaõ da luz, nascida da differente contextura das partes, de que se compoem a quelles corpos.

§ 50. Athequi a Synthesis da Natureza. Passemos agora a ver como a Arte com as duas Cores primitivas, e quatro outras que dellas immediatamente se derivaõ, póde formar todas as Cores necessarias para, em qualquer genero de trabalho colorido, se imitarem as decoraçoens do Universo.

SECÇAÕ SEGUNDA,

QUE CONTEM A SYNTHESIS ARTIFICIAL DAS CORES.

§ 51. A Sabia Natureza só com as duas Cores primitivas, que residem na luz, e se variaõ ao infinito, por meyo de huma prodigioza combinaçaõ, nos faz ver todos os corpos de differentes especies, coloridos diversamente. A Arte porem, menos poderosa que a Natureza, tem necessidade, para imitar as suas admiraveis obras, de quatro outras Cores, nascidas immediatamente da quellas duas; isto he do Azul, que vem do Vermelho; e do Amarelo, que se produs do Verde; do Negro, que consiste na soma do Vermelho, e Azul, do Verde, e Amarelo; e do Branco, que se manifesta pela divisaõ destas mesmas Cores: de sorte que a Natureza executa, em hum instrumento de duas cordas, toda a harmonia das Cores, que a Arte só póde executar em hum de seis.

§ 52. A formaçaõ das Cores consiste em hum simplez, e puro mechanismo. Mudar a superficie dos corpos, ou alteralla, he o mesmo que mudar, ou alterar a Cor dos mesmos corpos. Mudada a contextura, muda-se a refracçaõ, e muda-se a Cor.

§ 53. Os Corpos ou tem a mesma contextura, em toda a sua massa, ou só na sua superficie. Hum cubo de marmore branco, partido em pedaços, mostrará sempre a Cor branca; mas hum pedaço de páo branco tingido de vermelho, se o fendermos, nos prezentará interiormente a sua Cor branca, e natural; e a alteraçaõ, que se tinha feito na sua superficie, applicando-lhe a Cor vermelha, fazia que toda a massa apparecesse desta Cor, sendo realmente branca.

§ 54. A Arte de Colorir naõ se versa senaõ a respeito das Cores superficiaes; e he o modo de achar toda a sorte de Cores, ou de mudar toda a sorte de superficies, que faz a materia desta secçaõ.

§ 55. O Mechanismo das Cores se contem da Taboa I. athe XIII. das quaes a explicaçaõ he a seguinte.

§ 56. Todas as ditas Taboas contem duas sortes de numeros, hum Romano, no angulo direito superior, que marca a Taboa; e outro Arabico sobre os circulos coloridos, que indica a figura: de sorte que toda a vez que se achar, por exemplo, IIII. 1. quer dizer Taboa quarta n.º 1., que he o mesmo que dizer, que de partes iguaes de Vermelho, e Azul resulta huma especie de Cor de purpura.

§ 57. Todas as figuras constaõ de duas partes, antecedente, e consequente: a parte antecedente saõ os elementos, de que se formaõ as Cores; e a consequente he a Cor, que resulta dos antecedentes: por exemplo Tab. IIII. n. 1. o antecedente he o Vermelho, e Azul, e o consequente he a Cor de purpura, que nasce delles: e assim em todas as mais.

§ 58. O Consequente he sempre hum, mas os antecedentes podem ser de dous athe seis. A Tab. IIII. mostra antecedentes de dous; a Taboa II. III. mostra antecedentes de tres; e a I. de quatro e de cinco. Nas pinturas a oleo, onde a Cor branca se combina com todas as outras Cores, pode o antecedente ser de seis.

§ 59. Os Antecedentes, ou se combinaõ em partes iguaes, ou em differentes proporçoens. A Tab. I. II. III. IIII. offeressem antecedentes combinados em partes iguaes; e as outras athe XII. os mostraõ combinados em differentes proporçoens. As Tab. V. VI. mostraõ os antecedentes combinados em proporçaõ de 1/2; a VII. VIII. em proporçaõ de 1/3; a IX. X. em proporçaõ de 1/4; XI. XII. em proporçaõ de 1/5.

§ 60. A Taboa XIII. faz ver, que, na combinaçaõ das duas Cores primitivas, e dominantes, Vermelho, e Verde, com as outras quatro, em partes iguais, os resultados saõ sempre affectados da Cor vermelha, e verde; mas que a vermelha he mais forte que a verde: porque nos resultados numeros 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7., que provem de antecedentes, em que a Cor vermelha se combina com o Azul, Verde, Amarello, e Negro, domina sempre a Cor vermelha. Porem nos numeros 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14., que provem de antecedentes em que a Cor verde se compara com o Vermelho, Azul, Amarello, e Negro, há dous resultados em que domina a Cor vermelha, e saõ os 8. 12.; e somente cinco em que domina o Verde; donde se ve que das duas Cores primitivas, e dominantes, a mais poderosa he a vermelha.

§ 61. Nesta mesma Taboa se vem Cores de cinco especies, ou graos diferentes. O numero 1. vem da combinaçaõ dos seus respectivos antecedentes Vermelho, e Azul; e o n.º 2. vem do Vermelho, e Verde combinados em partes iguaes: O n.º 5. vem da combinaçaõ do n.º 1. 2. tambem em partes iguaes: e o n.º 7. procede da combinaçaõ do n.º 5. 6. na mesma proporçaõ, e assim em todos os mais.

§ 62. A Tab. XIV. he feita á imitaçaõ da Tab. XIII., e se póde chamar a Taboa da somma, e divisaõ das Cores; porque as seis Cores n.º 1. 2. 3. 4. 5. 6. unidas em partes iguaes, produsem a Cor escura, ou negra n.º 7. E divididas estas seis Cores, por meyo de repetidas combinaçoens, athe o oitavo grao, tomando os consequentes, ou resultados do primeiro grao, por antecedentes ou elementos do segundo, e procedendo desta mesma sorte athe o oitavo, entaõ se vem as ditas seis Cores resolvidas na Cor clara ou branca n.º 43.

§ 63. As Tab. A, B, C, D são como hum index de todas as outras. A letra A, por exemplo, indica a Tab. A. Os numeros Romanos desta Taboa indicaõ as Taboas notadas com os numeros Romanos: e o numero Arabico indica as figuras das respectivas Taboas.

§ 64. Isto supposto, eisaqui o modo, com que se podem formar, com a mayor facilidade, todas as Cores, que presentaõ as Taboas A, B, C, D.

§ 65. Preparadas as Cores elementares, como fica dito § 15., se queremos imitar huma Cor natural, que seja similhante á Cor verde Taboa A. IIII. 8. procuramos a Tab. IIII. n.º 8. e acharemos, naõ só a Cor verde procurada, mas que ella se forma de partes iguaes de Verde, e Amarello. Se quisermos imitar a Cor de violeta, ou purpura Tab. A. IIII. 1. procuraremos a Tab. IIII. n.º 1. onde acharemos a Cor desejada, e que ella se compoem de partes iguaes de Vermelho, e Azul: e para achar a composiçaõ de todas as mais Cores, de que se compoem as Tab. A, B, C, D, se procederá da mesma sorte.

§ 66. Por este methodo, só com os exemplos, que se vem nas Taboas, se formaõ cento e vinte Cores, capazes de se empregarem como Cores locaes, e suceptiveis de trez graos de força, isto he, de escuro, meya tinta, e claro, o que faz trezentas, e sessenta meyas tintas diversas. E para formar muitas outras, se procederá da mesma sorte, ordenando Taboas á imitaçaõ das que se presentaõ; tomando por antecedentes cinco, ou seis Cores especificas, isto he, das de que se compoem as Tab. A, B, C, D, o que produsirá huma infinita variedade de Cores, que todas se compoem das duas primitivas Vermelho, e Verde; e das quatro, que destas immediatamente se derivaõ, i. e. Azul, Amarelo, Negro, e Branco [NOTA XXIII.].

§ 67. Tal he a Synthesis artificial das Cores, que tanto desanima os Dilectantes, e que por tantos annos embaraça os Artistas; a qual por este methodo se comprehende, e se executa em poucas horas. Passemos a Terceira Parte.

TRATADO DAS CORES.

PARTE TERCEIRA,

E ESTA HERMENEUTICA.

Esta Terceira parte comprehende, em hum breve Vocabulario, a explicação das Cores mais conhecidas; indicando, ao mesmo tempo, a similhança, que algumas dellas tem com as Cores das Taboas A, B, C, D, de sorte que, para formar a idea de algumas destas Cores, e para as compor todas, naõ he necessaria outra cousa, que procurar no Vocabulario o nome dessa Cor; e a hi mesmo se acharaõ citadas as Taboas, que prehencheraõ estes dous fins.

§ 69. Querendo-se saber, por exemplo, qual he a Cor de purpura, e como se compoem, procure-se no Vocabulario a palavra purpura, onde se achará citada a Taboa A. IIII. 1. das quaes a primeira mostrará a Cor, e a segunda ensinará o modo de a compor. E as Cores, que naõ se acharem nas Taboas A, B, C, D, se indicaráõ somente os seus elementos, para que se possaõ compor com a mesma facilidade.

§ 70. Para se entenderem as explicaçoens do Vocabulario, convirá muito ter presentes as prenoçoens seguintes.

§ 71. As Cores, como fica dito, saõ huma propriedade da luz, que por hum admiravel mechanismo da Natureza, se manifestaõ, em tantos modos differentes, quanto saõ diversas as configuraçoens dos corpos naturaes, illuminados pela luz. Ellas saõ de duas sortes, ou genericas, ou especificas.

§ 72. As Cores genericas saõ tambem de duas sortes, ou genericas primitivas, ou genericas derivadas.

§ 73. As Genericas primitivas saõ duas, a saber, o Vermelho, e o Verde; e se manifestaõ pelo mesmo mechanismo, que todas as outras.

§ 74. As Genericas derivadas saõ quatro, a saber, o Azul, que nasce do Vermelho; o Amarelo, que se forma do Verde; o Negro, que resulta da uniaõ do Vermelho, e Verde; e o Branco, que provem da divisaõ destas duas Cores. § 22. Tab. XIV.

§ 75. Cores especificas saõ as que se formaõ da mixtura das genericas. A Cor de purpura he huma Cor especifica, que nasce da mixtura das duas Cores genericas Vermelho, e Azul.

§ 76. Da Combinaçaõ das seis Cores genericas resultaõ seis especies de Cores, como se ve na Taboa IIII. na qual o n.º 1. 2. 3. 4. formaõ a especie das Cores vermelhas; o n.º 5. 6. 8. 10. formaõ a especie das Cores verdes; o n.º 7. forma a especie das Cores azues; o n.º 9. forma a especie das Cores amarellas: a Cor negra forma a especie das Cores escuras; e a branca forma a especie das Cores claras.

§ 77. Da Mixtura destas duas ultimas Cores, em differentes proporçoens, nasce toda a sorte de claro escuro; e da mixtura destas mesmas Cores com as quatro primeiras, e as suas especies, provem todas as meyas tintas, com que se podem modificar todas as referidas Cores.

VOCABULARIO DAS CORES.

INTRODUCÇAÕ

As Cores, que presenta este Vocabulario, saõ as que geralmente se empregaõ em todo o genero de trabalho colorido. Ellas se pódem imitar todas com os elementos da Tab. XIV. n.º 1. 2. 3. 4. 5. 6. o que indubitavelmente me prováraõ repetidas experiencias.

Em huma folha de papel branco risquei duas series de pequenos circulos, de sorte que os circulos de huma das series correspondessem exactamente a os da outra. Colori huma serie destes circulos com as Cores finas da preparaçaõ dos dous Reeves Inglezes, e do Chimico Francez Antheaume, que saõ as melhores que se conhecem; e na outra serie, nos correspondentes circulos, as imitei com os elementos da Taboa, e numeros assima refferidos: de tal sorte, que vendo-se em justa posiçaõ os originaes, e as imitaçoens, naõ se differençavaõ huns dos outros.

Os Dilectantes poderaõ repetir estas experiencias; e se depois tomarem por originaes as mais bellas flores, os fructos, as folhas das plantas, as pennas dos passaros diversamente coloridas, pedaços de marmore manchados de differentes Cores &c. faraõ hum estudo ainda mais proveitoso; e se convenceraõ, com a mayor evidencia, de que a diversidade das Cores naõ resulta, que da mixtura de poucos, e simplessissimos elementos, combinados, de mil modos differentes, ou pela, Natureza, ou pela Arte.

VOCABULARIO DAS CORES,

QUE CONTEM A EXPLICAÇAÕ DAS CORES MAIS CONHECIDAS, INDICANDO A SIMILHANÇA, QUE ALGUMAS DELLAS TEM COM AS DAS TABOAS A, B, C, D, E O MODO COM QUE TODAS SE PÓDEM IMITAR, COM OS ELEMENTOS DA TAB. XIIII. N. I. II. III. IIII. V. VI.

A

ALVAIADE, Cor especifica do branco. O Alvaiade se faz de chumbo, assim como o branco de chumbo; mas he menos fino, e delicado, que este: e se forma em pequenos paens de huma libra, pouco mais ou menos. Elle encorpora todas as Cores, com que se mixtura.

AMARELLO, Cor generica derivada. O Amarello he a Cor mais clara depois do Branco, e naõ he que hum Verde degenerado. Esta Cor tem differentes tintas, taes saõ a Gomma-gutta, a Ocre commua, a Ocre escura ou de Ruth, a Terra de Italia, o Amarello de Napoles, o Massicote claro, e o Massicote escuro, o Stil de Troyes, o Stil de Inglaterra, o Ouropimenta claro, e Ouropimenta escuro, e a Pedra de fel, cujos elementos se acharão ao pé de cadahuma destas tintas.

ANIL, Cor especifica do Azul. O Anil dá hum Azul muito escuro similhante ao que presenta a Tab. C. XI. 7. e se póde imitar exactamente, proporcionando as quantidades dos elementos do dito n.º 7.

AZUL, Cor generica derivada. O Azul naõ he outra cousa, que huma degradação do Vermelho. Esta Cor tem diversas tintas, a saber, o Azul de Prussia, o Ultramarino, o Esmalte, as Cinzas azues, e o Anil. O Ultramarino se deve ter, como o Azul elementar, com o qual se pódem imitar todas as especies desta Cor, mixturando mais ou menos Negro, ou Branco. Com o Azul de Prussia naõ se póde bem imitar o Ultramarino, mas faz-se huma especie de Azul celeste, que se lhe avisinha muito; porem todas as outras tintas desta especie se imitaõ bellamente com o Azul de Prussia.

AZUL DE PRUSSIA, Cor especifica do Azul. O Azul de Prussia he o mais bello depois do Ultramarino: eu o tomei por Cor elementar Tab. XIV. n.º 3. por naõ ter achado do bom Ultramarino. Com o Ultramarino se imita esta Cor, juntando-lhe hum pouco de Negro; mas com o Azul de Prussia se imitaõ todas as outras especies de Azul. Para a Miniatura, e illuminaçaõ, he melhor dissolvello em vinagre branco distillado, doque em agoa; por que esta o escurece muito, conservando-lhe a quelle a sua Cor viva, e natural. Deve juntarse-lhe, para o uso, alguma gomma, e açucar candi, para o unir melhor.

B