Tratado Das Cores Que Consta De Tres Partes Analytica Synthetic
Chapter 5
66. Se as leys geraes, quando servem para explicar casos particulares, se chamaõ Principios (n. 42.); a explanaçaõ, ou injuncçaõ, destes Principios, he chamada theoria, ou systema; e os factos que se devem explicar com elles chamaõ-se phenomenos. Assim os Treze Principios que presenta este Tratado (§. 20. 21. 24. 28. 30. 37. 40. 43. 48. n. 44. 46. 48. 49.) formaõ huma theoria, ou systema de doutrina, com a qual se podem explicar todos os phenomenos das Cores.
67. Estes phenomenos saõ de duas sortes, porque ou se manifestaõ na Luz colorida, ou nas superficies dos Corpos naturaes. Eu vou explicar hum phenomeno de cadahuma destas especies, que servirá de norma para a intelligencia de todos os outros.
68. Dos phenomenos da Luz colorida, o mais bello e magestoso, he sem duvida, o Arco Celeste, que nos tempos mais antigos fez a admiraçaõ dos homens, e tem sido cantado, com o nome de Iris, pelos mais famosos Poetas. Este phenomeno, comtudo naõ he outra cousa, que hum grande, mas identico resultado, á o da experiencia (n. 40.) feita, com huma Luz mediana, em huma camara obscura.
69. O sol, na vasta camara do Universo, tem lugar do rayo da sua Luz, em huma pequena camara. As gotas de agoa, de huma nuvem desfeita, ou de huma nevoa pouco densa, saõ o grande Prisma, em que se refracte, e modifica, a Luz do Sol. E a parte do Ceo coberta de nuvens, que fica opposta ao Sol, he o immenso cartaõ, onde se mostraõ as Cores; que saõ mais distinctas, ou mais confuzas, e mais ou menos em numero, segundo a obliquidade da Luz do Sol, sobre o grande Prisma por onde passa: da mesma sorte que na camara obscura, recebendo o rayo da Luz do Sol perpendicularmente sobre a face do Prisma, naõ forma no cartaõ, que quatro ou cinco Cores; e recebendo-o obliquamente, forma muitas mais.
70. Quanto á curvatura do Arco, ella procede, de que passando a Lux do Sol por hum grande angulo, qual he o das gotas de agoa, que formaõ o Prisma Celeste, se produz aquela curva da mesma sorte, que o angulo de hum Prisma de 90 gráos, reduz á curvas todas as linhas direitas (n. 22.).
71. Os phenomenos das Cores, que nos presentaõ as superficies dos corpos naturaes, se explicaõ da mesma sorte. Todos os Corpos saõ compostos de partes taõ subtis, como fica provado (n. 10. 11. 12. 13. 14.). E como naõ ha Corpo, por mais compacto que seja, que reduzido a minutissimas partes, se naõ faça diaphano; segue-se que, a respeito da Luz, que he muito mais subtil, que as minutissimas partes, de que os Corpos se compoem, se devem reputar diaphanas, e transparentes as suas superficies. Ora, como a Luz, no reflectir-se dos Corpos, tem ja passado por este meyo mais denso, e menos diaphano, que o ar; segue-se que deve ter sofrido huma, ou mais refracçoens (n. 7.) e que deve necessariamente, fazer-nos ver colorida a imagem dos objectos (44. 45.).
72. Naõ paressa extraordinario, que as superficies dos Corpos, e ainda dos mais densos, sirvaõ de Prisma à os rayos da Luz, para se formarem as Cores. Todos os Corpos naturaes saõ compostos de dous simplez elementos, que saõ a materia vitrea, e calcarea, combinadas de mil modos differentes (§. 3.). Se a todos os Corpos se faz soffrer a analysis do fogo mais intenso, elles se reduzem outra vez a estas duas elementares sustancias, e a huma grande quantidade de vapor, que exhalaõ no tempo da operaçaõ. Ora, a materia vitrea, e calcarea saõ indisputavelmente transparentes, ainda a os nossos olhos, quando estaõ reduzidas a partes de huma certa grandeza: com muita mayor razaõ o devem ser sempre, a respeito das subtilissimas partes, de que a Luz se compoem.
73. Daqui se ve claramente, que a Cor Vermelha do Rubim, se forma pela concorrencia das mesmas circunstancias, que fazem parecer vermelha ametade de huma Estrella (n. 24.), ametade das velas de huma embarcaçaõ (n. 32.), ou ametade da peripheria dos circulos (n. 35.); e que o Verde da Esmeralda, se forma pela concorrencia das circumstancias, que fazem apparecer verde a outra ametade daqueles objectos: e assim a respeito de todas as mais Cores. Mas qual he o intrinseco mechanismo, que produz taõ admiraveis effeitos, e para que serve tanta variedade de Cores: quando no Rubim, e na Esmeralda, naõ vemos que huma mera crystalisaçaõ; e para as outras experiencias naõ concorre, que hum pedaço de vidro, pelo qual observamos, ou hum Ponto lucido em hum ambiente escuro, ou hum Ponto escuro em hum ambiente lucido (n. 20.); e quando a mayor parte dos Corpos naturaes nos seriaõ igualmente uteis, sendo, ou naõ, coloridos?--Esta he huma daquellas Questoens, de que eu já fallei no Tratado (§. 4.); e da qual a decisaõ depende de conhecimentos superiores, e á força dos nossos sentidos, e mesmo á efficaz penetraçaõ das nossas intellectuaes faculdades. Limitemo-nos prudentemente à os factos, e ás verdades que a imparcial, e continua observaçaõ sobre elles, nos podem procurar; e deixemos de escrutar as causas primarias e ultimas, que só podem comprehender-se, pela illimitada Sabedoria de hum SER SUPREMO.
_Succinta comparação das Proposiçoens de Newton, com os Principios, que presenta este Tratado._
74. A doutrina de Newton sobre as Cores, se contem nas cinco Proposiçoens seguintes; que transcrevo na lingoa original, em que foraõ escriptas, para evitar qualquer iquivoco, que poderia recrescer, ainda da mais fiel traducçaõ.
_PROPOSITIO I._
_Radiis diverse refrangibilibus diversi competunt Colores._
_PROPOSITIO II._
_Radiorum formæ, sive dispositiones colorificæ non sunt refractione mutabiles._
_PROPOSITIO III._
_Colores albi & nigri, cum cinereis sive fuseis intermediis unius cujusque speciei, confusè mistis, generantur._
_PROPOSITIO IV._
_Primitivi Colores per compositionem Colorum sibimet utrinque confinium exhiberi possunt._
_PROPOSITIO V._
_Corporum naturalium Colores a genere radiorum derivantur, quos maximè reflectunt._
QUANTO á PROPOSIÇAÕ I.
75. Para que esta Proposiçaõ fosse evidente, seria necessario, que Newton provasse: Que a differente refrangibilidade dos rayos da Luz, que attraveçaõ o angullo de hum Prisma, provem das diversas Cores destes rayos; ou que a diversa Cor dos rayos da Luz, saõ a causa da sua refrangibilidade: o que este philosopho naõ fez certo de forma alguma. Elle vio, que os rayos da Luz, que passaõ pelo Prisma, se refrangem huns mais que os outros; e que a Cor vermelha, nas suas experiencias, corresponde à os rayos menos refrangiveis, e a Cor de purpura à os que se refrangem mais: e desta observaçaõ concluio; que a os rayos mais refrangiveis competia a Cor de purpura, è a os menos refrangiveis a Cor vermelha; e a os que ficaõ entre estes dous extremos, todas as outras Cores[A].
[Nota A: _Maxime refragibilibus purpura, sive violarum Color competit, & rubor minime refrangibilibus, atque mediocribus viriditas vel potius confinium viridis, & viresentis c[oe]rulei. Adeoque radii prout sunt plus plusque refrangibiles apti sunt ad hos ordine colores, rubrum, flavum, viridem, c[oe]ruleum, & violaceum generandos una cum omnibus eorum successivis gradibus & coloribus intermediis._ Newt. Opt. Part. II. Sect. I.]
76. Mas, como póde huma similhante asserçaõ concordar-se com a experiencia (n. 35.) que nos mostra, que aquellas duas Cores taõ oppostas, competem á mesma refracçaõ. Aquelles dous circulos saõ da mesma grandeza, e estaõ entre duas parallelas; vendo-os pelo Prisma, naõ se póde duvidar, que as refracçoens, que correspondem à cadahuma destas parallelas, sejaõ as mesmas. Ora, sobre cadahuma destas parallelas se ve, ao mesmo tempo, a Cor vermelha, e amarella, no circulo branco; e a verde, azul, e purpura no circulo negro: logo naõ se póde dizer, que a os rayos menos refrangiveis compete a Cor vermelha; e à os que soffrem mayor refracçaõ, a Cor de purpura; visto que de baixo da mesma linha, e da mesma refrangibilidade, vemos estas duas oppostas Cores.
77. A diversa refrangibilidade da Luz, que passa por hum Prisma, procedera, tal vez, de outra causa. O rayo de Luz do Sol, que attraveça hum Prisma, tem sempre dentro delle a figura de hum sylindro obliquo. Ora imaginando, que o lugar, que occupa este sylindro, he composto de milhoens de subtilissimos filamentos, alinhados a o comprido, elles devem ser todos de grandezas differentes; e consequentemente os subtilissimos rayos da Luz, á o attraveçallos, haõ-de achar mayor, ou menor resistencia. Póde ser que esta seja a causa, porque, á o sahir do Prisma, se refractem huns mais, que os outros: sem que isto tenha mais rellaçaõ com as Cores, que huma bala de artilheria, que attraveça os dous bordos de huma fragata, e se refrange passando o primeiro de hum navio.
78. A formaçaõ das Cores depende, tal vez, de outro mechanismo. As duas Cores primitivas se manifestaõ, por meyo da refracçaõ (n. 44. 45.); mas a formaçaõ das outras Cores depende de mais circunstancias. Da mesma experiencia (n. 35.), se prova esta asserçaõ. Se aquelles dous circulos, se observaõ, à o mesmo tempo, de dous pontos oppostos, então parecem a hum observador, azues ou purpureas as Cores, que à o outro observador parecem vermelhas, e amarellas; o que naõ póde nascer das refracçoens, mas sim da opposiçaõ, da Cor negra, e branca, combinadas com as que resultaõ da refracçaõ do Prisma.
QUANTO á PROPOSIÇAÕ II.
79. Se Newton pretende persuadir, nesta Proposiçaõ, que qualquer Cor, conciderada na Luz, ou nos corpos naturaes, depois que he formada, se naõ muda com a refracçaõ do Prisma, neste caso nada se oppoem a os Principios deste Tratado. Mas se Newton pretende persuadir, que por isso que saõ inalteraveis, se devem reputar primitivas; sejame entaõ licito fazer a seguinte reflexão. Se observamos por hum Prisma duas superficies, das quaes huma seja vermelha, e a outra de qualquer Cor das que se naõ tem por primitivas, taõ inalteravel vemos a Cor primitiva como aquella que o naõ he: e consequentemente o dizer, que algumas das Cores Prismaticas saõ primitivas, porque se naõ mudaõ com a refracçaõ, naõ tem a menor concludencia.
QUANTO á PROPOSIÇAÕ III.
80. Esta Proposiçaõ concorda inteiramente com os Principios, Primeiro, e Segundo (§ 20. 21.); e com o Oitavo, e Nono (n. 58. 60.); que saõ identicos, ainda que dedusidos de experiencias diversas. O Negro, e o Branco, contem todas as Cores; aquelle, intimamente unidas (§ 20. 22. n. 58. 59.); e este extremamente, divididas (§ 19. 21. n. 60. 61.): donde se ve, que a differença destas duas Cores, e de todo o claro-escuro, consiste só nas quantidades das Cores componentes, a respeito de huma certa massa de Luz, ou originaria, ou reflectida dos Corpos, com mais ou menos modificaçoens.
QUANTO á PROPOSIÇAÕ IIII.
81. O sentido desta Proposiçaõ, he dificil de comprehender, muito mais dizendo Newton, que as Cores primitivas, saõ Cores simplez. Como se póde imaginar, que sendo as Cores primitivas, elementos simplez, como o mesmo Newton as caracterisa,[B] se componhaõ das que lhes ficaõ visinhas? Parece, que este philosopho naõ chegou a formar huma idea clara das Cores primitivas; porque quando as compara com o canon armonico[C] ou escala da Musica, deixa entender, que ellas saõ sete. Quando diz, que naõ entende por Cores primitivas só as cinco Vermelho, Amarello, Verde, Azul e Purpura, mas todas as que se formaõ desta sorte,[D] deixa em duvida o numero daquellas Cores. E quando diz, finalmente, que ellas saõ simplez, e elementares, deixa entender, que se naõ podem compor de outras Cores.
[Nota B: _Simplices sive primitivi Colores._ Newton Opt. Par. II. Sect. I. Prop. II.]
[Nota C: _Partes imaginis, quas colores occupant, proporcionales essent chordæ sic divisæ, ut singulos gradus in octava resonare faciat._ Newt. Part. II. Sect. II.]
[Nota D: _Per colores autem Primitivos non tantum quinque prædictos intelligo, sed & quoslibet alios quibus exibendis aptum datur aliquod radiorum genus._ Newt. Opt. Par. II. Sect. I.]
82. Seria preciso ser outro que Newton, para aclarar as suas ideas, se ellas saõ confusas. Mas quem reflectir, que o seu systema he fundado em huma mera conjectura, à que deu lugar a imagem oblonga, que hum rayo de luz do Sol, tendo passado pelo Prisma, faz ver na camara obscura, se convenserá facilmente, que de taes Principios se naõ podiaõ deduzir mui claros resultados. Aquella figura, pelo que ja fica dito, naõ he a pedra de toque para conhecer o metal das Cores primitivas. (n. 37. 38.)
83. Se, sobre o porphyro, se mixtura com agoa, e em certas proporçoens, Carmin, e Verde-distillado, forma-se a Cor de Purpura. Se se junta hum pouco mais de Verde, resulta huma especie de Azul, mui similhante à o que faz ver o Prisma. Se este Azul, e Purpura se estendem com o pincel sobre hum papel branco, e depois se tocaõ com hum pincel banhado em agoa pura, desaparecem estas duas Cores resolvendo-se em hum vermelho mais escuro, que o Carmin. Se qualquer planta, de hum bello verde, deixa de ser regada, a sua Cor natural se converte em Amarello; mas acudindo-lhe, à tempo, com agoa, recupera a sua Cor verde, desapparecendo absolutamente a amarella.
84. Se a Cor de purpura, e azul se formaõ, e se destroem, como fica dito (n. 83.); se a amarella se faz nascer do Verde, e se converte outra vez nelle; (_Nota XVI._) Como se póde crer, que estas tres Cores sejaõ simplez, e primitivas?
85. As outras duas especies de Azul, e Amarello, que pretendem ver-se no Prisma, naõ podem ser, que meyas tintas das suas similhantes; por que seria contrario à o poder, e á simplicidade da Natureza, que, para formar as Cores naturaes, duplicasse os elementos da mesma especie; quando a Arte, que he mais composta e menos poderosa, que a Natureza, forma todas as Cores de huma especie, com hum so elemento, analogo a essa mesma especie, modificado com o claro-escuro, e com as outras Cores (§. 76. 77.)
86. Excluidas, assim, das Cores chamadas primitivas, as duas especies de Azul, e Amarello, e a Cor de purpura; segue-se, que só o Vermelho, e Verde, se pódem ter por Cores elementares, simplez, e primitivas.
87. Ja que fallei da comparaçaõ dos intervallos dos sons, e das Cores (n. 81.), naõ devo omittir, que ella se funda em calculos meramente hypotheticos. Os intervallos das Cores prismaticas naõ se podem exactamente medir, como o mesmo Newton confessa[E], servindo-se ainda, da palavra Grega {akribeia}, para dár huma justa idea da diligencia, que inutilmente empregou nesta operaçaõ. E os rapportos geometricos dos sons intermedios da oitava, tem taõ pouca similhança com os sons naturaes, como he notorio á todos os Proffessores da Sciencia da Musica, e a todos os Geometras[F] (§ 5.). Donde se ve a inconcludencia, de tudo quanto se tem escripto, neste concernente.
[Nota E: _Cum isthæc quanta potui diligentia observassem, non proprio tantum sensu consisus, sed (propter summam difficultatem præcise distinguendi confinia Colorum) aliorum judiciis fretus imaginis dimentiones juxta inventa deliniavi._ New. Opt. Part. II. Sect. II.]
[Nota F: _En qualité de Géometre, je crois avoir quelque droit de protester ici (s'il m'est permis de m'exprimer de la sorte) contre cet abus ridicule de la Géométrie dans la Musique. Je le puis avec d'autant plus de raison, qu'en cette matierie les fondemens des calculs sont hypothétiques jusqu'à un certain point, & ne peuvent même être qu'hypothétiques. Le rapport de l'octave comme 1 à 2, celui de la quinte comme 2 à 3, celui de la tierce majeure comme 4 à 5, &c. ne sont peut-être par les vrais rapports de la nature; mais seulement des rapports approchés . . . ._ M. D'Alembert, Elémen. de Music. Disc. Prelim. pag. XXX. J. J. Rousseau Diccion. de Mus. na palavra _Tempérement_.]
QUANTO á PROPOSIÇAÕ V.
88. Nesta Proposiçaon diz Newton, que as Cores dos Corpos naturaes provem, de que huns reflectem huma parte dos rayos da Luz, que suppoem diversamente coloridos, e os outros outra; e que assim, o Corpo, que reflecte os rayos vermelhos, apparesse vermelho; e o que reflecte os purpureos, apparesse de Cor de purpura. Se Newton tivesse provado, que na Luz existem todas as Cores, que vemos nos Corpos naturaes; e depois fizesse certa a absorbencia de huns dos seus rayos, e o reflexo de outros, teria neste caso, toda a razaõ: Mas Newton naõ prova nenhum destes antecedentes.
89. Naõ prova o primeiro, porque logo, que faz differença de Cores primitivas à derivadas ou compostas, naõ tem lugar esta Doutrina: e quanto à o segundo, pretende provalho _a posteriore_, o que naõ conclue, tendo em contrario os factos de huma absoluta evidencia, ja refferidos (n. 35.).
90. Naõ se tenha, por huma refutaçaõ da Doutrina de Newton, o que digo a respeito de cadahuma das suas Proposiçoens; mas sim por huma resposta necessaria ás objecçoens, que se poderiaõ fazer contra os Principios, que presenta este Tratado, apoyadas na recebida theoria daquelle incomparavel philosopho. Eu ja dei a razaõ, porque me affastei da sua brilhante, e plausivel hypothesis; (§. 9.) e me parece, que sem temeridade, antepuz hum systema simplez, e natural, à outro que o naõ he tanto, e que se funda em huma mera conjectura[G].
[Nota G: _Newton ayant repété plusieurs fois avec beaucoup de soin, l'experiencie,_ (falla da experiencia, n. 26. 27. 36. 37.), _trouva que les résultats en étoient très-constants; & après y avoir bien réfléchi, il assaya de les expliquez par les conjectures suivantes. Il lui vint en pensée, que la lumiere pourroit être un fluide composé de parties essentiellement différentes: premiérement, par le degré de réfrangibilité; secondement, par la propriété d'exciter en nous le sentiment de certaines couleurs. En effet en supposant ces deux points, il est aisé de rendre raison &c._ M. Nollet Phys. Experim. Leç. XVII.]
91. Quanto he mais conforme á sabia economia, com que a Natureza procede em todas as suas operaçoens, o estabelecer sobre reiteradas, e decisivas experiencias, e sobre convincentes analogias; que na Luz residem só duas Cores simplez, e primitivas, que saõ o Vermelho, e Verde (§. 24. n. 51.); que da sua intima uniaõ se forma o Negro (§. 20. n. 58.); que da sua extrema divisaõ nasce o Branco (§. 21. n. 60.); que das mesmas duas Cores simplez emana o Azul, e Amarello (§. 28. 30.); e que em fim destas seis Cores, tomadas como elementos, se podem artificialmente formar todas as que vemos nos Corpos naturaes (n. 51. e seg. §. 68. e seg.): quanto he mais conforme, digo, á sabia economia da Natureza este systema, do que o dizer; que as Cores compostas, ou derivadas nascem da combinaçaõ de sete elementos, ou de sete Cores simplez, e que estas residem na Luz, com o poder de imprimir à os seus rayos differentes gráos de refrangibilidade.
92. Se era hum dogma constante, que os Corpos naturaes procediaõ de quatro elementos (§. 4); e se huma analysis mais rigorosa os reduz a duas unicas substancias simplez e primitivas (n. 72.); como se póde crer, sem ser mais que provado, que as Cores, que naõ saõ que meros accidentes destes Corpos (§. 2.), dependaõ, para a sua formaçaõ, de sete differentes elementos?
93. Os Amadores das Sciencias naturaes, à quem offereço a parte theoretica deste Tratado, se se acharem perplexos entre a novidade da Doutrina, que elle-lhe presenta, e as oppiniones recebidas, e firmadas sobre respeitaveis authoridades, e estipadas com a sancçaõ de tempo: os exhorto a por de parte toda a preocupaçaõ da authoridade, e de procurar a evidencia, que dezejaõ, na mesma Natureza, por meyo da experiencia, e de huma profunda meditaçaõ sobre os factos, que ella lhes suggerir.
NOTA VIII. §. 13.
Antes de passar á Parte Analytica, convirá muito de ler hum par de vezes os §§. 55. athe 63. nos quaes se explica o uzo das Taboas illuminadas, de que se começa a fallar logo no principio da dita Primeira Parte.
NOTA IX. §. 14.
LUIS DE CAMOENS no seu incomparavel Poema, OS LUSIADAS, descrevendo a vista da Ilha Namorada, que Venus presentou a os seus Heroes, pinta o mais bello quadro, que se póde ver sobre a Terra.
_LIII._
_ . . . . . . . . . Para lá logo a proa o mar abrio; Onde a costa fazia huma enceáda Curva, e quieta, cuja branca arèa, Pintou de ruivas conchas Cytherèa._
_LIIII._
_Tres fermosos outeiros se mostravão Erguidos com soberba graciosa, Que de gramineo esmalte se adornavão Na formosa Ilha alegre, e deleitosa: Claras fontes e liquidas manávaõ Do cume, que a verdura tem viçosa; Por entre pedras alvas se diriva, A sonorosa lympha fugitiva._
_LV._
_Num valle ameno, que os outeiro fende, Vinhaõ as claras agoas ajuntarse, Onde huma mesa fazem, que se estende Tão bella, quanto póde imaginarse: Arvoredo gentil sobre ella pende, Como que prompto está para enfeitar-se, Vendo-se no cristal resplandecente, Que em fim o está pintãdo propriamente._
_LVI._
_Mil arvores estaõ ao Ceo subindo Com pomos odoriferos, e bellos, A larangeira tem no fruto lindo A Cor, que tinha Daphne nos cabellos: Encostase no chaõ, que estâ cahindo A cidreira cos pesos amarellos, Os fermosos limo[~e]s, alli cheirando, Estaõ virgineas tetas imitando._
_LVII._
_As arvores agrestes, que os outeiros Tem com frondente coma ennobrecidos, Alamos saõ de Alcides, e os loureiros Do louro Deos amados, e queridos: Mirtos de Cytherêa cos pinheiros De Cybele, por outro amor vencidos, Está apontando o agudo cypariso Para onde he posto o eterno Paraiso._
_LVIII._
_Os doens, que dá Pomòna, alli Natura Produze differentes nos sabores, Sem ter necessidade de cultura, Que sem ella se daõ muito melhores: As cerejas purpureas na pintura, As amoras, que o nome tem de amores, O pomo, que da patria Persia veyo, Melhor tornando no terreno alheyo._
_LIX._
_Abre a Romãa, mostrando a rubicunda Cor, com que tu Ruby teu preço perdes, Entre os braços do ulmeiro estâ a jucunda Vide c[~u]s cachos roxos, e outros verdes: E vós se na vossa arvore fecunda, Peras piramidais, viver quiserdes, Entregaivos ao dano, que cos bicos Em vós fazem os passaros iniquos._
_LX._
_Pois a tapessaria bella e fina, Com que se cobre o rustico terreno, Faz ser a de Achemenia menos dina, Mas o sombrio valle mais ameno: Alli a cabeça a flor Cefisia inclina, Sobolo tanque lucido, e sereno, Florece o filho, e neto de Cyniras, Porquem tu Deosa Pafia, inda suspiras._
_LXI._
_Para julgar dificil cousa fora, No Ceo v[~e]do, e na terra as mesmas Cores Se dava às flores cor a bella Aurora, Ou se lha daõ a ella as bellas flores: Pintando estava alli Zefiro e Flora As violas da Cor dos amadores, O lirio roxo, a fresca rosa bella, Qual reluze nas faces da donzella._
_LXII._
_A candida Cecem das matutinas Lagrimas rociada, e a Manjarona; Vem se as letras nas flores Hyacintinas, Taõ queridas do filho de Latona: Bem se enxerga nos pomos e boninas, Que competia Cloris com Pomona; Pois se as aves no ar cantando voaõ, Alegres animaes o chaõ povoão._
_LXIII._
_Ao longo da agoa o niveo Cisne canta, Responde lhe do ramo Filomella, Da sombra de seus cornos naõ se espanta, Acteon n'agoa cristalina, e bella: Aqui a fugace Lebre se levanta Da espessa mata, ou timida Gazella, Alli no bico traz ao caro ninho O mantimento o leve passarinho._
_Canto 9._
NOTA X. §. 16. 17.
Aindaque a Cor, que resulta da mixtura do Vermelho, Azul, Verde, e Amarelo, combinados em partes iguaes, ou somente da mixtura do Vermelho, e Verde, combinados nas proporçoens das Tab. VI. n. 3. VIII. 3. X. 3. XII. 3. naõ seja huma Cor taõ escura, como o negro mais carregado, que se pode formar; naõ deixa com tudo de ser huma Cor composta de claro escuro, similhante à Cor de chumbo, ou Cor de cinza, que se compoem de Negro, e Branco, sem que nella domine alguma das Cores, de que se compoem. Isto he quanto basta, para ter lugar o argumento, que se forma sobre esta experiencia; e para ser bem fundada a inducçaõ que della se tira. O mesmo Newton comvinha em que a Cor branca, a Cor de cinza, e a Cor negra eraõ a mesma cousa, e só differiaõ entre si, em ter huma mais luz que as outras.
NOTA XI. § 21.
Veja-se a Tab. XIIII., e a sua explicaçaõ § 62.
NOTA XII. §. 22.