Tratado Das Cores Que Consta De Tres Partes Analytica Synthetic

Chapter 4

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21. Estes Prismas saõ, ordinariamente, feitos de crystal branco; mas como he dificil o achallos desta materia, bastantemente grandes para se fazerem as experiencias, podem se os mesmos compor de vidros brancos, lizos, e delgados, unindo-lhes as junturas com betume, e enchendo-os de agoa pura, ou colorida, segundo o genero das experiencias, que se quiserem fazer.

22. Eu os fiz construir de todas as figuras, e com angulos de 10 gráos athe 90, mas a experiencia me mostrou, que os melhores Prismas, para observar, saõ os triangulares equilatros. Os de 45 gráos, ainda saõ bons. Os de angulos menores, naõ mostraõ bem as Cores: e os que excedem 60 gráos, ainda que mostraõ as Cores mui vivas, e fortes, desfiguraõ os objectos, curvando muito todas as linhas direitas.

23. Os Prismas, com que fiz as minhas experiencias, eraõ feitos de vidros brancos, lizos, e delgados, unidos com betume de cera, e resina; e da figura, grandeza, e cor seguinte.

_Primeiro_. Equilatro triangular, de 6 polgadas de comprido; e os parallelogrammos, de duas de largo; cheyo de agoa crystalina.

_Segundo_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Carmim.

_Terceiro_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Azul de Prussia.

_Quarto_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Verde distillado.

_Quinto_. Da mesma figura e grandeza; cheyo de tintura de Açafraõ, que substitui á Gomma-Gutta, por esta dar huma tintura muito opaca, que naõ deixava passar os rayos da Luz.

_Sexto_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Nankim.

_Settimo_. Hum parallelipipedo rectangulo, de duas polgadas de base, e seis de alto; cheyo de agoa pura.

Taes eraõ os Prismas com que procedi ás seguintes experiencias.

_Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto lucido, circundádo de hum ambiente escuro._

24. Como, de todos os pontos lucidos, circumdados de hum ambiente escuro, os mais brilhantes saõ as Estrellas fixas, he por ellas que eu principiei as minhas experiencias. Regulus, Castor, a {a} do Cocheiro, Procyon, Cyrius, Rigel, a {a} de Orion, e Aldebaram, eraõ à o mesmo tempo visiveis, quando eu as observei, pelos seis primeiros Prismas (n. 23). O Prisma acromatico, por este entendo sempre o que he cheyo de agoa crystalina, fazia ver cadahuma destas Estrellas, como huma piramide de Luz, da qual a base era vermelha, e o resto verde. Com os Prismas coloridos, se alteravaõ alguma cousa estas duas Cores, fazendo-se mais, ou menos escuras; mas naõ se destruiaõ. O Prisma amarello naõ as alterava, mas antes as reforçava mais, que o branco.

25. A longitude geocentrica de Jupiter era, neste tempo, de 2 S. 24 G. e alguns minutos; e a de Marte, de 3 S. e quasi 27 G. consequentemente eraõ ambos visiveis, com as sobreditas Estrellas; achando-se o primeiro na constellaçaõ de _Gemini_; e o segundo na de _Cancer_. Observei pelos mesmos Prismas estes dous Planetas, e me deraõ as mesmas figuras, e as mesmas Cores, que as Estrellas fixas.

26. A lua, no tempo da sua opposiçaõ, vista pelo Prisma acromatico, se reduz a huma figura oblonga, que termina mais em ponta, de huma parte, que da outra; e deixa ver cinco Cores na ordem seguinte: Vermelho, Amarello, Verde, Azul, e Purpura. Exceptuado o Prisma amarello, todos os outros coloridos, alterando mais, ou menos estas Cores, as conservaõ todas; mas, o Prisma amarello, reforçando a Verde, e a Vermelha, destroe todas as outras.

27. Feitas estas mesmas experiencias sobre a Luz de huma vela, ou sobre hum pequeno circulo branco, de qualquer materia, posto sobre hum fundo escuro, como hum chapeo, ou qualquer seda, ou pano negro, se vem os mesmos resultados, que nos numeros precedentes: e assim qualquer outra experiencia que se faça, neste genero, será huma pura repetiçaõ das que ficaõ referidas.

_Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto escuro, circundado de hum ambiente lucido._

28. Se, no meyo de huma janella aberta, se suspende huma pequena esphera, de qual quer materia opaca, observando-se da parte da sombra, a huma proporcionada distancia, com o Prisma acromatico, entaõ se ve huma figura oblonga, apparentemente diaphana, e colorida, de baixo em alto, na ordem que se segue: Amarello, Vermelho, Azul escuro, algum reflexo de Purpura, e Verde, que saõ, justamente, as mesmas Cores (n. 26. 27.), com a differença, de se mostrarem em huma ordem diversa. Se esta experiencia se faz com o Prisma amarello, todas estas Cores se reduzem a Vermelho, e Verde; occupando o Vermelho a parte inferior da esphera, e o Verde a superior: o que he bem o contrario, do que succede nas experiencias do Ponto lucido, em hum ambiente escuro.

29. Se, sobre huma folha de papel branco, pomos hum circulo de seda negra, ou de qual quer outra cousa da mesma Cor, vemos o mesmo phenomeno (n. 28), que he sempre inaltaravel em similhantes circumstancias.

_Outras Experiencias do Prisma._

30. Se observamos, pelo Prisma acromatico as nuvens, que em differentes formas, cobrem o Ceo, da parte do horisonte, à o nascer, ou à o pòr do Sol, vemos, que as pequenas nuvens brancas nos presentaõ somente a Cor Vermelha, e Verde: a primeira, da parte donde recebem a Luz; e a Verde da parte opposta. As nuvens densas, e escuras, nos presentaõ da parte donde recebem a Luz, a Cor amarella e vermelha; e da parte opposta, as Cores azul, e verde; e em certas circunstancias, a Cor de Purpura: e quando as nuvens, assim coloridas, passaõ humas pelas outras, levadas por diversas correntes de ar, entaõ vemos, que as suas Cores se mixturaõ, e formaõ outras Cores diversas. Se giramos o Prisma, de sorte que os rayos da Luz cáhiaõ mais obliquamente sobre a sua face, que primeiro os recebia quasi perpendiculares, todas aquellas Cores se vaõ incorporando humas nas outras, e finalmente se reduzem a huma faxa de Cor mui forte, da qual ametade he vermelha, e a outra parte verde.

31. No ver huma Cidade illuminada, pela Luz do Sol, succede o mesmo. Os profis, dos edificios illuminados apparecem vermelhos, e amarellos; e os da parte da sombra, apparecem azues, e verdes, com algum reflexo de Purpura: mas girando o Prisma, como na experiencia (n. 30) todas estas Cores, e as que se tivessem composto da sua mixtura, se reduzem a duas, Vermelho, e Verde. O mesmo succede, se fazemos naturalmente a observaçaõ com o Prisma amarello. Obtem-se este mesmo resultado, observando da mesma sorte, de dentro de huma camara, as vidraças, as persiannas, ou a luz, que entra irregularmente pelas janellas mal fechadas.

32. A linha do horizonte, no mar, observada com o Prisma acromatico, se ve sempre de hum Verde mais, ou menos carregado, segundo os differentes reflexos da Luz, e o estado da superficie da agoa. As ondas mostraõ sempre a Cor Vermelha, e Verde; e o mesmo succede ás velas dos navios, e principalmente das pequenas embarcaçoens.

33. Fazendo, de hum terraço elevado, diversas observaçoens sobre as Cores, vi casualmente ao pòr do Sol, que as velas de hum moinho de vento, que me ficava à poente, pareciaõ compostas, ao comprido, de dous panos, hum vermelho, e outro verde, quando ellas estavaõ horizontalmente situadas. Quando, porem, se avisinhavaõ da perpendicular, começavaõ estas duas Cores a confundir-se, de sorte que, justamente na perpendicular, se resolviaõ em huma especie de nuvem, ou sombra muito escura, a qual se desvanecia á proporçaõ, que as velas se avisinhavaõ utraves da linha horizontal; em cuja situaçaõ recuperavaõ as duas primeiras Cores, e na mesma ordem, sempre inalteravel i. e. o Vermelho na parte inferior, e o Verde na superior.

34. Tambem outra casuàlidade me fez, em hum dia de vento fresco, encontrar com o Prisma, huma destas bandeiras, que em la se costumaõ pendurar nas ruas, para indicar festas mais solemnes. O vento a movia em todas as direcçoens; e muitas vezes a tinha suspensa horizontalmente. Vendo-a pelo Prisma nesta situaçaõ, parecia huma larga fita, ametade vermelha, e a outra ametade verde, e quando ondeava irregularmente, entaõ se via nascer destas duas Cores muitas outras que desapareciaõ todas, quando a bandeira tornava á situaçaõ horizontal: e neste caso se recolhia ás duas, de que se tinhaõ formado.

35. Se, em hum quarto de papel branco, colamos hum circulo de seda negra, de tafetá, por exemplo, e se, em hum pedaço de tafetá, desta mesma Cor, colamos hum circulo de papel branco, da mesma grandeza do primeiro; e pomos estas duas figuras, de sorte que os dous circulos fiquem em justa posiçaõ, hum ao lado do outro, e como comprehendidos entre duas parallelas: observando-os, pelo Prisma acromatico, os vemos coloridos com as mesmas Cores; mas em huma ordem diametralmente opposta. O circulo branco mostra, na sua peripheria superior, as Cores vermelha, e amarella; e na inferior hum Verde claro, pouco Azul, e hum quasi imperceptivel reflexo de Purpura. O circulo negro, porem, mostrando estas mesmas Cores, as faz ver em huma ordem toda opposta, isto he, o Vermelho, e Amarello na peripheria inferior; e as outras Cores, na superior.

36. Todas as experiencias feitas com o Prisma, sobre hum rayo de Luz do Sol, introdusido em huma camera escura, se redusem ás experiencias (n. 24. 25. 26. 27.), isto he, a observar hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro. Este rayo de Luz, se se recebe em hum cartaõ branco, forma neste hum circulo mui claro, rodeado de hum ambiente escuro, correspondendo justamente a obscuridade da camera à o azul escuro dos Ceos, nas observaçoens das Estrellas, e dos Planetas (n. 24. 25.). Se observamos, pelo Prisma acromatico, este circulo de Luz, o vemos colorido da mesma sorte, e com as mesmas Cores, que elle se pinta no cartaõ, quando tem passado à o traves do Prisma; de sorte que tanto vale observar, pelo Prisma, o rayo de Luz, que sobre o cartaõ he branco, como ver sobre o cartaõ o rayo de Luz colorido, depois de ter passado pelo Prisma.

37. No que respeita á figura oblonga, formada da incidencia de muitos circulos, na qual se pretendem achar as sete Cores chamadas primitivas, deve reflectir-se, que esta figura naõ he que huma pura illusaõ. Ella se compoem indubitavelmente, de muitos circulos coloridos com as cinco Cores, que resultaõ da experiencia (n. 26. 27.), os quaes circulos cahindo huns sobre os outros, mixturaõ aquellas cinco Cores, e formaõ quantidade de outras compostas, entre as quaes se pertendem destinguir aquellas, que se chamaõ primitivas.

38. Tanto he isto assim, que, se applicamos ao tubo, que intreduz o rayo do Sol, huma lamina subtil, de qualquer materia opaca, na qual se tenhaõ feito cinco, ou seis pequeninos buracos, que naõ distem huns dos outros mais de oito pontos, ou huma linha; e fazemos passar estes rayosinhos de Luz pelo Prisma acromatico: entaõ vemos, à huma proporcionada distancia, sobre o cartaõ, outras tantas figuras coloridas, da mesma sorte, e na mesma ordem, que se ve hum so rayo mayor de Luz do Sol (n. 36.). Mas se affastamos, pouco a pouco, o cartaõ, aquellas figuras se avisinhaõ, cadavez mais, humas das outras; atheque, finalmente, se mixturaõ, formando huma figura oblonga, comprehendida entre duas parallelas, e circular nas duas extremidades; aqual figura he absolutamente similhante, á que forma hum rayo mais forte de Luz do Sol, quando se recebe obliquamente na face de hum Prisma. Ora as Cores que resultaõ da mixtura dos, cinco ou sete pequenos rayos de Luz, saõ indubitavelmente compostas: logo as que se vem na figura oblonga, que resulta de hum so rayo de Luz, a qual tamben he composta de circulos coloridos, mixturados huns com os outros, saõ da mesma natureza, e consequentemente naõ se podem chamar primitivas.

39. Se observamos, com o Prisma amarello, todas as experiencias, que na camera escura, se fazem com os rayos do Sol, naõ vemos senaõ a Cor vermelha, e verde: e se fazemos as mesmas experiencias com este Prisma, todas as figuras conservaõ as mesmas formas, que lhes dá o Prisma acromatico; mas naõ mostraõ senaõ as Cores vermelha, e verde.

40. Se em huma camera, em que naõ entre Luz alguma erratica, se faz entrar hum subtilissimo rayo da Luz do Sol, e tendo passado pelo Prisma, o recebemos em hum cartaõ branco, bem perto do tubo por onde entra, entaõ naõ vemos, que hum circulo luminosissimo, sem Cor alguma. Se affastamos mais o cartaõ, vemos este circulo menos luminoso, mas colorido. E se finalmente pomos o cartaõ em grande distancia, vemos hum circulo obscuro sem Cor alguma.

41. Fora da camara obscura, succedem os mesmos phenomenos. Se observamos o Sol, pelo Prisma, naõ vemos que hum circulo de Luz muito clara, sem Cor alguma. Se observamos da mesma sorte huma Estrella da primeira grandeza, ou hum Planeta, vemos huma figura colorida. Se finalmente olhamos pello Prisma para huma Estrella da segunda, ou terceira grandeza, naõ vemos que hum circulo obscuro, sem Cor alguma. Athequi as experiencias do Prisma.

_Principios, que resultaõ das experiencias Prismaticas._

42. Todos os conhecimentos physicos se versaõ, ou sobre factos particulares, ou sobre leys geraes. O conhecimento dos factos, precede sempre o das leys, as quaes saõ meros resultados das observaçoens, do que ordinariamente acontece, em hum grande numero de casos particulares; e que depois servem de norma, para decidir outros casos da mesma natureza. Assim, das observaçoens feitas sobre o movimento projectil dos Corpos, em linha direita, e do universal poder da attracçaõ, que os tira desta linha, se formaraõ as leys, que applicadas a os Planetas, fizeraõ conhecer o seu curvilineo movimento. Quando as leys geraes servem, para explicar casos particulares, chamaõ-se entaõ Principios.

43. He com este nome, que se achaõ caracterisadas todas as leys physicas, que resultaõ das experiencias sobre as Cores, e fazem a materia da Primeira, e Segunda Parte do Tratado: e he com este mesmo nome, que eu vou designar as leys, que resultaõ das experiencias Prismaticas, que acabo de referir nesta Nota.

PRIMEIRO PRINCIPIO.

44. As Cores se manifestaõ, e se formaõ, por meyo da refracçaõ da Luz.

_Escholio._

45. Se na camara obscura, se faz passar hum rayo de Luz, pelo _Set._ Prisma (n. 23.), nem a refracçaõ he sensivel, nem se ve Cor alguma. Se se faz passar o mesmo rayo de Luz, por hum angulo de 10 gráos, ja he sensivel a refracçaõ, e a Cor. Hum angulo de 30 gráos, refracte mais a Luz, e dá mais Cor. E finalmente, hum angulo de 60 gráos, dá huma grandissima refracçaõ, e as Cores muito vivas. E como as Cores nascem com a refracçaõ, e augmentaõ á proporçaõ, que ella cresce; naõ se póde, de forma alguma, contestar a evidencia deste Principio, que inteiramente concorda com os Principios Oitavo, e Nono, do Tratado (§ 43. 48.)

SEGUNDO PRINCIPIO.

46. A Luz, que emana dos Corpos lucidos, e a que he reflectida dos opacos, contem as mesmas Cores, e produz os mesmos phenomenos.

_Escholio._

47. Se, pelo _prim._ Prisma (n. 23.), se observa Cyrius, e Jupiter, ve-se em ambos, a mesma figura, e a mesma Cor (n. 24. 25.). Ora a Luz de Cyrius vem immediatamente de hum Corpo lucido, e a de Jupiter de hum opaco: logo este Principio he de huma absoluta evidencia.

TERCEIRO PRINCIPIO.

48. A intensaõ da Luz he igualmente destructiva das Cores, como a densidade da sombra.

QUARTO PRINCIPIO.

49. He com huma Luz mediana, que apparecem, e se formaõ as Cores.

_Escholio._

50. Este quarto Principio (n. 49.) he hum Corollario do Terceiro (n. 48.); e ambos se provaõ evidentemente, com as experiencias (n. 40. e 41.). A grande intensaõ da Luz do Sol faz, que observando-se este astro pelo Prisma, naõ mostre Cor alguma. A debil Luz de huma Estrella da segunda, ou terceira grandeza, he a causa, de que ella se veja pelo Prisma, sem Cor alguma. Mas a Luz de huma grande Estrella, que se póde reputar mediana entre o Sol, e huma pequena Estrella, presenta mui vivas, e brilhantes, as duas Cores Vermelho, e Verde. Os phenomenos (n. 41.) saõ identicos; pelo que he inutil o recapitullallos.

QUINTO PRINCIPIO.

51. As cores primitivas saõ duas, Vermelho, e Verde.

_Escholio._

52. Simplez, e primitivo, só se póde chamar aquillo, que naõ he derivado, nem composto. Para conhecer esta qualidade, em qualquer substancia, he necessario descompolla, e resolvella nos seus elementos; que entaõ se chamaõ simplez, e primitivos, quando resistem ás analysis mais rigorozas, sem soffrerem alteraçaõ alguma. Assim, a respeito dos corpos, só se pódem ter por elementos simplez, e primitivos, a materia vitrea e calcarea; por que a estas duas substancias se reduzem todos os corpos do nosso Globo, por meyo de hum intenso fogo, que naõ tem mais a força de as descompor; e effectivamente he destas mesmas duas substancias, que se formaraõ todos os Corpos, de que se compoem a Terra, e que lhe estaõ inherentes (§. 4.)

53. Pela mesma razaõ, que se tem por simplez, e primitivos, só aquelles elementos dos Corpos, que resistem á analysis do fogo mais intenso; se devem ter tambem, por simplez, e primitivas, só aquellas Cores, que resistem ás analysis mais fortes, que sobre ellas se pódem praticar. E como as Cores naõ podem soffrer que duas sortes de analysis, huma sobre os Corpos coloridos, e a outra sobre a Luz tambem colorida: segue-se, que só se devem ter por Cores primitivas aquellas, que resistem á força destas analysis, conservando-se inalteraveis. Ora o Vermelho, e o Verde, saõ as duas Cores, que resistem á força das analysis mais fortes, e que se conservaõ inalteraveis; quando todas as outras Cores se descompoem, e se destroem; como se prova das experiencias feitas sobre os Corpos coloridos (§ 16. 17. 19.), e observaçoens (§ 22. 23.): e igualmente das experiencias feitas sobre, a Luz colorida (n. 24. 25. 28. 29. 30. 31. 32. 34. 39.): segue-se, que naõ se podem ter, physicamente, por Cores primitivas, senaõ o Vermelho, e Verde; por serem os elementos indestructiveis, a que se reduzem todas as outras Cores; e dos quaes as mesmas se compoem (n. 34.). Ainda que isto bastasse, para provar a evidencia deste Principio; elle tem ainda a seu favor as duas analogias (§ 26. 27. 29.), que na presente materia, saõ da mayor concludencia.

SEXTO PRINCIPIO.

54. A Cor Azul he derivada, e naõ primitiva.

_Escholio._

55. Este Principio he hum corollario do Quinto (n. 51.); e a formaçaõ desta Cor, consta das experiencias, em que se funda o Principio Quarto (§ 28.).

SEPTIMO PRINCIPIO.

56. A Cor amarella he derivada, e naõ primitiva.

_Escholio._

57. Este Principio he hum corollario do quinto (n. 51.): e o modo, por que esta Cor se forma, se ve das experiencias, e especulaçoens, em que se funda o Principio (§ 30.).

OITAVO PRINCIPIO.

58. O Negro he huma Cor positiva, e se forma do Vermelho, e Verde.

_Escholio._

59. A Evidencia deste Principio, se mostra da observaçaõ (n. 33.). As velas do moinho de vento, de que ali se trata, estando horisontaes, pareciaõ duas largas faixas, unidas ao comprido, huma verde na parte superior; e outra vermelha, na inferior. E como estas duas Cores conservaõ sempre a mesma posiçaõ, sobre a linha horisontal, deviaõ necessariamente unir-se, à o passar pela perpendicular. He pois nesta passagem, e uniaõ, que se formava sempre a especie de nuvem ou sombra mui escura, como fica refferido. Aquela machina estava situada na linha visual ao ponto, em que o Sol se punha; as suas velas moviaõ-se em hum plano perpendicular à esta linha, e consequentemente eu as observava da parte da sombra, e de hum ponto diametralmente opposto à aquelle, donde partia a Luz, ellas eraõ, quadrilateras, e teriaõ 20 pés de comprido, sobre cinco, ou seis de largo; eraõ da mesma lona de que se fazem as velas dos navios; e me ficavaõ na distancia de 250 passos geometricos. Exponho todas estas circunstancias, porque em observaçoens deste genero, a direcção da Luz; a sua força; a grandeza, a figura, a materia dos objectos e a distancia em que se observa, influem muito nos resultados. As observaçoens feitas sobre as nuvens em movimento, daõ este mesmo resultado; e as experiencias (§ 16. 17.), feitas sobre as Cores materiaes, convem inteiramente com as da Luz colorida.

NONO PRINCIPIO.

60. O branco he huma Cor positiva, e nasce da extrema divisaõ das duas Cores primitivas, Vermelho, e Verde.

_Escholio._

61. As experiencias (n. 40. 41.) mostraõ a evidencia deste Principio. O Sol, visto pelo Prisma, parece hum circulo de Luz mui viva; mas sem Cor alguma: por que a Cor se acha dividida em huma grande massa de Luz, e por isso he invisivel. O mesmo succede na experiencia (n. 40.), em que o rayo de Luz, depois de passar pelo Prisma, se recebe no cartaõ branco, ao pé do tubo, que o introduz na camara escura: e como, nesta distancia, a Luz se acha ainda mui intensa, e cahe sobre huma superficie branca, que tambem augmenta a sua massa, pela mesma razaõ da experiencia. (n. 41.) naõ deixa ver cor alguma. O mesmo succede com as Cores materiaes; como se prova pela Taboa XIIII. n. 43. e ainda mais palpavelmente, mixturando sobre o porphyro, hum graõ de Anil, com duas libras de Alvaiade, dividindo-o o Branco de tal sorte, que nelle senaõ destingue a minima sombra de Azul.

62. Digo que o Branco, e o Negro, saõ Cores positivas, (n. 58. 60.) porque o contrario repugna à todas as leys da physica. Nós recebemos indubitavelmente a idea dos objectos externos, pelo orgaõ sensoreo da vista, mediante o reflexo da Luz, a qual, cahindo sobre, os mesmos objectos, se reflecte à os nossos olhos, trasendo-nos comsigo à sua imagem (n. 15.). Ora, se a Cor negra naõ fosse que huma privaçaõ da Luz, seguir-se-hia, que naõ poderiamos receber a idea, nem de huma columna de marmore negro, nem de qual quer outro corpo da mesma Cor: mas a experiencia mostra, que estando em justa posiçaõ duas ou mais columnas, huma de marmore negro, e as outras de marmore branco, vermelho &c. recebemos taõ clara a idea de humas, como das outras; logo o negro he huma Cor taõ positiva, como qual quer das outras, a que senaõ disputa esta qualidade; e assim naõ póde consistir na privaçaõ da Luz.

63. Alem disto, huma taboa de marmore negro, bem polida, reflecte a Luz taõ exactamente, que nella vemos as imagens dos objectos, como em hum espelho. Ora, isto naõ póde acontecer, segundo as leys da Catoptrica, senaõ nos corpos, que reflectem fielmente os rayos da Luz; logo he imphilosophico o dizer, que a Cor negra consiste na absorbencia dos rayos da luz; quando os Corpos desta Cor os reflectem igualmente, que os coloridos de Branco, Vermelho &c. De mais he provado (§ 22. n. 23.), que a Cor negra se forma da mixtura do Vermelho, e Verde; ora, se a Cor de Purpura, que se forma de Vermelho, e Azul, he huma Cor positiva; da mesma sorte o deve ser a Cor negra, que se forma pór huma similhante combinação. Hum igual raciocinio prova, que o Branco he tambem huma Cor positiva.

64. O confundir estas duas Cores, huma com a Luz, a outra com a sombra, deu lugar ás ideas commumente recebidas. He preciso, differençar a Luz, da Cor branca, e a sombra, da Cor negra. A Luz faz visiveis os objectos, com as suas qualidades; e a escuridade, produz hum effeito opposto, isto he, de naõ deixar ver cousa alguma; mas a Luz, e a obscuridade, saõ tanto a Cor branca, e negra, como a azul, e verde. Ora, nimguem diria, que estas ultimas duas Cores equivalem á Luz, ou a escuridade; da mesma sorte senaõ póde dizer isto, das duas primitivas Negro, e Branco; sabendo-se de outra sorte, o mechanismo da sua formação, pelas experiencias (§ 16. 17. 19. 22. n. 33.)

65. Taes saõ os Principios, que resultaõ das observaçoens, feitas sobre as experiencias Prismaticas: os quaes se achaõ inteiramente conformes, com os que resultaõ das observaçoens feitas sobre as experiencias dos Corpos coloridos (§ 20. 21. 24. 28. 30. 37. 40. 43. 48.); e que tem ainda em seu favor, as analogias da Natureza (§ 26. 29.).

_Phenomenos das Cores, explicados pelos Principios, que resultaõ das experiencias do Prisma._