Tratado Das Cores Que Consta De Tres Partes Analytica Synthetic
Chapter 1
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Notas de transcrição:
Este livro foi publicado no século XVIII, quando a ortografia portuguesa não se encontrava normalizada. Foram mantidas as inconsistências de escrita, por exemplo: cadahuma/cada huma, cinco/sinco, graõ/grão, Pomona/Pomòna. No entanto, os erros de composição foram corrigidos, por exemplo uma única ocorrência de "observacoens".
No Vocabulario das Cores, a letra S vinha depois da letra T; isso foi corrigido na transcrição.
A errata presente no final da obra foi aplicada no texto.
As notas de rodapé que consistiam unicamente numa referência para a secção de notas foram intercaladas com o texto, p. ex. "estas se dizem secundarias, porque saõ accidentes separaveis dos mesmos corpos [NOTA II.]" As outras notas de rodapé foram colocadas logo a seguir ao parágrafo a que dizem respeito, e marcadas com [Nota A: ].
o local das ilustrações encontra-se marcado com [Ilustração: ]
O texto em versaletes (maiúsculas pequenas) foi colocado em maiúsculas.
O texto em itálico foi colocado entre _ e _.
Os textos em grego encontram-se transliterados entre { e }, por exemplo: {dê pragmateia eis duo}. A letra upsilon foi sempre transliterada como "u", nunca como "y".
O texto em língua alemã continha o sinal _umlaut_ arcaico: um "e" por cima da letra. Foi transcrito da seguinte forma: ae, oe, ue.
A ligação latina oe foi marcada como [oe].
Sempre que o til surgia sobre a letra e ou u, foi colocado assim: [~e], [~u].
_Fim das notas de transcrição._
TRATADO
DAS
CORES.
TRATADO DAS CORES
QUE CONSTA DE TRES PARTES
ANALYTICA, SYNTHETICA, HERMENEUTICA:
OFFERECIDO
AOS AMADORES DAS SCIENCIAS NATURAES, E A OS DILECTANTES, E ARTISTAS, QUE COMEÇAÕ A OCCUPAR-SE EM TODO O GENERO DE TRABALHO COLORIDO:
POR
DIOGO DE CARVALHO E SAMPAYO, CAVALHEIRO DA ORDEM DE MALTA.
MALTA
Na Officina Typographica de S. A. E. Impressor Fr. Joaõ Mallìa MCCLXXXVII. _Com licença dos Superiores._
--Hujus enim ignorantia quam plurimos, labore non exiguo, sed inani tamen, exercuit--_NEWT. Opt. par. secund. Sect. prima_.
PREFACÇAÕ
Este breve Tratado naõ he outra cousa mais, que huma clara exposiçaõ das minhas ideas, a respeito das Cores, na mesma ordem, com que ellas se me presentáraõ. Illuminando alguns planos, me apercebi dos diversos effeitos, que resultavaõ da mixtura de differentes Cores. Fiz experiencias mais methodicas, e me pareceo, que sobre os seus resultados, se poderiaõ estabelecer alguns Principios. Estes Principios, nascidos da experiencia, os achei conformes ás analogias da Natureza; e assim os tive por verdadeiros.
No fazer as mencionadas experiencias vi, que com pouquissimas Cores, se poderiaõ formar todas as precisas, para imitar a Natureza. Ordenei algumas Taboas, que logo me servíraõ para os meus curiosos intertenimentos, os quaes por este methodo, me ficáraõ muito mais faceis.
Terei a mayor satisfaçaõ de que os verdadeiros Amadores das Sciencias Naturaes achem as minhas hypothesis bem fundadas: e espero que em huma sciencia puramente natural naõ exigiráõ demonstraçoens geometricas, contentando-se da experiencia, e de bem fundadas analogias, que saõ a verdadeira prova desta sorte de Conhecimentos.
Os Dilectantes, e Artistas que começaõ a occupar-se em todo o genero de trabalho colorido, acharaõ o modo de formar, com poucos elementos, huma infinidade de Cores, que jamais seraõ repugnantes, e que sempre se concervaraõ, quanto ao brilhante, na mesma proporçaõ, com que se empregáraõ, sem que humas fiquem permanentes, e as outras sujeitas ás alteraçoens do tempo.
Se deste breve Tratado resultar alguma luz á quella parte da Phisica, que se versa sobre as Cores; e se elle puder contribuir para guiar o trabalho dos Dilectantes, e Artistas que começaõ a occuparse da sua combinaçaõ: eu darei por bem empregados os poucos dias que passei em compollo; e a nimguem pezará de ter sacrificado os poucos momentos, que saõ necessarios para o ler.
ARGUMENTO
DA
INTRODUCÇAÕ.
_Primarias, e secundarias qualidades dos corpos §§ 1, 2._
_Todas as producçoens da Natureza saõ effeitos da mera combinaçaõ de principios mais simplez § 3._
_A verdadeira natureza dos corpos, isto he dos seus primitivos principios, he absolutamente desconhecida § 4._
_Igualmente he desconhecida a natureza das suas secundarias qualidades § 5._
_Opiniaõ de Aristoteles sobre as Cores § 7._
_--Dos Cartesianos § 8._
_--De Newton § 9._
_Divisaõ do presente Tratado § 10._
_Explicaçaõ das Taboas § 13._
ARGUMENTO DA PRIMEIRA PARTE,
QUE CONTEM A ANALYSIS DAS CORES.
_O magestoso espectaculo do Universo, entre huma infinita variedade de Cores, nos presenta seis mais claras, e distinctas: e quaes sejaõ estas Cores § 14._
_Modo de as preparar para fazer as experiencias, e para se servir dellas §§ 15, 16._
_A Cor Negra provem da mixtura das Cores primitivas, e das que immediatamente dellas se derivaõ § 17._
_A Cor Branca nasce da extrema divisaõ das mesmas Cores § 19._
_O Negro he huma cor positiva § 20._
_O Branco he igualmente huma Cor positiva § 21._
_O Vermelho, e Verde saõ as duas Cores primitivas § 24._
_A Cor Azul naõ he primitiva, mas sim derivada do Vermelho § 28._
_A Cor Amarella naõ he primitiva, mas sim derivada do Verde § 30._
ARGUMENTO DA SEGUNDA PARTE,
QUE COMTEM A SYNTHESIS DAS CORES.
SECÇAÕ PRIMEIRA.
_Para recebermos a sensaçaõ das Cores, he necessario, que concorraõ trez cousas, a luz, os corpos illuminados, e o orgaõ sensorio § 35._
_O orgaõ sensorio da vista nada contribue para a formaçaõ das Cores § 37._
_A formaçaõ das Cores naõ depende só da diversa contextura dos corpos § 40._
_As Cores primitivas, e as que dellas se derivaõ, dependem para se manifestarem, e da luz, e da contextura dos corpos § 43._
_Analogia das Cores originarias com o fogo electrico § 44._
_A Luz, pelo reflexo, transmite a imagem dos corpos; e pelo reflexo, e refracçaõ, os faz ver de differentes Cores § 47._
_As duas Cores primitivas se manifestaõ pela descomposiçaõ, que a luz padece, urtando os corpos naturaes § 48._
_A diversidade das Cores resulta da differente combinaçaõ das duas primitivas, e das que immediatamente dellas se derivaõ, nascida das diversas refracçoens, comque a luz se modifica, urtando a superficie dos corpos § 48._
_Os phenomenos do Prisma saõ os mesmos que os do Iris § 49._
SECÇAÕ SEGUNDA.
_A Natureza, para colorir todo o Universo, se servio unicamente de duas Cores; mas a Arte para imitar as suas admiraveis obras, necessita de se servir de seis § 51._
_Para mudar as Cores, se devem mudar as superficies § 52._
_Modo de formar toda a sorte de Cores § 55._
ARGUMENTO DA TERCEIRA PARTE,
E ESTA HERMENEUTICA.
_Divisaõ de todas as Cores § 68._
_Vocabulario das Cores, que contem a explicaçaõ das Cores mais conhecidas, segundo os principios deste Tratado; indicando ao mesmo tempo a similhança, que ellas tem com as Cores das Taboas A, B, C, D, ou com as seis Cores genericas da Tab. XIV. n. 1. 2. 3. 4. 5. 6._
NOTAS, E ILLUSTRAÇOENS.
EXPLICAÇAÕ
DE
ALGUMAS PALAVRAS DE ORIGEM GREGA, QUE SE ACHAÕ NESTE TRATADO.
_Analysis palavra Grega {Analusis}, que significa resoluçaõ, ou descomposiçaõ de alguma cousa para achar os seus elementos._
_Synthesis {Sunthesis}, composiçaõ._
_Hermeneutica de {Ermêneuô} interpretar, explicar._
_Analogia {Analogia}, proporçaõ, rasaõ similhante._
_Physica de {Phusis}, a natureza._
_Phenomeno de {Phainomai}, apparecer, manifestar-se. Phenomeno quer dizer cousa, que apparece, e se faz visivel._
_Theoria {Theôria}, contemplaçaõ, meditaçaõ de cousas superiores, e de difficil comprehençaõ. Collecçaõ de principios, que formaõ o tratado de qualquer Disciplina. Esta palavra vem do verbo {Theôreô}, que significa considerar, contemplar._
_Hypothesis {Upothesis}, supposiçaõ, opiniaõ; condiçaõ com que se discorre._
_Homogeneo de {Omogenês}, do mesmo genero, e qualidade._
_Heterogeneo de {Eterogenês}, de diverso genero._
_Problema {Problêma}, proposiçaõ, questaõ, duvida._
_Atmosphera de {Atmos}, vapor, e de {sphaira} esphera; quer diser huma esphera de vapores._
TRATADO DAS CORES.
INTRODUCÇAÕ.
Todos os corpos naturaes, de que se compoem o Globo da Terra, e que lhe estaõ inherentes, alem das primarias qualidades, que constituem a sua essencia, e os fazem uteis, saõ dotados de outras qualidades secundarias, que prehenchendo tambem este mesmo fim, os fazem ao mesmo tempo agradaveis [NOTA I.].
§ 2. As primarias qualidades dos corpos saõ a figura, a grandeza, a contextura das suas partes constituentes, e outras. As secundarias porem consistem no som, no gosto, no cheiro, na Cor &c. Aquellas chamaõ-se primarias, porque dellas se compoem a essencia de todos os corpos: estas se dizem secundarias, porque saõ accidentes separaveis dos mesmos corpos [NOTA II.]. Mas, de todas estas qualidades, eu naõ fallarei que da differente organizaçaõ ou contextura dos corpos, e da sua Cor; por serem as outras alheas do prezente assumpto.
§ 3. Todas as producçoens da Natureza, que fazem o objecto da contemplaçõ do homem, saõ hum puro effeito da mera combinaçaõ de principios simplicissimos, que a mesma Natureza, por meyo de huma serie de concatenadas operaçoens, variou ao infinito. Para achar estes principios, o processo mais natural seria huma exacta, e rigorosa analysis. Mas he bastante este methodo, para descobrir os originarios, e primitivos principios?--Parece que naõ he bastante; mas he sem duvida hum caminho seguro, para fazer maravilhozas descobertas, e para levar, de hum certo modo, as Sciencias, e Artes a sua perfeiçaõ.
§ 4. A analysis de todos os corpos, que compoem o imperio da Natureza, os reduz todos a quatro elementos; e he quanto basta, para ser de summa utilidade á especie humana. Mas segue-se por isso, que estes quatro elementos sejaõ os primeiros, e simplez principios dos corpos organizados?--Póde ser que o Ar naõ seja que hum fogo condensado; e que a Agoa seja muito bem hum ar mais denso. A Terra he, sem duvida, hum composto de agoa crystallizada, que forma a parte vitrea; e de despojos de corpos organisados, que formaõ a parte acida, e alkalina: de cuja reciproca mixtura resulta todo o reino mineral [NOTA III.]. Mas aquelle fogo, onde vai terminar esta analysis, he elle composto de partes homogeneas, ou as suas constituentes partes saõ ellas de differente natureza?--Questoens deste genero naõ saõ da repartiçaõ do homem: ellas dependem de principios desconhecidos, e taõ distantes dos limites dos nossos conhecimentos, que o occupar-se dellas, seria perder inutilmente o tempo.
§ 5. A inevitavel difficuldade, que se encontra, em descobrir a natureza dos primitivos principios dos corpos, he tambem commum aos seus accidentes, ou sejaõ secundarias qualidades. A observaçaõ dos homens mais reflexivos tem descoberto na Natureza dous sons, hum dos quaes he extremamente grave, e o outro nimiamente agudo: de cuja replica e combinaçaõ nascem os sons elementares de todas as linguas; e se compoem toda a sorte de canto, e armonia. Mas conheceraõ os antigos, e modernos cultivadores da Musica a natureza destes sons, ou podéraõ jamais sujeitallos a huma exacta proporçaõ, ou arithemetica, ou geometrica?--Naõ chegáraõ ja mais a este ponto: e as escholas de Pitagoras, e Aristoxenes [NOTA IV.] naõ faraõ eternamente outra cousa mais, que disputar sobre a preferencia da theoria ou da pratica, sem passar alem da mera observaçaõ de poucos phenomenos, donde se tem deduzido os principios, que formaõ a arte musical.
§ 6. Se isto succede a respeito dos sons, naõ he mais intelligivel a natureza da outra secundaria qualidade dos corpos, que consiste na admiravel variedade das Cores. Os Philosophos de todos os tempos, os Historiadores Naturaes, os Poetas, e os Artistas, se tem reflexiva, e attentamente occupado deste interessantissimo objecto; ja para explicar a natureza das Cores, e classificallas na sua ordem natural; ja para se servir dellas, com mayor vantagem, na pratica dos trabalhos coloridos: sem que athegora, de tantas indagaçoens reunidas, tenha resultado huma theoria fundada, que possa satisfazer o espirito do Philosopho, ou servir de guia ao Artista: e em lugar de explicar o admiravel systema da Natureza, naõ fizeraõ outra cousa mais que confundillo, e perturballo; servindo-se de theorias complicadas para explicar phenomenos simplez, donde naõ podiaõ nascer que confusissimos resultados.
§ 7. Aristoteles affirmou: Que as Cores eraõ propriedades ou qualidades dos corpos, e que existiaõ nelles sem dependencia da luz. Esta sua opiniaõ naõ a provou de forma alguma; nem o podia fazer, achando-se ella contraria a todas as experiencias [NOTA V.].
§ 8. Os Cartesianos diziaõ: Que naõ havia Cores primitivas, attribuindo todas as Cores só ás differentes modificaçoens, que a luz recebe pelo reflexo, e pela refracçaõ; sem se lembrarem do famozo principio do Poeta Epicureo: Que do nada naõ póde resultar cousa alguma; e que assim, se nem os corpos, nem a luz tem Cor, por mais combinaçoens que se façaõ, naõ pode dellas resultar Cor alguma [NOTA VI.].
§ 9. Os Philosophos naturaes seguiaõ ou huma ou outra destas duas opinioens, quando o immortal Newton publicou a segunda parte da sua Optica, com hum novo systema sobre as Cores. O Peripateticismo, e a mal fundada hypothesis de Cartesio cederaõ immediatamente ao brilhante systema de Newton, que foi logo abraçado de muitos; e que, a pesar de grandes contradiçoens, passa de hum seculo, que he implicitamente seguido de todo o mundo. Se alguma cousa me fez vacillar sobre a concludencia dos Principios, em que se estabelece este Tratado, foi o ver que alguns delles se oppunhaõ a parte das sinco Proposiçoens, em que Newton fundou a sua doutrina sobres as Cores. Mas as repetidas experiencias, as exactas observaçoens, e as naturaes analogias em que se fundaõ estes Principios, me fizeraõ antepor a força da evidencia, talvez a mais plausivel de todas as opinioens. E sem aspirar ao proselytismo, farei, em lugar competente, huma succinta comparaçaõ das Proposiçoens de Newton com os mencionados Principios; ficando sempre a cadahum a inteira liberdade de seguir o que lhe parecer mais bem fundado [NOTA VII.].
§ 10. Sem deixar de ter a mayor consideraçaõ pela respeitavel memoria dos celebres Auctores de taõ diversas opinioens, eu puz de parte toda a preoccupaçaõ da auctoridade, e tomei somente a pura Natureza por guia do meu trabalho, no compor o presente Tratado. Elle naõ se versa sobre a intima natureza das Cores, a qual sempre nos sera desconhecida; mas sim sobre as suas sensiveis propriedades, em quanto estas podem ser de algum uso, ou nas Sciencias Naturaes, ou nos trabalhos coloridos. Analysando as principaes Cores, que nos offerece o variado, e maravilhozo quadro do Universo, naõ só achei as Cores originarias, e primitivas, que a Natureza combinou de mil modos differentes, para o colorir; mas tambem achei quaes saõ as Cores elementares, preparadas pela Natureza, ou pela Arte, das quaes se devem servir os Artistas nos seus trabalhos imitativos. A exposiçaõ do processo, que segui para achar estes resultados, constituirá a Parte Analytica.
§ 11. Combinando as Cores elementares [VEJA-SE A NOTA XXIII.] preparadas pela Natureza, ou pela Arte, achei todas as graduaçoens das Cores compostas, relativas a cadahuma dellas; e as classifiquei na ordem mais natural, e intelligivel. A exposiçaõ deste processo formará a Parte Synthetica; a qual por mayor clareza devidi em duas Secçoens. A primeira expora o modo, com que a Natureza, por meyo de huma combinaçaõ admiravel das duas Cores primitivas, formou todas as que vemos nos corpos naturaes. A segunda indicará o methodo com que, só com as duas Cores primitivas, e quatro outras que se derivaõ immediatamente dellas, se podem imitar todas as Cores naturaes.
§ 12. A parte Hermeneutica conterá hum pequeno Vocabulario com a explicaçaõ das Cores mais conhecidas, segundo os Principios deste Tratado.
§ 13. E finalmente as Taboas illuminadas, que se juntaõ, dilucidaraõ com as proprias Cores, a theoria que vou dar por escrito: e os seus usos, e applicaçoens se exporaõ nos respectivos lugares [NOTA VIII.].
TRATADO DAS CORES.
PARTE PRIMEIRA,
QUE CONTEM A ANALYSIS DAS CORES.
Contemplando o magestoso espectaculo do Universo, nos presentaõ os corpos naturaes huma maravilhoza, e quasi incomprehensivel variedade, e mixtura de differentes Cores [NOTA IX.]. Entre estas porem se destinguem positivamente seis, a saber: o Negro, o Vermelho, o Azul, o Verde, o Amarello e o Branco, com as quaes, todas as outras Cores deixaõ entrever alguma affinidade. Eu fiz abstracçaõ de todas estas, tomando somente aquellas seis mais positivas, claras, e distinctas por objecto da minha analysis, a que procedi no seguinte modo.
§ 15. Deixando a Cor branca, como desnecessaria, segundo o genero das minhas experiencias, dissolvi em cinco conchas as seguintes Cores [NOTA XXIII.]: Tinta da China, Carmim, Azul de Prussia, Verde-destilado e Gomma-gutta, e levando-as todas ao mesmo gráo de força, formei as cinco Cores, que com a Branca geralmente dominaõ no quadro do Universo. Puz em cada huma das conchas hum pincel fino; tomei outro, e huma palheta de marfim; e com este simplez apparato procedi ás experiencias.
§ 16. Meti sobre a palheta, com os respectivos pinceis, huma gotta de cadahuma das refferidas tintas, e mixturando-as docemente, fui observando, que passavaõ por degráos insensiveis a Cores mui differentes; e quando as mixturei bem todas, vi sobre a palheta huma Cor muito escura, tirando quasi nada para Vermelho Tab. I. n.º 1. [NOTA X.].
§ 17. Repeti esta experiencia só com as ultimas quatro Cores, sem mixturar a Tinta da China; e da sua uniaõ me resultou huma Cor neutra, muito escura, e da mesma especie do Nankim, que naõ he muito carregado Tab. I. n.º 2.
§ 18. Este phenomeno me fez lembrar, que assim como a Cor negra era o resultado da uniaõ das quatro Cores, devia naturalmente da divisaõ das mesmas Cores, resultar a Cor branca.
§ 19. Sem excluir a Cor negra, formei a Tab. IV., que me deu quatro Cores mixtas n.º 1. 2. 3. 4., em que dominava o Vermelho; quatro outras n.º 5. 6. 8. 10. em que dominava o Verde; e duas n.º 7. 9. çujas, e faltas de energia. Exclui as do n.º 7. 9., como passivas, e com as outros formei a Tab. XIV. e tirando resultados de resultados, achei, á oitava combinaçaõ, a Cor branca, que procurava, taõ clara como o mesmo papel, em que fazia a prova. Por meyo destas duas experiencias, achei os dous Principios seguintes.
PRIMEIRO PRINCIPIO.
§ 20. O Negro he huma Cor positiva, na qual o Vermelho, o Azul, o Verde, e o Amarello se achaõ intimamente unidos, e em quantidades quasi iguaes.
SEGUNDO PRINCIPIO.
§ 21. O Branco he huma Cor igualmente positiva, onde o Vermelho, o Azul, o Verde, e o Amarello se achaõ extremamente divididos, athe o ponto de se fazerem invisiveis [NOTA XI.].
§ 22. No contemplar a Tab. VI. observei, que da reciproca mixtura das sinco Cores, de que se compoem, resultava do n.º 1. 2. 4., huma Cor mixta, onde reynava o Vermelho; do n.º 5. 6. 8. 10. resultavaõ Cores, em que predominava o Verde; do n.º 7. 9. resultavaõ Cores pardas ou çujas; e que finalmente do n.º 3. onde o Vermelho, e Verde se achaõ combinados em differentes proporçoens, resultava a mesma Cor escura, ou a mesma especie de negro, que tinha resultado da mixtura do Vermelho, Azul, Verde, e Amarello Tab. I. n. 2. [NOTA XII.].
§ 23. Este phenomeno me fez ver, que as quatro Cores Tab. I. n.º 2., e as duas Tab. VI. n.º 3, e ainda as das Tab. VIII. X. XII, no mesmo numero, importavaõ a mesma cousa; isto he, que o Vermelho, e Verde combinados em certas proporçoens, valem tanto como o Vermelho, o Azul, o Verde, e o Amarello; ou que no Vermelho, e Verde se contem as outras duas Cores. E reflectindo em que nas Tab. II. III. IV. V. VII. IX. XI, nas quaes em differentes proporçoens, se achaõ combinadas as sinco Cores, se descobrem sempre quatro numeros, em que domina o Vermelho, e saõ, o n.º 1. 2. 3. 4. e outros quatro em que domina o Verde, a saber, o n.º 5. 6. 8. 10. e que o Azul, e Amarello cedem sempre ao Vermelho, e Verde; e quando se combinaõ com o Negro, em diversas proporçoens, ou se confundem inteiramente com elle, ou recebem huma sombra, que as escurece sensivelmente, sem que jamais produzaõ huma terceira Cor: esta reflexaõ, digo, me suscitou outro Principio.
TERCEIRO PRINCIPIO.
§ 24. O Vermelho, e Verde saõ as Cores primitivas, e dominantes na Natureza: e o Azul, e Amarello naõ saõ que puras modificaçoens destas duas.
§ 25. Fiz todas as combinaçoens possiveis do Vermelho, e Verde, e naõ pude achar hum Azul, e Amarello igual ao de que me servia nas experiencias. Interrompias por algum tempo, e fui estudar no grande livro da Natureza [NOTA XIII.], onde se podia achar a resoluçaõ destes problemas.
§ 26. Este vastissimo imperio, nos seus differentes reynos, me presentou duas analogias, que adiantáraõ a minha indagaçaõ. Vi que no reyno animal, dominava a Cor vermelha. O sangue dos animaes, e a carne em que elle se acha espalhado, me confirmáraõ em que o Vermelho he huma Cor universal, e primitiva. Vi igualmente que, o Verde coloria todo o reyno vegetal, o que me convenceo tambem, de que o Verde era huma Cor primitiva, e universal.
§ 27. Occorreu-me, que a carne dos animaes quando he contundida, ou passa a maceraçaõ, passa tambem da Cor vermelha á azul. Lembrou-me logo, que a mesma tinta azul das minhas experiencias, que era Azul de Prussia, se fazia de sangue de boi, ou de qualquer outro animal. Poucos dias antes eu tinha reiterado as observaçoens de M. de Buffon, ácerca da sombra da luz do Sol, tincta com a Cor da Aurora, e achei, que a sombra de huma palheta de marfim, de duas pollegadas de largo, sobre hum papel branco, era sempre azul, pondo a palheta, pouco mais ou menos, a hum pé de distancia do papel; e chegando-a quasi ao papel, achei entaõ sempre escura a sua sombra; o que naõ podia resultar senaõ da refracçaõ da luz vermelha do sol, que coloria a sombra de azul. Esta observaçaõ me produsio o Principio seguinte [NOTA XIV.].
QUARTO PRINCIPIO.
§ 28. A Cor azul naõ he primitiva, mas sim gerada pelas modificaçoens, que recebe a Cor vermelha pela refracçaõ da luz, ou mixtura de outras substancias.
§ 29. Fiz a mesma especulaçaõ com a Cor verde, e achei, que todos os vegetaes, no estado da sua perfeiçaõ, nos presentaõ universalmente esta agradavel Cor; mas que geralmente todos os vegetaes, com as suas folhas, fructos, sementes &c. na sua decadencia, passaõ da Cor verde á amarella. Occorreu-me tambem, que a Cor amarella das minhas experiencias, era a gomma de huma arvore; e consequentemente naõ vinha a ser que hum Verde degenerado. Esta reflexaõ me deu outro Principio [NOTA XV.].
QUINTO PRINCIPIO
§ 30. A Cor amarella naõ he originaria, ou primitiva; mas sim secundaria, e derivada da Verde [NOTA XVI.].