Chapter 9
Preferiria a tarde para não mostrar excessivo cuidado. Oh! Senhor, que vida! Não ter a liberdade de confessar os seus sentimentos, sempre em continuados temores, fugindo como um criminoso... E não o era!
Mas não podia esperar tanto. Sete horas da manhã!... Teria ainda dez horas. Impossivel. Iria depois de almoço. Que lhe importava o que podessem dizer. Ia ás occultas, porventura?...
Era meio dia quando chegou á rua da Cruz. Á creada perguntou por Emilia. Estava melhor, já se levantára, até de manhã descera um bocadinho ao jardim.
Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande peso; entrou na sala que estava deserta, Emilia tardava e por certo já lhe tinha ouvido a voz... Era singular! Ella que sempre corria para elle tão pressurosa...
Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se a passos lentos, compassados, parando a meio do corredor, para dar á creada umas ultimas ordens. Claudio esperava-a de pé, frenetico, movendo-se nos dois passos que medeavam entre a meza e o sofá.
De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de terror. Emilia vinha para elle com aquella mesma pallidez caracteristica que já um dia lhe conhecera e em que só os seus grandes olhos ficavam boiando como pharoes, em braza, n'uma toalha alva e mate, orlada ricamente pelos mais finos cabellos.
--O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe a mão. Estranho-a.
--Não sei, respondeu ella pausada e desprendidamente. Foi apenas uma dôr de cabeça, um pouco mais violenta do que as que costumo ter. Antes fosse uma doença grave! Que faço eu n'este mundo?!...
--Não seja injusta nem cruel com os que a estimam. Se soubesse o que eu tenho soffrido ha algumas horas...
--Não vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria muita rapariga fresca e nova que o cubiçasse. Conheço-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos uma bem bonita na praça, aquella que esteve ao pé de nós. Não lhe pareceu?
Claudio só então comprehendeu que Emilia ardia em ciume. Correu-lhe o sangue ao coração, seccaram-se-lhe os labios e, como uma féra precipitando-se sobre a preza, lançou os braços em torno da cintura de Emilia, beijando-lhe as faces em convulsões de desejo.
--Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se, endoideceu?
--Não, não endoideci, respondeu elle tremulo e o rosto congestionado. A culpa é sua, unicamente sua. Fica assim convencida do meu amor?
Já não era o timido que nós viramos soluçante, implorando perdão, por uma calma noite de julho. A cubiça e uma instinctiva mas plena certeza de dominio tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia obedecia, defendendo-se frouxamente com o temor do escandalo e da sua vergonha, inconscientemente dominada por um ardor de paixão que a fazia acceitar como boas as razões que o amante ardilosamente inventava para a levar a quanto lhe apetecia.
Não valia a religião nem o dever; a culpa era do destino que, tendo-lhe dado um marido repellente e sordido, lhe deparava agora uma alma irmã da sua.
Claudio voltava a casa agitado de contentamento. Todos os escrupulos, todas as preoccupações se baniram ao alento d'aquelle corpo que tivera nos braços, ao contacto d'aquella face cuja impressão sentia ainda nos labios.
A animalidade vencia, a satisfação da carne punha em debandada os terrores da alma transformando-os em deliciosas e captivantes esperanças. Voltaria á rua da Cruz no dia seguinte, á mesma hora, quando Ricardo estivesse na repartição e os filhos na escola. Sequioso dos beijos de Emilia, todo se entregava a essa cubiça absorvente.
Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse jardim que fôra e seria ainda o theatro das suas inquietações, esperando o bater do meio dia como cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o freio, a orelha fita ao toque do clarim que marcará a partida.
Quem lh'a déra ali, por essa tarde de dezembro em que o sol tão brandamente penetrava a terra passando entre os troncos nus das arvores desfolhadas pelo inverno! Iria colher violetas á sombra dos cedros e a meiguice dos seus beijos havia de confundir-se com o perfume subtil e inebriante, o amor a adejar na luz pallida e cariciosa.
Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco, onde o respeito pela sua amada que havia de pôr no sacrario a que não chegariam as palpitações da concupiscencia impura? Sonhos vãos, vãos propositos! Nem d'isso já se lembrava! Varrera-lh'o da lembrança a chama em que todo o seu ser ardia n'uma transformação gloriosa.
Com que alegria subiu á sala de Emilia!... Mas Emilia vinha triste, os olhos macerados, mysteriosa, perseguida d'um pavôr que nem o anceio de vêr o amante podia dissipar. Não se assustasse Claudio... Ricardo desconfiára, estranhára as visitas áquella hora, ameaçára-a. Tudo porém se poderia arranjar, ella lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam encontrar. Depois lhe contaria pausadamente como isso se passára; não se demorasse, saisse quanto antes. Que não se affligisse, ella era a mesma. E abraçaram-se.
Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava hymnos de triumpho. Era sua! A certeza do amor de Emilia vencia todas as atribulações e resgatava todas as dores passadas. O ardor da paixão e a coragem confundiam-se n'um só fogo, impetuoso, subindo para os céos, á serenidade olympica do amor victorioso.
Na mesma tarde d'este dia em que tivéra o primeiro annuncio da desconfiança de Ricardo, Claudio recebeu uma carta de Emilia.
O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe que viesse, ás dez horas da noite, a uma pequena capella abandonada que ficava junto á casa, na rua da Cruz, e que com ella tinha communicação interior.
Entregaram a carta a Claudio na presença da mãe, no fim do jantar. Teve de mentir. Disse que era do prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse lá á noite. Estava com um ataque de gotta e não podia sair.
--Foi-se metter na eleição da junta de parochia e agora ha-de querer que eu lhe dê os votos de Villalva!...
Para se conformar com o que disséra á mãe, saiu ás oito horas. Não era verosimil ir procurar um velho, n'uma aldeia, ás dez horas da noite. E ainda, para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta longa a escrever, inaddiavel, que justificasse a permanencia em casa.
Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa Nova, e voltaria torneando a villa, a entrar na rua que o levaria em direitura a casa de Emilia; mas, quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito horas e um quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se já á capella; poderiam vêl-o e comprometteria Emilia.
Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto, á beira do caminho, sobre o parapeito d'um aqueducto, esperando.
Accordava agora do desvario sensual em que todo o dia andara arrastado; a treva, a fadiga, o silencio, o isolamento e a immobilidade forçada despertavam-lhe a consciencia. Era um crime o que ia fazer? Não era; a paixão convencia-o da propria innocencia. A ninguem prejudicava, nem mesmo a Ricardo que fôra o primeiro a abandonar a mulher. Não a roubava aos filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este mundo é uma conquista; queria a sua parte. Mas porque então este sentimento d'amargura á hora em que ia satisfazer-se a sua maior ambição? Mentia e a mentira repugnava-lhe.
Não vira elle o que lhe acontecera com a mãe ao receber a carta? Mentira! Era a voz que sentia echoar pelos despidos cerros dos montes e pelas sombras do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava em torno. Viria alguem?... Que importava? Quem o sabia? Oh! não, tinha-o escripto na fronte, illuminada por uma luz de remorso. Fôra loucura... Porque não fugiu, porque não se affastou para longe a primeira vez que encontrara Emilia? Emilia!... Quanto soffreria ella tambem?!... Devia-lhe amparo, fôra elle que a tentara na paz da sua virtude, fôra elle que lhe derramara no sangue, como um veneno, aquella pallidez com que a vira nas horas de soffrimento e que se lhe gravaria nos olhos para sempre.
Queria vêl-a, queria abraçal-a,--fortuna suprema! E o amor e a compaixão casavam-se na mesma anciedade.
Finalmente, ás dez horas, abriu-se a porta da capella da rua da Cruz. Claudio não a conhecia.
Foi preciso que Emilia o guiasse na escuridão, apenas cortada pela escassa luz que vinha da porta lateral que abria sobre os campos e dava passagem para um alpendre da casa de Ricardo.
A capella estava abandonada; servia apenas de palheiro e arrecadação de alfaias de lavoura. Iam sentar-se no degrau do altar-mór, unica elevação que havia no pavimento lageado e raso.
--Tambem alli está um confissionario velho, disse Emilia, mas só tem um assento, o do padre.
--Leva-me lá, respondeu Claudio, quero ajoelhar aos teus pés e pedir-te perdão das minhas faltas.
--As suas faltas!...
--Suas?... Não me chames assim. Parece que me affastas.
Ella sentou-se e Claudio ajoelhou. Estava tremulo e frio, gelado pelas longas horas de espera na estrada deserta e mortificado pelas angustiosas cogitações em que o lançavam as luctas interiores da paixão, as contradições do dever e do desejo, da realidade cynica e das aspirações ideaes. Caíra como prostrado, mudo de emoção, esmagado de duvidas em que a amargura e o contentamento se confundiam n'uma mesma vibração.
Ella estava serena, na simplicidade do amor apartado das complicações d'uma consciencia intelligente e timida. Estava nos braços do amante, que lhe envolviam a cintura, ninguem o sabia, e esta ultima circumstancia bastava a tranquillisal-a. Não havia duvidas intimas; tudo se reduzia a convenções mundanas que, illudidas ou compridas, ficavam sempre igualmente satisfeitas.
Pouco e pouco, Claudio reanimou-se no alento da amante. A sensibilidade vencia. E tarde, pela noite calada, recolhia a casa n'uma plenitude de vida e de contentamento que ha muito lhe era desconhecida.
A sua existencia tornára-se completa, julgava elle com a fé mais firme; ia entrar n'um periodo de fecunda e longa tranquillidade. Considerava-se unido para sempre a Emilia no mais puro hymeneu, ella era a legitima esposa do seu corpo e da sua alma, a que devia fidelidade que do coração lhe votava. Quizera o destino, por um capricho cruel, que essa mulher vivesse separada d'elle, n'uma vida de privações e de penas, mas esse facto não enfraquecia nem prejudicava a união. Pelo contrario, sublimava-a, introduzindo-lhe elementos moraes de paciencia e resignação que inflamavam os amantes pela lucta perpetua.
Restava a Claudio dispôr as cousas externas conforme as novas condições da sua existencia.
Para illudir a mãe, faria um pequeno gabinete, em baixo, ao pé do jardim, em que passaria as noites, sem ninguem o sentir. Iria á rua da Cruz nos dias em que Ricardo fosse a Coimbra, repetiria quanto possivel os passeios e jornadas que o affastasem de Albergaria,--convinha ao bom nome de Emilia, cuja honra se lhe afigurava immaculada,--e evitaria mesmo frequentar a casa do dr. Carvalho com a assiduidade que até então usára. Voltaria a completar os seus estudos que d'esta vez tinham todas as condições de proseguir até ao fim, satisfeito o corpo e envolvido o espirito n'uma atmosphera de poesia. Assim seria a sua vida até á hora derradeira em que queria morrer os olhos fitos n'essa imagem que era o sangue do seu sangue, a sua razão de ser.
N'este novo caminho, em que affoitamente entrou, deu aos seus estudos uma nova direcção. Era necessario resolver o problema moral, que ha tantos mezes o inquietava, era necessario pôr de harmonia a razão e o sentimento, descobrir os motivos que haviam de justificar plenamente a sua existencia e banir todas as duvidas que o turvavam.
Na verdade, a sciencia nada lhe dissera. As leis da lucta pela vida e do transformismo nunca lhe podéram explicar nem porque era doloroso mentir a sua mãe nem por que motivo havia de occultar os seus amores com Emilia. Conveniencias sociaes? Mas então os instinctos naturaes não são o melhor juiz dessas conveniencias e não conduzem á perfeição final? E, se assim não é, se ha parallelamente outras leis, quaes são, em que se fundam, que princípio as sancciona, como e em que modificam as primeiras?
Evidentemente, a sciencia era incompleta; nada lhe dizia sobre aquillo que mais o interessava e mostrava-se incapaz de lhe offerecer tranquillidade. Porque era verdade que vivia inquieto.
Voltava-se para os livros de religião e de moral. Devia haver uma outra sciencia. Lia Epicteto, Marco Aurelio, os padres da Egreja e, entre os modernos, Renan, Amiel e Tolstoi. A vida seria, nas palavras d'estes, o desprezo do mundo e da carne, a conformidade com o destino, a exaltação no amor e na humildade. Os primeiros serão os ultimos e os ultimos serão os primeiros. N'este mundo, todos somos irmãos. «Irmãos, amae-vos uns aos outros!» As palavras do evangelista tornavam-se uma obsessão.
Se assim era, que crimes eram os seus, na occiosidade, na traição e na mentira! Dominava-o um impulso de arrependimento. N'uma tragedia intima, repetia: Pequei! Esquecia a sciencia. O corpo e os seus apetites não eram uma realidade tambem? Sim, de certo, mas melhores seriam as privações do que a tortura d'aquella vida sem repouso...
N'este drama, passou cerca de dois annos. Aos olhos dos estranhos, a quem os amores escandalosos, por muito continuados, se tornaram indifferentes, a tranquillidade parecia perfeita. De facto, nenhum obstaculo de natureza material existia.
A mãe de Claudio não se julgava no direito de pôr estorvos á sua vontade, desde a morte do marido; nos seus inveterados habitos de servir e obedecer, considerava o filho o seu senhor. O Ricardo, ou fosse ignorancia, aliás nada provavel, dos amores da mulher, ou fosse um cynico interesse na amisade de Claudio de quem sempre esperava protecção e com cuja bolsa contava para os momentos difficeis, amiudando e prolongando as suas noites de Coimbra em casa da amante, acabára por deixar Emilia n'um desafogo que lhe permittia longas horas do mais repousado amor.
Os tormentos vinham da consciencia. Claudio não encontrava solução moral que importasse justificação plena do seu viver. A duvida e a inquietação eram constantes, permanentes; cavavam-lhe na alma abysmos de mysterio, perante os quaes a todo o instante tremia e se apavorava. O mais pequeno incidente revolvia toda essa vasa que o suffocava, um dia de ciumes de Emilia, a suspeita de que o tinham visto entrar na capella, um gesto, uma palavra de sua mãe, condemnando os desvarios do adulterio.
Por outro lado, Emilia descia aos seus olhos. Saciados os apetites que as graças do seu corpo despertaram, via em plena nudez a inanidade do seu pensamento moral.
Instinctivamente boa e simples, amando Claudio ingenuamente com o afferro caracteristico das mulheres apaixonadas, era todavia incapaz de se elevar á comprehensão das duvidas que o agitavam; e ella, que se sentia contente com a sua sorte, não percebia que o amante podesse, sem reservas, deixar de partilhar o seu contentamento.
Presentiram o juizo que o publico formava das suas relações? Adivinhavam-n'o, e até se esforçavam por lhe tirar toda a apparencia de razão; mas viera tão cedo e em tal calor de paixão que não constituira mais que um passageiro desgosto com que ambos em breve e facilmente se conformáram. Que tinham os outros com a sua vida? Olhassem para si que teriam bem de que fallar. Que fazia o Carvalho sempre de braço dado com a Silva? E a outra não ia casar com o Maia? Uma miseria! Só por causa da fortuna.
Era sabido que ella na Figueira tinha namorado um rapaz de Lisboa que lhe vinha fallar ao terraço, á uma hora da noite.
Um dia, na primavera, exactamente tres annos depois que conhecera Emilia, Claudio recebeu uma carta de seu amigo Jorge de Castro, annunciando-lhe uma proxima visita.
Visto que elle, Claudio, se mettera a ermita, resolvia o Jorge ir abraçal-o; que preparasse os cavallos, queria visitar todas as aldeias suas conhecidas, que a visita não era só para elle, era tambem para aquelles montes de que se lembrava com saudades.
A carta respirava uma grande alegria, denunciando uma natureza sã, vigorosa. Claudio leu-a com tristeza. Porque não havia elle de viver assim contente?... Scismava. Talvez o Jorge lhe revelasse o segredo d'aquella fortuna.
Respondeu lhe immediatamente. Exultava. Os cavallos estavam promptos, tinha-os n'aquelle momento ligeiros como gamos, do campo de Coimbra. Traçava já varios passeios, em Albergaria e em Villalva onde lhe queria mostrar os jardins que créara no meio de rochedos. Promettia-lhe mais varios regalos da mesa provinciana, que o amigo apreciava, bons patos com arroz, uma preciosa vitella vinda da serra e vinhos da varzea de Villar que não os havia melhores. Que viesse quanto antes. Até precisava muito conversar com elle, accrescentava laconicamente.
--Até precisava muito conversar com elle... repetiu Jorge, lendo a carta na presença da mulher. É capaz de querer casar. Que pateta! Aos vinte oito annos, quando tem uma fortuna boa e todos os prazeres ao seu alcance... Eu, se agora me visse solteiro, não me casava antes dos quarenta annos. É muito bom, mas uma prisão...
Claudio veio esperar o amigo a S. Braz, por uma tarde serena, o ceu limpo e azul, os campos rebrilhando de reflexos multicores.
--Oh! que magnifico sol! disse Jorge ao apear-se, depois de abraçar Claudio. Com um tempo assim, até os inimigos se podem visitar.
E encaminharam-se para a carruagem.
Todo o caminho se dispendeu no exame dos cavallos e na apreciação da paysagem. Jorge ia maravilhado. Que vigor, que frescura! Aquillo devia fazer mal... Era lethifero. Dava vontade de fechar os olhos e adormecer por alli, á beira dos comoros toucados de madre-silva e de giesta. Uma natureza assim desmoralisava. Por isso Claudio se quedára n'aquella apathia. Estava encantado. E ria, sem de longe imaginar a dolorosa ferida que tocava.
Ás cinco horas da manhã do dia seguinte, Jorge passeiava no jardim esperando que Claudio despertasse. Este não tardou.
--Ainda bem! exclamou Jorge. Até é peccado dormir por uma manhã d'estas.
Em volta, a vida era d'uma intensidade extrema, n'um turbilhão alegre e scintillante, de murmurios de regatos, tremulas manchas d'um sol benigno, gorgeios d'aves, perfumes de lilazes, de rosas e cylindras.
--Vives aqui muito bem, disse Jorge, sentando-se n'um banco de pedra, á sombra dos loureiros, em frente d'um platano magestoso, opulentamente curvado sobre o tanque em cujas aguas os seus ramos vogavam.
--Não tão bem como te parece!
Contou então todo o drama da sua vida; o primeiro encontro com Emilia, a leviandade com que se lançára na sua conquista, o amor sincero e a paixão que d'ahi resultára, a angustia em que vivia n'uma vida de constante mentira, as tentações que tinha de pôr termo a essas torturas, o receio e a compaixão pela infelicidade da amante, sempre que se lembrava d'uma separação. No fundo, sentia-se torturado de arrependimento e remorsos; a sua felicidade, tão cubiçada dos estranhos que o julgavam satisfeito e impenitente, reduzia-se a uma crudelissima agonia.
Jorge desconhecia essas situações. Casára cedo, por casualidade, cedendo a uma inclinação natural, sem maior esforço da vontade. Não dizia que o casamento fosse bom nem mau; elle tinha-se dado bem e louvava a Deus por o ter feito, pois sabia d'outros casos semelhantes ao de Claudio e todos tinham mau fim.
Lembrava: o Cabral, um companheiro da Universidade, apaixonou-se pela mulher d'um amigo e suicidou-se. O Nogueira, um bom rapaz mas um sceptico, começou a namorar a mulher d'um visinho,--brincadeira!--e a mulher toma o caso a sério, abandona o marido e vem metter-se-lhe em casa. E ahi estava o pobre desgraçado preso provavelmente para toda a vida. Estes eram casos recentes, mas outros aconteciam a cada passo. Elle fugia d'isso. Era quasi ridicula tanta felicidade conjugal, bem o sabia, mas ao menos que descanço!...
De resto, Jorge não se atrevia a aconselhar qualquer resolução. O tempo a indicaria. Era sempre uma loucura querer substituir inteiramente o destino e a sorte pelas inspirações da vontade. Parecia-lhe até uma falta de humildade, desmedido orgulho. Demais, o peccado não era grande. Tinha amores com uma mulher casada cujo marido a deixava a cada momento por uma amante?... De quem era a culpa? As cousas do mundo não se podiam tomar todas em casos de consciencia. No bom senso vulgar havia muito de razão e justiça.
Pensava Claudio que, se amanhã fosse á pharmacia e contasse aos companheiros d'outro tempo o que lhe succedia, alguem tomaria a serio as suas duvidas? Todos se ririam. Ridiculo, n'aquella comedia, só o Ricardo. Era a boa tradição e, quem sabe? talvez a boa regra. Afinal, o amante era vencedor. Por conseguinte, dormisse descansado e levasse as cousas alegremente. O tempo, o tempo lhe diria o que tinha a fazer. Não havia de tardar... que aquelle viver aborrecia.
Jorge voltou a Lisboa sem deixar no espirito de Claudio outra impressão, além da tristeza em que caia comparando-se com elle.
Aquelle sim, aquelle soubera viver! Voltava a casa aos braços da mulher e dos filhos, a um ninho de caricias e de affectos de que abertamente e tranquillamente podia fartar-se, isento de toda a duvida, livre de todo o remorso.
Porque não fizera elle o mesmo? Porque se lançára n'uns amores que a consciencia lhe condemnava, fossem quaes fossem as razões que o espirito buscasse para os legitimar? E porque não havia de emendar-se? Porque não havia de converter Emilia ao dever, como elle mesmo se tinha convertido? Ella seria então a primeira a desejar o seu casamento, a desejar vêl-o emendado d'uma vida de mentira, olvidando o passado, que pelas suas amarguras lhes serviria a ambos de lição, para os affastar de nova queda. Assim resgatariam, em longos annos de honestidade, a breve loucura d'algum tempo. Corajosamente, sem lagrimas, com a risonha serenidade da virtude, apartar-se-iam. Quanto a vida lhes seria então suave e boa!
Isto pensava, isto pensou durante alguns mezes sem se atrever a communical-o a Emilia. Temia a impressão que havia de lhe produzir a lembrança do abandono do amante, seu unico amparo, a sua unica alegria, d'ella que ninguem tinha no mundo, entregue ao marido que a desprezava, perdida no mais arido ermo de carinhos.
O receio e a compaixão traziam-n'o em mentira; ia addiando, addiando sempre a hora d'uma confissão que imaginava o seu dever e salvação e de que todavia tremia, não por elle que a tudo estava d'antemão resignado mas por Emilia que já então sabia ser moralmente fragil, inconsistente.
Pelo S. João foram, como de costume, a Coimbra, a casa dos Albuquerques. Claudio ia contrariado, absorvido, como andava, em preoccupações moraes que o traziam n'um permanente desejo de recolhimento; mas Emilia, em rapidas fulgurações, mostrava ainda todo o seu antigo ardor pela futilidade elegante.
--É mais uma occasião que tenho de te vêr de casaca e gravata branca, e assim é que ficas bem. Mas vê como te portas... Ha por lá muita menina bonita!
Era a recommendação habitual, quando partiam para essas festas.
D'esta vez, Emilia veiu de Coimbra preoccupada e distrahida, fallando a custo e evitando os olhos de Claudio. Este já não se illudia com taes modos e gestos; por muito frequentes os conhecia. Eram ciumes. Quantas horas afflictivas passára na capella da rua da Cruz para affastar essas tempestades que eram uma das dores com que a leviandade de Emilia sobrecarregava a sua atroz situação!
Antecipadamente sabia o que seria a sua primeira entrevista depois do baile, toda consagrada a explicações e a mentiras. Mentiras? Sim, mentiras. Emilia tinha razão. Claudio em toda a noite não tirara os olhos de Laura, uma filha do velho Albuquerque, cheia de graça e de candura, valsando com uma travessura infantil.