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Chapter 5

Chapter 53,922 wordsPublic domain

Vejamos outro. Balzac? Tambem não; era uma obsessão de gente fallida, credores e agiotas por todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a angustia da cubiça.

Outro ainda, vamos correndo a estante. Merimée! Ah! Merimée... este sim, este era um homem são. Sceptico, dizem. Que importa? Não é o scepticismo a verdadeira philosophia? Quem póde dizer-me o que é vicio e o que é virtude? Phantasias! O que existe é a natureza humana com todas as suas forças e a sua expansão. A harmonia ha-de sair da lucta, deixemos livre o instincto.

Abriu as _Cartas a uma desconhecida_ e foi sentar-se proximo da janella, comodamente estirado n'uma poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava uma sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de regatos, scintillações do orvalho na folhagem mimosa, balsamos das flores que desabrocham, vozes sentidas das aves que se amam e preparam o ninho.

Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia á sua doçura, pousou o livro sobre os joelhos e, apoz breves minutos de hesitação, lançou-o sobre a mesa e desceu a vaguear pela sombra dos platanos, á beira dos lagos que os ramos beijavam, curvados, em mystico amor. A imagem de Emilia não lhe deixava os olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que lhe diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de conquistador.

Ao meio dia foi almoçar.

De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo morbidamente irritado da atmosphera de fumo e de poeira em que permanecera durante cinco horas. Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente o somno; era um dormir febril em que o retrato de Emilia permanecia como visão insistente. Por isso, depois do almoço, cedendo á fadiga e ao torpor da digestão, adormeceu novamente n'um divan do seu gabinete. Quando accordou, eram cerca de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco estaria ao pé da sua amada.

Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais elegante que trouxera de Londres. A gravata era um problema; as mulheres attentam em todas estas frivolidades e é necessario satisfazer-lhes o espirito. Luvas, sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos a resolver e que Claudio considerou um a um, experimentando e observando, em frente do espelho.

Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da praça, lembrou-se de que tinha de passar em frente da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o traje. Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia ser que elle o não visse... Foi para diante. De facto, o pharmaceutico dormia a sésta. Por esta vez, estava salvo da interrogações compromettedoras.

Á porta da casa da rua da Cruz, em que morava Emilia, bateu de mansinho duas pancadas com a bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada despida e núa. Sentiu-se um abafado rumor de passos apressados e veiu abrir a porta uma rapariga descalça, os cabellos curtos, escondendo as mãos sob um avental de riscado.

A rapariga olhou Claudio com surpreza.

--O sr. Almeida está?

--O sr. Almeida está a descansar.

--E a sr.ª D. Emilia?

--A sr.ª D. Emilia acabou ha pouco de jantar.

--Leva-lhe este cartão e diz lhe que eu desejava fallar-lhe, sim?

E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma de ouro, um cartão em que se lia: _C. de Sousa Portugal_. Mandara-os fazer em Paris, eram os que usava no estrangeiro e já por vezes o tinham feito passar por conde.

A creada voltou:

--Que faça favôr de subir...

Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena, rectangular, com uma só janella saccada, e tendo por toda a mobilia um sofá coberto de palhinha, algumas cadeiras, um tapete, uma meza com um panno vermelho, sobre ella um candieiro, dois castiçaes, um par de jarras vasias e um album de photographias, e na parede um retrato a carvão, mal desenhado. A pobreza transparecia n'aquella nudez.

Emilia appareceu immediatamente, com um vestido de chita clara muito singelo, apertado no pescoço por uma larga fita de velludo preto e um alfinete de prata, um só annel, a alliança, na mão esquerda, o pequenino pé bem calçado de preto. Apertou a mão a Claudio e, começando a conversa, disse-lhe que o marido estava a descansar mas que ia chamal-o.

--Não o incommode v. ex.ª por minha causa, vinha só apresentar a v. ex.ªs os meus respeitos.

--Mas elle é que ha-de sentir não o vêr.

--Pelo amor de Deus lhe peço, não o incommode.

Sentaram-se. Fallaram da reunião da vespera e apreciaram a belleza das raparigas que lá foram. Claudio teria estado melhor se podesse conversar um pouco mais, e accentuava significativamente estas palavras; mas o juiz, coitado! é que já não prescindia do _whist_ e não quiz contrarial-o. A ella por certo não tinha acontecido o mesmo. Dansára toda a noite e n'isso estava a suprema felicidade, não era verdade?

A conversação da estrada de S. Braz recomeçava. Pela janella aberta via-se um largo campo em que uma rapariga graciosamente curvada ceifava, balouçando a fouce com agilidade, o azevem prestes a amadurecer que se estendia n'um vasto lençol, ondeando ao vento, em fugidios reflexos prateados; em baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando os caminhos e abrigando os regatos; ao longe, a orla negra do horisonte com os montes cobertos de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos fenos que seccavam ao sol, as pavêas alinhadas na terra e polvilhadas de pontos amarellos, murchas flores de malmequeres.

Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana era uma injustiça com a feliz sorte que o destino lhe concedia, dizia Claudio. Que linda payzagem! Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos pontos mais bonitos da villa.

--Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia; mas ou por estar habituada ao local ou porque realmente não está no meu feitio apreciar estas cousas, nunca penso em tal paysagem. Venho á janella para vêr se temos sol ou se temos chuva. Só este silencio é de morrer! Parece-me que estou n'uma sepultura, eu que fui educada no meio de tanta gente. Não! Por emquanto não me dou por convencida!

--Mas hei-de convencel-a, creia v. ex.ª Não me será difficil.

--Talvez...

--Com certeza. E mais tarde v. ex.ª ha-de agradecer m'o. Será o meio de se aborrecer menos em Albergaria.

N'isto, o escrivão assomou á porta d'uma alcova, em chinellos, sem luneta e sem collarinho, a camisa desabotoada.

--Oh! disse confuso, queira v. ex.ª perdoar, sr. doutor. Estava a descançar, senti fallar e levantei-me pensando que era o meu escripturario que ficou de me trazer esta tarde o borrão das novas matrizes da Afurada. De fórma que...

--Ora, sem cerimonia, á sua vontade. O que eu sinto é ter vindo perturbar-lhe a sésta, mas não queria deixar passar mais tempo sem vir apresentar os meus respeitos a vv. ex.as.

--Muito obrigado, muito agradecido, não era necessario incommodar-se.

--Estava admirando estas lindas vistas de sua casa...

--Ah! sim, não são más, mas a casa não presta para nada. Ora eu lh'a mostro que ella depressa se vê.

Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.

--Quem anda sempre com a mala ás costas, disse, sem paradeiro, não póde ter a casa em ordem. V. ex.ª vae pasmar da nossa sumptuosidade.

--Que importa! apressou-se a responder Claudio, accudindo ao embaraço de Emilia. Bem pequena era a nossa casa de Villalva e viviamos lá contentes. Estou quasi arrependido de ter mudado.

O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos quartos, uma sala de jantar e para além, indicava, a cosinha, a dispensa e um quarto para as creadas. Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha, este pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava o da janella; serve para os pequenos brincarem.

--Um cantinho delicioso; só esta vista vale um palacio, dizia Claudio.

--Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei uma casa que nem vidros tinha! Esta ao menos é mais limpinha.

De pé, em frente da janella, conversaram ainda algum tempo. Claudio pedia informações da casa, perguntava os limites da propriedade, quanto teria custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos de Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente vender-se-ia porque elle trazia a propriedade muito desprezada e arrendada.

--É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa um pouco mais abaixo, de fórma que podesse descobrir toda a varzea.

--Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!

--Não me quero prender, tenho ainda uma vida tão incerta... E não incommodo mais a v. ex.as, disse abruptamente, curvando-se e estendendo a mão a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que tinha vindo perturbar-lhes o seu socego. A culpa não é minha, a culpa é da amabilidade de vv. ex.as.

--Nós é que ficamos muito obrigados á sua amabilidade, replicava ella. Quando quizer apparecer... Estamos quasi sempre em casa; á noite mesmo, só saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.

--Não me despeço d'acceitar o favor, ia dizendo já a caminho da escada.

--Mesmo para vêr se me converte á boa doutrina...

--Hei-de converter, por Deus!

Claudio sahiu contente. A sua intimidade com Emilia caminhava a passos largos; ainda ha dois dias era uma desconhecida e já hoje lhe offerecia relações continuadas. O escrivão tambem devia estar contente; um desgraçado, sempre perseguido dos credores, havia de exultar com a amisade de quem lhe podesse valer com largueza. Era não desanimar nem perder tempo. Fallavam-lhe em ir lá á noite? Aproveitaria. Excellente! E depois Emilia cada vez lhe parecia mais tentadora. O que era a educação! Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre quatro paredes caiadas e núas! Que differença entre aquelles habitos e o desleixo provinciano. Já mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos, na sua modestia, os dois pequenitos de Emilia que via á tarde, na botica, passando da escola. Devia soffrer muito a infeliz rapariga, tão fina de nascimento, ligada a um homem estupido e boçal que necessariamente a trataria como a qualquer escripturario de fazenda.

Uma breve impressão de piedade lhe passou no coração, mas immediatamente procurou affastal-a. Era uma preza que buscava, uma amante delicada e fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, já com pretensões a gôsos artisticos; nada de romantismos. Se se punha com pieguices, tinhamos outra Conceição, e para vergonha uma bastava. Aquella desculpava-se por creancice; agora devia ser homem. Ia gosar, não ia chorar.

Cuidado, muito cuidado, para que não désse algum passo em falso e prejudicasse a sua grande ambição! N'isso é que devia pensar. O resto... nada de escrupulos; se não fosse elle, havia de ser outro; era impossivel que ella se não aborrecesse d'aquelle bebado que demais tinha, segundo diziam, uma amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que já teria acontecido pelas outras terras onde ella andou. Caça d'arribação!

E com estes pensamentos fortalecia o animo para a sua nova empreza.

Emilia dissera-lhe que apparecesse á noite; havia de o fazer, era até a hora que mais lhe convinha.

Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!

O dia livre para o estudo e para cuidar dos bens, a noite, essa noite que até agora tanto o enfadava, para as caricias da amante.

Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo pelo qual nunca podéra seguir no estudo cingindo-se aos programmas que architectava, fosse esta ausencia de prazeres.

Tambem devia contar com elles, como homem que era, para a propria perfeição, para alcançar a plenitude de desenvolvimento mental a que aspirava.

Para isso a influencia da amante devia ser salutar, vinha preencher uma lacuna da sua existencia.

Os impulsos de namorado transformavam-se na alma de Claudio em esperanças de gozo, de paz e de saber, d'essa vida tranquilla e nobre; e, o espirito enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em que havia de voltar a casa de Emilia.

Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve pela primeira vez. Mostraria uma pressa que ao marido se podia tornar suspeita, e vaidosamente resolbêra usar de todas as precauções que á sua conquista conviessem, como homem astuto e habil. Nem sequer lhe devia passar á porta.

Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos, palestrou alegremente com o boticario, passeou bastas vezes no jardim, e assim consumiu o tempo d'estes dois dias que precederam a nova visita a Emilia.

Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em boa disposição, a alegria distraia-o, inquietava-o. Em pouco tempo, pensava, viria a tranquillidade, quando a sua vida estivesse definitivamente fixada.

Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha tantas esperanças. Seria melhor vestir-se antes de jantar e poderia mesmo referir-se a esse facto na conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o aos seus olhos o habito elegante de, ainda na provincia e só, mudar de trajo para se sentar á meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair medeiava um espaço de tempo em que não sabia que fazer... Era melhor vestir-se então e a Emilia diria do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.

Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava tão profundamente? Sim, mas por costume, por vicio de educação de que necessitava corrigir-se. Se a mentira era um instrumento proprio a conseguir o seu fim, porque não o havia de usar? A lucta pela vida, a lucta pela vida! Grande lei! N'essa é que precisava inspirar-se.

O jantar, em companhia da velha mãe, que lhe chamava ceia e pouco comia porque, dizia, tinha jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou, ainda a noite não se tinha cerrado.

Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se pausada e esmeradamente. O relogio, parecia-lhe, caminhava lento; mau grado seu, achou-se prompto ainda não eram oito horas. Tinha-se impacientado talvez, apezar do proposito em contrario que fizera.

Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli, quieto; ia dar um pequeno passeio e depois das oito horas se dirigiria a casa de Emilia.

Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da descida, sentou-se n'um banco de pedra que alli havia. Não iria mais longe. A poeira enxovalhava o e não queria voltar a casa para se limpar; poderiam estranhar tantos cuidados.

A noite estava calma e morna; sobre a sua cabeça uma abobada de arvores colossaes, cortada a espaços breves e raros pelas manchas do céu que empallidecia á luz do luar nascente.

Além, para lá do valle em que as aguas corriam murmurosas, ficava a casaria da encosta, ainda na sombra; depois, a viva crista dos montes; por detraz, erguia-se a lua jorrando silenciosamente a claridade. Nos loureiros, á beira dos regatos, debruçados sobre alfobres mimosos, cantavam os rouxinoes.

Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor. A figura de Emilia passou-lhe nos olhos como uma apparição de pureza; não era n'aquelle momento a sensual amante que buscava, era uma belleza ideal que adorava.

Romantismo! oh! o maldito romantismo que o atacava! Quando se veria livre d'aquella molestia? Porventura seria incuravel e nunca chegaria a sua hora de forte e viril razão? Procurou dissipar estes sentimentos, que tinha por fraqueza, e começou a pensar no que iria dizer á Emilia.

Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos feminis, fallar-lhe de elegancia, mostrar-lhe com que luxo vivera em Paris, no _Continental_, e como sabia aprecial-o. Por este meio havia de alcançar a sua admiração; d'ahi a mostrar-se em confronto com a grosseria e a rudeza do marido, o caminho era curto. Não poderia escapar-lhe.

Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo. Podia ir sem risco de mostrar ignorancia dos costumes elegantes.

Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso e desesperado da sua anciedade. Sempre aquella fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis não, porque aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia da sua desproporcionada agitação mais o irritava. Que podia temer? Que o não recebessem? Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas em uma só batalha. Era pedir muito. Vaidade da sua parte; concluia. O que elle receiava era a infelicidade na sua empreza que tomaria por uma prova de incapacidade para as luctas do mundo. Coragem, firmeza! Não havia de succeder assim.

Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita descalça, correndo pressurosa, da cosinha, onde preparava o chá, mangas arregaçadas e o lenço mal atado, quasi solto, a cair-lhe nos hombros.

--A sr.ª D. Emilia recebe? perguntou Claudio, suspeitando de que Emilia o ouvisse e procurando uma linguagem elegante.

--Os senhores estão na sala, respondeu promptamente a creada. Faça favôr de subir.

Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, Emilia costurava, um pequeno açafate pousado ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um jornal approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza sobre que estendia os braços e o papel.

--Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida e franca alegria.

--Eu tinha promettido... começou Claudio.

--Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos dias em que não tenho de ir a Coimbra é sempre esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão deitados; mal anoitece, começam logo a cair com somno. A Emilia passa o tempo com os farrapos. A mim, o que me vale é o _Seculo_. É muito bom jornal. V. ex.ª não costuma lêl-o?

--Não, nunca o vejo.

--Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o que me vale. E ainda assim, quando Deus quer, ás nove horas estou na cama. Quando quizer... faz-nos muito favôr.

--Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho. Imagino que os celibatarios hão-de ser muito importunos para a gente casada.

--Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda não pude habituar-me a deitar-me cedo; antes da meia noite não durmo. Por aqui me entretenho conforme posso. E ainda v. ex.ª quer que me conforme com a vida de provincia!... Só estas noites são um castigo!

--N'esse ponto concordo. Tambem me custam um pouco.

Ia recomeçar a antiga conversação. Estavam satisfeitos os desejos de Claudio; teria ensejo de mostrar que, apezar das suas preferencias pela vida do campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica, experimentára-a, e em Paris tinha andado em todos os regalos do luxo. Para Emilia devia ser uma fascinação.

Mas em breve a conversação caiu no extremo opposto. Não era de Paris que se fallava, era de Villalva, da sua paz e das suas alegrias. Emilia ouvia-o com tanto interesse, tão meigamente o instigava á intimidade que Claudio, impensadamente, esquecendo todo o proposito anterior, caiu no mais completo abandono e começou n'uma confissão sincera, espontanea, d'um coração que estava a trasbordar d'affecto, almejando por um coração gemeo em que o vertesse.

Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo a casa, fôra encontral-o no leito, os olhos cerrados e a face livida, n'uma serenidade em que lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada consciencia.

Relembrava as silenciosas lagrimas da mãe junto do cadaver do esposo e quanta grandeza vira n'aquella mudez de estatua, n'aquella dôr tão pura que se concentrava recatada, como temendo polluir-se no contacto com a indifferença mascarada de lucto que sempre apparece n'essas horas. Elle, Claudio, não chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante esse quadro em que se resumiam tantos annos de communhão no amor e no trabalho. Intimamente perguntava em que dissipára os trinta e tres annos da sua existencia.

Só mais tarde é que poude sentir uma infinita saudade; só mais tarde é que percebeu bem o desapparecimento d'aquella sombra querida a labutar, a labutar, pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol, pelo frio penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo reverbero das estrellas. No primeiro instante, fôra apenas uma grande lição. Que era a sua vida de estudo ao lado d'aquella ignorada epopêa? Aquelle sim, aquelle tinha chegado ao posto, aquelle tinha sido digno.

A confissão corria torrencial, como as aguas do açude que se despenham. Ricardo ouvia e vagamente presentia qualquer cousa captivante; Emilia, na sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo e inconsciente arrebatamento de admiração. Já não provocava a conversação, interrogando; o mais espontaneo tornava-se para ella o mais agradavel. E, quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou com visivel pezar:

--Já?!

--São dez horas e não quero contrariar os habitos de v. ex.as Estou aqui ha duas horas! Para sécca não foi pouco.

--Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois não lhe faço a vontade! Não digo nada.

--Faz v. ex.ª muito mal. Quem cála consente e eu sou capaz de voltar.

--Queira Deus que seja breve!

Ricardo acompanhou Claudio até á porta e voltando á sala:

--Parece ter bom coração este rapaz, disse, dirigindo-se a Emilia.

--É muito sympathico e muito fino, respondeu ella. Ninguem ha-de dizer que foi creado na aldeia.

--Lá estás tu com toleimas. Imaginas que só essa gente de Lisboa é que sabe conversar. Um rapaz rico e que tem viajado!...

Emilia não replicou. Temia as brutalidades de linguagem do marido e não queria provocal-as.

Ambos se alegravam com as novas relações: ella, porque via em Claudio uma boa companhia para attenuar o aborrecimento das noites provincianas e o marido porque systematicamente cortejava todas as pessoas ricas que poderiam ter influencia, esperando alcançar melhor collocação. A sua aspiração, presentemente, era passar para recebedor; teria menos trabalho e mais alguns proventos.

Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz, descontente da sua inhabilidade, interiormente humilhado do seu procedimento. Não era aquella a conversação que tinha marcado como inicio de conquista; tinha feito tenção de fallar a Emilia da vida elegante e fôra contar-lhe intimidades de Villalva. Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter na vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre infeliz!

O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes lhe recusavam. E, depois, praticára uma ruim acção cujos aspectos negros a imaginação lhe avolumava, dando-lhe as proporções d'uma grande infamia; fallára a Emilia da morte do pae, a Emilia que d'antemão tinha considerado sua amante! Como, por que estranha aberração de todas as regras moraes, que tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as cousas intimas e sagradas, aquillo que no seu coração havia de mais recatado e nobre, com os mais baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno, e esta suspeita torturava-o.

A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta oppressão. A fadiga e a frescura da madrugada trouxeram-lhe porém duas horas de repouso. Pelas sete horas da manhã despertava e a alegria da natureza, o bulicio do mercado, que era junto á sua casa, todo o fremito de vida proprio d'aquella hora conseguiram infundir no espirito de Claudio a tranquillidade perdida e porventura um vago contentamento.

Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado da morte do pae, mas que mal houvera n'isso? Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a apparencia de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado com que olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar bem da sua honestidade. Os amores não tinham passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se na sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio. Não havia de que se arrepender. Tivera confissões intimas com uma mulher que conhecia ha pouco, mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar; a isto se reduzia a sua falta, se falta tinha havido. Não era motivo para inquietações.

Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar os serões de Emilia, duas ou tres vezes por semana.

Os fumos de conquistador pareciam apagados, lançara-os á conta das suas bastas phantasias, e entregava-se sem reserva á doçura d'um convivio em que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar Emilia. Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, muito bem educada; havia de gostar d'ella.

--Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas! Nunca me entendi com essa gente. Não saio do meu canto, estou velha para aprender costumes novos. E quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não ha um mez e já te parece uma santa. Caça d'arribação! dizia teu pae que Deus haja.