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Chapter 4

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Vieram moveis caros, louças da India, quadros, bronzes e damascos, comprados nos bazares de Lisboa por onde Claudio andou em companhia d'um antigo amigo e condiscipulo que era de gente fina e muito entendido em _bric-à-brac_. Veiu tambem um _landau_ e dois grandes cavallos francezes que tinham pertencido a um negociante que se arruinára em fundos hespanhoes.

--Pechincha! dizia-lhe o amigo. Isto que aqui vês por um conto e duzentos, custou mais do dobro. A carruagem é de Binder, os cavallos estão novos e os arreios são magnificos! O pobre homem vendeu a medo, envergonhado; se os tivesse annunciado e esperasse, era impossivel que não encontrasse quem lhe desse mais.

Gastaram-se n'esta primeira installação uns oito contos de réis dos doze que o José Portugal tinha deixado em Coimbra, á ordem do filho, em casa d'um commerciante da Praça Velha, que lhe cobrava os juros das inscripções e recebia as rendas que vinham do Minho. O velho, na sua escrupulosa honradez, pensava sempre em não prejudicar o filho em proveito proprio ou em proveito da filha casada. Por isso punha de parte aquillo que em sua consciencia entendia sobrar dos rendimentos da herança.

--Lá lh'o deixo, pensava, elle lhe dará a applicação que quizer. Não lhe hão-de faltar terras para comprar. Está ahi a casa do fidalgo que, por morte d'elle, se vem a vender toda. Já não podem com dividas.

Foi o amigo de Claudio, Jorge de Castro, quem veiu mobilar-lhe a casa.

Não havia que fiar em estofadores. Um dinheirão e tudo sem gosto! Ainda ha pouco vira na Avenida a casa do Antonio Ferreira, um negociante da praça que enriqueceu com a alta da borracha. Pagou mais de trinta contos ao Gaspar e não tinha um cantinho que se diga: benza-te Deus. Muita seda, muitos dourados, uma caixa de amendoas! Emquanto o José de Menezes, que se casou ha pouco, com um conto e quinhentos poz a casa como um brinco. A sala de jantar pouco mais tinha que a meza, uma credencia, velha baixela de estanho, meia duzia de cadeiras, suspensa do tecto uma lampada de bronze e nas paredes quatro prateleiras com pratos de Wedgwood, brancos, na sua brancura leitosa, de leite a desnatar n'um fundo escuro e mate.

--Original! concluia Jorge.

Aquelles objectos pareciam que tinham acabado de servir e que a todos os instantes estavam em movimento. Davam uma expressão de vida que os armadores de profissão desconheciam. Que barbaridades iam por essas casas de Lisboa! Havia-as armadas em capellas, com muitos pannos, papeis dourados, jarras de porcelana, flores artificiaes e castiçaes de prata; havia as armadas em tumulo, todas em estuque brilhante e frio; e havia-as tambem, de amadores improvisados, armadas em museu onde os moveis, aliás ricos e ás vezes de grande valor, se accumulavam sem relação, sem parentesco que os ligasse. Se lhes pozessem rotulos e preços, a loja era completa. O Menezes não; tinha muitissimo gosto. E sabia comprar: aquella sala de jantar não lhe custou talvez duzentos mil réis.

Claudio comprehendia mal a lição do amigo e estranhava o calor com que lhe era dada; no collegio nunca ouvira fallar de estofos e mobilias, em Coimbra vivera retirado de elegancias e em Villalva trabalhava-se de sol a sol; a mais brilhante peça da casa era a enxada polida entre os seixos da serra. Soubera pelos livros que a arte era a corôa da educação d'um bello espirito e queria-a tambem como tudo o que aos olhos da propria consciencia podesse engrandecel-o; mas outras eram as suas preoccupações interiores. Havia de aprender com tempo e paciencia, quando tivesse a sua vida mais assente. Não tardaria, pensava; tinha uma casa commoda e de bom gosto, o estudo havia de aproveitar-lhe melhor sob impressões deliciosas, os progressos seriam rapidos.

Não o pensava egualmente a mãe, abatida com tamanho encargo, a casa, as salas e os creados. Suspirava pela paz laboriosa de Villalva, baixinho, em silencio, não fosse o filho ouvil-a e desgostar-se com as suas saudades.

Estabeleceram-se novos costumes em conformidade com a nova vida, almoço ao meio dia, jantar ás seis horas, as manhãs para o estudo, as tardes para os negocios da casa, visita ás propriedades e passeios de carruagem, as noites... oh! as noites eram realmente um grave embaraço. A botica enfadava, era mesquinha com a sua baixa e insalubre curiosidade; o jogo era para velhas, um estupido brinquedo; em casa, o estomago pesado, frente a frente com a velhita, o tedio era extremo. De resto, ella gostava de fazer serão ao pé das creadas, na cosinha, com a sua velha rocca á cinta, fiando o linho de Villalva. Chegando áquella hora, Claudio não sabia onde se refugiasse.

Valia-lhe ás vezes Coimbra, alguma noite no theatro, onde por accaso encontrava quem lhe fallasse de Flaubert, de Zola, de Comte ou de Spenser, as grandes preoccupações de seus estudos. Mas isso mesmo era raro porque, nos cinco annos que lá tinha estado, levára uma vida bisonha, retrahida e poucas relações deixára.

D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos; Jorge de Castro, que ha pouco encontramos em Lisboa, aconselhando-o na installação do palacio de Albergaria, e José d'Albuquerque que mais tarde nos vae apparecer intimamente ligado á vida de Claudio.

Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento e de habitos. Fôra curiosa a maneira porque entre elles e Claudio se creára um profundo affecto, apezar das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.

Claudio passeiava habitualmente só. Vinha porém todas as tardes a uma livraria da baixa, na Calçada, procurando com avidez as novidades litterarias chegadas de França e prescrutando, entre os livros alinhados nas prateleiras, o caminho a seguir na sua ancia de saber. Era ali que invariavelmente encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos como Claudio a cousas litterarias. D'este modo, por este unico laço, começou a constituir-se essa amisade que a uniformidade de sentimentos e de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo porém o tempo escolar, Jorge fôra viver para Lisboa e em Coimbra só ficára o Albuquerque, em casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante, porque todo o apparato de luxo que encontrava brigava com os seus habitos e a sua educação.

Agora que mudára de ideias e de aspirações, aproveitava a hospitalidade do amigo, para desenferrujar a lingua, dizia, que era uma necessidade permutar ideias.

Nem assim, com todo este complicado artificio, podia conformar-se com a vida de estudo que architectara. Ás vezes possuia-se d'um invencivel fastio dos livros e corria ao jardim, plantando, regando, limpando as arvores e as flôres, voltando instinctivamente aos bons habitos da sua educação.

O jardineiro, que contractára em Lisboa, corria logo, que não se enxovalhasse s. ex.ª, elle faria o que quizesse.

Claudio desculpava-se; era para se entreter, que lhe fazia bem á saude.

--Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando a pericia do senhor.

Já tinha tido um patrão que tambem fazia o mesmo, o seu gosto era andar a tratar do jardim, mais era um grande fidalgo, empregado no paço da Ajuda, muito amigo do sr. D. Luiz!

O estudo não o satisfazia. Foi a conclusão a que Claudio chegou no fim d'um anno de residencia em Albergaria.

Talvez questão de ambiente, falta de incitamento pela ausencia de camaradagem adequada... O melhor era a experiencia, o conhecimento directo das cousas e dos homens, sair d'alli, vêr o mundo, os grandes espectaculos da vida, do trabalho, da arte humana e da natureza. Ainda sobrára alguma cousa do mealheiro que o pae lhe deixára, iria correr a Europa.

Começaria pela Hespanha, pelas margens do Mediterraneo passaria a Italia, regressando iria á Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow, voltaria pela Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz e a Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia a Pariz e faria alli quartel general, centro de todas as excursões.

Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano, dando-lhe conta da morosidade com que o seu estudo proseguia e da maneira por que pensava em adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.

Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga civilisação, e ficariam para successivas jornadas o Oriente e a Grecia, a India, o Japão e a America do Norte.

O amigo applaudia. Quem lhe déra poder fazer o mesmo! Mas tinha casado cedo, não podia levar a mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era contentar com a sua sorte. Passava o verão com a mãe em Loures, o inverno em Lisboa, e as suas viagens duravam habitualmente um dia, dois ou tres em casos muito excepcionaes.

Em Santarem, onde fôra com o Antonio de Mello e o Carlos d'Azevedo, gastára um dia, a jornada a Evora durou tres dias mas já não parava com saudades de casa, como quando veio a Albergaria, onde recebia cartas da mulher que eram um sermão de lagrimas.

Tudo tinha compensações, dizia afinal; se elle, Claudio, tinha a inteira liberdade de dispender o seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e alcançar uma vasta instrucção, elle, Jorge, tinha os carinhos constantes d'um lar amado e alegre. Não era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que se instruisse agora, que aproveitasse, e a seu tempo lá chegaria.

Claudio partiu em abril e jornadeou até ao fim de outubro com uma impaciencia desusada. Não parava em parte alguma, com sêde de impressões, uma embriaguez de aspectos desconhecidos propria de quem fôra creado em horisontes estreitos.

Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo observava, registando na lembrança conhecimentos novos.

Ás vezes deixava-se possuir d'um extremo cansanço, tinha saudades da sua terra, parecia-lhe que cousa alguma valia tanto como a paz de Villalva e até a imagem da sua Conceição d'outros tempos lhe passava meigamente pelos olhos. Fadiga! Eram momentos passageiros; com esforço e tenacidade juntaria larga copia de conhecimentos, em casa, no socego do seu canto, havia de digerir toda aquella massa informe, havia de dispol-a em theorias e systemas, e então o saber seria completo e o estudo deixaria de o enfadar.

Uma tarde, na Flandres, teve uma visão que lhe ficou de lembrança. Saira de Gand, de manhã, a vêr uma propriedade modelo que tinha tido o primeiro premio no ultimo concurso e, já proximo do pôr do sol, esperava o comboio n'uma estação de aldeia. A gare estava deserta e silenciosa; em volta os campos verdes e planos, emoldurados em altas sebes de choupos que oscillavam ao vento brandamente; raros casaes dispersos; em frente a casa d'um lavrador, uma velha á porta, fiando na roda, á maneira do norte, e ao pé uma creança recolhendo as gallinhas ao poleiro. Que seria da familia? Andava nos campos, certamente.

Em casa ficaram os velhos e as creanças fazendo o pouco trabalho de que eram capazes. Talvez alli estivesse a suprema sabedoria. Que andava elle a fatigar-se com vãos estudos? O mais sensato seria voltar a Villalva, casar-se e trabalhar; fazer como aquelles que alli via. Uma pungente saude acompanhando o sentimento da inamidade de toda a sua vida lhe apertou o coração e os olhos humedeceram-se n'um movimento de desalento profundo.

Pariz apagava essas impressões fugitivas; desfaziam-se rapidamente na sua atmosphera de luxo, de prazer, de epicurismo.

As theorias materialistas aprendidas nos livros confirmavam as instigações dos sentidos. Claudio convencia-se de que a verdade era a riqueza e o progresso dos gozos e das commodidades. A lucta pela vida reduzia-se á expansão naturalista, á conquista dos regalos do corpo. Que mais poderia significar? Que valor poderia ter o sacrificio pelos outros? Não lh'o encontrava, de facto. Talvez utilidade social... mas isso era uma cousa vaga, indefinida. Guia seguro só a expansão do individuo, a satisfação dos seus appetites; o resto, preoccupações moraes, eram vicios hereditarios, remanescente d'um estado metaphysico que a sciencia condemnava.

E n'estas idéas voltava em fins d'outubro a Albergaria, com um scepticismo convencional, mal ajudado pela experiencia do luxo dos hoteis caros das cidades, e sempre em contradição com constantes inclinações interiores para outras e mais altas paragens.

Os primeiros dias que seguiram o seu regresso foram para ouvir a mãe e visitar as terras. A mãe contava-lhe ingenuamente o que se passara na sua ausencia; as colheitas tinham sido boas, regular anno de vinho e abundante de milho. Não chegaram as vasilhas da adega, mas, como o filho não estava, não quiz sem consentimento d'elle comprar novos toneis e, para o que faltava, pediu-os emprestados. Encheu-se tudo o que havia em casa e mais duas vasilhas de noventa almudes que se pediram. Se o preço fosse bom, era uma riqueza. Iam agora começar com a azeitona. Tambem não era mau anno mas o feitor dizia que não passaria de metade da colheita anterior. Os creados é que muito lhe custavam a supportar, sempre com intrigas, com invejas, trabalhando pouco e exigindo muito.

--Grande náo, grande tormenta, dizia lembrando-se com saudade dos tempos de Villalva e do socego em que lá vivera durante quarenta annos.

Claudio ouvia com interesse as palavras da mãe. Involviam-lhe o coração n'um alento d'amor que ha muitos mezes desconhecia; todo se entregava a esta caricia que recebia como uma benção. Demais, nunca tinha esquecido a casa e as lavouras; os habitos da infancia arreigaram-se-lhe no espirito, o ruminar dos bois, o latido dos cães e o murmurio do arvoredo, todos os doces ruidos que acompanham a vida dos campos tornaram-se para os seus ouvidos o mais mavioso dos córos cuja harmonia lhe fazia esquecer o mundo e os homens para o confundir pantheistamente no movimento da natureza. No eterno canto que da terra se desprende, a sua alma vibrava unisona.

Por isso, voltando a casa, tudo corria e via, interrogando secretamente esses queridos seres que ainda na mudez lhe respondiam. As folhas dos platanos voavam já pelas ruas do jardim levadas no humido sudoeste que ia trazer as primeiras chuvas do inverno, os loureiros começavam a destacar negros entre os choupos amarellecidos, as aguas corriam livres, á borda dos campos relvosos, frescos dos copiosos orvalhos do outomno; abria-se a hora do recolhimento e da treva.

Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada a hora de recolhimento no estudo, pelas noites de inverno ou pelas suas geladas manhãs, junto ao fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado o espirito n'esta atmosphera amiga, havia então de estudar e, alliando com as leituras a recordação do muito que vira, as infinitas impressões que armazenara na memoria durante seis mezes em que correra sempre, n'este novo consorcio o estudo havia de ser captivante e util. Passaria ali o inverno, todo o verão seguinte, ainda outro inverno, e depois iria em nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria na sua educação.

Os dias porém iam correndo, estavamos já em meiado de novembro, e os livros trazidos de Paris jaziam intactos, em monte, a um canto do gabinete, entre recordações de viagem, um punhal de circassiano comprado em Tula, mosaicos de Florença e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de começar como um estudante relapso; todos os pretextos lhe serviam, a necessidade de frequentar o lagar que precisava reparação, as visitas a antigos conhecimentos de Coimbra, um novo curral que construia em Villalva, á maneira do que vira na Hollanda. Dissipava o tempo n'esta inquietação, com um inconfessado temor dos enfados do estudo. Lia desconexamente grande copia de romances, Bourget, Tolstoi e os russos, cuja fama no occidente despontava a este tempo, mas os volumosos tratados de sciencia e de philosophia continuavam esperando.

Ás vezes sentia saudades de Londres, de Paris e dos seus prazeres. Estudo, lavouras, deveres sociaes, destino da sua vida, tudo passava então ao rol das phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos? Não eram o seu legitimo direito? Amar, beber, regalar os olhos e os ouvidos nas maravilhas da arte, em artistica sensualidade, era o que lhe convinha, era o que cabia á sua edade, era o que havia de lhe trazer em recompensa o riso e a franca alegria de que tanto carecia e em que corpo e alma haviam de expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra a clausura.

E os piedosos conselhos da mãe? Coitada! Illusões das almas simples; a verdade era muito outra. Não tinha sido vão o baptismo nas aguas de cynismo epicurista em que se iniciára pelos templos afamados da devassidão cosmopolita.

Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia Emilia.

III

Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco fallou com Emilia, elle prezo a uma meza do _whist_, para ser agradavel ao juiz que sem isso se aborrecia, ella dansando sempre. Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz, as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, muito praticas em galanteios e n'esta especie de reuniões, de fluente banalidade. Animavam muito, dizia-se; com ellas e quatro estudantes que de Coimbra acompanharam o sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas seguiram-se quasi sem interrupção. Á meia noite parecia haver certo cansaço, mas, como o doutor mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, a alegria renovou-se.

--Que bella noite! dizia um dos estudantes para as damas. O peior é ámanhã a _cabra_. Eu ainda não vi nem uma linha da lição. Provavelmente já não me deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o que ha de ser de mim!

Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e via já ali correspondencia amorosa para uns bons seis mezes, apressava-se a responder-lhe:

--Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco temos o Sagrado Coração de Jesus. Não falte. Quero ver...

--Se eu poder... Queira Deus que não venha a cahir em férias de ponto!

Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por finda e Claudio veio então a uma janella respirar por um momento o ar fresco da noite e repousar a cabeça aturdida pela immobilidade e pela attenção forçada.

O dr. Carvalho, vendo-o só, abeirou-se d'elle para o distrair.

--Tem-se aborrecido muito, não é verdade?

--Não!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas meninas para nos communicar alegria. Esta D. Emilia, principalmente, é d'uma vivacidade...

--Ah! muito galante!

--E fina...

--Parece incrivel que ella ainda conserve estas maneiras fidalgas, a viver todos os dias com um homem d'aquelles!

--É grosseiro, o marido?

--Não imagina!

--Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um pouco amigo de vinho.

--Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e d'uma brutalidade nunca vistas. Eu conheço perfeitamente a historia d'essa rapariga, por um condiscipulo meu que era muito lá de casa d'ella e creio até que ainda parente.

E contou:

--Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos meios mas andando constantemente em muito boa roda, porque a familia era realmente muito fidalga. Os paes estavam quasi sempre por Penacova. Tinham ali proximo, no Chello, uns bemsitos, uma casa na villa, e para economisar,--coitados, não havia melhor!--viviam lá todo o anno, com excepção do tempo que passavam na quinta do morgado do Véro que os convidava muito, para os ajudar. Dos quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga, morreu de variola, dos rapazes um assentou praça, creio que já está tenente, o outro que era um estroinão, foi para o Brazil, e esta, a Emilia, casou, mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo era escripturario de fazenda e que só depois foi nomeado escrivão, por muita instancia do morgado do Véro com o Marques Lino, deputado pela Louzã.

Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha lá de Lisboa, habituada a muita convivencia e a muito namorisco, encontrou se só, não tinha mais ninguem que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes ainda se oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança de lhe arranjarem um casamento rico, mas começaram, com estas cantigas do costume, a dizer-lhe que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era o dinheiro que fazia a felicidade, e, como eram babosos pela filha e ella andava doidinha de todo, lá se deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora o Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é sei-o eu, um grande relaxado com muito pouca vergonha e muita impostura, que se convenceu de que a protecção da familia da mulher ainda o podia levar a escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se apanhou servido, fez-se então um bebado descarado, sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em casa com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta de obscenidade deante da mulher e dos filhos... É impossivel que esta mulher, para quem manobrasse com arte... Deus sabe até o que ella terá feito por outras terras!... porque não creio que ella com o genio desinvolto que tem e vendo o que o marido é e como a trata...

--Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.

--Não... mas aquillo não falha. Estava bom para si que é novo e tem tempo para essas cousas!

--Para mim?

--Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?

--Não são annos de fortuna! respondeu Claudio sorrindo e encaminhando-se para o centro da sala, d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.

--Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois, passeando a passos largos no seu gabinete, de regresso de casa do dr. Carvalho.

Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa, educação aristocratica. Que desenfado para os seus ocios de Albergaria!

Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada, o marido desleixado, sempre pelas tascas, repellente para quem se mostrava de habitos tão finos e sensibilidade tão delicada. Não devia falhar a aventura.

Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a confiança de Emilia, mais dois de correspondencia amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o resto estava certo.

Era claro! Uma mulher casada sabia bem para que era que elle lhe fazia a côrte. Não tinha a esperar casamento. Devia ser boa essa situação em que nunca podia haver compromissos de futuro. E o marido? Com aquella obesidade, calvo e de lunetas, não seria de temer.

Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro; não se mostrando muito avaro, havia de o manter em boa disposição. Um achado, um achado! O peior era a mãe; não havia de gostar, haviam de lhe produzir grande impressão os amores com uma mulher casada. Coitadita! Não sabia o que era a lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio aquelle immundo bebado guardava para si uma deliciosa mulher?

Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais do que qualquer outro; estavam no seu direito, haviam de amar-se livremente.

A natureza não conhecia fidelidades nem infidelidades; os seres attraiam-se por selecção natural, não havia fugir á lei.

Demais, isto era uma aventura; se a velhita se mostrasse muito contrariada, punha-se termo ao episodio. Nem a elle convinha prolongal-o. Um anno, quando muito; na primavera seguinte, malas feitas e a caminho do Oriente! Nada de se prender com pieguices; isso era bom para os tempos em que ia ao Outeiro fallar com a Conceição e tinha escrupulos de lhe tocar. Fôra bem tolo! Se fosse agora, o caso seria outro. Já era tempo de ser homem.

Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte iria visital-a. Era correcto. Continuariam a conversação da estrada de S. Braz, que ia em bom caminho de intimidade, e não sairia sem deixar ajustado sob qualquer pretexto novo encontro. Era preciso bater a caça sem cessar.

Os devaneios da imaginação amorosa prolongaram-se até altas horas da noite. E adormeceu contente, nas suas risonhas esperanças.

Pela manhã dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar como de costume! Abriu um livro de botanica, mas não estava em boa disposição de leituras scientificas.

Era melhor um livro de pura litteratura. O quê? Tourgueneff? Não; eram tristes estes russos com as suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria e a dôr. Eram fracos; questão de clima, de lymphatismo e inacção forçada pelos rigores da natureza. Com um sol tão lindo e o jardim como um açafate perfumado de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se em pensamentos sombrios.