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Chapter 3

Chapter 33,957 wordsPublic domain

Claudio ficára profundamente impressionado com a graça e a meiguice da rapariga, um modelo de mocidade e de doçura. Nos dias seguintes, vinha, como de costume, á botica, e ao entardecer não tirava os olhos da estrada, do lado de Villar, onde ella morava.

Ella passava sempre, ora só, sizuda e apressada, ora com as companheiras, rindo e parando a cada passo.

Já tinha percebido que o estudante a fitava; uma vez mesmo, ao voltar a esquina, para assegurar o seu juizo, olhára para traz. Não se enganava: elle lá estava, á porta, fitando-a sempre. Chegára até a dizel-o a uma das companheiras.

--Vês aquelle rapaz, o filho do José Portugal, de Villalva? disse-lhe. Quando eu passo, olha muito para mim.

--É bem rico, quem dera! respondeu a companheira.

Calaram-se. A Conceição não adiantou conversa, um pouco arrependida da indiscrição. Gostava d'elle, e, se ia só, ao passar em frente da botica, punha os olhos no chão e os passos embaraçavam-se-lhe.

Por seu lado, Claudio soffria o mesmo embaraço. Que fazer? Seguil-a? Mas ella não olhava para elle; a imaginação representava-lhe a resposta avessa com que seria repellido e o golpe que o seu coração soffreria. Depois, seria uma troça do boticario, do administrador, do escrivão... e elle gostava d'ella, não podia consentir gracejos sobre uma cousa em que o seu coração era parte. Escrever-lhe? Responderia ella? Estavamos no mesmo caso. Ia rir-se com as companheiras e d'ahi a dois dias andaria a carta em todas as mãos. Ainda era peior do que fallar-lhe.

Uma vez chegou a trazer a melhor rosa que encontrou no jardim para lh'a offerecer. Em logar de ir á botica, passearia e encontral a-ia em baixo, fóra da villa; ahi ninguem o via, o caminho é deserto, e fosse o que fosse poderia fallar-lhe sem maior perigo.

Foi. Na sua impaciencia, saiu cedo. Quando chegou á fonte, ainda não era sol posto. Começou a subir a encosta que liga a fonte com a villa; onde o caminho é menos devassado, n'uma curva, sentou-se sobre um muro, esperando a Conceição. O coração batia-lhe ancioso; pela imaginação passavam-lhe mil devaneios. Com que palavras começaria? Estava quasi arrependido. Para que se mettia elle n'aquellas cousas? Fugiria? Tambem não, era fraqueza. N'isto, n'esta oscillação entre o amor e a timidez, a Conceição appareceu com as companheiras habituaes Não lhe podia fallar. Para Claudio era um allivio, libertava o d'uma situação afflictiva. Levantou-se e dirigiu-se á botica.

--Muito tarde, hoje, sr. Claudio, disse o boticario.

--Demorei-me um pouco, respondeu laconicamente.

Ainda bem, pensou, que a penumbra da baiuca encobria o rubor que lhe viera á face quando o boticario lhe fallou.

Não tardou porém que os seus desejos fossem satisfeitos. Uma tarde demorou-se na botica e, ao voltar a casa, fez caminho por Villar.

Em boa hora!

A Conceição passava, atravessando a rua para casa d'uma visinha.

--Muito boa noite, meu amor.

--Muito boa noite, sr. Claudio.

--Por aqui, sem medo, a estas horas?

--Ninguem me rouba.

E a conversa continuou ligeira e alegre.

D'ali por deante já Claudio não receiava dirigir-se-lhe, estava certo do amor da Conceição. Dentro em pouco havia hora aprazada para se encontrarem.

Esses amores duraram dois annos e foram castos e puros. A Conceição era para Claudio um culto; tocar-lhe era maculal-a, era destruir o que n'ella havia de sagrado, a melhor fonte d'amor. As suas cartas respiram a mais estremada candura. De Coimbra escrevia-lhe:

Querida Conceição

Escrevo-te hoje para te mostrar toda a tristeza em que tenho andado. Desde que vim, nunca mais tive alegria, nem a terei emquanto não voltar para ao pé de ti.

Por muito que procure distrahir-me, trago sempre comigo a mágoa de não te vêr. Só para o natal ahi voltarei. Terei paciencia que outro remedio não tenho.

Queria ter ao menos a alegria de te fallar um instante mas isso não póde acontecer. Tu nunca aqui vens e eu não posso sair d'aqui.

Lembro-me de que estou longe de ti e a tristeza não me deixa, porque te adoro de todo o meu coração e serei até á morte

o teu

_Claudio_

Não podia supportar esta singeleza o rapaz de vinte annos, que do materialismo positivista tinha passado ao naturalismo na litteratura e lia agora Zola, deliciando-se no exame das baixezas humanas, sem attentar no que ellas encerram de grandioso e dramatico, ainda mesmo nos seus aspectos infimos.

O falso conhecimento das sciencias naturaes, consideradas superficialmente, junto ao vigor, nunca isento de brutalidade, de gente moça, haviam necessariamente de dar em resultado o desprezo da castidade e da pureza que d'ora em diante passariam a cognominar-se ridiculo sentimentalismo.

Por outro lado, a forma impressa na infancia á sua alma permanecia e permaneceria como o verdadeiro fundamento da sua natureza; a piedade christã, embora sob aspectos differentes, seria sempre uma fonte abundante e inexgotavel de idealismo.

Claudio não attingia a contradição intima entre a sua alma e as doutrinas aprendidas nos livros e nas palestras com os camaradas da universidade. Não eram as mulheres simples objectos de amor sensual atravez do qual a natureza assegurava a conservação e a propagação da especie? Fóra d'isso, tudo era doença, romantismo archaico ou timidez pueril.

E todavia não supportava sem um fremito de repulsão a lembrança de que a sua amada, um anjo que a aureola dos anjos envolvia, havia de desfazer em brutal sensualidade a frescura do seu rosto semi-divino e o meigo riso, irisiado de cores mimosas, que desabrochava nos seus labios como a rosa entre o orvalho da manhã.

Ignorava a contradição, parecia-lhe apenas inconstancia, que não desejava e queria todos os dias a mesma cousa; tomava estas fluctuações á conta de fraqueza do proprio animo.

Por fim, resolveu acabar com uma situação aos seus olhos ridiculamente inconfessavel. O que?! Amar uma mulher só para lhe dizer palavras doces, olhar para ella, contar-lhe o que se fazia em Villalva, ouvir a que horas ella ia á fonte e a que horas lavava a roupa?! Não era um homem! Não se atrevia a ir mais adeante, não queria tomar as responsabilidades do descredito d'uma rapariga? Por si não se importava com essas pieguices da aldeia, mas a mãe com certeza não gostava, iria magoar-se com o seu proceder. Elle tambem... não gostava; repugnava-lhe, embora as doutrinas que aprendera em Coimbra lh'o admittissem. Precisava fallar com franqueza á Conceição.

Uma manhã, em que ella tinha de vir a Alcofa, foi encontral-a na estrada e conversaram de pé, á sombra d'uma oliveira.

Eram oito horas; dos montes requeimados reflectia se um sol penetrante, na atmosphera quieta das varzeas o arvoredo esperava sequioso que a briza do norte viesse beijal o, um calmo torpôr invadia toda a natureza.

Claudio sentia-se mal, sentia-se fraco; talvez d'aquelle calor, pensava, mas na realidade a agonia vinha-lhe do coração, da vaga consciencia de que ia quebrar uma urna de affectos limpidos e sãos cujos pedaços jámais poderia soldar e cujo licor sagrado para sempre se perderia no pó em que tão impensadamente o derramava.

Aquelle momento havia de lembrar-lhe, muitos annos depois, com um arrependimento lancinante quasi com remorso.

A Conceição veio alegre e risonha, como de costume, entregue sem reserva á alegria de vêr o seu Claudio; elle opprimido.

Com um miraculoso poder de sympathia que tudo adivinha, a Conceição perguntou-lhe immediatamente:

--O que tem? Vem hoje tão triste!

--Tenho a dizer-te uma cousa que te vae fazer chorar, mas é preciso que t'a diga. Isto não póde continuar, disse Claudio brutalmente. Olha, Conceição, meu pae nunca consentiria que nos casassemos e então para que hei-de enganar-te? Hei-de ser sempre teu amigo, mas por isso mesmo não quero prejudicar a tua felicidade. Não te faltam bons casamentos, pódes ser ainda muito feliz. O mal é para mim que vou perder-te.

A Conceição chorava de dôr e de surpreza; nada sabia dizer.

Se era por ella ter feito algum mal, que lh'o dissesse, que não podia ser senão intriga; que só pelo amor que lhe tinha lhe custava deixal-o...

Claudio porém insistiu no proposito de terminarem as suas relações e apartaram-se, ella banhada em lagrimas, elle cruelmente alliviado por se libertar d'uma situação que começava a pesar-lhe.

No fim d'um anno a Conceição casava com um carpinteiro. Passa ás vezes na villa, o cesto á cabeça, quando leva o jantar ao marido, o farto collo a entrevêr-se pelo chambre desabotoado no pescoço para respirar na pesada atmosphera do estio. Claudio via-a, contente por se convencer de que os amores idyllicos não tinham sido estorvo á sua felicidade. Um dia a veria com saudades da ventura que perdera!

N'estes errores do espirito se consumiram os cinco annos que Claudio passou em Coimbra; ao fim d'elles era necessario voltar a Villalva.

O problema da sua existencia apresentava-se-lhe cada vez mais urgente, cada vez mais confuso, a alma dilacerada entre os impulsos mysticos que vinham da sua primeira infancia, as instigações do espirito inquieto por uma sciencia estreita e incompleta e vagos ardores de mocidade que o aconselhavam a calcar sciencia e mysticismo e entregar-se sem reserva ás expansões do instincto. Que fazer?

Poucos mezes depois de regressar a casa, vieram o administrador do concelho, o reitor do Ervedal, o prior de Villar, o regedor do Sabugal e o Rodrigues, grande influente nas freguezias da serra, convidal-o para a presidencia da camara.

Diziam-lhe que a eleição era segura, por esse lado nada tinha a receiar, ninguem lh'a disputava, mas, quando a disputassem, estava alli força sufficiente para a vencer, pois que os homens que alli via representavam mais de dois terços da votação de todo o concelho.

Tambem não faziam questão de lista, elle escolheria os collegas que quizesse; o que desejavam era um homem sério e capaz, porque não imaginava o que ia na camara. Uma ladroeira! Traziam toda a sorte de vadios a receber por conta do cofre municipal e até se dizia que o presidente estava alcançado.

--Dizia! Era certo, accrescentava o reitor do Ervedal. Ainda ha pouco, quando foi obrigado a entrar com a receita da viação, teve de pedir oitocentos mil reis ao José Maria, das Aranhas, e hypothecou-lhe a terra da Preza.

Claudio defendia-se; que estava muito novo, queria estudar e não se mettia em politica. Tudo intrigas, tudo dissabores!

--Não era politica, replicavam-lhe, era um serviço que prestava ao concelho. Visse o que o pae tinha feito na junta de parochia. Nas obras do cemiterio deixava tudo para estar ao romper do dia ao pé dos trabalhadores. Poupou muito dinheiro á freguezia com o seu zelo e a sua economia, e prejudicando-se porque para isso tinha de deixar a sua vida. Agora elle que era um rapaz formado e rico!... Até o entretinha! Que fazia alli, sempre agarrado aos livros?...

Depois... precisava pensar, em tres dias responderia definitivamente,--foi a evasiva com que Claudio se libertou dos seus interlocutores que começavam a fatigal-o com rogos e instancias.

Ao fechar a porta, recolheu murmurando:

--Pois sim! Contem com isso, não me faltava mais nada do que metter-me n'essa vinagreira.

O seu proposito de recusa era formal, mas temia o desgosto do pae que adivinhava de opinião differente. Só perante este queria desculpar-se, porque para os outros a resposta estava feita.

Consultou-o. Com grande surpreza sua viu que não o animava. Que não se illudisse, dizia-lhe, já sabia muito bem o que era tudo aquilo. Todos os que alli vieram tinham as suas pretensões; não o queriam na camara senão para as satisfazer. Bem se importavam elles com as cousas do concelho! Cada um cuidava de si, da sua fonte e da sua estrada. Quando esteve na junta, o Mattos, da Azenha, ficou de mal com elle porque não lhe mandou compôr o caminho do Freixial. Queria que lhe fizessem estradas para as suas quintas e não se importavam de mais nada! Tambem lhe não aconselhava que recusasse; um homem precisa servir para alguma cousa. Mas se imaginava que nos cargos publicos havia só honra e gloria, estava muito enganado; trabalhos e desgostos é que lá encontraria.

No fundo desejava que o filho acceitasse, considerava como um triumpho para a sua vida a situação de Claudio; mas já velho, conhecendo o mundo e amando o filho, invadia-o o desprendimento das vaidades e o egoismo do repouso, não se atrevia a aconselhar uma vida de inquietações.

Claudio, percebendo a hesitação do pae, recusou, e este, quando mais tarde foi prevenido pela mulher da resolução do filho, respondeu:

--Não está para os aturar. Faz muito bem. Tem que comer e quer viver descansado.

Não passavam porém sem deixar vestigios estes incidentes. Que fazer? que fazer? Não era a vida qualquer cousa que elle tinha obrigação de aproveitar em beneficio dos outros?

Toda a hypothese de solução, ainda que ephemera, fazia reviver o problema. Bastava uma proposta dos politicos da villa para que comsigo trouxesse longas meditações sobre a escolha entre uma vida d'acção e uma vida de estudo e meditação.

Os dias corriam longos entre o fastio dos livros, por uns vagos desejos da acção, e o desgosto da acção, por uma interior necessidade de recolhimento. Amores não os havia profundos, que este estado tudo turvava e embaraçava, só a duvida imperava dissolvendo e quebrando toda a energia e todo o movimento salutar e espontaneo.

Necessariamente haveria remedio para esta situação.

Era preciso procural-o no estudo, deveria estar n'esses montões de livros que se lhe accumulavam sobre a mesa.

O melhor era estudar, mas d'esta vez com methodo e conforme os bons principios, que nem os padres nem os lentes da Universidade lhe tinham dado instrucção aproveitavel. Começava-se pela mathematica e seguia-se pela physica, pela chimica, pelas sciencias naturaes, a terminar na historia, nas sciencias sociaes, nas bellas artes e na litteratura.

Quando tivesse levado a cabo esta empreza, então poderia fazer alguma cousa com plena consciencia.

E a pequena sala de Villalva encheu se de estantes de livros, de retortas e de apparelhos estranhos que a rude gente da aldeia olhava com curiosidade e desconfiança.

Não podiam porém varrer-se n'um dia os velhos habitos, mórmente no proprio local em que se tinham creado; não podia supportar o estudo aturado aquelle que fôra educado na liberdade dos campos e nos prazeres da vida rustica.

Claudio sentia-se fraco, incapaz de levar a cabo a sua empreza com a tenacidade que ella, no seu entender, reclamava; aborrecia-se do estudo, a cada passo trocava a leitura dos livros de chimica por um romance ou por um trecho poetico, vinha á botica saber dos namoros das raparigas e dispendia longas horas em um novo jardim que fizera no cerrado, á entrada da aldeia, onde o pae cavára uma cisterna e tinha a eira e os abrunheiros. Era quasi um escandalo. Que rapaz aquelle! Não fazia nada, ninguem sabia o que elle queria, alli mettido com os livros.

O regedor passou uma tarde de maio em que Claudio com uma thesoura limpava as roseiras dos pedunculos das flores desfolhadas.

--Tenha v. ex.ª muito boa tarde, disse-lhe.

--Ora viva o sr. regedor! Então como vae?

--Obrigado, como velho.

--Por aqui está a passar um bocado de tempo?

--É verdade.

--Tambem não sei que gosto é este. Ainda se fossem cousas que déssem fructo... mas a modo que não vejo por aqui senão estas ameixieiras.

--Eu gosto d'isto, respondeu Claudio já com certo fastio da conversa.

O regedor fez uma pausa e, bem ruminado o pensamento, exclamou:

--E a respeito de advogar, nada?!...

Foi a voz do povo, toda a aldeia assim pensava; não comprehendia aquelle viver mysterioso, aquella inercia, aquella ausencia de vulgares ambições mundanas.

O pae de Claudio tambem não estava contente, sonhára o filho dominador e poderoso, e via-o recolhido, calado, indifferente.

--Elle lá sabe! pensava comsigo.

Os camaradas de Claudio que tinha conhecido quando ia a Coimbra levar-lhe a mezada, diziam que elle era muito intelligente. E depois era rico, podia fazer o que quizesse...

Não queria metter-se em politica? Talvez fizesse bem. Para que? Para lhe gastarem dinheiro e no fim dizerem mal d'elle. Lembrava-se do que passára na junta de parochia, das ingratidões e desgostos que soffrêra.

--Elle lá sabe, elle lá sabe...

Era assim que concluia sempre as suas reflexões, continuando no trabalho como se não fosse rico, tal qual nos tempos em que todas as suas ambições se limitavam a ter mais uma junta de gado.

Demais, sentia-se muito cansado para vêr sem indifferença as cousas d'este mundo. A cada instante, nas palestras em que ficava ao domingo depois da missa, no adro da egreja, com os magnates da freguezia que o ouviam como a homem de muito juizo, dizia:

--Estou com os pés para a cóva.

--Ora deixe lá, está novo ainda para gosar esta vida. Os filhos ricos, agora é que é viver!

--Eu cá me sinto, respondia.

E ficava a scismar n'um abatimento, n'uma fadiga que o opprimia e que tinha como prenuncio de curta duração.

Não se enganava. No mesmo anno em que Claudio viera de Coimbra, o pae soffreu um ataque de _grippe_. Tinha ficado muito fraco; durante muitos dias arrastou-se pela lareira e pela sala, quasi sempre sentado, somnolento, caindo bastas vezes em prostração. O medico vinha vel-o, desconfiando d'aquella moleza, e um dia em que elle se queixou de que os pés lhe inchavam, auscultou-o.

--Ha alguma novidade? perguntou-lhe Claudio que o acompanhou até á porta do pateo.

--Parece haver ali qualquer embaraço de circulação, respondeu o medico com um gesto de descontentamento.

O velho ao fim d'um mez parecia restabelecido, sómente um pouco mais lento no trabalho. Esta fraqueza, esta fraqueza... Isto vae mal, dizia ás vezes. Mas a continuação dos seus lamentos sem symptoma de molestia notavel acabou por convencer a familia de que não havia perigo imminente. Assim se passaram cerca de dois annos depois do ataque de _grippe_ em que o medico confessára as primeiras suspeitas.

Uma tarde, ao recolher a casa, disse á mulher:

--Andei a podar as pereiras e vi geitos de lá ficar. Deu-me uma tontura que, se não me encosto a uma arvore, caia. Isto vae mal!...

Mas a mulher não deu grande importancia ao succedido. Seria fraqueza. Elle tambem não comia nada... disse-lhe. Sempre aquelle fastio... Era preciso chamar o medico a ver se lhe receitava alguma coisa que lhe désse apetite.

Alguns dias depois, já quasi esquecido aquelle breve incidente, o pae de Claudio deitou-se á hora habitual e adormeceu. O filho estava ainda para a villa, a mulher ficára a costurar e o creado preparava as estacas para a vinha. Estavam em fevereiro, as noites eram longas, ainda se fazia serão. De repente, da alcova em que o velho dormia, veio esta voz angustiada:

--Carmo, Carmo, acode-me, estou muito afflicto.

Ella correu ao quarto.

--Olha, disse elle, vê se me ajudas, quero levantar-me, falta-me o ar. Lançou-lhe o braço pelas costas, a mão apoiada no hombro, e, quando procurava erguer-se, tombou sobre élla, com todo o seu peso, morto, a cabeça pendida sobre o peito.

Para Claudio a comoção foi extraordinaria. Agora, perante os restos inanimados que tinham sido d'aquelle que mais respeitára, via em toda a luz o que significava uma vida de honestidade e de trabalhos, a riqueza e a ordem que em volta de si derramara durante tão longos annos. Para aquelle não tinha havido hesitações e o triumpho fôra completo; augmentou os bens, serviu os seus e os estranhos, toda a existencia foi um combate com a natureza, com os homens, com os acasos do destino. Os braços cairam de fadiga, mas o animo não esmoreceu até ao derradeiro alento. Quem lhe déra ser assim!...

Para isto, para estas reflexões, não precisava dos livros, nem leituras nem sabios o inspiravam; o pensamento vinha-lhe do coração, espontaneo, brotando da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez fosse vão todo o caminho andado, tempo perdido o que gastára á procura da verdade, folheando com avidez os tratados de philosophia d'esses homens que diziam serem os mestres da humanidade!

O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito, cada vez mais instante, aggravado pelas muito particulares circumstancias que a morte do pae trouxera. Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior que a toda a hora lhe eccoava no peito.

Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodára-se a um modo de cousas transitorio. Considerara a herança do tio como fortuna do pae e não consentiu que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente com as flores e os livros, ora no seu jardim, ora na sala alumiada e silenciosa do modesto casal de Villalva, ora nas palestras da villa, ora em solitarios passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando e estudando, quando não se quedava a fallar com a gente do campo, interrogando-a sobre os seus rebanhos e as suas lavouras. Estudava agora, depois decidiria o que havia de fazer. Não o satisfaziam os livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel de tudo aquillo e advinhava em si, sem as poder definir, outras ambições, outras esperanças, outros desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae vivesse, não sairia d'ali nem queria saber dos seus bens.

Hoje as circumstancias são differentes. Passados os primeiros dias de mais pungente saudade, começa a pensar, com um firme proposito de resolução, no caminho que lhe convém seguir. Estava rico, com vinte e quatro annos, que iria fazer da mocidade e da fortuna? Ficar ali?

Era um convento, uma vida estreita, e os livros com que se tinha aconselhado diziam-lhe que a existencia era uma lucta, o ascetismo uma doença, e a expansão de todas as forças, de todos os apetites e de todas as paixões uma lei natural, porventura a condição do vigor e da saude. O luxo e todos os seus prazeres eram bons. Havia desgraçados a quem isso offendia? Illusão, não era offensa, era a lei do mundo; eram vencidos, seres inferiores que o progresso da especie exigia que se consumissem na miseria. Não era isso o que a mãe lhe ensinára e intimamente sentia-se inclinado á piedade, á modestia, á doçura e á tranquillidade? Vicios hereditarios, casos atavicos, que a regra era luctar, o signal de superioridade vencer.

Ouviu a mãe. Disse-lhe que estavam ali muito mal, sem commodidades e sem conforto, que queria frequentar mais assiduamente algumas relações que deixára em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer em Albergaria, d'onde mais facilmente poderia sair.

Demais, pensava em fazer uma longa viagem que era necessaria para se instruir; custava-lhe deixar a mãe em Villalva, entre uma gente estupida, sem recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse n'uma doença ou n'um desastre. Lembrava se do que acontecera com a morte do pae; por pouco deixou de se vêr sósinho nos seus ultimos instantes.

A mãe ouviu com grande pasmo e surpreza. Na sua simplicidade, tinha imaginado que tudo estava muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de boas teias de linho. Não era aquillo toda a riqueza do mundo, não o considerava ella como supremo favôr de Deus e premio do ardor com que lhe orava? Isolamento não o sentia, que as horas eram poucas para o trabalho e corriam ligeiras no labutar constante. Tambem não comprehendia a falta de recursos; a doença e a morte vêm quando Deus quer, não temos mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a Claudio convinha sair d'ali, fizesse como melhor fosse para elle. Vivera sempre para os outros e agora que já não tinha marido nada lhe custava obedecer ao filho. A paciencia e a resignação não conheciam limites n'aquella alma.

Claudio começou pois a cuidar com impaciencia da sua nova installação. Arrendou um palacio, á entrada da villa, do lado do poente, com pateo nobre, escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas janellas saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim e pomares. Tinha sido, segundo se dizia, dos duques d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento rico de Coimbra que o arrendava barato porque não o queria improductivo, não queria, na sua expressão, cavallos d'estado.