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Chapter 20

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No alvoroço que em casa de Laura produzira a carta do dr. Carvalho, tinha resolvido D. Maria Francisca, porque o marido estava para a Beira, pedir a Jorge que viesse vêr o amigo.

Ainda se lembrou de aconselhar á filha que fosse a Villalva. Parecia-lhe elegante, de bom effeito no publico, esta reconciliação á hora da morte. Mas a filha revoltou-se.

--Isso nunca!... Não é pelas offensas que elle me fez, é porque a minha dignidade não me permitte entrar ali n'aquella casa e pôr-me a par com uma mulher réles...

--Bem, bem, não te exaltes, filhinha. Eu cuidarei de tudo, rematou D. Maria Francisca.

Foi então que telegraphou a Jorge.

Este veiu immediatamente, por Coimbra, para saber os desejos dos Albuquerques.

Laura desmaiou mal o viu, e a mãe levou-a em braços para o quarto, voltando á sala alguns minutos depois.

--Coitadinha! Muito tem soffrido! Eu nem sei como ella póde...

Mas logo, sem poder conter-se, continuou:

--Eu o que receio é que haja algum testamento e elle tenha passado tudo para as mãos d'essa mulher que lá tem!... O meu querido Jorge verá. Se não houver nada, peço-lhe que tome conta de tudo e, se houver, faça então como entender. Elle está muito mal, segundo o que o dr. Carvalho me diz, até talvez a estas horas tenha morrido... O que lhe peço tambem é que me mande um proprio, a cavallo, para se tratar do enterro logo que elle falleça.

Com estas instrucções partiu para Villalva onde foi encontrar o amigo, morto, sobre o leito, já lavado e vestido pelas mãos de Maria e do creado Luiz.

Não se atreveu a entrar sem pedir que o annunciassem a Maria. Ella veiu recebel-o á sala.

Jorge não teve coragem de articular uma palavra, tão grande era a commoção em que todo este drama o lançava.

Foi Maria que singelamente resolveu a situação, dizendo-lhe magoadamente e reprimindo as lagrimas:

--Então o senhor era o amigo d'elle?!... Ai! Que pena não ter vindo mais cedo!... Fallava tanto no Jorge quando delirava... Parecia que lhe queria dizer alguma cousa...

Immediatamente, como prescrutando n'um breve esforço o que significava ali a presença de Jorge, entre as lagrimas que já não podia mais conter, perguntou:

--Vem buscal-o, não é verdade?... E elle que tanto queria ficar ali ao pé da mãe!...

Pela manhã veiu um carro funerario, com penachos negros, a balouçarem-se no macadam, sobre o qual pozeram o caixão que continha o cadaver de Claudio. Maria viu-o affastar-se, de joelhos, orando ao pé da janella e pedindo, não a Deus que o tivesse junto de si porque no seu espirito não podia haver duvida sobre a salvação de Claudio, mas a Claudio que junto de Deus a protegesse e amparasse com o seu auxilio. O carro desappareceu entre as ramagens dos choupos que orlavam a estrada; ella voltou os olhos para os cyprestes do cemiterio, como querendo instinctivamente prender-lhes qualquer cousa que lhes roubavam, e ergueu-se a dar o peito ao filho que se movia no berço.

Levaram o corpo de Claudio para a egreja de Santa Cruz e pozeram-n'o sobre um catafalco rodeado de tochas accesas e muitas velas em serpentinas de prata. Cobriram-n'o de corôas feitas de pannos tingidos, em fórma de flores, e aos pés do caixão, do meio d'esse montão informe de enfeites, pendia uma fita preta com grandes lettras douradas, dizendo:

_Eterna saudade da sua Laura._

Em seguida aos responsos, pôz-se tudo a caminho do cemiterio. Um lente da Universidade dizia na carruagem para o juiz que o acompanhava:

--Vão mais de quarenta trens! Este Albuquerque tem ainda uma grande influencia!...

--Pois não tem! respondia o juiz. O genro, se não fosse tolo, podia ter feito uma linda figura. Ainda nas ultimas eleições se lembraram de o eleger deputado por Vizeu. Quem sabe?... Talvez ainda agora vivesse!...

Passados tres dias, n'aquelle campo em que Claudio costumava trabalhar, uma creança brincava á sombra das oliveiras. Ao lado, uma mulher, vestida de negro, ceifava o azevem. Era Maria.

Á mesma hora, em Coimbra, rodavam as carruagens a caminho do palacio dos Albuquerques. Ali, trocavam-se palavras doces em meio das paredes despidas dos seus adornos. Laura e a mãe discutiram longamente, maduramente, quantos vestidos havia a fazer, e resolveram mandar vir da capital uma modista em voga.

--Porque, dizia D. Maria Francisca, sempre é lucto de mais d'um anno!... Aqui fazem-te lá alguma cousa em termos?! Não has-de andar todo esse tempo com vestidos desageitados. Depois, vem a Figueira e precisas ter com que te apresentes. Tu bem sabes como aquella gente de Lisboa repara...

FIM