Chapter 2
A mãe acompanhou-os até á porta e logo os viu perderem-se na confusão da neblina mal illuminada pelo luar, ladeira abaixo, o pequenito pela mão do pae, atraz o creado, varapau ao hombro e sobre elle a caixa de folha, vibrando estridula e compassada. Ao fundo estava o carro. Claudio, mal elle partiu, adormeceu novamente. E assim foi, moido da jornada, accordando só por breves minutos se o chamavam, até ás alturas de Espinho.
Quando ali chegou, era madrugada; cedendo ao habito despertou. Onde estava? Que era feito dos doces ruidos de Villalva, da voz do pae marcando trabalho ao creado, dos passos da mãe na cosinha, abrindo a arca para levar o milho á creação? Tinha saudades, as lagrimas marejavam-lhe nos olhos, mas a novidade da payzagem e a vertigem do movimento distraiam-n'o e moderavam esta hora de angustia.
Estava ao pé do mar. Não o surprehendia, já o tinha visto na Figueira, quando lá fôra em romaria com a irmã, pelo S. João, no anno em que ella se casou; atraia-o esta vastidão inquieta que Deus creára e em que admirava o seu poder. Apearam-se em Villa Nova de Gaya e causou-lhe grande estranheza a ponte pensil; mas vira e não comprehendia como tinham lançado aquellas cordas de ferro, d'um ao outro lado do rio. As ruas e as praças do Porto pouco o impressionaram; eram semelhantes ao que havia em Coimbra, na Calçada, na Portagem e na feira de S. Bartholomeu. O padre Netto mostrava-lhe as estatuas, D. Pedro IV, D. Pedro V. Sabia quem eram? O mestre escola fallava d'elles, lá em Albergaria, mas era para os mais adiantados. D'uma só cousa os seus olhos não podiam desprender-se, cheios de pasmo e curiosidade: os bois. Estranhava-os muito, com os seus grandes cornos, em lyra, e as mãos tortas, quasi aleijadas, deformadas pelo trabalho violento na calçada. Eram feios; os d'elle eram mais bonitos, cornos curtos, pernaltos, aprumados e nédios.
Ao collegio devia chegar á noite, depois de cinco horas de carruagem. Iam continuar os aspectos novos que tanto captivavam a sua curiosidade de creança: Rio Tinto e os seus teares sem conta,--em Albergaria havia só um,--Vallongo e as pedreiras de lousa, e as vides a trepar pelas arvores e os valles estreitos e humidos com os seus altos milharaes. Oliveiras não havia. Com que se alumiavam? perguntava ao padre. O azeite vem de fóra, respondia. E aquillo o que é? dizia apontando uma construcção desconhecida, sobre quatro pilares de granito. É um espigueiro; guardam ali as espigas do milho até ficarem bem seccas e só depois é que o malham. Assim passou toda a tarde, interrogando, vendo, observando tudo o que se prendia com os seus habitos e com a propensão natural do seu espirito. O padre ia-lhe respondendo. Era um homem paciente e bom, muito habituado a creanças, sabendo conquistal-as.
Os primeiros dias do collegio foram maus, pouco de molde a apagar as saudades que Claudio tinha da casa. Os companheiros escarneciam-n'o ao vêl-o nos seus enormes sapatos, a roupa nova, angulosa e hirta, d'uma vastidão desproporcionada. Perguntaram-lhe quem era o pae.
--Meu pae, respondeu vaidoso, é o thesoureiro da junta de parochia.
Começaram a chamar-lhe o thesoureiro e Claudio, timido, vexado, sentiu-se só entre aquella multidão desconhecida. O isolamento em que vivera em Villalva, os aturados conselhos da mãe, ensinando-o cedo a distinguir entre o bem e o mal, o exemplo da austeridade do pae, mataram á nascença na sua alma todo o germen de expansão e de lucta, quebraram todas as forças animaes e deixaram o terreno varrido para n'elle se alastrar a dolorosa consciencia da obrigação.
Mandavam-n'o ali estudar; era preciso voltar a Villalva, exames feitos, coberto de louvores, sem uma falta. Temia a severidade do pae e temia ainda mais as lagrimas da mãe. O espirito da creança concentrou-se na sua tarefa; os mestres viram com admiração o estudo e a intelligencia do novo discipulo que vinha com fama de aprender mal.
O abbade, o tio, immundo e gordo, arfando de cansaço, vinha vêl-o algumas vezes e pagar as mezadas. Pouco fallava ao sobrinho.--Que era preciso estudar, eram as suas palavras quasi invariaveis. Pelo director sabia que ia bem e, como não tinha que reprehender, pouco fallava, porque, na sua opinião e na aridez do seu coração de celibatario, era preciso chamal-os ao respeito, não dar confiança a esses fedelhos.
Aos sabbados havia lição de doutrina christã. A primeira vez que Claudio foi interrogado, foi para elle um triumpho. Sabia tudo: os mandamentos da lei de Deus, os mandamentos da egreja, as bemaventuranças, as obras de misericordia, os peccados mortaes, tudo, tudo, até os inimigos da alma. Os camaradas ouviram-n'o com espanto e elle sentiu-se victorioso e contente. Havia de o contar á mãe; era uma boa nova a levar-lhe quando fosse a férias.
Um dia o padre Netto espraiou-se mais que de costume na lição; foi até fallar do inferno, dizendo que os doutores da Egreja ignoravam se era um logar em que se soffriam todos os tormentos e dores que o corpo póde soffrer, se um estado em que a alma andava errante, em continua agonia. Estranha revelação para Claudio, esta que para os seus camaradas passára incomprehendida! Ficou scismando. Vagamente percebia um céo e um inferno differentes d'aquelles com que a mãe o embalára. O theologo mostrava-lhe a dupla natureza do seu ser, sentia uma alma feliz ou torturada, mas inteiramente apartada do corpo. No seu espirito accumulavam-se os germens de meditação sobre a consciencia e o destino humano.
N'este mesmo anno levaram-n'o pela primeira vez á confissão. Foi um dia, que ficou memoravel na sua lembrança, assim como a inquietação que o precedeu. Quaes eram os seus peccados? Quantas pragas rogára? Tinha deixado alguma vez de estudar as lições por preguiça? Queria mal a alguem, aos professores ou aos camaradas? As duvidas traziam-n'o em sobresalto, porque era preciso dizer tudo para que a confissão fosse bem feita. Era preciso dizer tudo, e com sincero arrependimento e proposito de emenda.
Além d'isso,--suprema duvida,--era preciso arrepender-se pelo amor de Deus e não pelo temor das penas do inferno. Era realmente assim? Por esforço da vontade procurava obedecer ao amor de Deus, mas a sua consciencia infantil não podia alcançal-o. O temor do inferno predominava.
Fosse como fosse, o essencial era fazer a confissão completa e elle ia dizer todos os peccados de que se lembrasse.
O collegio ficava n'uma encosta; a egreja no valle, sobre a ribeira que o cortava. Descia-se rapidamente e seguia-se depois pelo valle acima, n'um caminho quasi plano, de grande lagedo de granito, orlado de carvalhos enfeitados de videiras; ao fim, um pequeno adro, a egreja e junto d'ella o cemiterio.
Ao romper do sol, o prefeito fez sair todos os que se iam confessar. Manhã de primavera, orvalhada, fresca, viçosa nos renovos do arvoredo; e Claudio opprimido, concentrado nas suas duvidas, sentia pela primeira vez bem nitidamente o divorcio entre a alma inquieta e a impassibilidade sorridente da natureza.
Com que delicia beberia o ar de manhã! Mas um demonio interior o suffocava. Começava a aprender o que era a vida humana.
Entraram na egreja, indo ajoelhar no altar do Santissimo; depois, levantaram-se e o prefeito mandou-os sentar n'um banco que ficava por baixo do pulpito.
O confessor era um só, o parocho. Um a um foram chamados os confessandos que, á maneira que voltavam, ajoelhavam rezando a penitencia. Claudio foi o ultimo. Rezou a confissão embaraçado e tremulo, mãos postas, cabeça curvada, os olhos fitos nos pés do confessor.
Começaram as perguntas, a seguir pelos mandamentos da lei de Deus e depois pelos mandamentos da egreja. A quantos tinha faltado? Mentia? Ah! n'este ponto tinha um peccado que fôra o seu primeiro grande remorso.
Um dia, um domingo, tinha chovido de manhã, e de tarde o prefeito mandou-os vestir para sairem; estava uma tarde calma, o ar carregado, os caminhos cobertos de lama. Claudio vestiu o fato preto e calçou os sapatos novos para se mostrar aos companheiros em trajos ricos.
--Para que anda o menino a estragar esse fato? perguntou o prefeito.
--Tinha frio, respondeu Claudio.
Mentira; não era frio, era vaidade. O remorso ia ficar-lhe de lembrança. Para o futuro seria mais corajoso.
O padre, um velhito, magro e bondoso, vendo o mundo já da beira do tumulo, sorriu com sympathia á pureza da creança, não quiz ouvir mais, mandou-lhe dizer o acto de contricção e absolveu-o.
A natureza sorria tambem nos gorgeios das aves que esvoaçavam fóra, no cemiterio, e nos suaves raios do sol da manhã que pela estreita fresta da sachristia alumiavam docemente a pobreza dos gavetões carcomidos em que o padre guardava o calice, a alva e as vestes.
Claudio veiu ouvir a missa e saiu da egreja contente. Sentia-se bem, a consciencia e a virtude tinham vencido todas as duvidas; pela primeira vez experimentava a grandeza d'um dramatico triumpho intimo.
Com excepção d'estes breves incidentes, que jámais se apagariam da sua memoria, a vida do collegio foi para elle monotona e triste; timido no recreio, vivendo pouco intimamente com os companheiros, todo se entregava ao estudo. Os mestres estimavam-n'o. Um d'elles ficára pasmado do modo porque Claudio lêra um longo trecho de Garrett contando a pobreza de Camões. Não se conteve que não exclamasse:
--Muito bem! Torna a lêr para estes meninos ouvirem. Impressionava-o a emoção com que a creança lia e que provinha d'uma penetrante comprehensão das dôres que o poeta cantava.
No fim do anno eram os exames, em Braga, onde os pobres rapazes iam arrebanhados, pallidos, enfermos de desconforto, afflicções e receios. D'ahi dispersavam em férias, cada um para a sua aldeia.
Claudio veiu em companhia do padre Netto que em Coimbra o entregou ao pae a quem chamou de parte para lhe dar informações do filho. Ia muito bem; muito applicado e muito socegado; fizera só instrucção primaria e portuguez, mas no anno seguinte devia fazer exame de francez, de desenho e até talvez de geometria. O abbade estava satisfeito; já lhe tinha dito que se o rapaz assim continuasse, o melhor era mandal o para a Universidade. Sempre era outra cousa, outra posição, para que servia ser padre sabia-o elle, por mal dos seus peccados. Isto tudo aqui para nós, concluia; não se lhe póde dizer nada. Se a gente vae a gabal-os, fazem-se tolos e ninguem os atura.
O pae levou Claudio para Villalva. No caminho desceu um pouco da sua habitual frieza, perguntando ao filho o que fazia no collegio, se gostava d'isto, se não gostava d'aquillo, quantos eram os mestres e se lhe tinham dado muitas palmatoadas. Começava a respeital-o; o que o padre dissera, incendiava-o em ambições. Formado e com a fortuna do tio, a advogar, mandaria em Albergaria; via-o já presidente da camara, talvez deputado. O filho do Antonio Simões, de Barreiros, não era mais do que elle e estava em Lisboa nas côrtes, um fidalgo. Pois algumas vezes lhe tinha emprestado ás tres e quatro moedas para mandar a mezada ao rapaz! Agora era elle que mandava dinheiro ao pae; ainda ha poucos dias déra mais de sessenta moedas pelo Cerrado de Baixo, na Cruz das Almas.
Os primeiros dias de férias passados em Villalva foram uma festa para Claudio. Veiu a irmã e ella juntamente com a mãe, ambas contentes e orgulhosas, pedia-lhe a narração do que se passava no collegio, como era a jornada, os exames, o Porto, a cidade de Braga e o Bom Jesus do Monte. Quem lhes dera poder ir lá! Claudio, por seu lado, sentia uma nova atmosphera; ainda ha um anno esquecido, quasi abandonado, via-se agora cercado de attenções que eram novas para elle. Convertera-se n'uma esperança de riqueza e de poderio, lisongeava a ambição do pae, a vaidade da irmã e a piedade da mãe que tudo attribuia ás suas orações, ás esmolas que dava e á recompensa divina. O filho ouvia-a; com ella cria tambem que toda a sua sorte vinha da vontade de Deus, mas a edade e a alegria de voltar ao seu casal não o deixavam prender-se muito a esses pensamentos. Os seus cuidados eram a admiração das flôres que deixára plantadas, os gados, os campos e as colheitas. A sua vida consubstanciara-se cedo com a d'esse mundo natural que era o companheiro inseparavel da sua alma e do seu corpo.
Uma tarde, em setembro, a mãe começou a sentir uma pequena dôr no ventre. Foi continuando no trabalho, arrumando a cosinha e preparando a ceia, mas as dores repetiam-se cada vez mais frequentes e agudas; seguiam-se uns ligeiros suores e, depois d'uns instantes de abatimento, parecia-lhe que ia adormecer, concebia uma vaga esperança de cura. Eram simples remitencias; o mal estava apenas incipiente. N'uma crise, a mais violenta, chamou o filho:
--Claudio, estou muito mal. Tenho uma dôr aqui, e punha a mão sobre o ventre. Valha-me Nossa Senhora! Se eu désse um passeio, talvez me passasse.
Foram para o quintal e lá se arrastou pelo carreiro junto ao muro. Poucos passos deu. A dôr voltava, ella encostada ás arvores esperava que abrandasse para dar alguns passos. Por fim, não poude mais; veiu para a sua alcova. Era quasi noite e o marido recolhia.
--Não te quiz mandar chamar, disse-lhe, para te não tirar do trabalho... Ha duas horas que não páro... Não sei o que isto é... E torcia-se angustiada, os olhos cavados, as faces desfiguradas.
Mandaram chamar o medico.
--Era melhor chamar o padre, dizia ella; e a Maria, a filha. Mas não... a esta hora... coitada... ficam lá os pequenitos sós... ai! meu Deus... eu morro... morro... Estorcia-se, desgrenhada, os olhos em alvo, os braços nús, punhos cerrados.
Veiu o medico e receitou. Emquanto o creado corria á botica, preparavam um banho. Tudo faltava, agua e banheira. A confusão era extrema; a dôr não abrandava. Só cerca das dez horas chegaram os primeiros medicamentos.
Bateram onze horas. O mal não declinava. O pae de Claudio estava aterrado.
--Isto não melhora, dizia para o medico, fitando-o com olhos interrogadores e anciosos.
--Espere, espere... por emquanto ainda não é tarde. Então?! Não me esteja a desanimar. Parece que nunca viu ninguem com uma colica. Pois olhe que eu não tenho visto poucas e até hoje, graças a Deus, ainda nenhum doente me morreu d'isso.
Claudio fugira para longe; chorava mas não queria que o vissem chorar, temia o pae que por certo não deixaria de o reprehender pelas suas pieguices, como elle lhe chamava. Queria rezar. O oratorio era na sala e estava lá o medico. Abriu a porta de mansinho, atravessou o pateo e, seguindo o carreiro onde á tarde estivera com a mãe, foi ajoelhar-se lá no extremo, debaixo d'uma oliveira. A noite estava serena: o luar cobria os montes de que vinham as exhalações quentes que succedem ás calmas do estio. Ajoelhado, de mãos postas, fitando os astros, via a face da Virgem, sentada no seu throno de gloria, entre nuvens douradas. Orava e ella via-o:--Ave Maria, cheia de graça... Respondia-lhe um olhar de doçura e esperança. Quando voltou a casa, finda a oração, a mãe dormia extenuada e pallida.
Accordou á uma hora da noite. Ainda ali estava o medico.
--Então?! Está melhor? perguntou-lhe.
--Agora estou bem, graças a Deus. Muito cansada.
A fé de Claudio tinha n'este momento confirmação plena; no seu coração estavam lançadas sementes que o tempo podia transformar, mas nunca anniquilar.
Estes dois mezes de férias em Villalva foram para Claudio um começo de revelação consciente da felicidade d'aquelles logares. Ao chegar a noite da partida, não poude, como da primeira vez, vêr distrahidamente os cuidados da mãe e adormecer; foi uma noite de lagrimas e de saudade confessada. Ainda tres dias depois, no collegio, a um canto da sala de estudo, tinha uma nova crise de lagrimas. Um dos mestres passou n'esse momento. Vendo-o a chorar e adivinhando o que se passava no espirito da creança, disse-lhe compassivamente:
--Deixe os livros, deixe os livros, vá brincar.
As saudades não turvavam porém a applicação do collegial. Pelo contrario, o desejo de voltar a Villalva triumphante, como no primeiro anno, a alegria dos paes e os carinhos que d'ahi vinham e de que a sua alma era tão avida, constituiam uma ambição sempre presente á sua lembrança e que o mantinha invariavelmente no mesmo caminho. Durante seis annos, que tantos foram os que consumiu n'estes estudos preparatorios, a sua vida manteve-se n'uma linha ininterrupta de respeito, de obediencia, de concentração, d'estudo e de fé. Se lhe fosse possivel fazer parar ali o desenvolvimento do seu espirito, teria ficado um alto exemplo de caracter e de firmeza. Mas outros destinos e outras amarguras lhe estavam reservados.
Aos desesseis annos matriculou-se na Universidade. O pae queria vel-o advogado; Claudio, como de costume, ia fazer-lhe a vontade.
A entrada na Universidade não desvanecia, antes accentuava, os caracteres da sua alma anteriormente adquiridos. Semelhantemente ao que lhe acontecera quando entrou no collegio, sentia-se por timidez e por natural pendor alheio a esta turba multa que o rodeiava, alegre, buliçosa, fremente de actividade e de pujança; a primeira e a nova situação eram rigorosamente parallelas, áparte um estado de consciencia agora mais determinado e em breve na sua plenitude. O mundo era para Claudio uma obrigação pesada e instante: alegrias, expansões sadias do naturalismo juvenil, tudo devia ser pautado e regrado pelo dever immanente. Desgraçado! Mal sabia elle a que abysmo corria.
No inverno immediato á sua entrada na Universidade, deu-se um acontecimento que havia de ter na sua vida as mais profundas consequencias. Morreu o abbade e instituiu-o universal herdeiro.
Deixava a quinta da Nogueira, propriedade afamada, inscripções e numerosas dividas activas, ao todo uns bons quarenta contos de réis, conforme o pae de Claudio lhe mandou dizer. Fôra elle que cuidára do inventario e liquidação da herança, visto que o filho era menor ainda, mas contrariado porque, dizia, estava habituado a cuidar os seus bens, não sabia cuidar de bens alheios, nunca fôra procurador. No fundo, não podia fugir a um vago ciume e inveja por se sentir, por aquelle lado, em grande inferioridade relativamente ao filho. Demais, sempre esperára que o irmão, embora muito inclinado ao sobrinho, o deixasse ao menos usufructuario; não podia tolerar sem tentações de revolta esta condição d'um subordinado que sabia que em breve seria independente de qualquer auctoridade. Por isso, quando Claudio veio passar o natal a Villalva, o pae, que desde a morte do tio nunca mais o vira porque evitava a occasião de o encontrar, addiando um momento que lhe era desagradavel, disse-lhe seccamente:
--Teu tio deixou-te tudo. Ora tu tens dezesseis annos e a lei dá-me o direito de administrar o que é teu até á tua maioridade; mas a minha tenção é emancipar-te aos dezoito annos. Se queres, toma já conta do que é teu; para mim é um descanço. Sabes muito bem o que tens a fazer, já não és nenhuma creança.
Vingava-se, desprezando o que a fortuna lhe negára.
Não o comprehendeu assim Claudio, na sua simplicidade; tomando por generosidade e desinteresse o despeito do pae, commovido, pediu-lhe para que continuasse a cuidar dos bens da herança. Nada queria senão a mezada que já tinha; vivia satisfeito.
O pae recusava, mas os rogos e as instancias acabaram por convencel-o. Cedeu, talvez contente; julgava o filho humilhado e a humilhação pagava-lhe em grande parte o despeito de não ter sido herdeiro.
Não obstante as circumstancias muito particulares em que Claudio ficava vivendo, em completa e espontanea dependencia do pae, a herança que acabava de receber tinha, desde já, na sua vida a mais poderosa influencia. Affastava de vez todas as preoccupações de ordem material, garantia-lhe de futuro uma riqueza que era de sobra para os seus modestos habitos; a salutar necessidade de ganhar pelo seu braço e pelo seu engenho o pão de cada dia ser-lhe-ia desconhecida.
A sua carreira estava traçada pelas condições particulares da existencia que agora se reuniam ás lições que aprendera no regaço da mãe. A vida era uma obrigação de fazer bem. Simplesmente restava determinar o que era o bem.
Nas poucas relações que em Coimbra creára, veio encontrar uma atmosphera absolutamente differente da que deixára no collegio.
Deus não existia, era uma invenção do mêdo, conservada pelos reis e pelos padres que especulavam com a crendice popular. Onde estavam as provas da sua existencia?
O positivismo, unica sã philosophia, mandava que só na observação e na experiencia nos fiassemos. Só o que d'ahi vinha era certo, o resto ficava ao sabor de cada um. Não era pois verdade o que os padres e a mãe lhe tinham ensinado.
Deixou-se levar n'esta nova corrente. Obedecendo a uma sêde interior de verdade, ouvia e meditava o que os camaradas estudiosos lhe diziam e lia com avidez as obras que elles lhe indicavam.
De lições escolares pouco cuidava, que os lentes eram uns velhos estupidos e ignorantes, do novo methodo nada sabiam. Buchner, Spenser, Comte, Littré, Darwin, Taine e Haeckel, esses eram verdadeiros mestres. Era lêl-os, estudal-os, e ficava-se senhor de toda a verdade. A «Historia da creação», de Ernesto Haeckel, foi para Claudio uma revelação. Estudou-a, linha a linha, em frigidas noites de inverno, debruçado sobre a banca de cerejeira, mettido em cobertores de papa, á luz frouxa do candieiro d'azeite.
Começava a comprehender o novo mundo: a creação foi uma fabula que a ignorancia inventou, os seres transformavam-se, e a pedra, a rosa, a salamandra e o homem eram formas d'uma mesma actividade, producto apenas de leis constantes e universaes; no mundo tudo é rigorosamente derivado d'um estado anterior, a flôr é uma folha que se transforma. Por conseguinte, o que é bem e o que é mal? Tudo é relativo, diziam os novos evangelhos, não ha bem nem mal, o assassino e o santo são dois productos naturaes do mesmo quilate.
Era n'esta crença que aos dezoito annos Claudio regressava a Villalva, satisfeito com os progressos do seu espirito, occultando porém á mãe o seu modo de pensar, resolvido a supportar a sua religião. No fundo, não tinha mudado; só uma ingenuidade infantil lhe fazia crêr que estava regenerado e lhe deixava passar ignorada a contradição interior. Não só todo o seu trabalho provinha d'uma ambição de verdade que não aprendera nos livros que estudava mas que tinha sido previamente lançada no seu coração pelo amor e pela piedade maternal, mas ainda todos os actos da sua vida lhe negavam as affirmações do espirito.
Não o via; o desenvolvimento da consciencia não era ainda sufficiente para lh'o revelar. Sem embargo, a contradição era completa.
Que o digam os seus primeiros amores que foram d'esse tempo.
Á tarde, Claudio descia de Villalva; vinha á botica da villa, em frente da praça, ouvir os ociosos que por alli paravam e ensinar-lhes politica. Que eram o Fontes e o Braamcamp? Idiotas! Sabiam porventura alguma cousa?! Nem sequer conheciam os grandes livros modernos em que se aprendia a sciencia social.
O administrador escandalisava-se com a petulancia do rapaz.
--Era para isto, dizia, que os mandavam a Coimbra e que o pae e o tio tinham andado toda a vida a trabalhar. Se elles lhe tivessem mettido uma enxada nas mãos, seria bem melhor.
Claudio ouvia as reflexões do administrador que só confirmavam a sua vaidade. Uns estupidos, uns brutos! Elle é que sabia.
Foi n'uma d'essas tardes, emquanto passeava d'um ao outro extremo da sala, em frente do boticario a jogar as damas com o recebedor, que, n'um momento em que assomou á porta, viu passar uma rapariga loira, alta, reforçada e agil, cantaro á cabeça, a caminho da fonte.
--Quem é? perguntou ao boticario. Que linda cousa!
--É a Conceição, filha do Manuel da Aveleda. Olhe, cuide-me d'aquillo, cuide-me d'aquillo que está no seu tempo, accrescentou o boticario. A minha pena é não lhe poder ser bom.
E distraidamente fez avançar a sua «dama».