Transviado

Chapter 19

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De facto, escreveu, mas em termos inteiramente despreoccupados «O Claudio», dizia a Jorge, «com aquelle genio romantico que nós sempre lhe conhecemos, metteu-se em Villalva a cuidar dos rouxinoes e das flores e parece, segundo dizem, que arranjou lá uma amante de que já tem um pequenito. Minha mãe e Laura andam em braza com a noticia e querem muito que tu lhe escrevas, aconselhando-o a deixar aquella vida. Duvido muito que o leves a mudar, que elle com apparencia de indifferente é muito teimoso, mas, se lhes quizeres fazer a vontade, e tambem para me livrares d'esta continua cegarrega, dize-lhe d'ahi alguma cousa.» Depois, passava a fallar longamente das suas investigações. «Tem-me dado bom trabalho», continuava, «o tal sr. Castanheira d'Almeida que, com uma petulancia sem precedentes, se lembrou de fazer sobre a vida d'el-rei D. Diniz as mais estupidas affirmações. É claro que não era cousa que se sustentasse cinco minutos, mas é preciso não deixar correr estes erros, convém destruil-os pela raiz, e por isso... etc.» N'este tom escreveu duas folhas de papel.

Jorge, porém, que, por inclinação natural e pelas circumstancias particulares d'uma vida feliz, se habituára a considerar a familia uma cousa sagrada, ficou muito impressionado com a noticia, parecendo-lhe que Claudio praticára a maior das loucuras e renunciára para sempre a toda a felicidade, lançando-se n'um mar de inquietações infinitas.

Sem mais tardar e com grande anciedade pela situação do amigo, que se lhe afigurava cruel, escreveu-lhe palavras de conselho paternal todas impregnadas de carinho, de mágoa e de esperança. Procurava convencel-o, mostrando-lhe que a familia era o verdadeiro fundamento de toda a ordem moral na sociedade e relembrando-lhe as ideias com que a organisara; invocava os seus sentimentos de rectidão e de lealdade para exigir a fidelidade conjugal, ponderando a gravidade da offensa feita á esposa que a fraqueza propria do seu sexo e a impossibilidade de se desaggravar dignamente collocava em condições de obrigar todo o caracter nobre a respeital-a; e finalmente, n'uma curta confrontação da paz d'uma união legitima com os continuados vexames e a mentira d'uma ligação irregular, em que nem sequer os filhos lhe podiam dar o nome de pae sem recordarem a falta e a vergonha da mãe, pedia a Claudio que no proprio interesse da sua tranquillidade pozesse termo áquella vida tão contraria a uma salutar moralidade.

Claudio leu esta carta n'uma oppressão de magoa e compungimento. A condemnação do seu viver pelo maior dos seus amigos parecia-lhe quebrar um dos laços mais fortes que o prendiam ao mundo; alargava a devastação que ha muito se vinha alastrando em volta do seu coração. Mas, passada essa primeira dôr, sempre presente aos seus olhos a humildade simples de Maria, recobrou animo n'essa imagem e escreveu:

Meu querido Jorge:

Um mau fado presidiu ao meu destino e affastou de mim toda a alegria. A tua carta é o ultimo grito d'essa correria de dôres que ha muitos annos me persegue e que quasi me tem vencido.

Esperava-a, antecipadamente sabia que havias de condemnar o meu viver presente; por isso mesmo tenho addiado até hoje uma confissão que só novas magoas me podia trazer. Mas faça-se a tua vontade. Aqui me tens a ouvir-te submisso, d'essa submissão que será o derradeiro estado da minha alma, que não sei bem se é desengano de toda a ventura, indifferença pelas causas da terra ou consciencia e reconhecimento da propria fraqueza, abandono de toda a energia aos impulsos d'uma fatalidade cega.

Ouve-me, porém, ainda algumas palavras antes de me excluires da tua estima. Não é defeza, é confissão; não é a voz do orgulho que repelle a condemnação, é o queixume do culpado que a acceita sem revolta.

Sim! é verdade. Deixei uma mulher que tinha tomado por esposa legitima, segundo todas as convenções sociaes, deixei-a, deixei o filho que ella me tinha dado e a casa que com ella habitava, e vim esconder-me nas serras em que vi a luz, entre gente inculta, ligado pelo amor a uma rapariga do campo, tentando partilhar a sua humildade e a rudeza que tomei pela maior virtude e pela felicidade suprema. Abandonei a familia que tinha estabelecido, abandonando-lhe quasi todos os meus bens e riquezas, deixando-a n'uma vida de ociosidade, de abundancia e de prazeres, abandonei o luxo e uma existencia que me era odiosa, e fugi a acoitar-me nas caricias silenciosas da natureza e na protecção carinhosa d'uma mulher que me ama servindo-me.

Este é o meu crime, que por certo aos teus olhos parecerá uma vileza sem nome, imperdoavel.

Talvez não tão grande como a tua imaginação a representa! Talvez aos errores da minha desventura correspondam as alucinações da tua felicidade!...

Queres que o respeito da familia seja o alicerce de toda a ordem moral na sociedade e tambem eu outra cousa não pretendo. Se a familia é a união de dois seres ligados por sentimentos congeneres de trabalho, de consagração das suas forças á educação d'uma nova geração, de auxilio mutuo e mutua submissão, de renuncia aos prazeres da carne, de caridade e amparo para todos os desvalidos, não ha por certo melhor força para manter a ordem e a belleza moral na humanidade. Se a familia é a união de dois seres ligados pelas mesmas aspirações de riqueza, de tranquillidade e de socego egoistas, de comodidade e de luxo, de meza lauta e de ninho tepido e macio, com os filhos entregues a mãos mercenarias desde o berço até que a escola os entrega á sociedade, poderá ser uma inutilidade para os estranhos, mas, quando se tem a fortuna de possuir todas essas cousas apetecidas, é, para os seus favorecidos, um manso e ininterrompido regabofe. Se a familia é porém o encarceramento, sob o mesmo tecto e em volta do mesmo lar, de dois seres guiados por aspirações oppostas e nenhum d'elles disposto a ceder das suas ambições, em permanente conflicto, consumindo n'esses dissentimentos toda a energia que deveriam consagrar ao cumprimento da sua missão social, então não sei o que a familia signifique, além d'uma enorme e torpe mentira quando esta discordia se abriga sob formulas e exterioridades d'um falso respeito.

O que eu ainda não pude saber ao certo é o que venha a ser, como principio de moralidade, essa tão famosa fidelidade conjugal. É o concubinato legal em que a mulher gravida e a mulher que amamenta se prostituem e aviltam, ás mãos do que tem o nome de esposo, confundindo no mesmo leito a mãe e a amante? Mas isso é sem duvida a maior aberração das leis naturaes, uma especie de immoralidade desconhecida dos animaes inferiores que todos, sem evangelhos doutrinados, respeitam a femêa prenhe e são repellidos raivosamente pela que guarda e aquece os filhos. É essa outra especie de concubinato em que cautelosamente se evita a procreação para que os prazeres e a belleza do corpo não soffram quebra ou interrupção e para fugir aos encargos sociaes que do matrimonio resultam? N'este caso, significa a degradação pela cobardia moral e pelos desregramentos da concupiscencia que se arvora em virtude e que a sociedade acceita como joia de bom quilate.

Só como inicio de perfeita castidade poderei julgar a fidelidade conjugal um valor moral; só como principio de abstinencia e de completa annulação das tentações da carne poderá aos meus olhos tornar-se digna de ser considerada por aquelles que um anceio de vida superior domina. D'outro modo, confunde-se nas labaredas da luxuria que todas fascinam e matam igualmente. Que a prostituição se dê dentro ou fóra dos limites do codigo civil, pouco importa; será sempre a sujeição deprimente da alma aos incitamentos impuros da sensualidade.

Pensa um momento; porventura convencer-te-ás de que os meus erros não são tão grandes como pretende mostrar-t'os a tua felicidade que não é, como toda a felicidade, o resultado do teu esforço mas a concorrencia de elementos fortuitos.

O meu crime foi procurar soffregamente a virtude e tentar a sujeição da minha vida á realisação d'um destino consciente, em logar de acceitar humildemente os azares da propria fortuna. Nas minhas aspirações de santidade houve talvez um orgulho sem medida de que a providencia me castigou transformando-as em corôa de espinhos.

Que sonho mau, que instigação satanica me levou um dia a descer estas escarpas para ir procurar na riqueza e na sciencia a felicidade que deixava na vida simples? Porque não fiquei aqui, como meus paes, na paz laboriosa d'uma existencia ignorada e singela?

Quiz rehaver essa ventura perdida, magoado das infinitas asperezas do longo caminho por que me trouxeram a sensualidade e a curiosidade de saber, mas, ai de mim! era tarde, e chego ao porto tão ensanguentado que jámais as minhas feridas poderão cicatrizar, jámais poderão estancar as chagas em que o animo se me esvae.

Não póde a razão e a vontade resgatar o que uma vez ao coração foi roubado. Debalde o pensamento, em rodeios sem fim, tentára restituir-me a tranquilidade.

Não penses pois em ressuscitar o Lazaro; deixa que elle espere no abandono a hora abençoada de voltar á terra, a esse pó em que todos os crimes e todas as virtudes se dissolvem e apagam para brotarem resgatados n'uma fecundidade infinita.

Teu

_Claudio._

Apezar da serenidade apparente que Claudio revelava, era certo que a carta de Jorge lhe deixára uma profunda impressão de mágoa. Todo o passado se dissolvia. Mulher, filho, amigos, tudo se transformava em sombras de que se affastára a vida que só no coração residia; desligados do seu affecto, morriam para os seus olhos perante os quaes passavam como espectros d'uma apagada existencia. Não fôra elle que errára? Não significava esse isolamento que elle tinha deixado o bom caminho, aquelle em que as almas cantam uma alegria sem peccado? Voltavam suspeitas, duvidas cruciantes.

Todavia, exteriormente, a vida de Claudio parecia ter caido na mais absoluta calma. Na aldeia já ia esquecido o escandalo e o povo acceitava sem murmurio os amores de Maria; a caridade, a modestia e a singeleza que continuavam a ser os espiritos bons do casal de Claudio varreram rapidamente a repugnancia que ao maior numero inspirava a sua desregrada paixão, substituindo essa passageira aversão pelo mais carinhoso respeito.

O pae de Maria ficára entrevado, mal se arrastava da cama para o quintal, a aquecer-se ao sol ou a visitar os gados, tentando ainda relembrar a antiga vigilancia e uma febre de trabalho que a doença não pudera anniquilar inteiramente; mas a familia, com a peculiar resignação que a gente rude põe na acceitação das cousas sem remedio, perdoára a Maria a sua falta e frequentava-lhe a casa e as relações como a do visinho a que mais queria.

A vida ainda tinha alegrias para Claudio. Brotavam, como flores silvestres disseminadas pelas montanhas aridas, das aguas que se escoavam espumantes na azenha ou se perdiam mudas beijando as tumidas raizes do arvoredo, dos cantares das lavadeiras que erguiam os braços robustos batendo turgidos linhos sobre as pedras da ribeira, dos zumbidos das abelhas fartando-se na madresilva dos comoros, do sol espargindo-se nos orvalhos com que a noite mansamente cobrira os campos; brotavam do palpitar da natureza em que todo o movimento é sem peccado, e brotavam ainda do coração de Maria em que a simplicidade e o amor fulguravam, protegendo em um nimbo de pureza sadia o espirito decrepito e enfermo de Claudio.

Muitas vezes, quando o trabalho apertava ou quando o calor era muito, Claudio descia de manhã ao campo e só voltava a casa ao pôr de sol. Maria trazia-lhe o jantar ao meio dia, o caldo, a broa e o conducto.

Procuravam uma sombra a que se acolhessem; a refeição fazia-se n'um recolhido silencio que era como uma prece perante a magestade olympica da natureza.

Depois vinham as sestas, cerrando os olhos na contemplação das flores que se abriam ao sol exalando aromas n'uma mysteriosa fecundidade.

Uma tarde, por um dia de julho, Maria veio, como de costume, trazer o jantar a Claudio, o cesto á cabeça coberto d'uma toalha alva e grosseira; nos braços o pequenito, repousada a fronte sobre o hombro da mãe, no abandono em que o somno o vencia.

Chegando ao campo, foi poisar a creança sobre o chale, debaixo d'uma oliveira, proximo d'um muro, abrigando-a do vento e do sol que abrazava, caindo das serras.

Claudio sentou-se ao lado, sobre uma pedra, e Maria sentou-se tambem, em frente d'elle, no chão, desapertando o lenço e mostrando o cólo, agora exuberante no primeiro despertar da maternidade.

Estavam calados, n'um d'aquelles silencios que eram frequentes e em que perpassava uma palpitação d'amor e de ventura.

A creança tinha uma belleza angelica, os olhos cerrados, os finos cabellos loiros desalinhados, o sangue agitado pelo calor da atmosphera e os labios humidos, levemente entreabertos, como segredando palavras ignoradas d'uma doçura divina.

O pae attentou na mãe e no filho. Sentindo desprender-se d'aquelles peitos impenetraveis á corrupção um refrigerio que instantaneamente corria as feridas do seu coração, libertando-o de dôres perguntou a Maria:

--Gostavas de ter muitos filhos?

--Filhos!... respondeu ella rindo surprehendia da estranheza da pergunta. Cada um tem os que Deus dá!...

Claudio calou-se novamente, dominado de respeito. Era a voz da virtude ingenua que chegára aos seus ouvidos, da coragem na acceitação da condição humana, da religião no amor sem limites, na conformidade do destino.

N'aquella rapariga humilde, pobre e rude, encontrava o que nem o saber nem a razão tinham podido conceder-lhe.

Ai! Era bem certo!... A felicidade havia de nascer do coração em jorros cristalinos como a agua que rebenta entre os rochedos.

Tentar subjugal-a sob os impulsos da intelligencia era profanal-a. A candura maculada jámais recupera a alvura.

N'este labor continuado, em que o amor da terra o absorvia, havia ainda para Claudio horas de repouso e de ocio, já por simples fadiga, já porque o trabalho tinha tambem as suas pausas naturaes.

Vinham então a leitura, a meditação e as longas caminhadas pelas veredas desertas, pelas cristas despidas dos montes ou pelos valles apertados, entre o arvoredo cerrado.

Procurava, avidamente, em interrogações infinitas, conquistar para si um retalho d'essa paz augusta em que toda a natureza se envolvia. Escutava, na doce luz do crepusculo, o brandir compassado da Ave Maria em que sentia murmurios de orações, supplicas e louvores de gratidão erguendo-se da aldeia e confundindo se n'uma só prece, em mystica união, com o repouso que a noite vinha derramando.

Queria lançar a sua alma n'essa fornalha ardente d'amor e de fé, purifical-a no contacto das almas simples, mas sempre sentia o tumultuar d'um passado que o despertava dos sonhos bons para o torturar nas angustias da consciencia.

Temia as noites tenebrosas do inverno e os dias pesados e humidos que o obrigavam a enclausurar-se na estreita sala de Villalva. Renasciam phantasmas que julgára dissipados, visões sombrias que a luz do sol e os carinhos humildes de Maria pareciam ter varrido para sempre.

Começava a desfiar esse rosario das suas amarguras; um infinito desalento se apossava do seu espirito, prostando-o de desesperança, convencendo-o da infelicidade sem remedio.

Porque não casára com a Conceição e passára de animo leve sobre as suas lagrimas? Porque abandonára Emilia á miseria que elle mesmo por suas mãos tinha aggravado? Porque deixára Laura que elle espontaneamente fôra buscar tal qual era, com todos os seus prejuizos? E Maria,--pobre Maria!--para que a juntára á sua desgraça, roubando-a ao amor sadio do seu namorado? Egoismo, ciumes, aspirações impuras que tinham perdido a sua alma, lançando-a nas chammas do remorso.

Revoltava-se contra a miseria do corpo que com seus doidos anceios o tinham transviado do caminho de caridade e de sacrificio em que, imolando as suas ambições, teria encontrado a paz da consciencia.

Tentava desprender-se d'esse pesado involucro carnal com frequentes jejuns e esforçando-se por ser casto. Por momentos, quando as minguadas forças physicas pareciam dar ao espirito uma liberdade que o enlevava em delicias, tinha a illusão de que chegára a hora de renascer n'uma vida de pureza e resgatar o passado, santificando-se pelo offerecimento a Deus de toda a sua existencia, calcando como reptis venenosos os ardores dos sentidos.

Essa illusão pouco durava. Rebrilhava o sol, punha a enxada ao hombro e, revolvendo a terra, communicava-se-lhe essa gigantesca vibração de fecundidade que é a propria vida de todo o universo. Crear, reproduzir a sua força e o seu sangue nos seus filhos, nas flôres e nos fructos que regára com o suor do seu rosto, era nas horas de culto naturalista o novo deus a que sacrificava. E, abandonando-se a esse movimento, outras bençãos, as bençãos do amor terreno triumphante, se lhe espargiam sobre a fronte e lhe infiltravam um vigor desconhecido.

N'esta lucta, porém, consumia-se; as suas forças decaiam rapidamente. Ás vezes dominava-o um abatimento, uma prostração em que sentia proximo o seu fim. Então convencia-se que aquillo que tomára por um rejuvenescimento não era mais do que uma desesperada excitação em que inteiramente e para sempre ia anniquilar-se.

Em um d'esses dias, pouco tempo depois de Maria lhe ter dado o segundo filho, recolheu tarde. Maria já por mais d'uma vez viera á porta, olhando o caminho a vêr se o descobria, quando elle entrou.

Vinha contente, risonho, como que alliviado das suas preoccupações sombrias.

--Vim tarde. Estavas com cuidado?... Tem paciencia. Foi-me preciso...

--Não, logo me lembrei que andasse a passeiar ou tivesse tido alguma coisa que fazer, mas nunca se fica em descanço. Ás vezes, onde menos se espera estão trabalhos.

--Tive de ir a Albergaria. Toma, guarda isto bem guardado. É o teu pão e dos nossos filhos, se eu faltar, disse elle, entregando-lhe um papel azulado com grandes manchas de lacre.

Era o seu testamento em que lhe entregava, por sua morte, os bens de Villalva.

--Para que é isso? respondeu ella recuando com uma anciedade triste. Deus Nosso Senhor hade levar-me primeiro.

--Não, não... guarda, replicou Claudio com firmeza.

A rapariga então, obedecendo, recebeu o papel e, os olhos rasos de lagrimas, beijou as mãos de Claudio.

Quizéra insistir na recusa, sentia uma commoção que a turvava, mas era a sua vontade, a vontade d'elle, e amal-o era obedecer-lhe, era servil-o.

Sentaram-se á mesa. Não se ouviu nem mais uma palavra sobre o testamento, e a ceia começou. Claudio estava alegre, perguntando pelos filhos, pelos gados, pelo que em casa se fizera n'aquella tarde, fallando dos trigaes que vira na varzea e que promettiam uma boa colheita.

No dia seguinte, voltou ao trabalho, continuando na sua pacifica faina. O trabalho era a sua alegria, não ficavam horas nem para recriminações nem para idyllios.

Em todo o tempo que Claudio viveu com Maria, só houve um momento que lembrasse as horas de paixão que antigamente o crucificavam.

Uma manhã, Claudio veio a casa almoçar. Como o orvalho no campo fosse muito e trouxesse os tamancos enlameados, deixou-os á porta e entrou descalço. Maria estava em pé, no meio da sala. Parecia procurar vêr, atravez a janella, qualquer coisa que se passava fóra, mas occultando-se ao mesmo tempo para não ser vista. Era o pae d'ella que em frente, encostado ás muletas, se arrastava no estreito carreiro do seu quintal, vendo as ervilhas que se prendiam na sêbe grosseira.

Claudio poude aproximar-se sem ella o sentir. Comprehendeu rapidamente toda a amargura que lançára n'aquelle coração, dilacerado de remorsos.

--Perdoa-me, perdoa-me, disse-lhe apertando-a nos braços e beijando-a na fronte.

E fugiu, sem voltar o rosto, deixando-a a soluçar, banhada em pranto.

Durante quatro annos, viveu assim; apparentemente tranquillo na paz da vida do campo, interiormente minado de duvidas que por vezes a consciencia lhe apresentava como espectros. Maria era sempre a mesma que fôra na hora em que a conhecera, humilde, laboriosa, singelamente amoravel. Mas Claudio, possuindo-a, via n'ella, repassado de contricção, a imagem da felicidade perdida. Era tarde para a merecer; as lembranças do passado perseguiam-n'o implacaveis, já não havia alegria que não fosse cortada d'um travor de arrependimento.

As forças decaiam sempre. Não tinha doença alguma; sentia uma depressão de vigor que todos os dias se accentuava, uma velhice precoce que caminhava incessantemente.

Em maio, um dia tardou a erguer-se. Foram procural-o. Parecia dormir, mas, como o somno se prolongasse excessivamente, accordaram-n'o.

--O que tem? perguntou-lhe Maria. Não quer hoje levantar-se?

--Não é nada, respondeu elle, fitando-a mansamente e procurando saccudir a somnolencia que o dominava. Estou muito constipado, tenho o peito muito opprimido. Creio que foi do vento que hontem apanhei lá em baixo. Isto com agasalho cura-se.

--Mas é melhor chamar o medico. Quer?

--Para mim não era preciso. Mas se tu ficas assim mais descansada, manda-lhe dizer que venha cá.

Maria saiu e Claudio immediatamente caiu n'um somno pesado, a respiração frequente e anciada.

O dr. Carvalho veiu cerca do meio dia. O doente até então não cessára de dormir. Apenas accordava quando o chamavam, e logo cerrava os olhos, continuando em torpor.

--Está muito doente! disse o dr. para Maria. Eu vou á villa e volto já para lhe pôr um caustico. Tenho medo que não lhe façam isso em termos.

E saiu a entrar na carruagem que o levou á pharmacia.

--Oh! disse o boticario, vendo-o apear-se ligeiro, vem hoje muito atarefado!

--Quero um caustico para o dr. Claudio que está muito mal.

--Sim!?... Então com quê? perguntou o boticario abrindo um armario envidraçado e tirando um grande frasco com um rotulo em lettras d'oiro.

--Tem uma pneumonia. E o pulso... Que desconcerto!...

--Se aquelle organismo não estivesse tão depauperado, continuou o dr., sangrava-o, mas assim... não me atrevo.

--Não sei o que será... não sei o que será, repetia inquieto. Olhe, deixe-me vêr uma folha de papel que sempre quero avisar a familia. Que elles não se importam mas, se não vierem, não ha de ser por minha culpa.

E sentou-se a escrever, pedindo ao boticario que mandasse a carta para Coimbra, no correio da tarde.

A applicação dos medicamentos não deu resultado. A pneumonia seguiu os seus tramites.

Claudio conhecia mal o seu estado. Ás vezes chamava as pessoas de casa, levado por uma vaga saudade, procurando combater o somno que o ia dominando e luctando por despertar a consciencia! Tinha então palavras carinhosas, principalmente para Maria.

--Estou a dar-te tanto trabalho... Tem paciencia, tem paciencia, sim?

Esses momentos eram, porém, cada vez mais raros.

Ao terceiro dia, já noite adeantada, perguntou por um velho creado que fôra de sua mãe e se chamava Luiz.

O creado veiu sem demora, mas entretanto Claudio adormecia novamente.

--Está aqui o Luiz, está aqui o Luiz, disse Maria tentando despertal-o.

O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da cama e inclinava sobre o doente o craneo calvo, orlado de raros e longos cabellos brancos. Claudio entreabriu os olhos, quiz afagal-o, levantou ligeiramente o braço, e a mão rolou pela cabeça do velho, caindo novamente, quasi inerte, sobre o leito.

Foi o seu ultimo movimento consciente. Depois não se sentiu mais que um estertoroso arfar.

Pela manhã, abriram a janella, cuidando que a frescura do ar alliviaria a agonia. A luz do sol foi bater no leito e cercou o moribundo d'um esplendor de gloria entre o perfume da madresilva e o canto das aves que alegremente cantavam a eterna alleluia dos seus amores. Distante, ouvia o balido do rebanho que o pastor levava a beber no regato. Era uma festa de canticos angelicos.

De repente, a respiração pareceu baixar docemente. Houve no quarto um murmurio de lagrimas e de soluços; instinctivamente todos ajoelharam, e alguem disse:

--Acabou.

Maria levantou-se, inclinou-se sobre o cadaver, cerrou-lhe os olhos e, soluçando, abraçou-o.

Algumas horas depois chegava Jorge.