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Chapter 18

Chapter 183,765 wordsPublic domain

A saudade dominava-o. Não era a cidade que estava deserta, era o animo que faltava ao seu coração. Os olhos recusavam-se a vêr o que se passava em torno, constantemente voltados para uma imagem interior.

Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da viagem. Seria inutil. Ia proseguir, mas adivinhára já o que o esperava. Toda a terra lhe parecia arida e silenciosa; em toda ella só poderia prender-se ao que lhe recordasse a existencia de Maria.

Uma tarde, em Vizella, do crepusculo já adeantado, aos primeiros reverberos das estrellas, passeiava á beira do rio e, como se sentisse fatigado, encostou-se sobre um rochedo e adormeceu. Um vento agreste batia as cumiadas dos montes, açoitando as arvores que se curvavam desgrenhadas, mas no valle os amieiros apenas se balouçavam mollemente nas brizas humidas que corriam sobre as aguas. Claudio aproveitava o favôr da natureza e no torpor que precedia o somno fixava os olhos com gratidão n'este espectaculo de feliz remanso.

Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se ás palpitações da natureza. O rio transfomára-se em alvas nuvens que pousavam sobre o seu leito apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como uma apparição, em meio d'um nimbo de claridade vermelha e candente, uma cosinha pobre e uma rapariga curvada sobre a lareira ateando o lume que se erguia em labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se as lufadas do vento mordendo as cearas que ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil cubiçava o calor vivificante que irradiava do facho luminoso.

Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos Casaes quando ha muitos annos vinha com Emilia de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das suas ambições, da sua felicidade, da tempestade que o cercava. Corre-se a aquecer-se ao fogo redemptor da simplicidade que a imaginação sobrexcitada lhe mostrava n'um quadro tentador.

O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para que ir mais longe? Em vão! em vão!... Mais uma vez repetia estas palavras com que tão dolorosamente terminara tanta illusão da sua vida.

Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de ausencia, vencido pela saudade. Vinha na persuasão de que o trabalho na lavoura e a simples presença de Maria o curariam de todo o mal. Não precisava de fallar-lhe, não precisava d'essas arrastadas conversas á beira da estrada que os estranhos viram com suspeição. Não estava ella divinisada no culto que o seu coração lhe consagrava? Uma adoração muda e casta bastaria a satisfazel-o.

A jornada para Coimbra foi rapida. Ás pessoas de familia disse que se apressara a voltar porque se sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia muito que fazer. Para evitar explicações que o contrariavam, seguiu immediatamente para Villalva onde chegou noite cerrada.

Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres, dando-lhe conta do estado dos gados, das sementeiras, de tudo o que succedera n'aquella pacifica solidão. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou os estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.

Dominando a impaciencia de tornar a vêr Maria, julgava-se victorioso e começava a sentir, penetrado de delicias, a realisação dos seus sonhos de castidade.

Já tarde, abeirou-se da janella e contemplou a aldeia recolhida no valle apertado. Tudo dormia. Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em inquietações d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura tel-o-ia esquecido?... Fixava os astros, escutava as auras da noite procurando o segredo da sua vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de fadiga.

--Amanhã, amanhã!...

N'esta risonha esperança adormecia tambem.

Pela madrugada desceu ao campo. Não tardou que Maria apparecesse tangendo o burro que conduzia a moenda. Ao vêl-a sentiu como uma vertigem em que o sangue lhe corria ao coração. Ella sorria de alegria. Em poucas palavras ajustaram encontrar-se á noite, muito tarde, junto ao muro da eira, quando ninguem os visse.

Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento e um vigor desusados. Estranhava as suas forças. Como acontecia que, depois de tanto tempo de repouso, não sentisse a menor fadiga? Na excitação em que o deixava a certeza do amor de Maria, illudia-se; tomava como um triumpho do seu corpo o que era apenas uma passageira febre.

Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em casa; fazia-o frequentes vezes para acalmar a inquietação do espirito.

Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao muro. Sentiu-se um ligeiro bulicio de folhas seccas. Era ella que se aproximava pisando descalça a caruma que cobria a eira.

Claudio começou então a contar o que soffrera na jornada, como os dias lhe pareciam longos, como em toda a parte via a imagem de Maria.

--Não sei viver sem ti. Sou tão infeliz que preciso da tua voz para me dar animo.

Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura e não podesse avaliar na physionomia a impressão das suas palavras, perguntou-lhe:

--E tu? tambem tinhas saudades minhas?

--Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.

O incendio estava lançado. Vieram as confissões d'affecto em serões prolongados pela noite calma, as caricias, as tentações e os impetos d'amor. Essa castidade no contacto da natureza e na adoração das cousas simples que Claudio sonhára, doente do affastamento e da saudade de Maria, voava desfeita como todas as bastas illusões da sua vida.

A simplicidade é vigorosa e sadia, e o vigor é naturalista. A luz do sol e toda a terra cantam o amor fecundo.

Esse mesmo frenesi com que Claudio revolvia o solo lançando-lhe a semente, era uma forma de fecundação, a anciedade de crear e multiplicar as formas e a vida, um agitar de seiva que se confundia com o desejo da sua amada.

Uma noite adormeceu no regaço da sua amada; ella, cariciosamente, consentiu-o. Dormiu um somno breve, povoado de enlevos amorosos e acordou n'um arrebatamento de paixão em que toda a pureza angelica cedeu ao sangue encandecido.

Não se passou muito tempo sem que Maria apparecesse com o rosto desbotado, os olhos cavados, toda alquebrada d'uma desconhecida molleza. Adoecia das primeiras perturbações de gravidez.

Chorando, confessou á mãe a sua desgraça.

--Que fizeste, que fizeste?! exclamava a mãe chorando tambem. Que vergonha a nossa!

Claudio sentia-se contente, realisada toda a sua ambição. Estava finalmente livre de todas as convenções com que tinha rompido, inconscientemente, levado pelo amor de Maria, e d'esse amor ia ter filhos que elle saberia guardar das tentações mundanas, guiando-os a uma existencia de simplicidade. D'esta vez a felicidade era segura e certa.

Uma cousa, porém, preoccupava os amantes. A gravidez de Maria adeantava-se, já na aldeia todos a suspeitavam com ditos e remoques que a rapariga presentia e soffria resignadamente porque era a vontade d'elle, de Claudio. Tarde ou cedo, o pae teria de o saber tambem, mais cedo do que tarde, que o tempo urgia.

Combinou-se que a mãe lh'o annunciaria e assim se fez.

Elle ouviu em silencio, suffocado pela colera, e, nas primeiras palavras que poude articular, disse apenas:

--Tira-me já de casa esse esterco! Se a torno a vêr, esmago-a!

E saiu tremulo, afogueado em ira.

--Claudio, Claudio!... pensava no doido caminhar em que a dôr o levava. Se fosse outro... matava-o! Matava-o, sim! Mas elle, o filho do meu protector...

Vinham-lhe á lembrança todas as esmolas que tinha recebido da casa de Claudio; não ousava revoltar-se.

Sentou-se sobre um muro baixo, ao lado da estrada. Sentia não sei quê a cravar-se-lhe na cabeça, do lado esquerdo.

Os labios humedeciam-se de espuma. Pouco e pouco o corpo inclinou-se para a frente, e caiu, perdidos os sentidos, ferindo o rosto nas pedras agudas do chão.

Trouxeram-n'o para casa em braços, semi-morto, e foram á villa chamar o dr. Carvalho. O velho tinha sido acommettido d'uma congestão cerebral.

--Muito mal, muito mal, por milagre escaparia, dissera o medico meneando a cabeça.

Por acaso, Claudio estava no jardim, olhando o pôr do sol, quando os visinhos trouxeram o corpo do pae de Maria. Sabia que n'aquelle dia elle havia de ter conhecimento da gravidez da filha e, adivinhando immediatamente o que se passava, correu a esconder-se em casa antes que se aproximassem e o vissem.

Os braços pendidos, o olhar desvairado, deixou-se cair sobre o escabello da sala, immovel de assombro. D'esta vez era certo o crime! Fôra elle, fôra elle que o assassinára levando-lhe a deshonra ao lar! E não morria tambem!... Pasmava da propria frieza e indifferença. Olhava o seu corpo, os seus braços, as suas mãos, o seu peito como duvidando da sua existencia. Respirava, vivia, era o mesmo, elle, agora assassino, que n'aquelle logar, n'aquella sala ajoelhára erguendo a Deus as suas primeiras orações e se prostrára perante o cadaver da mãe pedindo á sua alma inspiração e conselho! Não, não podia ser! Era outro, era outro!...

O assombro crescia e a repugnancia por esse novo homem redobrava.

Levantou-se, pé ante pé, e foi á porta espreitar se havia alguem no pateo. Ninguem! Provavelmente tinham corrido todos a casa do velho. Aproveitou o ensejo e fugiu a perder-se nos montes, pelos caminhos desertos, escondido, ao abrigo dos muros que vedavam os campos.

Esperou a noite que caiu serena, sem luar, estrellada e profunda. Ia descer á aldeia. Para quê? Não era melhor seguir errante, em penitencia, expirando o seu crime, a esmolar por terras ignoradas e a servir desconhecidos, descalço, miseravel, rojando-se humildemente?

Maria, Maria!...

O amor vencia todas as dôres e ainda n'aquella angustia os braços estendiam-se a procural-a.

Desceu, e começou a vaguear em volta da eira de Maria. Tudo dormia n'um grande silencio e apenas por uma fresta se percebia um reflexo de luz.

Tinha fome. Voltou a casa a pedir a ceia.

--Ai que desgraça aquella do pobre tio Manoel! exclamou a velha creada ao vêl-o.

--Já sei, já sei, apressou-se Claudio a interromper com firmeza. Venho agora de lá. Muitos annos, muitos annos... Coitado!

--Deus Nosso Senhor o salve que ainda faz falta áquella pobre gente...

--Hoje sim, hoje já me deixa mais contente, dizia a creada alguns momentos depois levantando da meza os pratos vasios e estranhando a voracidade com que Claudio tinha comido.

--O passeio foi larguito, replicou elle como que explicando.

Levantou-se e tornou a sair. Queria vêr Maria. O que seria d'ella?

Dirigiu-se ao logar em que costumava fallar-lhe e no ponto em que o muro era mais baixo saltou para dentro da eira. Esperou. Não vinha ninguem. Não se lembrava ella de que Claudio estava alli ou não queria tornar a vêl-o? Um suor de afflicção lhe cobria o corpo e o receio da condemnação de Maria vencia o remorso do crime.

Impaciente, atravessou a eira e foi collar o ouvido a uma pequena fresta que dava luz á cosinha. Silencio! Ninguem se movia.

Recuou. Reflectia agora na sua imprudencia. Podia ter apparecido alguem e aquelles passos occultos seriam a confissão do seu crime. Coragem! Porque não iria antes francamente saber do seu visinho? Era natural. Demais, já dissera á creada que tinha lá ido e precisava que não o encontrassem em mentira.

Saltou novamente o muro. Sem hesitar, como possuido d'uma resolução serena e inabalavel, subiu os degraus da casa de Maria, lançou a mão á aldraba da porta e, cauteloso, abriu-a suavemente.

Foi Maria que veio vêr quem entrava, assomando á porta que communicava a sala com o interior. Parou um instante surprehendida. Na escuridão só cortada pela languida claridade que vinha da pequena lampada ardendo aos pés d'um crucifixo, a sua physionomia mostrava a mais profunda mortificação. Ia queixar-se, ia perguntar a Claudio porque só agora vinha e a abandonára. Mas elle, adeantando-se, apertou-lhe freneticamente as mãos e o peito agitado pelos soluços, sem proferir uma só palavra, fitou-a, deixando correr as lagrimas.

Com um instincto seguro, Maria comprehendeu o que se passava na alma de Claudio e transformando em piedade os queixumes que trasbordavam do seu coração:

--Não chore, não chore, disse consolando-o. Foi a minha sorte, foi a minha sorte! Foi Deus que assim o quiz.

As lagrimas de Claudio redobravam, mas agora de gratidão pelo amor de Maria. Era ella, a victima, que vinha consolar o criminoso! Dominava-o uma impressão de espanto.

Encontrava ali, n'aquelle pobre tugurio, o que fora a maior ambição da sua vida, o amor. N'um lampejo, em meio da vertigem de sentimentos que lhe dilacerava o peito, lembrou-se de Laura e comprehendeu toda a grandeza de Maria. Para Laura, amar era possuir, era guardar zelosamente uma fonte de gosos; para Maria, amar era servir, era sacrificar-se e consumir se protegendo uma vida estranha e abdicando de toda a dôr e de todo o prazer da propria existencia. Não podia furtar-se a um secreto contentamento descobrindo em plena consciencia o thesouro de que estava senhor. Negra aberração! pensava, sentindo-se aviltado. Tambem á hora do crime tinha alegrias! Oh, ainda uma vez, mysterio amargo!...

O medico voltou de manhã e achou que o doente estava melhor. Já ouvia e já se lhe divisavam ligeiros movimentos.

--Temos homem! disse voltando-se para a familia, quando o examinava, curvado sobre o leito. Com setenta e sete annos! É preciso ser rijo.

Claudio, ancioso por se informar do estado do pae de Maria, espreitára desde o alvorecer a vinda do dr. Carvalho. Vira-o entrar em casa d'ella e veiu para o jardim, a limpar as hervas d'uns vasos de flores que estavam pousados sobre o muro sobranceiro á rua.

O dr. Carvalho, ao sair, immediatamente deu com os olhos n'elle.

--Ora isso é que é madrugar, disse chamando a attenção de Claudio.

--Suba, suba, respondeu Claudio, mostrando-se risonho e despreoceupado. Então já não quer nada com esta casa?

O dr. subiu.

--Como encontrou o doente? perguntou Claudio.

O dr. Carvalho explicou então em termos da sua arte, para mostrar saber, que o velho tinha grandes melhoras. Recuperára os sentidos, percebiam-se já alguns movimentos, e quando em tão poucas horas se apresentavam symptomas d'aquella importancia, d'ordinario a salvação era certa. Não dizia que tornasse a ser homem para o trabalho, mas esperava pól-o a pé. Ainda ha pouco tivera, em Aradas, o Gusmão n'aquelle mesmo estado. A mesma cousa, exactamente a mesma cousa! Viera o dr. Madail, que é lá muito de casa de seus sogros e que se tem por um chavão, dizia, e foi de parecer que não merecia a pena tratal-o.

--Pois, meu amigo, tomei conta do homem e já corre a casa toda, encostado a uma bengala!

--Deus queira que o mesmo lhe aconteça aqui, respondeu Claudio.

Interiormente sentindo grande allivio com as palavras do medico, para não revelar uma insistencia que poderia tornar-se suspeita, mudando rapidamente de conversa, perguntou:

--E por Albergaria que ha de novo?

--A mesma paz podre. O dr. não quer nada comnosco. Tem razão e... bom gosto. Está por aqui muito entretido, respondeu o Carvalho atrevida e maliciosamente, batendo com a mão no hombro de Claudio e sorrindo-se.

Claudio percebeu a allusão. Tremendo da conversa, apressou-se a cortal-a.

--Venha cá, quero mostrar-lhe em que me entretenho. Venha vêr os meus mirandezes. Estou contentissimo. Comem admiravelmente, são rijos no trabalho e conservam a carne d'uma fórma espantosa.

Proseguiu alguns instantes a fallar dos bois, n'uma apertada continuidade, para que o medico não podesse rehaver a palavra e reatar a conversa que tinha tentado encetar. Sabia até que ponto ia n'essa materia a ousadia do dr. Carvalho, temia que elle viesse perguntar-lhe pelos amores de Maria, que eram já sabidos na villa, e não queria profanal-os com os commentarios de concupiscencia que por certo não faltariam. Por isso foi d'uma rara loquacidade emquanto não viu sair o seu terrivel hospede.

As previsões do medico realisavam-se. O velho continuou a melhorar; ao fim d'um mez, embora d'uma extraordinaria irritabilidade e com perrices infantis que revelavam a debilidade cerebral de que jámais se curaria, parecia ter rehavido a razão. Não podia porém mover-se; a perna e o braço esquerdos estavam inteiramente paralyticos, e por tal motivo se conservava no leito.

Do passado devia ter boa memoria. Havia um manifesto proposito em nunca proferir o nome da filha. Maria deixou de lhe apparecer mal elle recuperou a vista, por se conhecer que a sua presença o impacientava, e elle rehavendo a sua antiga firmeza de caracter, nem uma só vez perguntou mais por ella.

N'estas circumstancias, passados os dias de desvairamento em que o desastre o lançou, Claudio, reflectindo, resolveu trazer Maria para casa. Já que a tinha privado, por sua culpa, da protecção paterna, devia-lhe o amparo que a sua desgraça exigia.

Demais, o seu amor não affrouxára, antes se radicára, n'essas horas tragicas. A sorridente resignação de Maria, o piedoso carinho com que reprimira as proprias lagrimas para enxugar as de Claudio, elevaram-n'a na sua adoração e circumdavam a sua figura d'uma auréola de bondade simples que perpetuamente havia de a illuminar. A inteira posse d'essa creatura angelica compensava-o de muita amargura. Apesar de tão recentes motivos de profunda dôr, não podia furtar-se a uma intima alegria.

Em breve, tinha mais um filho. Quando elle nasceu, pareceu-lhe que a sua vida e a sua felicidade d'esta vez se completavam na realisação de todas as suas ambições. Olhava o berço encanastrado, coberto com um grosseiro retalho da manta que Maria fiára emquanto no monte guardava as ovelhas. Comparava-o com o outro que deixára na estrada da Beira, a espumar de rendas finas, compradas caras e vindas de longe, urdidas por mãos desconhecidas.

Sentia ali duas almas differentes: via n'uma a sensualidade estreme, uma caricia dos olhos e de todo o corpo, via na outra uma historia de singeleza e de trabalho, os placidos dias guiando o gado pelas serras, as mãos tisnadas ao sol, lançando o fuso e distendendo a lã.

Atravez de mil angustias, que fortuna lhe concedia o destino, que horas de paz e de poesia lhe promettia aquelle berço emballado pelos mesmos cantares que ouvira na sua infancia! Era feliz. Um sentimento de gratidão lhe penetrava docemente o peito.

Assim terminava o primeiro acto d'este idyllio dramatico.

Em Coimbra, todos estes factos foram sabidos e commentados com rancor por D. Maria Francisca e pela filha, com simples curiosidade pelos frequentadores habituaes do palacio da estrada da Beira que, emquanto esperavam o chá, debatiam o caso em voz discreta agrupando-se nos cantos mais afastados da sala.

Interiormente indifferentes, no seu egoismo satisfeito com os ordenados pagos em dia e as digestões abundantes e tranquillas que os encaminhavam á obesidade, procuravam gestos de mágoa para successivamente exclamarem:

--Que pena! que pena! Um rapaz tão intelligente e que podia viver tão bem... casado com uma menina de tão boa educação...

Os de melhor consciencia, alguns lentes que porventura se lembravam das suas concupiscentes ousadias com as creadas, accrescentavam indulgentemente:

--Fraquezas! Todos as têm... Afinal tudo isso lhe ha-de passar e elle hade voltar á mulher e aos filhos.

Laura ficou apopletica de colera quando soube pela mãe as circumstancias em que o marido se encontrava. A sua inflexivel vaidade soffria um profundissimo golpe com a demonstração quasi publica de ficar preterida por uma mulher do povo.

--Não quero ser d'esse homem nem mais um instante! Vou mandar chamar o dr. Moraes para me tratar da separação. É demais!... Com uma mulher de pé descalço! Até me mette nojo! Que me ponha para cá o que é meu...

Ao ouvir estas palavras, D. Maria Francisca pensou que Laura tinha casado com separação de bens, e, reflectindo em que o divorcio poderia trazer-lhe grande prejuizo, apressou-se a aconselhar com insistencia:

--Oh, filhinha, isso não, isso não! Que escandalo! Deus nos livre. O que diria esta gente? Eram capazes de inventar que tu tinhas feito algum mal. Não te impacientes, não te impacientes! Até te faz mal. Já estás com umas rosetas na cara que são de fraqueza. Vae tomar alguma cousa. Anda, anda minha filhinha!

--Ai, Senhor!... exclamáva já no corredor dando o braço a Laura e encaminhando-se á sala de jantar.

Depois de muito discutir, venceu a opinião e a astucia de D. Maria Francisca; poz-se inteiramente de parte a ideia de uma separação judicial. Esperavam que por bons conselhos levariam Claudio a abandonar Villalva e a voltar á companhia de Laura. Para isso iam dizer a José d'Albuquerque que escrevesse ao cunhado pedindo-lhe que não désse mais desgostos á mulher, que tão virtuosa tinha sido, e mostrando-lhe como a sua vida era censurada até pelos proprios amigos, segundo diziam.

Procuraram-n'o e, como de costume, foram encontral-o entre os seus alfarrabios.

Ficou muito contrariado com a presença da mãe e da irmã que iam interromper-lhe a leitura d'uns documentos do tempo de el-rei D. Diniz, em que um erudito julgára ter feito descobertas preciosas, das quaes a mais importante consistia em se provar que o motivo principal que determinou a sementeira do pinhal de Leiria foram os amores do rei com uma mulher do Porto de Móz, de baixa estirpe, mas com quem o rei vivia em intimidade e, dizia o cartapacio, «eram os jogos e fallas entre elles tão a miude, misturados com beijos e abraços e outros desenfadamentos de similhante preço, que fazia a alguem ter deshonesta suspeita da sua virgindade ser por elle minguada.»

Sobre este ponto trazia José d'Albuquerque grande correspondencia, estando prestes a demonstrar triumphantemente que os documentos eram de nenhum valor e que o texto citado não passava d'uma calumniosa e malevola interposição d'um compilador sem escrupulo do seculo XVI, cujo nome e naturalidade já tinha descoberto. Faltava-lhe saber ao certo a data do nascimento, mas tambem para isso levava adiantado o trabalho.

Apesar de ser perturbado nas suas cogitações, unica cousa que no mundo amava com afferro, ouviu pacientemente a catilinaria da mãe contra o cunhado. Queria ella que o filho lhe escrevesse ameaçando-o de cortar com elle todas as relações, se não voltasse immediatamente á casa de Coimbra.

--Tens obrigação de olhar pela honra de tua irmã, já que teu pae não trata senão de se divertir, dizia ella dogmaticamente. Não deves consentir que o marido a deixe para ahi como um trapo sujo e ande por lá mettido com um reles estafermo que o que quer é viver á custa d'elle. Eu já conheço bem o que é essa gente!... Tudo uma canalha! Uma canalha!...

--Escusam de estar para ahi com todo esse aranzel que eu não me metto n'isso, respondeu pachorrentamente José d'Albuquerque. O Claudio é de maior edade ha muitos annos, não me deve favores nenhuns, e eu não tenho o minimo direito a reprehendel-o. Demais, eu sei lá como essas cousas são?!... Muito mexerico, muita intriga... Quem as armou que as desarme!

Não obstante esta primeira attitude de resistencia, D. Maria Francisca que conhecia a fraqueza do filho, lamentou-se com voz lacrimoniosa de que tinha creado tres filhos e ninguem a ajudava, insistiu, e conseguiu por fim que elle lhe promettesse escrever a Jorge de Castro para que este por sua vez escrevesse a Claudio e procurasse trazel-o á companhia da esposa legitima.