Chapter 17
Claudio olhava aquelle casal como um templo em que se guardava pura a felicidade e a virtude. Era aquillo que elle hoje desejaria para si, se podesse recomeçar a sua vida;--ter tirado da terra com o suor do seu rosto o pão de cada dia e ter dado ao mundo uma numerosa próle de gente honesta e sã.
Muitas vezes, ao recolher, quedava-se longas horas a conversar com o visinho, interrogando-o com uma curiosidade insaciavel, como começára, d'onde viera para alli, como conseguira crear os filhos. O velho contava singelamente; parecia sentir prazer em rememorar o passado. Para comprar os primeiros gados ainda pedira dinheiro ao pae de Claudio, que o do mealheiro não chegava.
--Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narração, tinha aquelle genio... Para os desmazelados era todo imperioso, mas para quem lhe andasse direitinho era bom, gostava de os ajudar. A mim, era elle mesmo que ás vezes me dizia: Porque não compras mais uma junta de bezerros? Tens ahi tanto pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o alli, áquella arca da sala onde a sr.ª sua mãe, Deus lhe perdoe, guardava as arrecadas e o cordão. Devo-lhe muito. E cá a minha serva de Deus tambem me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam. O Julio morreu mais cedo, era um rapagão! tinha já sete annos. Veio-lhe esta doença, aqui á garganta, não sei como lhe chamam, e ficou suffocado. Mettia dó. Mas emfim... Deus Nosso Senhor assim o quiz.
Entretanto a rapariga passava levando para a ceia a hortaliça lavada na ribeira; accendia a candeia, e começava a cortal-a num alguidar, sobre a meza. A mãe conchegava o lume á panella de barro, negra, em que a agua já fervia.
Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adoração em que se envolvia a tristeza da sua vida desbaratada.
Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse já alto e a fadiga o prostrasse, procurando a sombra, sentou-se junto a uma oliveira, ao pé da cancella, enxugando o suor.
Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado, descalça, o pé comprido e magro, erguendo os braços a amparar o açafate que trazia á cabeça, cruzado no peito o lenço branco de ramagens vermelhas.
--Dá Deus nozes a quem não tem dentes! disse ella avistando Claudio. Isso até é peccado andar assim a cançar-se sem precisão...
Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia á rapariga, embaraçado, como desculpando-se, attentou na sua belleza.
Era alta, nervosa, olhos garços, cabellos louros, e assim de pé, sorrindo, os braços erguidos, lembrava uma estatua antiga, d'estas em que cristalisa o ideal feminino d'um povo inteiro.
--Que linda me pareces! exclamou depois de ter procurado justificar-se das suas fadigas que Maria tanto estranhava.
--Eu! Linda!...
E riu-se.
--Mal diria que havias de ser bonita quando estava em Albergaria e vinha aqui ás tardes. Ainda me lembro bem!... A maior parte das vezes encontrava-te a guardares as ovelhas com o cesto da meia no braço e o fio d'algodão preso no hombro. Agora estás uma moçoila que os rapazes hão-de cubiçar.
--Não, não se quer d'isso, respondeu ella lisongeada e ao mesmo tempo envergonhada com o elogio, contorcendo-se timidamente.
E seguiu ladeira acima.
D'ahi em deante, Claudio começou a prender-se á rapariga. Prolongava a conversa, á noite, com o pae d'ella para a vêr risonha e deligente a cuidar da casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a á cancella do seu campo. Não trocavam palavras de amor; elle interrogando-a sobre o seu viver, sobre as suas ambições e os seus prazeres, procurando penetrar a sua alma, ella respondendo laconica, com um inalteravel sorriso em que revelava meigamente a sua sympathia.
Claudio, reflectindo na attracção que sentia por Maria, tentava convencer-se, a poder de logica, de que não tinha tomado novos amores. Era um symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava a suprema sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a com um fervor intimo, agradecendo-lhe a revelação d'esse mundo de paz e de felicidade. Não passaria d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia; queria coroar pela castidade esse novo culto.
Maria tinha um campo proximo áquelle em que Claudio trabalhava e onde elle, na impaciencia de a vêr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde a conversa alongou-se e, já proximo da noite, passou na estrada um rapaz ligeiro e agil, com um vigor de mocidade que ao primeiro olhar se mostrava. Ella, vendo-o, disse para Claudio:
--São horas. Vou-me até casa.
E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao lado.
Claudio abaixou-se tambem para a ajudar.
--Oh, Maria! Isso é que são creados!... Muito boa noite, sr. doutor, gritou de longe o rapaz alegremente.
--Quem é este rapaz? disse Claudio com certa anciedade, parecendo-lhe na frouxa luz do crepusculo que um ligeiro rubor se derramava nas faces da rapariga.
--Então não sabe?... Elle conhece-o. Deu-lhe as boas noites.
--Mas não sei quem é. Não me lembra de o ter visto.
--Já lá tem ido a casa. É o filho do tio Antonio da Azinhaga. Móra lá mesmo.
Claudio estremeceu. Passava-lhe uma suspeita no espirito. Áquella hora... fazendo caminho por ali.. o modo como se dirigiu a Maria... Adivinhava! Era o seu namorado!
--Elle gosta de ti?! perguntou apressadamente.
--Creio que sim, respondeu Maria serenamente. Pelo menos assim o diz.
--E tu gostas d'elle?
--Não sei... Quando ouço essas coisas, parece-me que não são comigo. Nunca acredito no que me dizem.
A conversa não continuou. Claudio, confundido, despediu-se de Maria.
--Vou ainda dar um passeio, disse. O luar está tão lindo!...
Desceu a tomar a estrada que seguia á beira da varzea ladeada de oliveiras. A lua subia n'uma serenidade divina, espargindo docemente a sua luz, e do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina pousava, erguia-se uma tranquillidade augusta em que se sentia a terra latejante de vida. Claudio parou, voltado para o nascente, ouvindo na contemplação as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava. Era certo, era certo! As aves que arrulhavam na rama dos pinheiros, o musgo que rastejava pelos troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato polia, as aguas que desciam pressurosas, todos n'um côro unisono cantavam louvores ao seu destino. Só elle estava proscripto da alegria, pela propria loucura!
Sentou-se á beira do caminho, a cabeça pendida, amparada entre as mãos, n'uma agonia de tristeza.
D'onde lhe vinha essa dôr que tanto contradizia a natureza feliz? Bem o sabia; o seu coração já não se illudia. Uma oppressão de inveja e de ciume,--eis o segredo de tanta mágoa. Maria tinha o seu namorado. Corára quando o avistou e quiz logo voltar a casa. Amava-o, era indubitavel. Em poucos mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam de celebrar na madrugada a sua união e elle havia de ouvil-os annunciando-lhe a sua desgraça. Que importava?! Não fizera voto de castidade? Não era Maria uma simples imagem perante a qual ajoelhava na adoração da simplicidade? Tivesse animo, desprendesse-se por uma vez das ambições terrenas, elevasse a sua alma ás regiões de eterna beatitude.
Embora! Repetia as palavras do Evangelho: «O espirito é prompto mas a carne é fraca», e não conseguia libertar-se da propria fraqueza, reconhecendo-a e condemnando-a na sua consciencia. Todos os raciocinios eram impotentes para dominar a dôr. A lembrança de que estavam terminadas as horas em que a voz de Maria, como um canto de feiticeira, lhe fazia esquecer toda a desgraça da sua vida, esmagava-o. Iam roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.
A noite foi de agitação. Aos primeiros alvores da manhã, por que anciava, ergueu-se e de casa começou a espreitar a saida de Maria. Não tardou que ella apparecesse á porta, com um cesto de roupa á cabeça. Ia á ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos para a casa de Claudio.
--Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitará o meu tormento?
E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por atalhos, a cortar-lhe o caminho. Chegou abaixo, proximo do rio, e começou a subir a encosta. Em breve a encontrava.
--Bom dia, minha rola!
--Que madrugada!... Quando saí, olhei lá para casa e vi tudo socegado. Pensei que ainda estivesse a dormir.
--Não, não dormi bem. Dize-me uma coisa, perguntou abruptamente: Quando é o teu casamento?
--Para a semana dos nove dias.
--Mas aquelle rapaz que hontem passou por nós, quer casar comtigo...
--Quer... mas eu por emquanto é que não quero casar-me. Já lh'o disse.
Para Claudio estas palavras foram um completo allivio.
Restituiam-lhe Maria, restituiam-lh'a pelo menos para a sua admiração, para na sua singeleza reanimar a alma enferma de cogitações e contrariedades. Agradeceu-lh'o com um olhar, sem se atrever a uma confissão em que temia manchar a candidez dos seus sentimentos, e voltou a casa alegre e repousado, cantando, a cuidar dos gados.
Continuava o idyllio, as palestras com Maria e o trabalho na lavoura. Sentia-se vigoroso e forte; nenhumas fadigas o alquebravam. Pela madrugada estava a pé, distribuindo o penso aos gados. Almoçava um pedaço de brôa com um ligeiro condimento e vinha para o campo. Não havia já serviço de que não fosse capaz; tudo estava em o saber distribuir e alternar. Prendia-se á terra com um amor febril, talvez n'uma vaga ambição de igualar Maria e por isso melhor a merecer. A rapariga estranhava todos os devaneios de Claudio, perguntava-lhe se não era melhor viver na riqueza, mas sorria perante as razões que elle lhe dava e que despertavam no seu coração um impulso de meiga sympathia.
Um dia, Claudio veiu para o trabalho sem ainda ter visto Maria. Algumas vezes isso lhe acontecia mas sempre o deixava aprehensivo e triste; então, o trabalho caminhava lento, os braços a custo podiam com a enxada. Era mal sem remedio; a mãe de Maria é que distribuia o serviço e nem sempre podia saber antecipadamente em que se consumiria a manhã.
Como era dia de mercado, suppoz que tivesse saido mais cedo e resignou-se com a lembrança de a vêr no regresso. Embalde porém a esperou. Maria não veiu, em todo o dia não poude encontral-a. Ficava inquieto. O que seria? Doença? Teria partido para fóra da aldeia? O espirito perdia-se-lhe em conjecturas. Pensava em parar á tarde a conversar com o pae, como fazia muitas vezes, mas o velho veiu a casa de Claudio para vêr umas vitellas que este mandára vir de Miranda e por ali se quedou, no pateo, até á hora da ceia.
Desfeita esta ultima esperança, a inquietação redobrou. Para a acalmar, saiu n'um longo passeio, subindo pelos atalhos da serra. Queria muito áquella aspera nudez dos montes, que infundia na sua alma sentimentos de força e tenacidade na vida ingrata, sujeita ao açoite de todas as intemperies, despida de todo o viço e de toda a doçura.
A noite ia adeantada, já ha muito tinham batido as dez horas. Desceu á aldeia.
Quando avistou a casa de Maria, pareceu-lhe descobrir um vulto debruçado no muro da eira que era junto á rua. Aproximando-se, a sua suspeita confirmava-se. Era ella. Que felicidade! Todas as inquietações iam cessar.
--Boa noite, Maria. Que fazes aqui?
--Ouvi meu pae dizer que o tinha visto sair, deixei-o adormecer e agora estava á sua espera. Quero muito fallar-lhe.
Na sua voz percebia-se a perturbação interior. Claudio sentiu um fremito de terror.
--O que foi?! perguntou confundido.
Maria contou-lhe então que tinham dito á mãe que elle a namorava, que todas as manhãs a esperava á porta do campo. A mãe reprehendera-a e prohibira-lhe que lhe tornasse a fallar, a não ser em casa ou quando outras pessoas estivessem presentes. Ameaçara-a de o dizer ao pae, que nada sabia ainda, e de a mandar servir para longe, se continuasse.
--Esqueça-se de mim, esqueça-se de mim, foi o singelo pedido com que respondeu a todos os rogos e protestos apaixonados de Claudio que a deixou assegurando-lhe que ia voltar a Coimbra e que havia de procurar esquecel-a. Bem sabia que não poderia fazel-o, que isso não dependia da sua vontade, mas queria deixal-a tranquilla, sentindo-se feliz pelo sacrificio.
Interiormente, quasi estava contente. Estes amores que terminavam sem macula engrandeciam-se aos seus olhos por este facto: a abdicação de todos os seus desejos em proveito da felicidade de Maria coroava d'uma maneira gloriosa o culto que lhe consagrára.
Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza, n'um amor sublimado. Iria a Coimbra, soffreria a tortura de viver ali durante um ou dois mezes e, quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se de Maria. De longe, silenciosamente, faria sua a alegria da sua amada onde a encontrasse, ou cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo a roupa sobre as lageas do rio, á sombra dos salgueiros.
Partiu pela manhã, recommendando repetidas vezes aos creados os gados, as aves e as plantas. Iam sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas flores que careciam de regas mais frequentes, a hora a que convinha levar o gado ao pasto.
Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros da sua vida. Aquelles sim, aquelles nunca lhe mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas, prosperando e prodigalisando os fructos, derramando em torno a abundancia e a belleza.
Foi a pé, seguindo os caminhos menos frequentados. Procurava bastas vezes vencer pelo movimento e pelo cansaço a agitação do espirito; por experiencia sabia quanto o silencio e a contemplação da natureza lhe eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam communicar-lhe uma parcella da sua serenidade.
Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto com grande estranheza. Não que elle tivesse deixado completamente de lá ir mas, sempre que o fazia, a sua vinda era previamente conhecida pelo facto de mandar ir a carruagem a Villalva... D'ordinario, demorava-se um ou dois dias dando solução aos negocios da casa e entregando pontualmente á mulher todos os rendimentos. Ficára assente pelo simples uso, sem qualquer declaração formal, que os rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura, que d'elles dispunha como queria, e para elle só reservaria os bens de Villalva.
De resto, Claudio supportava este encargo de visitar e administrar a casa sem maior contrariedade apparente. Transpondo o portão da estrada da Beira era outro; envergava os trajos da gente da cidade e com elles rehavia antigos habitos de polidez e de delicadeza mundana. Ás vezes, parecia mesmo contente; a certeza de que dentro em pouco voltaria ao seu casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe tolerar resignadamente, porventura bondosamente, os costumes que no intimo condemnava e aborrecia. Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando alguem tinha a indiscrição de lhe perguntar pelas suas lavouras, respondia com um laconismo que cortava todo o seguimento da conversa.
Na sua ausencia, porém, o seu viver era muito discutido. Em geral, julgavam-n'o um maniaco. Laura e D. Maria Francisca tinham-n'o por um homem brutal, destituido de todo o sentimento de bondade; o abandono da mulher e do filho, que aliás viviam na abundancia e no luxo, pareciam-lhes um crime. Só D. Pedro o desculpava; sempre respeitára muito a liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe respeitassem a sua.
--Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois. Está no seu direito! E tu, dizia para a mulher, não gostas de trazer plumas no chapéu e de jogar o _whist_? É a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado sempre muito bom rapaz... Traz ahi a Laura com todas as commodidades e ainda fallam d'elle!
A vida desregrada e a estreiteza de espirito não tinham pervertido o coração do fidalgo. Incapaz de uma bondade activa, conservava um constante pendor á indulgencia e tinha, como homem enfastiado do mundanismo, certa attracção para os caracteres que se desviavam dos typos consagrados. Por isso estimava o genro e o defendia.
Levava o seu affecto até ao ponto de o visitar em Villalva, quando nas caçadas se encaminhava para esses lados.
Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros que se estiravam na sala, offegantes, a lingua pendente e humida, ostentando a dentadura recurva e eburnea.
Claudio recebia-o com sincero contentamento e affagava a matilha cujas proezas D. Pedro logo começava a narrar.
D. Maria Francisca escandalisava-se com essas visitas que destoavam da sua attitude reservada com Claudio. Se por acaso acontecia que o marido dormisse em Villalva, para alongar a caçada, ás vezes mesmo em companhia dos seus hospedes beirões, não deixava de o reprehender, escarnecendo.
--Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a esses palacios! Ha-de-se lá dormir muito bem e com muita limpeza!
--Olé se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos assomos da mulher. O Manoel de Vasconcellos ainda agora me escreveu de Lisboa a chorar pela ceia que Claudio nos tinha dado. E tem razão! Aquelle lombo de porco, assado no espeto, alli á lareira, nunca mais esquece.
No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra foi á noite a casa dos sogros.
A sua presença despertou grande curiosidade entre os convivas, que eram muitos. Todos o rodeavam, e muitos, estranhando a sua magreza, perguntavam se tinha passado mal ou soffrido qualquer doença.
--Não, tenho passado excellentemente, magnifico, mesmo muito vigoroso, respondia Claudio.
Na verdade, estava magro, os olhos encovados, as faces enrugadas. Illudia-se tomando por vigor a excitação em que o trabalho physico e a intensidade das impressões moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.
--Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam insistindo os que o cercavam.
--Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou alguem. Que diz o doutor?
Este doutor era um medico que ha pouco tinha tomado capello em medicina e se preparava para lente da Universidade.
Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes sobre doenças nervosas, escriptos em francez, julgava-se senhor de toda a sciencia e deixava perceber, sem abertamente o declarar, para não crear antipathias que lhe prejudicassem a entrada na Universidade, que os lentes nada sabiam. Elle é que estava ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o consultassem, tomando a consulta como reconhecimento dos seus talentos, e fallava pausadamente, cathedraticamente.
--Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor, hoje a sciencia tem feito grandes progressos que, digamos de passagem, são quasi completamente ignorados em Portugal. Infelizmente, entre nós, estuda-se muito pouco; com excepção de meia duzia de homens de verdadeiro talento e de saber, no geral cura-se por uns processos rotineiros de que a medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenças nervosas conhece-se muito pouco... mesmo muito pouco! Quando ultimamente defendi theses, tive occasião de ouvir as criticas mais extravagantes. Convenci-me de que a materia era perfeita novidade para os meus collegas. N'um caso, por exemplo, como este do dr. Claudio, o que a sciencia aconselha é não só o exame de todo o organismo mas particularmente a observação das manifestações nervosas. É cousa que demanda um grande tacto... um grandis...simo tacto! Qualquer medico que o visse, naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes. Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se por ella. Seria um erro! O dr. Claudio diz-nos que se sente vigoroso e está ao mesmo tempo com apparencias de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio entre a força organica e a actividade nervosa, que é necessario combater. Uma vida tranquilla e particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo da quietação é o que hoje se recommenda n'estes casos. O mar em caso algum; a sua agitação é communicativa. Eu creio que o dr. Claudio ganharia muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.
--Não digo que não, meu caro doutor, respondeu Claudio disfarçando mal um sorriso, mas nem sempre se pódem tomar remedios... tão energicos. São, ainda que mal lhe pareça, depauperantes em alto grau. Da algibeira, é claro.
--Sim... mas nas circunstancias de v. ex.ª isso não é motivo.
--Eu não digo que rejeite por completo o tratamento, mas tomo-o em dóse mais moderada. Uma digressão pelo Minho será o bastante.
--Mas creia v. ex.ª que isso não lhe dá resultado. O que tem desacreditado muitas vezes a therapeutica moderna é deixarem de a seguir com todo o rigor que a sciencia aconselha.
Claudio ria-se da presumpção do medico e ia aproveitando o conselho, porque lhe convinha. Já antes tinha pensado que a permanencia em Coimbra não podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de Laura, de que nem o abandono do marido a curara, os serões em casa dos Albuquerques, toda a rede de impostura, de mentira e de futilidade que é o caracter da vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o. Precisava fugir d'alli.
Seguiria pelo Minho quasi até á fronteira e d'ahi, por Montalegre e Chaves, desceria ao Douro para o atravessar e passar á provincia da Beira Alta d'onde voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens haviam de o ajudar a vencer a inquietação em que o amor o trazia.
Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva inteiramente de posse da sua vontade que empregaria com firmeza em evitar quanto podesse levantar a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria. Ia pôr-se a caminho.
Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e fria. Vinha rompendo o dia. No rio a nevoa e as aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam e retemperavam como deuses pagãos, em ondas claras.
Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilhão da vida ingenua, era o fructo prohibido dos seus anceios, uma recordação amarga.
Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas e pelos valles estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas pela alvorada que se espraiava empallidecendo o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as cupulas dominando e protegendo os tectos negros que, afundando-se pelas quebradas, rastejavam em torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora magestosos, ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas lagrimas, quanta tortura e miseria despertavam com a manhã d'aquella massa obscura! Um sentimento de piedade lhe apertou o coração, e logo o remorso começou a perseguil-o implacavelmente. Tambem elle era criminoso, tambem elle semeiara lagrimas, tambem elle ateiara com os seus desvarios o fogo das paixões que alimentam a miseria!
Porque saira de Villalva, porque não ficára ali como seus paes modesto e ignorado? Talvez... talvez... Uma suspeita lhe passava pelo espirito... Talvez então vivesse contente com Maria, no seu casal abençoado e fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade ignorada que só em sonhos sentira!
Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle ahi regressaria. Levava comsigo a saudade da vida que jámais o abandonaria e que agora se personificara poeticamente na lembrança de Maria.
Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante. Ficára-lhe d'aquellas terras uma boa recordação. A belleza das mulheres, altas, d'um raro concerto de majestade e de graça nos seus trajos esguios, a payzagem viçosa e ampla, em que a luz se attenua e pulverisa sobre as aguas extensas e na atmosphera humida, os costumes, a liberdade sem altivez do povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava a voltar a Aveiro.
Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade. Dava-lhe agora uma impressão de silencio, de calma, de desolação que provocava a tristeza. O movimento nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas, com os seus ruidos caracteristos, muito poucas. Enganára-se; não era aquillo que tinha na memoria.
Pela manhã percorreu os caes. Saiam os barcos levando os pescadores para a ria e os marnotos para as salinas; a jarra da agua, o cesto com o almoço e o gabão era toda a sua bagagem. Deixavam a casita onde se abrigava o lar e o berço, e deixavam a guardal-a a companheira da sua vida; voltariam á tarde, a trazer-lhe generosos o pão que haviam ganho durante o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos do mar e aos ardores d'um abrazado estio. Tambem assim era em Villalva, tambem áquella hora Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e pela serra aspera.