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Chapter 16

Chapter 163,852 wordsPublic domain

--Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com a mão esquerda, que o braço direito estava completamente paralytico. Estou muito mal... É tempo de dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que cá viesses hoje...

Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras tardavam e a voz embaraçava-se.

--Está assim, disse a irmã de Claudio. Falla quando a chamam, diz meia duzia de palavras e depois fica outra vez n'esta somnolencia. Já não se lembra de que foi ella que te mandou chamar.

Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo da meia noite, a velhinha moveu-se no leito. Claudio perguntou:

--O que tem? Quer alguma cousa?

--Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.

A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se da mãe, a observal-a. Pareceu-lhe alterada a face; para vêr melhor, desvendou a luz que estava sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno bahú de coiro, antiga herança da casa em que o pae guardava os titulos das suas propriedades.

--Luiza, Luiza! gritou chamando a irmã.

O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e Claudio, ancioso, sem articular uma palavra, apenas poude apontar para elle.

Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em breves momentos, jazia inerte aquelle corpo que os animára com o seu alento e que lhes legava a eterna luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.

Houve certo rumor em toda a casa, dos creados que saiam a levar ordens para o enterro, a prevenir o parocho e os armadores. Depois, pelas duas horas, tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam o corpo da mãe, pallida e serena, vestida de negro, coroada de cabellos brancos, sobre o leito, mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam o crucifixo, em cima da commoda, convertida em altar.

Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos que vinham com palavras de sentimento, e muitos com lagrimas, offerecer os seus serviços. Dirigiam-se a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao sair, entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto do cadaver.

Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. Claudio abraçou-os, soluçando n'uma crise de lagrimas.

--Vae vel-a, disse para a mulher.

Na confusão do seu espirito perpassou a esperança d'um milagre. A mãe havia de converter a esposa; dos tristes despojos d'aquella que fôra uma santa emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade e o amor.

Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente de Albergaria que correu a Villalva. O enterro foi á tarde. Quando chegou a noite, voltou a paz. Tudo parecia dormir.

No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha pressa de restituir a mulher á sua casa e ás suas commodidades. Sabia que ella não podia estar contente ali, servida por creados rusticos, e a sua presença perturbava-o.

Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu espirito era completa, tudo o que conscientemente sentia era uma fadiga extrema. Voltava a Coimbra, lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á irmã e partiu.

Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá tinha chegado, succediam-se sem interrupção as visitas de gente fina que vinha trazer-lhe consolações banaes, em palavras que no correr do dia ouvia innumeras vezes.

Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava tratar de partilhas e regular os seus negocios, mas a verdade é que queria estar só com as suas saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria concentrar-se na meditação, tentar descobrir e vêr claro o estado da sua alma. Contrariedades, esperanças, desillusões e uma infinita saudade batiam-n'o sem cessar como o lebreiro persegue a caça. Fugiria? Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se mais uma temerosa batalha.

VI

Villalva! O silencio e a paz no contacto da natureza, a absorpção no seu caudaloso palpitar, o arrebatamento nas suas emanações purificantes! Perante a cintura de montanhas que lhe cerravam o horisonte, lançando os olhos pelo valle em que os casaes dormiam escondidos no arvoredo ou debruçados á beira dos campos vicejantes, Claudio sentia uma vaga aspiração, um desejo obscuro cortado de saudades traduzindo-se n'um pullular de interrogações que opprimiam. Onde estava? Por que agrestes caminhos tinha andado? Onde ia? O que queria?

Só, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros risos e as suas primeiras lagrimas, perante o vulto sagrado da mãe, agora sempre presente aos seus olhos, resurgindo reanimado, para não mais morrer, na exaltação d'uma immarcessivel lembrança, reconstituia a sua existencia, recordando factos, buscando ainda, com uma tenacidade de naufrago, esperanças de salvação.

O desengano esmagava-o; já não podia ter duvidas sobre a situação a que chegára, a historia da sua vida era um livro aberto em que não ficava o mais breve enigma nem a mais passageira obscuridade. Recordava os annos da infancia e mocidade, o respeito pelo trabalho e pela humildade de que seus paes lhe haviam dado lição profunda no exemplo ininterrompido, via como depois surgira a tentação accendida pelas fascinações da sciencia materialista e pelas perversões da riqueza, e sentia ainda com angustia a tortura em que o lançára o tormentoso desvairamento do adulterio.

Casára-se para se salvar. Não desenganado ainda sobre a significação moral da vida elegante, confundindo o luxo e a arte, a delicadeza do espirito e os cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia fidalga sonhando a alliança d'uma simplicidade christã com os requintes artisticos e os gozos e as commodidades da gente fina.

Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido dolorosamente e profundamente. Encontrara um egoismo sem limites, occultando-se em palavras doces e sorrisos convencionaes, onde esperava uma alma aberta á sympathia, ao amor e ao sacrificio; encontrára uma inconsciente crueldade onde phantasiára uma perenne bondade e denguices sentimentaes no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora tudo estava perdido, sem remedio.

Quando fôra dos amores de Emilia, era livre, senhor de recomeçar a sua vida; ligado pelo casamento seria arrastado na sua desgraça sem remissão. Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura, os continuados motivos de desgosto que ella lhe dava e que por constantes definiam a sua vida normal; os ralhos e a odienta brutalidade com os creados, a aversão aos pobres e aos mendigos, o horror da procreação e essa avidez feroz com que reclamava o marido só para os seus prazeres, para os seus vicios e para as suas futilidades fidalgas, não lhe permittindo um momento de liberdade, não lhe concedendo, n'uma hora de bondoso desprendimento, que vivesse para si, para os seus trabalhos, para o seu repouso, ou, mais singelamente ainda, para as suas meditações.

Na verdade, não tivera com Laura um só acto de violencia, não podia dizer quando começára esse sentimento indefinido que o fazia temer a sua presença e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por isso a dissolução era menos completa; infiltrára-se-lhe na alma, subtilmente, impregnando-a dia a dia mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do fél que trasbordava jorrando um sombrio desespero.

Como supportára até então essa cruz, porque não fugira ha mais tempo do logar em que um tormento incessante o perseguia? Não tinham sido as esperanças de emenda da parte de Laura que o tinham contido. Essas perdera-as por completo quando o filho nascera; a mesquinhez da sua alma revelára-se então sem rebuço, deixando-lhe no espirito uma arreigada convicção que, de resto, os factos quotidianos confirmavam tenazmente.

Rememorando as mortificações que soffria, persuadia-se, n'um exame da propria consciencia, que só por amor de sua velha mãe occultára a sua desgraça tentando deixar-lhe sempre a impressão de que vivia feliz. Sim, só por ella bebera corajosamente esse calix sem trepidar, sem uma apparente contracção, para que a tristeza não perturbasse a sua velhice e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade de quem louva a Deus por ter abençoado de felicidade a sua próle.

Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo laço que o ligava á terra! Aquelles cyprestes que além oscilavam ao vento junto á egreja, tinham agora para Claudio uma fascinação estranha. Os seus olhos não se desprendiam d'esse pedaço de terra, interrogadores, fitando os tumulos, buscando a revelação do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua mãe, o seu grande affecto? Dormia já para sempre. Para Laura, sua esposa? Era alheia ao seu coração e, ámanhã, quando o tivessem lançado ali ao pé de sua mãe, havia de cobrir-se de crépes finos, e correria, em carruagem, a fazer mesuras lacrimosas por casa dos parentes fidalgos, e bateria nos creados quando errassem e em accessos de ira expulsaria os mendigos do jardim.

Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante a imagem d'essa dôr mentirosa, ávida da vida, d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do mundo crescia no seu coração. Viveria para o filho? Nada podia esperar d'elle. Havia de crescer ao sabor dos caprichos da mãe. Já uma atmosphera de louvores e constante lisonja começava a tornal-o enfadonho e falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de regalos, a perversão mostrar se-ia completa. Melhor seria livrar a tempo os seus olhos d'essa imagem em que veria incessantemente a miseria do seu destino. Viver para os estranhos, para os desconhecidos, para uma vida de caridade, enxugando lagrimas, agasalhando os indigentes, levando consolo aos desventurados? Era tarde! Toda a energia estava extincta, consumida na propria desventura. Viver para os prazeres do corpo, lançando para longe todas as preoccupações moraes, despindo-se affoitamente d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando a casa da estrada da Beira sob a impertinente insolencia da mulher, sentira os impetos d'uma reacção naturalista que o vigor dos annos atiçava mas de todas as tentações logo accordava pela lembrança dos tormentos passados em Albergaria da Serra nos tristes annos dos amores de Emilia e pela perseguição de invenciveis espectros da consciencia em que as aspirações de virtude se confundiam com a imagem da sua mãe, no intimo sempre presente.

Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano, privada de todas as alegrias que ambicionára, continuamente retalhada de dôres? Tivesse a coragem de anniquillar os restos inuteis do seu corpo. Para que servia n'este mundo? O pão que o alimentava queimava-lhe os labios como um roubo ao trabalho dos que eram sãos, vivendo no amor, e o suicidio não seria um crime nem uma deserção, era uma obra de caridade livrando a humanidade d'um ser enfermo e esteril, era um acto de justiça, reconhecendo e castigando o desvairamento da sua existencia perdida em sonhos vãos e agora sacrificada á frivolidade d'uma mulher. Uma pesada sombra lhe escurecia então o pensamento e olhava esse abysmo eternamente mysterioso como o mar calmo em que precisava lançar-se para seu repouso, para sua gloria, para sua redempção.

N'esta febre havia porém remissões. Pela manhã, desde que fallecera a mãe de Claudio, a casa de Villalva era invariavelmente visitada pelos devedores, pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella dependiam.

Vinham regular as suas contas, pedir perdão das dividas em atrazo ou que lhes esperassem pelo pagamento das rendas caidas, saber se poderiam contar com as terras, o que seria de futuro, a quem pertenceriam.

Era gente rude, vestida de burel, mostrando no peito uma camisa grosseira, de grandes e toscas botifarras, muitas vezes descalça, tendo deixado á entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres vinham tambem; por homenagem ao novo senhor traziam-lhe aves que iam levar a cosinha, em pequenas cestas.

--Ai, Senhor! Está no ceu, era uma santa; diziam gemendo para que Claudio ouvisse e se compadecesse da sua pobreza.

Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios, começavam a falar dos seus males, este dos gados que lhe morreram, aquelle das doenças que houvera em casa, est'outro das más colheitas e dos maus preços. Terminavam pedindo alguma cousa. Por alma da senhora sua mãe... rematavam.

Claudio, a essa invocação, que bem sabia ser banal, não tinha coragem de resistir. Era no seu espirito uma instantanea resurreição de qualquer cousa sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.

De resto, as horas que passava com os arrendatarios, com os devedores e com os creados que vinham receber ordens e dar contas das suas obrigações, eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples. As riquezas do mundo encerravam-se em algumas medidas de pão guardadas na arca, em meia duzia de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto o rebanho vae traçando o pasto, e tecido nos serões de inverno á minguada luz d'uma candeia.

Moral, problemas da alma não existem. «Tu comerás o pão com o suor do teu rosto», é tudo, um evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o sustento que ella nunca recusa ao teu suor, não contes os teus passos, nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha sempre, para ti, para os filhos, para os visinhos, para os viandantes que passam no caminho; não penses para que nem para quem, os necessitados te virão buscar o pão, como nas horas de miseria tu irás tambem viver do trabalho alheio.

A suprema lição era-lhe dada por aquelles que esmolavam e nada pretendiam ensinar. De tanto estudo e ambição, de todas as suas cogitações e de todos os seus loucos anceios de perfeição, recebia alli correctivo.

Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera n'essa noite em que, creança ainda, pela primeira vez deixára Villalva para ir buscar riqueza e saber que tão cedo se converteriam em infortunio, e a ideia da morte voltava como a unica redempção.

Laura escrevia-lhe longas cartas. Que não sabia que crimes eram os seus para que assim fosse abandonada, que todos a estimavam e adoravam, menos elle; que só á inconstancia dos homens podia attribuil-o pois ella, se por alguma cousa peccava, era pelo muito amor que lhe tinha. O que diriam, perguntava, todas aquellas pessoas com quem convivia ao saber que Claudio desertara a sua casa quasi completamente? Por certo haviam de o condemnar.

No fundo, essas cartas eram apenas a confirmação do que Claudio por demais conhecia, a vaidade da mulher, a crença nos seus merecimentos alimentada pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma vontade insaciavel, absorvente, de ser senhora de todas as acções do marido.

Não mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um objecto que era seu, para seu uso e regalo e não para viver para elle, sacrificando-se. Confirmando a sua infelicidade, lançavam-n'o em novos impetos de desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar das suas cogitações podesse surgir.

Uma tarde, como estivesse só, desceu abaixo, ao campo em que empregára tantos cuidados quando habitava em Albergaria. Custava-lhe vêl-o; tinha caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes dos amores de Emilia em que julgára ter alcançado a felicidade. Com que risonha esperança alli se sentára em mornos crepusculos do estio e em que desvairada agonia alli chorára as lagrimas da sua culpa!

Apezar d'isso, aquelle pedaço de terra atraia-o. No seu proprio abandono havia uma belleza consoladora; os jacinthos que brotavam entre a herva, as roseiras que se perdiam nos ramos das larangeiras, todo esse desalinho da natureza a que era estranha a mão do homem, cantava a vida ingenua e simples em emanações de viço e de frescura.

Estavamos em fins de fevereiro. Pela manhã chovêra e o campo brilhava todo aljofrado de gottas de agua.

Claudio abriu a cancella embaraçada nas trepadeiras que a enleiavam e olhou procurando um carreiro enxuto. Não havia; as hervas ruins cobriam todos os caminhos.

Quasi a seus pés, descobriu uma violeta. Abaixou-se para a colher. Reparou então que eram muitas estendendo-se pela beira do caminho, rompendo por meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra das acelgas.

Instinctivamente, começou a limpar o chão das plantas parasitas, primeiro devagarinho, com medo de se sujar e de se picar nas ortigas, depois affoitamente, sentindo um prazer estranho em afundar os dedos na terra. As violetas iam surgindo e, assim libertas, pareciam grandes e bastas.

Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim não podia mais, todo o corpo mortificado pela posição em que estivéra, abaixado. Levantou-se, contemplou com alegria os poucos palmos de terra que tinha limpo, e, para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados, enlameando-se, sem receio, procurando as plantas que tinham resistido ao abandono.

No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho, á tarde, depois de ter recebido os clientes. Antes de sair, voltou a vêr as violetas. Abaixou-se novamente, teve tentações de continuar, mas não podia mais, os membros entorpecidos.

--Amanhã! amanhã! pensava subindo a encosta.

Aquelles momentos tinham sido porém uma revelação. Apetecia-os com frenesi.

Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao campo. Trazia a ferramenta, o sacho, a thesoura e a navalha, para poder repousar d'um em outro trabalho. Voltou ás violetas. Não podia abaixar-se, o corpo dorido ainda do exercido da vespera. Começou a sachar um alegrete, mas o serviço ia mal feito, deixava escapar algumas hervas e a terra ficava aos montes, mal arrasada. Despiu o casaco; o sol começava a apertar pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras, mas a mão tremia-lhe, o córte era incerto, mal rematado.

Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada pelos vendavaes do inverno. Que infelicidade a sua! Quanto desejava, tudo lhe era vedado. Não poder trabalhar alli desde o romper do dia até á noite!... Seria a salvação. Affluiam as lembranças da mocidade, o prazer de cuidar das suas flores que a mãe vinha colher para pôr aos pés do crucifixo. Porque não tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo ainda, as forças voltariam com o uso.

Cada dia começou então a ter para Claudio os seus momentos de prazer. As violetas expandiam-se agradecendo os carinhos de quem lhes déra espaço e sol, as roseiras mostravam purpureos e tumidos botões e já da cylindra se erguiam suavissimos perfumes. Era uma festa interminavel que recrudescia a cada instante em novas vibrações de vida, coroando e abençoando o esforço humano.

Claudio sentia-se alegre junto da nova companheira da sua vida, a natureza, e tenazmente procurava vencer e sujeitar o corpo debil ao seu grande amor.

No dia em que pela primeira vez lançou mão da enxada, passou-se na sua alma um grande drama, uma lucta gigante entre o destino e a esperança. Ergueu a enxada ao ar, deixou-a cair, guiando-a, e cravou-a no sólo. Depois, firmando-se, recuou o corpo e voltou a leiva cortada cerce, rompendo a terra de cuja escuridão se desprendia um alento de fertilidade, como uma promessa. Ergueu novamente a enxada, cravou-a, recuou e voltou uma outra leiva. Triumphava! De repente, porém, cairam os braços e um suor de fadiga se lhe derramou em todo o corpo. Não podia! O esforço era superior ás suas forças; uma reacção violenta quasi o prostrava. Encostou se á enxada e duas gottas de suor, rolando-lhe pela fronte, foram beijar a terra. Mysterioso hymeneu!

N'aquelle beijo consumava-se um eterno amor. A esperança, succedendo ao desalento, reanimaria o corpo enfermo e d'aquella união, fecunda e casta, sem peccado, brotariam fructos abundantes para matar a fome aos miseros famintos e para restituirem á vida a alma angustiada.

Dentro em breve, poderia trabalhar quatro a cinco horas no seu campo, vencendo pelo exercicio e pela perseverança a debilidade physica, affrontando as instancias dos servos, que se julgavam humilhados vendo regeitados os seus serviços, e desprezando risos equivocos dos visinhos que entre si discutiam se Claudio era um avaro, se um louco.

--É aquelle mesmo genio do pae, diziam uns. Muito agarrado!

--Qual genio! diziam outros. Foi uma mania que lhe deu. Elle não faz aquillo para poupar. Parece até que se importa pouco com o que é seu. Tem perdoado as dividas todas e traz as rendas de rastos.

Para preencher o muito tempo que lhe sobrava do trabalho n'aquella estreita lavoura, Claudio tomára á sua conta alguns serviços de casa mais ligeiros. Era elle que olhava pelo penso das aves e dos gados que breve aprenderam a conhecel-o e a festejal-o na sua caracteristica e descompassada alegria, abeirando-se do seu senhor com as caricias de gratidão que elle recebia com avidez, elle que era tão pobre d'essas dadivas.

Mas não podera banir ainda todas as horas de angustia; a fadiga e os novos prazeres d'esta existencia nas graças da natureza não tinham vencido inteiramente as tristezas da meditação. Ás vezes voltavam os zumbidos demoniacos do desespero e com elles a prostração do espirito. Não, não havia modo de se libertar e desprender do passado! A sua vida estava finda, precisava ter a coragem de comprehender e esperar com resignação o esphacelamento d'esse involucro que se lhe afigurava desprezivel e que era o seu corpo.

De longe em longe, vinha a Coimbra. Não tinha animo para um rompimento formal; a dissolução dos antigos vinculos ia lenta, com bastas interrupções, prendia-se em conveniencias que não conseguira combater victoriosamente, e com os estranhos mostrava cuidar da administração da casa e estar preso em Villalva por interesses temporaes.

Laura recebia-o com um azedume que não procurava encobrir, mitigado de contentamento por ter ensejo de mostrar quanto se sentia aggravada pelas ausencias e pelo viver do marido. Na sua impenitente vaidade, julgava se perfeita; attribuia o affastamento de Claudio a sentimentos brutaes e ruins.

Já a mãe deixava entrevêr nas suas conversações entre os intimos a infelicidade da filha e não perdia occasião de repetir:

--Coitadinha! Quasi sempre só... Meu genro tem aquelles gostos extravagantes. Só está bem entre brutinhos.

Claudio comprehendia o que se passava em volta de si; pouco fallava, cortando sempre abruptamente qualquer tentativa de explicação sobre o seu viver.

Antecipadamente sabia, por experiencia, que nem a mulher lograria fazel-o mudar de rumo nem elle conseguiria emendar o insubmisso caracter da mulher, formado para o egoismo e para a vaidade n'uma atmosphera de inconsciente perversão. Por isso se tornára taciturno. Quando por acaso se encontrava nos serões do palacio da estrada da Beira, apressava-se a tomar logar a uma meza de jogo onde o dispensassem de conversar e não o perseguissem com indiscretas e enfadonhas interrogações sobre os seus passos e os seus actos.

Logo que podia, ao minimo pretexto, corria a Villalva, lançando fóra com desprezo o casaco que o embaraçava de trabalhar e a gravata que tinha por um farrapo inutil e significativo; mal vestido e mal calçado, começava a visitar os gados e as plantas, retemperando-se no silencio d'aquellas montanhas; e este regresso ao ninho, como lhe chamava, deixava-lhe invariavelmente nas primeiras horas a impressão d'uma felicidade reconquistada e segura. Accordava-o uma vibração salutar, emanada d'esses milhões de vidas, mudas para o coração arido, eloquentes para os que palpitam na mesma onda.

Em frente da casa de Claudio morava um velho que fôra creado de seus paes. Juntara um escasso mealheiro á custa d'uma economia inflexivel, casára com a visinha que possuia aquelle albergue em que habitavam, e com isso e com as terras que o seu antigo senhor lhe déra de renda tinha prosperado em certa independencia.

Do seu casamento houvera muitos filhos, mas uns tinham ido para o Brazil, outros trabalhavam em Lisboa, outros tinham-se casado, outros morrido, e em casa, a este tempo, tinha só um rapaz de quatorze annos que o ajudava na lavoura e uma filha de vinte annos, e de nome Maria, que no labutar domestico auxiliava a mãe alquebrada pelos partos, pela creação dos filhos, por quarenta annos de ininterrompidas fadigas.