Chapter 15
Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria Francisca veiu discutil-o com a filha e por deferencia que ella julgava um requinte de delicadeza, quiz ouvir tambem Claudio. Já tinha combinado com Laura o caracter da festa e o numero dos convidados, baptisado ás cinco horas da tarde, jantar em seguida e depois uma pequena reunião dos intimos. Preferiria um grande baile, mas a casa não o comportava e a disposição dos moveis não era adequada á dança. Fica assim uma reunião mais escolhida, concluia ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da casa, escusamos de convidar os gebos que não sabem vestir uma casaca e não vêm ahi senão para comer.
Claudio não concordava; não queria festa alguma. O baptisado, dizia, é um sacramento e deve ser dado com a placidez e o recolhimento de quem tem consciencia do que faz. Não foi instituido para patuscadas.
--Ora que idéas!... respondia a sogra. Haviam de julgar que cairam em miseria ou que tem muito pouco gosto em ter um filho. Nada, nada, deixemo-nos de excentricidades, vamos andando assim, que foi sempre o costume cá de casa. Que diria o Claudio se visse o baptisado do José?!... Durante oito dias tivemos em casa vinte e sete hospedes! O conde de Palhares, que veiu cá de propósito, disse-me que os bailes do Farrobo não tinham mais grandeza.
--Coitado, murmurava, dirigindo-se á Laura, é muito bom rapaz mas ha de ressentir-se sempre d'aquella vida na aldeia.
--Se a mamã soubesse o desgosto que tenho com isso...
A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.
Tomando por singela obediencia as complacencias com que até então Claudio se tinha sujeitado aos habitos e vicios da mulher, D. Maria Francisca, que as ausencias do marido e a docilidade do capellão tinham convencido de que todo o dominio lhe pertencia, começava agora a mandar em casa da filha como em sua propria. Por isso, passando de leve sobre as observações do genro, dispoz tudo para o baptisado conforme o desejava.
Claudio começava a viver sob uma impressão de pavor que crescia á maneira que via perderem-se todas as suas esperanças. A cada instante se refugiava no seu gabinete, procurando o silencio e o isolamento em que poderia encontrar-se só e bem de frente com a tristeza da sua vida.
Quando chegou o dia do baptisado, sentia-se mais do que nunca opprimido. Quasi não fallava; respondia por monosyllabos, se o interrogavam.
--O sr. dr. Claudio, dizia um velho lente de theologia para D. Maria Francisca, vê-se mesmo que está doido de felicidade! Não diz uma palavra, vae todo entregue ao pensamento no filho.
Na egreja, porém, a imagem do Christo e a magestade do templo, juntando-se á febre do seu espirito, produziram-lhe um momento de oração ardente. Com uma supplica instante, fervorosa, acompanhava as palavras do padre, dirigindo se a um deus desconhecido que não via com os olhos do rosto mas que sentia na alma dominando o mundo. Intimamente repetia com o sacerdote: _Omnem coecitatem cordis ab eo expelle_, varre-lhe do coração toda a cegueira, _disrumpe omnes laqeos Satanae_, quebra-lhe todos os laços com Satanaz, _aperi ei Dominé januam pietatis tuae_, abre-lhe, Senhor, a porta da tua piedade, _accipe lampadam ardentem et irreprehensibilem_, recebe a lampada ardente e irreprehensivel, _custodi baptismum tuum_, guarda o teu baptismo, _serva dei mandata_, obedece aos mandamentos de Deus, _ud habeas vitam aeternam_, para que tenhas a vida eterna. _Vade in pace et Dominus sit tecum_, vae em paz e o Senhor seja comtigo.
A estas ultimas palavras os olhos toldaram-se-lhe de lagrimas. Vae em paz e o Senhor seja comtigo! repetia interiormente.
A dôr das amarguras do passado e a ambição da felicidade do filho confundiam-se n'um mesmo anceio. A consagração a Deus era plena, irrompia-lhe do coração. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!
--E fique-se por aqui, dizia-lhe D. Maria Francisca ao entrar em casa, emquanto atravessavam o jardim. A Laura é muito fraquinha. Depois não sei o que é... Por mais cuidados que se tenha, os partos envelhecem muito. Lembra-se de vêr minha prima Luiza? Casou ha cinco annos, como sabe, e tem tres filhos. Via-a outro dia em Cercosa. Está uma velha! Não faz ideia. Fique-se por aqui, fique-se por aqui, que está muito bem. Demais, um rapaz!...
Claudio ouvia sem responder, pasmado do despejo da sogra. Sabia que havia muito quem assim pensasse, nunca imaginára que alguem se atrevesse a aconselhar-lh'o.
A sua regra era a do Evangelho: Crescei e multiplicai-vos. Crescei e multiplicai-vos para o trabalho e para a virtude, para que a verdade se derrame no mundo, para que a caridade e o amor cresçam alargando-se as relações na humanidade.
O seu desejo era ter muitos filhos, julgava que essa seria uma das condições do resgate das suas faltas passadas; formando para o bem numerosas almas christãs, havia de compensar os seus erros. A intervenção da sogra surprehendera-o e por isso se calára; mas, passado esse primeiro momento de surpreza, revoltava-se.
D. Maria Francisca, porém, é que não desanimava, posto que pelo silencio do genro ficasse suspeitando de que elle não acceitava o conselho. Á noite, conversando n'um pequeno grupo em que se encontravam Laura e Claudio, julgou conveniente repetir a instancia mas d'esta vez levando-a por outra via.
--Hoje, dizia para a sua velha amiga D. Maria do Amaral, já não ha nem póde haver casas nobres. Vem as partilhas e não ha fortuna que lhes resista. A abolição dos morgados acabou com toda a fidalguia que fazia tanto bem. Desgraçado de quem tem mais do que um filho!
--Pois o meu desejo é ter vinte, apressou-se Claudio a responder bruscamente, não tentando dissimular a sua irritação Que trabalhem! Foi assim que fizeram meus paes. Deus me livre de gente vadia!
Laura córou e D. Maria Francisca respondeu:
--Crédo! Que ideias! Nem parecem d'um rapaz fino como Claudio!...
A conversação ia visivelmente azedar-se e D. Maria do Amaral, com o fino tacto que adquirira na sua vida de mundanismo fidalgo, accudiu a interrompel a:
--Olha que o sr. Soares não tira os olhos de nós, disse para D. Maria Francisca. Está á nossa espera para a manilha; lá entende que por ser dia de festa não ha-de ficar sem partida.
E todos se levantaram.
--O meu Claudio, veiu dizer Laura ao marido quando mais tarde se recolhiam aos seus aposentos, foi hoje muito mau. Não gosto de o vêr assim. Fico muito zangada.
--Porquê?
--Ora, porquê?!...
--Talvez tu tambem não queiras ter mais filhos?...
--Ai, decerto que não! Um vá. Mais do que um, Deus me livre! Só o que eu soffri!...
--É a boa educação religiosa que vos dão n'esses collegios de beatas.
--Tomara-me eu lá! São umas santas...
--Ninguem te prende.
--Bom. Deixemo-nos de discussões que não estou para me inquietar.
--É melhor, é. Mesmo a unica cousa de que deves cuidar é de não te inquietares. Fazes bem. Has-de tirar-lhe bom proveito! exclamou já ao cerrar a porta e dirigindo-se ao seu gabinete.
Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro paredes da sua cella asphyxiavam-n'o. Desceu ao jardim e passeiou até á madrugada, meditando no drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe sem attenuantes, as phantasiosas esperanças que por alguns mezes alimentára com uma tristeza resignada voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar da metralha. Não queria ter mais filhos! Este pensamento obececava-o. Era a extrema perversão, o repudio completo de todas as leis naturaes, a cobardia e o egoismo, calcando e reprimindo toda a expansão da vida ingenua, um misero e constante terror, substituindo a alegria intensa do peito que canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam nas manhãs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A maternidade não transformára Laura; pelo contrario, revelava-lhe o caracter. O amor de sacrificio não viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava, tornando-se indomavel.
Durante dois dias, Claudio só trocou com a mulher as palavras indispensaveis; taciturno, nada fazia já para lhe occultar o seu desgosto que era profundo. Intimamente, mantinha talvez ainda uma derradeira esperança, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua paz e alegria o que por instincto e instigação da consciencia não tinha podido alcançar. Laura porém conservava-se inteiramente estranha ao que se passava no espirito do marido; julgava-se offendida com o seu silencio. Pois não era uma santa, um anjo, como tantas vezes ouvira aos que a cercavam?!
A sua vaidade não lhe deixava um instante de hesitação. Claudio não podia ter d'ella o menor aggravo. Tudo o que elle fazia caia sob uma condemnação formal, completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por elle esse sacrificio. O filho não era para ella uma dadiva de Deus para melhor cumprir o seu destino no mundo; tinha sido uma tortura supportada por uma victima da sensualidade e do capricho d'um homem. A obliteração do senso moral consumara-se n'essa creatura a que a educação formalista, dando-lhe a apparencia externa, os modos, as palavras e os gestos da bondade, no intimo creára uma plena seccura de coração. Sem as luctas da vida em que se fórma e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o esforço e toda a situação que não lhe lisongeasse sem reservas os seus desejos.
Entre Claudio e Laura começou uma verdadeira lucta, surda, sem explosões retumbantes, mas continuada e persistente, manifestando a cada momento uma divergencia de caracteres que, não logrando fundir-se, mutuamente tentavam dominar-se. Os creados, as visitas, o filho, os passeios, de tudo se tirava motivo para discussão que invariavelmente terminava por accentuar uma incompatibilidade de pensamento profunda.
Claudio queria os creados tratados como familiares, bondosamente, sempre propenso a excusar-lhes os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e odiava-os cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira, por uma fita que uma creada trazia mal posta, porque se demoravam em accudir ao seu chamado. Não havia mez em que algum não fosse substituido.
--Antes um pedaço de brôa, diziam, e o seu socego do que os regalos dos fidalgos. E iam-se embora, maldizendo da casa.
--São do nosso sangue, dizia Claudio á mulher admoestando a; tem as mesmas tentações de descanso e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo afêrro aos seus habitos. É preciso tratal-os com caridade. São elles que nos servem, é sobre elles que lançamos todos os trabalhos pesados que não podemos ou nos repugna fazer.
--Pois governa-os tu! Eu é que não estou para isso. Se te incommoda ouvir os meus ralhos, tambem a mim me incommoda atural-os. O que elles são todos, concluia, enfurecendo-se, é uns demonios que não servem senão para me inquietar.
A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera uma furia raivosa contra os creados, ficara de lembrança a Claudio.
Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia com todo o rigor que a egreja aconselha, tendo-se previamente informado com o confessor sobre as horas, quantidade e especie de refeição a que devia sujeitar-se, para alcançar todos os beneficios que d'ahi podessem provir-lhe.
Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente vestida de negro, levando nas mãos um livro rico, presente do casamento que uma sua parente beata expressamente encommendára em Paris e onde vinha traduzido para francez o evangelho. Na egreja foi sentar-se proximo do pulpito, n'um banco que um conego, antigo frequentador do palacio do Albuquerque, se apressou a mandar-lhe offerecer pelo sachristão, mal a viu. Depois seguiu com grande recolhimento toda a cerimonia, lendo, a cabeça inclinada sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em longe para olhar a cruz e o altar.
Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar o magro alimento que lhe era permittido, mas ás quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para ir vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao anoitecer, logo seguida de immediato regresso á sé, para assistir ao officio de trevas e ao sermão da paixão. Tinha pressa, para não perder o logar que o conego promettera reservar-lhe.
Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando graciosamente o livro sobre os joelhos para se entregar a essa delicia, e ouviu por fim o sermão. Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia pouco para a faculdade de theologia, terminando o discurso e procurando motivos de emoção, clamava no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar o Christo morto na pobreza e no abandono, Laura, sentindo um fremito mais de temor que de piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente acompanhando a onda de povo que se dirigia á porta da egreja e entrou na carruagem.
--Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é tão descuidado... Nunca se lembra de trazer os escalfadores.
Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia noite. Ao entrarem em casa, encontraram um silencio profundo e Laura dizia ao marido, já levemente irritada:
--Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem sabia que eu tinha saido e jejuei todo o dia. Que desmaselo!
Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a porta do quarto, quando n'um movimento de surpreza, estacou.
A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma cadeira e adormecera.
Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais amargo lhe tornar o despertar, e n'um accesso de colera indiscriptivel começou a bater-lhe e a injurial-a.
--Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora aqui?! gritava. O meu regalo era pôl-a immediatamente no meio da rua.
Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica palavra.
--E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que homem este!
Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura acabava de receber? pensava Claudio. Era este o modo por que commemorava os soffrimentos de Christo? A surpreza turvava-o inteiramente e, como de costume, a imaginação espraiava-se buscando illusões, para retardar ainda por mais algum tempo a convicção de que a sua vida estava unida á mais cruel aridez do coração em que os seus sonhos de piedade christã tinham de se dissipar.
O filho era um acrescento ás vaidades de Laura. Entravam na sala as visitantes e logo a ama o preparava com rendas e fitas de seda para vir apresental-o. Choviam então as exclamações. Ai! Mas que belleza! Um mimo! Um apetite! E que gordinho!...
--É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais lisongeiras. É o retrato do avô.
Laura passava então momentos felizes. Não era o filho seu producto e propriedade, não vinham os elogios cair directamente sobre ella, juntando-se aos que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?
A satisfação da vaidade continuava-se agora sob uma nova fórma e, despedidas as visitas, voltava risonha a contar a Claudio o que haviam dito a condessa dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham um encanto, uma belleza!...
O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe o desprezo que por ella começava a ter, lembrando-se da indifferença com que abandonára o filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o para que os seus chóros não a importunassem e principalmente do seu receio louco de ter novos filhos.
Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados e os braços doridos das longas vigilias a amamentar os filhos, com a imbecilidade risonha e paramentada que tinha deante de si; a convicção do naufragio das suas aspirações arreigava-se-lhe no espirito. Nem já o filho lhe podia reanimar esperanças O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..
Laura continuava sempre estranha ao que se passava no pensamento de Claudio.
A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio e posse a que a tinham habituado os mimos dos paes, emquanto solteira, e que vira confirmados pela submissa obediencia com que o marido se curvára a todos os seus appetites durante os tempos de gravidez. Queria saber todos os seus passos, queria que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade de sair sem previamente lhe dizer onde ia e para que. Era um passeio em que procurava concentrar-se algumas horas na reflexão sobre a sua malograda existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, que ella iria tambem. Eram negocios que tinha a tratar? Escusava de sair e de a deixar só, tudo se regularia por meio de cartas; e punham-se os creados em movimento. O amor em Laura não era o ardor de sacrificar-se á vida d'alguem, de viver para outrem, era a paixão de possuir e conservar só para si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. Por isso dizia que tinha muito amor ao marido e ao filho, e tomou por ingratidão o descontentamento de Claudio, que percebia sem poder explical-o.
--Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O que eu lhe ouvi e o que agora vejo!...
Succederam-se longos mezes sem que a situação se modificasse apparentemente, porque no fundo ia-se cavando a extincção de todo o affecto conjugal. Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos e entre duas maneiras de conceber a vida, o egoismo que se occulta em convenções de religião e de bondade, e a virtude que rudemente, por um trabalho assiduo, procura servir o proximo.
Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não tinha uma hora sua, para os seus prazeres, para os seus estudos ou para o seu trabalho; a sua existencia estava completamente absorvida pelas exigencias de Laura, pelas suas recepções, pelas suas visitas, pelos cuidados e deligencias que lhe impunha, continuadamente a caminho da pharmacia ou do consultorio, se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço ou se o filho se mostrava impertinente.
O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando uma vida de benedictino, affagada pelos carinhos vigilantes da esposa, essa cella em que, lendo e pensando, havia de alcançar o conhecimento da verdade, que toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar a existencia, estava hoje convertido n'uma simples sala onde cada dia, em trajes bem talhados por alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados que vinham festejar os annos das pessoas de familia--os pretextos de festas multiplicavam-se,--ou pacientemente esperava Laura que, sem se dar pressa, rematava a _toilette_ para passeiar de carruagem, ou se consumia em qualquer outro frivolo mistér.
Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a quatro contos de réis de renda que Claudio possuía e que em Albergaria lhe permittiam uma vida lauta, sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de Laura eram insufficientes para os seus habitos e costumes fidalgos. Era preciso um cocheiro e um trintanario, um jardineiro, um escudeiro, um hortelão, uma creada para o serviço de Laura, uma outra para a cosinha, uma outra para ajudante da cosinheira, mais outra para o serviço das roupas, mais outra para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de recoveiros, de engommadeiras e as innumeras gentes que frequentavam a cosinha da pequena casa da estrada da Beira.
Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido quatro contos de réis além dos seus rendimentos. Era a ruina. Queixava-se a Laura.
--Tu bem sabes que não se póde viver com menos! respondia ella com vivacidade. Só se queres que eu lave a roupa e faça a cosinha...
--Não, mas tudo tem limites.
--Tem muita graça essas economias! Quem não quer gastar, não se casa. Ou então casasses em Villalva, com alguma rapariga de pé descalço. Não viesses procurar uma pessoa fina.
--Talvez não tivesse sido infeliz...
--Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa de meus paes muito bem, não me faltava lá nada. Escusava de me vir metter n'este inferno.
Claudio calava-se perante os modos irritados da mulher. Por triste experiencia sabia que não lograria convencel-a, e fugia de violencias inuteis. Interiormente, porém, o desengano consumava-se e o desprezo crescia, illuminado de rapidos clarões de revolta.
Começava agora a manifestar-se d'uma maneira bem patente a sêde de libertar-se do jugo. Entrava n'um periodo de desespero. Os momentos de tranquillidade em que o espirito se lhe desanuviava e a alegria parecia voltar, e que d'ordinario eram os que passava conversando com antigos companheiros, já não significavam esperança; eram apenas o natural repouso das cogitações em que a sua infelicidade se revolvia, reacção do pensamento fatigado de tristeza e buscando espontaneamente uma atmosphera sã.
Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que não podia esperar de Laura outra cousa que não fosse a futil existencia que até alli tinha levado; a educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade sem limites venciam todas as tentativas de conversão que o marido tinha tentado, emquanto o habito de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.
--Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar na bengala e pôr o chapéu na cabeça.
--Passeiar e tratar umas cousas na baixa.
--Mas eu preciso sair tambem...
--Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.
--Bons costumes! E muito delicados...
Claudio não respondia; continuava o seu caminho. Não tinha negocios alguns a tratar; o que queria era libertar-se d'aquelle ambiente que o suffocava, distrair-se em extensos passeios á beira do rio, na contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis mimosos ou encontrando quem lhe fallasse de coisas ociosas que eram para o coração dorido um rapido refrigerio.
Bem sabia que por cada vez que desobedecia a Laura teria alguns dias de despeitado mutismo, mas a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos haviam-n'o tornado indifferente a essa arma que a mulher usára com proveito nos tempos em que elle esperava vencel-a e conquistal-a pela doçura e pela paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava Laura ao proprio desespero, que era apenas o castigo da ruindade dos seus sentimentos.
Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar as peiores noticias de Villalva. A mãe mandava-o chamar; tivéra um novo ataque de paralysia e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha muito esperava essa má nova. Via o declinar da sua velhinha, como lhe chamava, que já por duas vezes fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o proprio medico não lhe tinha occultado que era provavel que se repetissem e que constituiam, uma ameaça grave.
Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe pela derradeira vez. Laura quiz acompanhal-o, não porque sentisse o menor respeito pela sogra, de cuja rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia de santo e de grande, mas porque julgava ser proprio de gente fina acompanhar o marido em occasião tão difficil. Elle, porém, instou e foi só; talvez exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria noticias e depois se resolveria como fosse melhor. A verdade era que queria vêr-se sósinho com a mãe e affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na saudade d'aquella que fôra a maior affeição da sua vida.
Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira d'alli toda a noite, dizia, nem sairia emquanto Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe, acrescentava, que o estado da doente era muito grave.
--Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde ir longe. É a sorte que a todos nos espera, e o dr. Claudio, como homem intelligente que é, deve ter coragem para se conformar com o destino.
Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso do doutor.
--Posso fallar-lhe, não posso?
--Póde... Ella por emquanto está ainda bem. Mas não convém conversar muito. Sempre excita...
Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada, os olhos semi-cerrados, unicamente acompanhada pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.
A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o lenço ao rosto a occultar as lagrimas que lhe rebentaram n'uma contracção afflictiva. Depois, dominando-se, chamou baixinho:
--Minha mãe, minha mãe?
--O que é? respondeu a velhinha abrindo os olhos.
--Está aqui o Claudio.