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Chapter 14

Chapter 143,904 wordsPublic domain

Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual fastio, mas sem molestia alguma. Claudio não se conteve; foi ao concerto. Receiando os seus amuos, explicou que era só por uma ou duas horas quando muito, que o desculpasse. Tinha muita vontade de ouvir a pianista; precisava mesmo de se instruir.

Laura nada respondeu, contendo o seu despeito. Claudio saiu na persuasão de que a tinha deixado convencida e de que ella generosamente acquiescera aos seus desejos.

A pianista era notabilissima. Claudio não teve coragem de deixar o theatro até ao fim do concerto. Sentia-se enlevado nas visões tragicas de Beethoven, nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.

Era uma embriaguez para os seus nervos doentes, ainda magoados das mortificações moraes, uma agitação sádia e capitosa.

Recolheu a casa contente, sentindo em si uma vibração que o erguia da prostração morbida em que os azares do seu destino continuamente o traziam. Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se do seu leito cautelosamente.

Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas um lenço a indicar as muitas lagrimas que tinha chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e nem se moveu nem disse uma palavra.

--Que tens, perguntou Claudio ancioso, que tens?

Não respondia; todas as instancias e todos os carinhos eram vãos, baldada toda a mágua afflicta com que era interrogada. Uma convulsão de choro foi a sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.

Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicações dos modos de indifferença e aborrecimento com que a mulher o tratou durante todo o dia que se seguiu á noite do concerto. Por demais tinha aprendido com Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava apenas no seu triste destino, d'esta vez sem poder fugir a uma ponta de azedume que se lhe cravava no coração.

Não era senhor de si, não podia dispôr de duas horas para seu prazer e sua instrucção, para repousar, avigorando-os, os membros fatigados? Toda a obrigação se reduzia a servir Laura, os seus habitos e os seus caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava como uma perniciosa ociosidade? Esquecia as aspirações de virtude que o tinham levado ao casamento; o egoismo, calcado pelo dominio absorvente da mulher, revoltava-se em nome de direitos soberanos e infiltrava-lhe no peito um mau fermento. Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe pelo pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.

Ao menos, lá, tinha o socego do seu palacio, a liberdade, a independencia, os carinhos protectores da mãe para lhe suavisar a cruz a que o prendera o amor de Emilia.

Aqui, nem isso; só, a todo o momento em face de uma mulher que constantemente o magoava com uma crueldade que a seccura do seu coração ignorava, todos os caminhos estavam vedados, o carcere era perfeito, o soffrimento sem esperança de remissão que não viésse d'aquella mesma que era a causa da sua dôr. Vinham, por instantes, alentos de energia e fé, clarões que varriam estas sombras.

Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que o seu dominio se traduzia acariciando aquelle que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio recuperáva animo. Não! errava; as exigencias da esposa eram as exigencias do dever. Precisava banir da alma os derradeiros impulsos do egoismo, abdicar de toda a liberdade, viver só e unicamente para a sua familia. Que lhe importava o resto?

Prazeres da intelligencia e do espirito, alegrias do corpo expandindo-se ao contacto da natureza, tudo eram vaidade de que lhe cumpria despojar-se perante a imagem hirta e sombria que a consciencia lhe apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade a palavra dever. Era necessario viver para a sua familia: essa era a obrigação por excellencia para cumprir a qual se casára e a que espontaneamente havia de consagrar-se, tendo posto termo a um passado criminoso que não voltaria. Acceitasse pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos egoistas.

Claudio promettêra a sua mãe ir vêl-a todas as semanas. Essas visitas, á proporção que o caracter de Laura se revelava, começavam a tornar-se um problema inquietador.

Para Claudio eram a maior das alegrias; a presença da mãe e das serras de Villalva eram para o seu coração um magico lenitivo que apagava todas as dores sem o minimo esforço da razão e do pensamento.

Perante ellas sorria, como se bebesse, por um filtro mysterioso, a mocidade e a frescura. Não o comprehendia Laura e por isso sentia, com um vago ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer cousa que lhe pertencia, os constantes cuidados do marido pelo que se passava em Villalva, a alegria e a impaciencia com que esperava o dia de lá ir, as pequeninas necessidades que inventava para servirem de pretexto a mais frequentes visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e bom.

Antecipadamente discutia-se o dia da visita; já não era sem receio que Claudio se aventurava a lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se contrariava.

--Vamos amanhã?

--Amanhã, não. Temos que acompanhar á estação as Mendonças que vão para o Porto e vieram despedir-se.

--Ah! é verdade!... Depois de amanhã...

--Depois de amanhã tambem não. Disse-me hontem a mulher do dr. Ramos que queria vêr o nosso jardim e talvez cá viesse.

--No outro dia... mas faz-se tão tarde... E não sei o que por lá vae...

--O melhor é não te prenderes comigo. Vaes sósinho.

Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam invariavelmente todas as semanas. Mal passava o domingo, era necessario começar a preparar o terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar a irritação de Laura.

O problema não tinha solução; estava destinado a manter-se indefinidamente nos termos em que o punham a contradicção do affecto de Claudio e da indifferença de Laura. Ou Laura acompanhasse o marido ou ficasse em Coimbra, essa visita era sempre toldada por inquietações.

A presença de Laura importava um retraimento de expansões que por completo prejudicavam toda a alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a apressar-se no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a alegria com a suspeita do descontentamento da esposa. Temia o mutismo em que se traduziam os seus frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro que lhe embargava toda a felicidade.

Só a mãe de Claudio ignorava quanto essas visitas custavam, porque o filho, para lhe poupar a tranquillidade dos seus ultimos annos, apparecia-lhe sempre sorridente de ventura, d'uma ventura que só pelo amor da mae se lhe mostrava na face mas que no intimo suspeitava que jámais seria o seu quinhão n'este mundo.

Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao transpôr a estreita porta do casal de Villalva, para que as trevas do coração jámais se derramassem na luminosa paz d'essa velhinha que nas suas orações não cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com as suas bençãos. Mas, voltadas as costas a esse sanctuario, logo a tristeza involvia Claudio como n'uma lugubre mortalha.

Á casa da estrada da Beira corriam os mendigos, attraidos pela fama de gente rica recentemente casada, esperando generosidades proprias de quem tem fé na recompensa divina.

Raro batiam á porta principal. Contornavam a casa e, segundo o seu velho costume, procuravam a porta de serviço, onde tinham probabilidades de encontrar alguem que os attendesse. Para isso passavam em frente das largas janellas da sala de jantar, vestidas de flores e trepadeiras a emoldurar o fulgor das pratas e as cores mimosas das louças da India, que se viam dentro, cobrindo as paredes em extensas prateleiras. Quando sentiam vozes na sala, começavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas melopêas.

Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia os mendigos cuja miseria e immundicie repugnava á sua esmerada elegancia; apressava-se a despedil-os recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido de os vêr sair.

Claudio tentava moderar essas impaciencias com palavras de sympathia pelos pobres, esperando despertar iguaes sentimentos no coração da mulher e associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava uma indifferença inabalavel.

Essa indifferença havia de transformar-se um dia n'uma explosão de maldade em que deviam naufragar todas as esperanças de conversão.

Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante que as sombras do arvoredo moderavam com uma vibração de frescura e os lilazes e as roseiras embalsamavam espargindo perfumes, Claudio almoçava com Laura, quando um mendigo entrou a cavallo n'um burro, um par de muletas cruzadas sobre o albardão esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo attrito constante dos apparelhos que jámais deixava, ou pastasse pela beira dos caminhos ou conduzisse o seu miserando cavalleiro. O burro entrou, parou em baixo das janellas e, emquanto o mendigo começava rezando, elle, com esforço, estendendo os labios, procurava alcançar os ramos d'uma acacia que tinha em frente.

--Ah! é de mais!... exclamou nervosamente Laura dirigindo-se ao marido e apontando o mendigo. É preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo não se póde parar n'esta casa!

--Deixa-os lá! Coitados! Precisam e não percebem mais...

--Qual precisam! Precisam menos do que nós. Que trabalhem! O que elles são é uns vadios, a viver a custa dos outros. Afinal morrem e estão ahi a cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.

--Isso são casos rarissimos. Lá apparece um que pôde fazer um mealheiro, mas a quasi totalidade d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir serão os menos infelizes. Deus sabe o que soffrerão os que ficam por esses casaes!... Nós é que deviamos procural-os.

--Não faltava mais nada!... Ainda em cima de nos incommodarem a toda a hora e a todo o instante...

--Incommodar, não. Não gosto de te ouvir dizer isso. Temos obrigação de os ajudar. Até são bonitos!... Nos seus andrajos, nas suas rugas cavadas, n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas intimos de miseria physica e de miseria moral, quantas dores, quantos desejos calcados, quanta esperança enganada!

--E os que andam ahi pelas tabernas e pedem para ir beber, tambem te parecem muito bonitos?

--Tudo é miseria. Que importa que venha das enfermidades do corpo ou das enfermidades da alma? Não podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: Dá a quem te pede.

--As phantasias que tu quizeres... disse Laura córando de colera e querendo terminar; eu é que não estou para aturar isto. Tenho cá os meus pobres que sei que são necessitados e não quero saber dos outros. D'aqui a pouco não ha gente decente que possa vir a esta casa. Sempre tudo entulhado com pobres. Deus sabe as doenças e a porcaria que elles trazem. Ainda queres agora que ponham os burros a pastar no jardim!... Eu é que não estou para aturar isto!... Para me consumir basta o que aturo aos brutinhos dos creados.

Claudio calou-se, não se atrevendo a insistir perante a irritação de Laura, e ficou scismando, com infinita mágoa, no caracter rebelde da esposa. Enganára-se? Essa educação religiosa das irmãs de Santa Ignez, em que tanto se fiára, seria unicamente uma série de formulas occultando a inanidade de sentimento? As devoções bastas, as orações, as missas, as confissões, os escrupulos em faltar aos preceitos ecclesiasticos nos dias de abstinencia seriam um habito, ainda uma singular especie de vaidade, a vaidade religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e uma implacavel sede de commodidades? A ingenuidade, a candura de Laura seria apenas a inexperiencia d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o esforço e de toda a contrariedade, só para ostentar a gentileza da sua figura?

Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava todas as suspeitas ruins com a vara magica do amor e da esperança. Não; Laura era um anjo. Só a impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava a imaginação de pavores. Toda esta irritabilidade que simulava estreiteza ou perversão moral, todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a uma simples commodidade da mulher, d'uma passividade completa, tudo isso eram apenas o resultado necessario d'um mau estado physiologico, d'enfadonhos incommodos de gravidez. Mas, terminados elles, quando Laura fosse mãe, a generosidade, os carinhos e a caridade haviam de desabrochar na sua alma e a vida seria então para Claudio o eden que nas attribulações do erro sonhára e se propozera conquistar. Esperasse; a sua hora chegaria.

E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre, perante o dominio da esposa, dos seus mais pequenos desejos e das suas ambições mais nobres, tomando por motivos de bom quilate as razões que para desvanecer suspeitas amargas lhe eram suggeridas por um amor ainda flamejante, e porventura por um ardor de sensualidade que não attingira ainda a sua inevitavel e satanica consumpção.

Para alliviar o enfado de Laura, começaram a reunir-se á noite em casa de Claudio os antigos frequentadores do palacio dos Albuquerques. Vieram as classicas mezas de jogo com os seus castiçaes de prata, os cinzeiros e o panno verde, accenderam-se as vélas do piano para ouvir as walsas e as marchas em que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua educação, entre a assistencia circularam os taboleiros com bolos e chicaras de chá levados nos braços hirtos dos creados, em bom aprumo, envergando a casaca bem assente.

Laura sentia então um suave contentamento que lhe dava uma expressão de felicidade; via ali uma reproducção fiel do viver de seus paes, toda a sua vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha dizer que os seus serões já tinham fama de elegantes na cidade.

Na meza, porém, é que punha os seus maiores cuidados. O arranjo das flores, a combinação do jantar, o serviço, o modo de pôr e tirar os pratos, a maneira de servir os vinhos, tudo isso era objecto de longas reflexões e consequentes recommendações severas aos creados. Se havia algum convidado, o que bastas vezes succedia, os cuidados redobravam e não deixava de perguntar ao marido pela sua impressão.

--Que te pareceu?

--Muito bem, respondia invariavelmente Claudio.

--Dizes-me sempre isso!... Não me ajudas em cousa alguma!...

A frivolidade invadira-lhe a casa com todo o seu cortejo de fainas ociosas e estereis trabalhos em que a vida se dissipa sem o minimo valor moral. Todos os sonhos de caridade, de trabalho, de honestidade, de modestia e de affastamento das cousas mundanas esvaiam-se deante das mesquinhas exigencias de Laura a quem parecia ter cedido completamente.

Não cedera, apenas esperava. Todas as ambições geradas na cruz do remorso permaneciam vivazes, bem arreigadas no fundo da sua alma, esperando a hora de saciar-se. Cedia levado pela convicção de que era seu dever dar tranquillidade á esposa proxima a ser mãe, sacrificando-se n'esta abdicação ao culto da maternidade, mas intimamente contando os dias que o separavam da hora da redempção. Nem poderia esquecer os propositos com que se casára: lá estavam a lembrar-lh'os as visitas a Villalva, que Laura supportava com mal dissimulado aborrecimento.

D'ahi voltava sempre com uma tristeza inquieta que o tornava silencioso e distrahido. Porventura a sua vida teria naufragado sem remedio? O dever que impozera á sua vontade como norma de existencia e satisfação da consciencia havia de curvar-se á fragilidade d'uma mulher?

A duvida voltava a apossar-se do seu espirito, mas o desalento era breve, terminando sempre em uma cega confiança na transformação de Laura. Toda a sua fundamental frivolidade lhe parecia então uma transitoria meninice, e, resignado, esperava ancioso as dôres que, fazendo a mãe, accenderiam na sua alma as fachos do amor divino.

Quando viu approximar-se esse momento, exultou. Era a libertação de toda a agitação vazia em que consumira quasi um anno. Laura aprenderia nos labios côr de rosa do filho a piedade e o sacrificio. Não mais coraria de desespero quando os mendigos lhe calcassem o jardim; havia de preferir á banalidade fastidiosa dos seus serões entre os convivas o silencio da alcova singela compassadamente cortado pelo embalar da berço. Só estranhava o borburinho que lhe ia em casa e as andadas de D. Maria Francisca, já interrogando o medico, já segredando com a parteira.

--Olhe, doutor, parece que agora sentiu umas picadas mais para o lado esquerdo... Que me diz?

--Isso não significa nada, minha senhora.

E ia ao pé da filha, a dizer-lhe que não era nada, tinha respondido o medico.

Voltava instantes depois.

--Oh, doutor, não acha que isto vae a demorar-se. Se a examinasse... O dr. Xavier, um indio que estudou lá fóra, disse-me que em Paris...

--Ora, Paris!... Em Paris, respondeu o doutor que era um rude e singelo descrente de medicinas, em Paris as mulheres teem filhos como em Portugal. Até devem ter menos que a população diminue.

--Tem uns modos este doutor... ia dizer D. Maria Francisca á parteira. Já estou arrependida de não ter mandado vir de Lisboa o dr. Xavier. Sempre é outra cousa!...

--Oh, sr.ª D. Amelia (era o nome da parteira) talvez seja melhor passar outra vez as mãos pelo sublimado. Esteve agora ahi a mexer nesses vestidos e o dr. Xavier disse-me que era preciso muito cuidado. O sublimado sempre! Para a mais pequenina cousa!...

--Deixe lá, minha senhora! Tenho assistido a muita mulher. Isto com a ajuda de Deus Nosso Senhor...

--Oh, doutor, voltava D. Maria Francisca a perguntar ao medico, as dores parece que são tão distantes...

--Não se afflija v. ex.ª, ellas apertarão.

--Que homem, que modos estes! E dizem que é bom medico! Ai, Senhor, tomára já isto passado!

Claudio olhava este espectaculo surprehendido, vagueando pelas salas e pelos corredores. O que?! Pois o nascimento era este vil receio da morte e esta ridicula fé nas cousas que hão-de salvar o corpo? Não havia uma religião que libertasse de tantos e tão mesquinhos cuidados elevando a alma em extasis divinos? Não era toda a maternidade, desde o parto e o berço até á formação completa do homem, o modo providencial de pagarmos a divida d'amor e de carinhos que a existencia de cada individuo significa? E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar do corpo e de passageiras dôres que a resignação, tirada da consciencia d'uma missão sublime, curaria melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspirações da sua alma vinham bater contra a mais extrema pobreza moral; o desgosto perturbava a piedade que a afflicção da esposa lhe despertava.

No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo. Fez se um silencio d'anciedade. Os gritos repetiram-se, lancinantes, e, após uns curtos momentos, os vagidos d'uma creança pozeram a casa em alvoroço.

--Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos parabens! É um rapaz!... Adeus que não tenho aqui que fazer. Muito socego é que a doente precisa.

--Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio acompanhando o medico até á porta.

O medico saiu e Claudio correu apressado ao quarto de Laura. Queria vêr a sua physionomia illuminada de contentamento, queria vêr os primeiros clarões d'essa aurora. Era que a sua alma havia de expandir-se nas auras d'uma vida nova.

Entrou cautelosamente, pé ante pé.

--Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca, que estava sentada á cabeceira da cama de Laura. Venha vêr o seu morgado. Muito gordinho e lindo como um anjo!

Claudio aproximou-se da creança, tumefacta e vermelha, apertada em faixas brancas, mas logo a deixou para se dirigir a Laura.

Beijou a mulher timidamente, humildemente, com uma uncção religiosa. Não era o corpo enfermo que os seus labios tocavam, era a imagem em que a graça de Deus incarnára.

--Como te sentes? murmurou.

Ella entreabriu os olhos e, n'uma contracção de repugnancia e odio, respondeu:

--Ai, meu Deus! Que horror!

E os olhos cerraram-se novamente. Não houve uma palavra para o filho, nem um gesto de ternura, nem o mais leve movimento que não significasse um fastio mortal.

Claudio ficou de pé, immovel, esperando ainda d'aquella massa inerte envolvida em finissimo linho uma vibração que viesse confirmar as suas esperanças de tantos mezes.

Só uma gélida mudez lhe respondia. Saiu do quarto de Laura esmagado de desalento.

Embora! No seu espirito procurava razão para justificar o estado moral de Laura e continuar a esperança que até alli tinha mantido.

Era uma reacção natural do corpo fatigado pela dôr physica, mas, quando a saude voltasse, com ella viriam os affectos de mãe e o ardor de sentimento em que todos os sacrificios são recebidos, na alma ávida de amor, como favores do destino.

Todavia, pensava, que singular perversão a do genero humano! Não acontecia o mesmo com os animaes. N'elles, o instincto materno dominava todas as dores e tanto era o zelo que, nos primeiros tempos immediatamente ao parto, a aproximação das mães era perigosa; havia uma resurreição de instinctos bravios a proteger os recemnascidos.

Porque não seria assim para as mulheres? Que degeneração de sentimento as podia levar a abandonar os filhos logo ao nascer, friamente, sem um grito do coração offendido? Não, não podia ser assim.

Laura soffria apenas uma crise passageira; em breves dias havia de operar-se a transformação milagrosa do ser frivolo e egoista na esposa e mãe profundamente generosa, consagrada com uma intima felicidade, á existencia alheia.

Essa transformação porém não vinha. Deccorriam os dias, as forças voltavam, e Laura continuamente se lamentava. Não podia dormir uma hora descançada! dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada a entrar-lhe no quarto a cada instante, para que désse de mamar á creança!

D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia animalidade da sua robustez comprazia-se nas suavissimas caricias da amamentação; o calor das creanças junto aos seios em que pousavam as pequeninas mãos, comprimindo-os ligeiramente, fôra sempre para ella um instinctivo prazer, desprendido de quaesquer razões moraes. Para a filha, porém, era differente. A filha fôra e continuava a ser um objecto de luxo que queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por isso, ouvindo os queixumes de Laura, invariavelmente lhe dizia:

--Toma uma ama! Tu não queres crer que és muito fraca...

--Mas o Claudio tem dito sempre que não quer...

--Lá vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer o que o medico lhe disser. Pensas que os maridos gostam muito de vêr as mulheres magras e velhas antes de tempo?

Interrogaram o medico, na presença de Claudio. O medico respondeu:

--Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos é conforme a vontade de cada um. Quando se tem n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas forças, e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...

--O que eu não comprehendo, interrompeu Claudio que a conversação contrariava extremamente, é como uma mulher tem forças para crear um filho no ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo sadio e forte, e não não tem forças para em seguida o amamentar durante um anno. Muita gente devia morrer entre os pobres que não tivessem para pagar a quem lhe creasse os filhos!

--Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar porque creei os meus... Quem não tem outro remedio, ou seja forte ou fraca, cria os filhos; mas quem é fraca, tem meios e teima em os criar faz muito mal. Nem mesmo ás creanças é util. Pois se ellas podem ter um leite bom para que hão de estar a mamar um leite fraco? Não é verdade, doutor?

--Até certo ponto... respondeu o medico. Mas lá isso, diga-se com franqueza, não sei o que é o cuidado das mães! As creanças parece que medram só com o calôr da cama. Por melhores que sejam as amas, sempre são madrastas.

Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava pela vinda d'uma ama. Era uma necessidade. Só se Claudio tinha muito gosto em vêr a mulher tisica!...

Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama. Não houve razões, nem instancias, nem um confessado desgosto e pezar que pozessem barreiras ao egoismo de Laura e a levassem a ceder aos desejos do marido. E Claudio via com espanto, que em breve se transformaria em aversão, o filho entregue a braços estranhos.