Chapter 13
No dia seguinte, á uma hora da tarde, era o casamento. Dos seus amigos e dos seus parentes só Jorge o acompanharia; a mãe e a irmã não consentiram, por timidez e acanhamento, em deixar os seus campos. De resto, os Albuquerques, incluindo Laura, mal se referiram a essa falta, muito promptos em acceitar todas as escusas. Intimamente temiam que lhes viessem manchar a festa com a sua rudeza.
Ao fim d'essa derradeira refeição, aproximou-se da mãe para a abraçar pela ultima vez antes de se casar. A lembrança de todo o passado que lhe enchia o peito trasbordou em largos soluços e lagrimas abundantes. Choraram unidos estreitamente, trocando um prolongado beijo, sem articular uma só palavra, n'uma supplica fervorosa e muda de felicidade em que se confundiam mágoas, esperanças e um infinito affecto. Depois, Claudio, abrindo os braços, com um gesto de resolução, deixou a mãe:
--Adeus!
--Adeus!
Foram as unicas palavras que em voz sumida se ouviram; e saiu descendo o caminho, sem olhar para traz, dirigindo-se á carruagem que o esperava em baixo.
A meia encosta, veio juntar-se-lhe, correndo e querendo acompanhal-o, o cão de guarda da lavoura.
--Chama-o, chama-o, disse Claudio para um creado que estava perto.
--Leão, Leão, aqui! gritou o creado.
O cão parou hesitante e contrafeito. Por fim obedeceu.
Claudio seguiu, juntando, no coração opprimido, esta caricia ás fundas dores que o trespassavam.
A este tempo, em casa dos Albuquerques, o movimento e a confusão eram completos. Rolos de tapetes, vasos de flores, escadas, louças, creados em mangas de camisa, mulheres do campo transportando cestos com ramos de hera e de loureiro, um ininterrompido cruzar de vozes dando ordens e pedindo objectos, tudo redemoinhava em volta de D. Pedro que corria de salão para salão querendo dirigir toda a esmerada ornamentação do palacio.
--Olha esse lustre!... Cuidado com as cortinas!... Esses vasos vem ou não vem?!... Então o tapete?... Assim... pela direita... está bem! mais acima!
O tiroteio não cessava, tentando cada um desembaraçar-se da sua tarefa n'uma desordem activa e alegre.
Ao cair da noite estava tudo completo; a casa guarnecida de verdura e de flores, coberto o chão de tapetes a amortecer todos os ruidos, as vellas postas profusamente nos candelabros e nas serpentinas para se accenderem no dia seguinte.
Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca, pelas cadeiras, pelas camas e pelos sofás estendiam-se rendas, plumas, flores e vestidos fôfos e ondeantes. A um canto da janella uma costureira apertava a cintura d'uma saia de seda que se espraiava pelo chão sobre um lençol de linho e que a modista mandára larga, errando a medida.
Para o casamento estavam convidados alguns parentes da Beira e uns fidalgos de Lisboa, companheiros de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas e nos clubs.
Começavam agora a chegar em char-à-bancs, que os transportavam da estação do caminho de ferro, os da Beira com bahús de folha envernisada, mal fechados e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa com grandes malas de couros macios, afivelladas com ferragens brancas e polidas como prata.
O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os aos seus quartos e mostrando-lhes em seguida as salas mal illuminadas, para não desmanchar os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento os elogios.
--Um palacio, uma palacio! Estás aqui como um principe!
D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo e recebia-as nos seus aposentos.
Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa tranquillidade, os hospedes de Lisboa acantonados nas mezas de _whist_ e as senhoras no quarto de D. Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua natural curiosidade o enxoval e as prendas de Laura, discutindo, apreciando e fazendo comparações com outros casamentos nobres a que tinham assistido.
--Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para Laura.
--Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria Francisca. Creio que ha-de saber estimal-a... E agora hão-de dar-me licença, que são horas de preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje; se lá não vou abaixo, os creados não fazem nada. Uns estupidos!...
--Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das meninas recemchegadas.
E seguia D. Maria Francisca para a sala de jantar.
Claudio veio tambem, mas demorou-se pouco. Tinha umas ultimas cousas a regular na sua nova casa. Laura não procurou prendel-o, absorvida como estava pelos cuidados dos seus vestidos novos e de se mostrar bella e fidalga no dia que lhe diziam ser o maior da sua vida.
O casamento foi á uma hora da tarde, na capella do palacio.
Desde o meio dia havia um incessante rodar de carruagens, que entravam o largo portão de ferro coroado pelo brazão dos Albuquerques e iam parar em frente dos degráus do palacio alcatifados e ladeados de vasos com hortensias.
Os cocheiros, na almofada, voltavam-se para traz, recebiam ordem de regressar á noite, esperavam que o creado da casa, fardado de verde e branco, batesse a portinhola, e saiam dentro das suas librés de emprestimo, mal ajustadas, conduzindo os cavallos magros, cobertos de arreios baços, em que só brilhavam as ferragens amarellas, excepcionalmente polidas, para aquelle dia, tentando honrar os creditos da cocheira.
Nas salas, as casacas negras e brunidas entre vestidos de seda, muitas rendas, algumas joias, e um rumor de vozes abafadas na timidez de indiscrição e no respeito da solemnidade. Só os convidados de Lisboa destacavam por fallarem alto, trazerem casacas usadas e macias, amoldando-se bem ao corpo, e sapatos com visiveis signaes de terem servido muitas vezes; passeavam e conversavam livremente com damas e cavalheiros, e os da terra olhavam-n'os estudando elegancia, confrontando-se com elles e procurando aprender aquella maneira tão facil de dar o nó na gravata que muito cubiçavam.
O Albuquerque entrou sorridente, com Laura pelo braço; Claudio deu por sua vez o braço a D. Maria Francisca. Juntos os convidados aos pares, cada cavalheiro dando o braço á sua dama, poz-se o cortejo a caminho da capella, saindo a porta principal e atravessando pelo jardim. Na rua, o povo apinhava-se nas grades que vedavam a quinta, espreitando por entre as arvores.
--Tão linda! Parece um anjo... exclamavam, confundindo em vágas remeniscencias a noiva e as creanças que viam nas procissões com grandes azas de pennas brancas e vestidos estrellados de lantejoulas.
A cerimonia na capella foi breve; dentro d'uma hora o cortejo regressava ao palacio. Houvera lagrimas ao verem os paes abraçar a filha, mas a missa em seguida ao casamento e os gracejos com que os mais alegres commentavam a situação tinham desvanecido essas sombras passageiras; quando sairam da capella, todos vinham risonhos.
O _lunch_ era ás tres horas; no breve intervallo que medeava entre o casamento e a refeição, os convidados dispersaram-se em grupos pelas salas e pelos jardins, n'aquella molleza que é caracteristica da gula esperando a hora de saciar-se.
Geralmente discutia-se a grandeza e o viver dos Albuquerques. Os commentarios divergiam.
Entre dois parentes de Vizeu sentados á sombra d'uma olaia, podia surprehender-se o seguinte dialogo:
--É uma grande casa! Vê tu que riqueza ahi está e que gente aqui vem!
--Já foi melhor. Deve muito.
--Deixa lá! Tem uma grande casa... Só em Cercosa recebe ainda para cima de cem moios de milho, fóra o trigo, o centeio, o vinho e o azeite.
--Pois sim... mas que importa isso? Á Misericordia deve perto de trinta contos e disse-me outro dia o Nunes, que é lá o cartorario, que tem mais de quatro annos de juro em atrazo e é uma cruz para lhe apanhar um vintem. Só quando estão ameaçados de qualquer penhora é que se mexem. Olha que ha mais de quarenta annos que este homem não faz senão gastar dinheiro!...
--Mas a casa é muito grande, tem muitos recursos. Quanto não vale isto aqui? e os bens de Pombal?
--Está tudo hypothecado ao Credito Predial e quem lá vae é alma que caiu no inferno. Não se sae de lá mais. Lembra-te do que aconteceu ao marquez de Cannaes. Foi tudo! Ficaram sem nada!
--Mas agora tem os genros para o ajudarem...
--Só se fôr isso!... Este rapaz dizem que tem boa casa.
Mais adeante, dois lentes de direito, passeiando de braço dado á beira do lago, commentavam differentemente, em tom malicioso.
--Hein!? Que sorte! Dá cabo da fortuna dos paes, refresca com o casamento, arruina-se outra vez, e agora casa as filhas ricas.
--Elle merece-o, que nos tem dado muito boas festas. Não ha ninguem para receber como este homem. Nasceu para isto!... Acabou-se.
--Mas não podem ir longe... Já por ahi ha procurações para penhora, vindas de Lisboa, sem conta.
--O que eu admiro é como este rapaz aqui veiu cair. Foi meu condiscipulo e era o avêsso de todas estas cousas. Retraído, muito modesto...
--Então?! Está rico, quiz afidalgar-se...
--Não, não é este homem d'isso. Gostou da rapariga, os paes haviam de lh'a metter á cara, e caiu.
--Pois olhe que, se elle é como você diz, não me parece que vá lá muito bem. Esta gente gosta de gastar e de luxar.
--Não, não! A Laura é muito boa menina!
--Boa!... Historias! As meninas são todas boas, mas, quando se habituam a viver á larga, não ha quem as ature. Isto de fidalgos é muito boa gente para gozarmos com elles; de portas a dentro o caso é outro.
Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor, que tanto contrariava os seus habitos, e enfadado. As suas preoccupações andavam muito longe da alegria em que a excitação das viandas e o calor dos vinhos lançavam os convidados.
Ás nove horas da noite dançava-se e ria-se desprendida e folgadamente; toda a frieza solemne se tinha partido ao contacto do sangue escandecido. Só Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura, supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente dominado d'uma religiosa tristeza, meditando na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o coração tumido de angustias passadas e de esperanças futuras.
Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu dever de assistencia e saiu com Laura para a sua nova casa. Os convidados acompanharam-n'os até ao portão do jardim, a musica deixou de se ouvir por um momento, as salas ficaram desertas, repetiram-se os abraços e as lagrimas que de manhã se tinham visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa proseguiu redobrando de animação.
Os primeiros dias passados na pequena casa da estrada da Beira foram para Claudio d'uma infinita doçura. Do governo da casa não havia a cuidar; D. Maria Francisca mandára com a filha uma velha creada da sua confiança, para tudo dirigir e regular sem que a paz e felicidade dos noivos fosse perturbada.
Longas horas no jardim entre flores, pequenos passeios a pé pelos caminhos menos frequentados, colhendo plantas e admirando a natureza, passeios de carruagem pelas margens do rio, e o serões em casa dos Albuquerques, ora jogando, ora conversando: n'isto se consumiam os dias.
Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos da sensualidade e da indolencia como um premio de virtude, pensando quanto o amor era bello na consciencia tranquilla pela satisfação das convenções do mundo, e comparando o presente com esse passado que a ventura d'agora mais carregava de crimes e remorsos.
Emprehendia a educação do espirito de Laura, admirando com pasmo e veneração a sua ingenuidade e louvando a Deus por lhe ter concedido tão precioso bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque era simples.
Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade com a candura, tomando por singeleza d'alma, prompta a desabrochar em sentimento christão, o que era apenas estreiteza de intelligencia e de coração, Claudio communicava-lhe todos os seus planos de vida.
Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente alheia a toda a profundeza de pensamento; elle ficava contente, tomando esse silencio por um tacito assentimento e interpretando a mudez como uma forte e serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia n'uma mulher superior.
Foram a Villalva. Laura pouco disse á mãe de Claudio. A unica coisa que lhe permitiu uns momentos de conversação foram as imagens do oratorio e particularmente uma imagem da Senhora do Carmo. Havia uma outra egual no collegio, em Lisboa, e tinha com ella muita devoção. A velhita louvou intimamente os sentimentos religiosos da sua nova filha e repetia:
--Assim é bom, assim é bom... É o que n'esta vida me tem valido e ajudado nas minhas afflicções.
Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a sua situação. Instinctivamente affastava uma ociosa confissão de desejos e aspirações tão carinhosamente sentidas que nenhumas palavras saberiam traduzil-as.
Perguntava pelas cousas da casa e referia o que na ausencia de Claudio se tinha passado. Que visse elle o que precisaria em Coimbra, que já começava a haver alguma hortaliça no Serrado de Baixo e o azeite que tinha levado talvez não fosse do melhor.
Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda, era preciso experimentar o vinho que havia de precisar de trasfega, e o José, o creado, não tinha geito nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir lá passar um dia para vêr todas essas coisas, mesmo porque o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe tinha dito que precisava fallar com elle por causa dos fóros de Sernadas. Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias. Partiu, com grande allivio de Laura a quem as attenções do marido pela mãe começavam a enfadar e que se sentia estranha áquella atmosphera. Não lhe queria bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educação, por temperamento e inclinação hereditaria estava realmente destinada a ignoral-a perpetuamente.
Em vão Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria o campo em que tantas horas tinha trabalhado, as arvores e as flôres que plantára por suas mãos. Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente a occultava nos salões do pae, para não dar ensejo ao riso das antigas amigas, que lhe mordia a vaidade, amesquinhando o marido.
Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento do mavioso casal da estrada da Beira foi subitamente perturbado por um incidente doloroso.
Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou aos gemidos de Laura.
--Que tens, minha filha, que tens?... perguntou ancioso.
Ella continuava gemendo, sem responder, e elle insistia em tom afflictivo:
--Dize, dize-me, minha filha, por quem és... Que tens tu?
Por fim, cedendo aos rogos do marido, respondeu arrastadamente.
--Ai! meu Deus!... Ha uma hora que não durmo. Não posso parar com dores n'um dente, d'este lado... E indicava com a mão.
--Se tu fosses ao dentista pedir o elixir...
--A esta hora?! perguntou Claudio surprehendido.
--Sim... sim... não posso esperar.
N'um instante, Claudio estava na estrada, correndo ladeira abaixo, a caminho da cidade. Ao pé de Laura ficára a creada que se offerecia, suavisando a voz, para aquecer uma pinguinha d'agua, segundo ella dizia. Talvez um chásinho...
Laura nem lhe respondia, conforme os seus habitos de menina mimosa.
Entretanto Claudio batia á porta do dentista que veio á janella, ás escuras, a resmungar com somno. A estas horas!... É preciso ter muito pouco respeito pelo socego d'uma pessoa! Bem tolo é quem os atura.
--Quem é que está ahi? gritou de cima.
--O dr. Claudio...
--Ah! é v. ex.ª. Eu vou abrir, respondeu apressadamente o dentista, moderando a impaciencia e esforçando-se por sorrir perante o freguez rico.
--Então?!... perguntou mal abriu a porta. Faça v. ex.ª o favor de subir.
--Minha mulher está com uma dôr de dentes e eu vinha pedir-lhe aquelle elixir...
--Pois não! Eu dou-lh'o já...
E dirigiu-se a uma estante.
--Queira desculpar.
--Ora essa! É a nossa obrigação, não me falle v. ex.ª n'isso... Se a dôr não abrandar á primeira applicação, renova o algodão no fim de meia hora...
--Eu sei, eu sei, respondia Claudio, apressando-se a descer a escada. Infelizmente já o tenho usado... Muito obrigado, sim? E desculpe...
--Não ha de quê. Sempre ás ordens de v. ex.ª.
Claudio entrou em casa offegante. Correu ao quarto da mulher que, logo que o sentiu, se sentou no leito.
--Aqui está! exclamou elle risonho de contentamento por vêr satisfeita a vontade de Laura.
Com difficuldade applicou-se o remedio, porque mal se percebia uma sombra de carie no dente, e Laura adormeceu rapidamente n'um somno tranquillo.
Excitado pela inquietação e pelo movimento, o marido ficou passeiando na sala. Só tarde, pelas sete horas, a fadiga o dominou e adormeceu sobre um sofá, para não entrar no quarto e perturbar com os seus passos o somno da mulher.
Ás nove horas despertou, sentindo vozes e passos estranhos. O que seria? Ergueu-se sobresaltado. Laura estaria peor?
A creada velha, logo pela madrugada, mandára dizer á creada de quarto de D. Maria Francisca que prevenisse a sua senhora de que a menina tinha passado muito mal a noite. D. Maria Francisca soubera a noticia quando ás oito horas pediu o primeiro almoço e apressou-se a vir a casa da filha.
Mal penteada e mal vestida, com uns sapatos lassos e a góla do casaco desapertada deixando vêr o collo que as rugas começavam a sulcar, D. Maria Francisca, espavorida, perguntou subitamente ao genro:
--Então que foi, que foi?!...
--Uma dôr de dentes... Felizmente pude applicar-lhe o elixir...
--E agora como está?
--Deixei-a a dormir...
--Sósinha!... Que imprudencia!...
--É que estava tão socegada que eu não quiz aproximar-me d'ella com receio de a accordar.
Entraram no quarto.
Laura tinha dormido excellentemente depois do tratamento; nem sequer apresentava no rosto vestigios de ter soffrido o quer que fosse. Acercaram-se do leito pé ante pé e a mãe, em voz dorida, perguntou á filha, que não levantava a cabeça do travesseiro:
--Estás melhor, minha filhinha?
--Parece que agora estou melhor, mas passei muito mal a noite. Ai, que dôres, Santo Deus!
--O Alexander bem te disse, replicou a mãe em tom de mágoa e reprehensão, que esse dente precisava tratamento. Tu não quizeste e ahi tens as consequencias! Agora o remedio é voltar lá.
--A Lisboa?! perguntou Claudio com certa vivacidade e espanto.
--Sim, e quanto antes. Devem ir hoje mesmo antes que a dôr volte. É um soffrimento horroroso, horroroso!...
--Mas talvez aqui mesmo...
--Ai, pelo amor de Deus, não! Uns brutinhos!...
--É que o dentista foi tão amavel comigo que póde escandalisar-se...
--Não tenha medo. Ha-de fazer-lhe boa conta.
E voltando-se para a filha, a cortar a discussão que lhe parecia ociosa:
--Apósto que ainda não tomaste nada? perguntou.
--Não m'o trouxeram... respondeu Laura.
--Com estas cousas é que é necessario ter muito cuidado, disse D. Maria Francisca, voltando-se enfadada para Claudio e poisando o dedo sobre o botão da campainha.
Appareceu a creada.
--Então são quasi dez horas e esta menina sem ter tomado o leite!?... exclamou irritada.
--Oh, minha senhora, começou a creada a explicar, ainda agora deram nove horas no relogio lá de dentro e eu até vinha saber...
--Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias. Traga o leite, traga o leite. E não fique lá quatro horas, conforme o seu costume, ouviu?... Isto quem as atura...
--Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez umas bolachas de araruta... Deves estar tão fraca!...
--Não, mamã, não; não me falle em comer. Sabe Deus o que me custa o tomar leite!
O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam para não incommodar a doente que durante todo este tempo não tivera uma palavra de gratidão pelos seus cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um somno profundo, a refazer-se da interrupção da noite.
Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa, apezar da ligeira opposição de Claudio que viu assim desmanchados todos os seus planos de tranquillidade e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. Não quizesse elle tomar a responsabilidade d'uma cousa d'essas.
Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa, os corredores atulhados de malas e os guarda-roupas desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam duas grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses, os theatros, os bailes, as visitas, os passeios, a chuva, o sol, o frio, a humidade e o calor. As bagagens de Claudio tambem não eram pequenas. Laura temia um pouco a apresentação do marido aos parentes elegantes da capital e vigiava e com particular cuidado que nada lhe faltasse; gravatas, calçado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas, chapéus, tudo ia combinado ponto por ponto para que não discrepasse das leis vigentes do janotismo.
Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura foram d'uma completa felicidade. Á parte as breves horas que dedicaram ao dentista, todo o tempo se dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentação de Claudio á numerosa parentela fidalga. O marido agradava; no trajar e nos modos não destoava dos usos e costumes correntes e essa conformidade com a banalidade consagrada deixava Laura radiante de jubilo e vaidade.
Não succedia outro tanto a Claudio que, regressando a Coimbra e pensando no caminho percorrido, via com mágoa quanto os factos divergiam das aspirações, quanto a realidade se distanciava dos sonhos.
No fundo, inconscientemente, a esposa que elle desenhára no seu espirito e nas suas ambições era a imagem de sua mãe, a honestidade, o trabalho, a resignação e a caridade distillados dia a dia, gota a gota, marcando todos os passos e todos os movimentos da vida; o que o casamento lhe offerecia eram vaidades e impaciencias, occultando um egoismo sem limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo e inconsciente.
Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir a correr procurar-lhe remedio para uma passageira dôr de dentes e comparava a com a serenidade que sua mãe mostrava nas dores physicas e moraes; lembrava-se da simplicidade de Villalva e comparava-a com a vida de infinitas necessidades a que entre gente fina se deixava arrastar.
D'esse confronto saia com umas vagas aprehensões de ter errado na maneira de realisar as suas aspirações moraes, mas breve esses temores se dissipavam. A candura de Laura venceria as fraquezas da educação. Era só o tempo necessario para a revelar e vêr desabrochar na sua consciencia as flores de suave perfume que lá dormiam em botão. A esperança reanimava-o.
Tardava, porém, essa almejada quietação na virtude. As futilidades absorventes succediam-se; a existencia consumia-se inutilmente. Laura não dispensava a companhia de Claudio a todas as refeições, em todos os passeios e nos serões passados em casa dos paes, prolongados serões em que a moleza dos estomagos replectos se espreguiçava pelas flexuosas cadeiras Luiz XV. Por amor, dizia ella, não queria desamparal-o um instante.
O certo era que a vida de Claudio se subordinára inteiramente á da mulher; todo o trabalho se reduzia a servil-a nos seus prazeres e nas suas necessidades, empregado a todo o instante nos mais frivolos misteres, em procurar um lenço que esquecera algures ou em transmittir ordens aos creados. Já em casa dos Albuquerques se dizia que a filha encontrára um excellente marido.
Aos primeiros incommodos da gravidez esta situação aggravou-se. Laura passava mal, constantemente enfadada, com um fastio permanente, ora no leito, ora recostada n'uma ottomana dos seus aposentos.
A presença de Claudio era então reclamada como um dever; não podia abandonar a esposa, cumpria-lhe servil-a em todos os seus caprichos como bom enfermeiro. Nos peiores dias, nem sequer lhe era permittido sair ao jardim; ficava em casa, inventando jogos para a distrair, a ella que com tudo se contrariava e aborrecia.
Uma vez, porém, teve a tentação de se affastar para seu prazer. Os jornaes annunciavam a chegada a Coimbra d'uma pianista notavel, Sophia Menther, que vinha dar um concerto, um unico. Claudio leu a noticia á mulher e perguntou:
--Queres lá ir?
--Deus me livre! respondeu ella irritadamente e accentuando a inconveniencia da pergunta. Estou lá em estado de cousa nenhuma! Como queres tu que eu me vista?
--Gostava muito de lá ir. Ha tanto tempo que não apparece por cá quem se possa ouvir...
--Mas vae tu...
--Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...