Chapter 12
D'esta arte tudo se harmonisou, a contento dos regalos dos paes, até que chegaram os desoito annos de Leonor, a filha mais velha. Era necessario trazel-a para casa, apresental-a, para que se mostrasse em toda a sua belleza, que era grande, e tomasse os habitos mundanos que consideravam parte integrante, e a mais essencial, da sua educação. E assim se fez.
No collegio, Leonor aprendera o cathecismo; só por isso sabia mais doutrina christã que toda a aldeia de Cercosa e arredores. Aprendera tambem a bordar a ouro, em branco e a torçal, copiava desenhos a lapis e a carvão, sabia francez e inglez muito bem, escrevia regularmente o portuguez, e ao piano tivera o primeiro premio, um livrinho de estampas, encadernado em papel côr de rosa com lettras douradas.
Ouvira e repetia que a caridade era a primeira das virtudes, o que a obrigava a não bater nas companheiras e não as accusar das suas faltas, sem embargo do intimo prazer que sentia ao reconhecer a sua superioridade e ao vêr-se louvada pelas suas mestras como a primeira. Sabia que era uma obra de misericordia dar agasalho aos nus, de beber a quem tem sede e de comer a quem tem fome, mas sem exercer essas virtudes ou mesmo sentil-as interiormente; porque no collegio não havia miserias nem mendigos, todos comiam á mesma meza, que era abundante, e dormiam em leitos macios, quentes e aceiados.
Verdadeiras obrigações n'esta vida eram o modo de dobrar a roupa ao deitar, a maneira de pegar no garfo e na faca, o modo de fechar o piano, sem precipitação, e as lições que deviam ser bem decoradas. Feito isto, o elogio das mestras era certo; os premios publicamente distribuidos no fim do anno a confirmação plena de todas as satisfações da vaidade.
Saindo do collegio, a transformação era facil; tinha apenas a substituir vaidade por vaidade, os cuidados escolares pelas preoccupações do vestuario, os louvores dos superiores pelo elogio da sua belleza feito nos requebros e galanteios.
As instigações do instincto, auxiliadas pelos conselhos da mãe, não tardaram a operar rapidamente a mutação; dois annos depois de sair do collegio, com pratica d'alguns salões da capital, de S. Carlos e da Figueira da Foz, Leonor tinha feita a sua reputação de bondade, de formosura e boa educação.
A mãe, astuta, nunca perdendo da lembrança o padre, anceiando pelos tempos de tranquillidade que com elle passava em Cercosa, espreitava o ensejo de casar a filha. O destino breve lhe deparou boa fortuna. A victima foi o filho d'um brazileiro do Minho, novo e riquissimo, que do Porto veiu á Figueira ostentar as suas carruagens e os seus anneis e procurava afidalgar-se pelo casamento.
Exultou quando o viu seguir a filha. Era a felicidade para ella e talvez para toda a familia, porque o rapaz decerto ia pagar as dividas da casa do Albuquerque que dia a dia se afundava vertiginosamente. Teve uma certa difficuldade em convencer Leonor, que soffria d'ambições de fidalguia, mas o amor do luxo tentou-a e o casamento realisou-se.
D. Maria Francisca podia voltar mais livremente a Cercosa, até que Laura deixasse o collegio. Leonor tinha do marido tudo quanto queria e elle se julgava obrigado a conceder á nobreza e ao lustre que ella trazia ao plebeu.
Só os calculos de resgate das dividas se desfariam em desillusões, porque o brazileiro, rehavendo para isso toda a energia d'um bom burguez, defendia-se tenazmente.
Não queria saber dos negocios dos outros, tinha os seus capitaes muito bem collocados e não podia tocar-lhes.
Á sr.ª D. Leonor, como respeitosamente a tratava, nada faltaria, nem mesmo o titulo de condessa da Maia que um deputado lhe promettera e as vastissimas propriedades, que n'aquelles logares possuia, justificavam.
José d'Albuquerque completamente convertêra em desenganos as esperanças dos paes. Por um capricho de hereditariedade, carecia absolutamente das qualidades que caracterisavam o temperamento dos paes, a vivacidade, o amor do luxo e dos prazeres.
Era um philosopho, diziam. Levára arrastadamente os seu estudos, não por falta de intelligencia, que realmente possuia grande reflexão e bom senso, mas por incuria e aversão ao que os mestres lhe ensinavam.
A cada momento deixava os livros da aula, para se entregar á leitura das velhas chronicas que ha muito jaziam abandonadas no seu palacio e tinham pertencido a um seu remoto ascendente que fôra conego da sé de Coimbra.
Finda a formatura na Universidade, começou a passar dias inteiros entre a livraria e o jardim, com a paixão d'um alfarrabista. Os seus unicos jogos eram os livros e as flores.
Recusava todos os casamentos _vantajosos_ que tentavam fazer-lhe com fidalgas e parentes da Beira; na sua indolencia, tão avêsso ao jogo, aos cavallos e a mulheres, que constituiam os regalos tradicionaes da sua casa, como indifferente á administração dos bens, tornára-se, com grande desgosto de D. Pedro, a negação do morgado que elle phantasiára continuando o regabofe da familia.
D'aqui, nem D. Pedro nem a mulher esperavam cousa alguma, tanto mais que o filho, além das qualidades de espirito que tão accentuadamente manifestára, era d'uma teimosia invencivel, mansa, calada, mas infinitamente resistente. Na parcimonia, no desprendimento do luxo, e até mesmo no poder de intelligencia, fazia lembrar o avô materno, tendo pelos livros a soffrega cubiça que o outro tinha pelo dinheiro.
Talvez por isso, por lhe recordar o pae, senão mesmo pela propria contradicção de caracteres, a mãe adorava-o; só por elle consentia em fazer qualquer sacrificio dos amores do padre. A mansidão captivava o seu genio ardente; onde quer que a encontrasse, acariciava-a.
Como ultima esperança de salvar a casa, restava Laura. O casamento de Leonor só para ella trouxera riqueza, e de José todo o pensamento de especulação se tinha affastado, graças á sua doce e energica resistencia.
Laura tinha uma educação perfeitamente egual á da irmã. Ao tempo em que a conhecemos, contava vinte e quatro annos de edade e havia seis que deixára o collegio, continuando em casa com lições de piano e de pintura cujos resultados se exibiam frequentemente nos seus magnificos salões, como tentação aos noivos ricos que infelizmente não vinham.
A fama de ruina da casa de D. Pedro era larga e fundada, vivia n'uma teia infinda de embaraços; todos fugiam de ligar o seu nome e a sua existencia aos vexames e vergonhas de que os Albuquerques estavam permanentemente ameaçados.
Entretanto, não faltavam a Laura carinhos de educação nem vestidos elegantes. Devia-se aos mestres e á modestia, de quem periodicamente se recebiam cartas agridoces instando pelo pagamento, mas uma derradeira esperança concentrava na pobre rapariga todos os desvelos e para a fazer brilhar não havia hesitações.
Tal era muito em breve a historia e a situação da familia a que Claudio pensava em unir-se, buscando paz á sua alma n'uma vida de dignidade, de trabalho, de elevação e de grandeza moral.
Tambem, pelo seu lado, D. Pedro e a mulher o cubiçavam. Instigados pela mesma ambição, tacitamente reunidos num mesmo pensamento de interesse, viam ha muito em Claudio um genro que lhes convinha. Suppunham muito elevada a sua fortuna; sempre que de Albergaria vinha alguem aos seus jantares, não perdiam occasião de se informarem.
--É muito bom rapaz, todos lhe diziam, e deve estar muito bem. Além do que elle comprou ao fidalgo, tem muito dinheiro; calculam-lhe para mais de cem contos que herdou do tio. Elle diz que não, que apenas recebeu de lá uns quarenta contos, mas é claro que essas cousas nunca se confessam.
Ao jantar e na palestra que precedia as partidas de _whist_, emquanto o creado punha sobre a meza as marcas e os baralhos de cartas, collocando aos cantos os castiçaes de prata e os cinzeiros, o velho fidalgo, no sofá encarnado, perna cruzada, a pôr em evidencia o seu pé pequenino que toda a Beira galante conhecia, não cessava de elogiar o amigo do seu José.
--Uma joia de rapaz! exclamava. E de boa familia...
O seu enthusiasmo ia ao ponto de imaginar fidalguias para o seu futuro genro. Não sabia ao certo... mas pelo nome era indubitavelmente descendente d'uns Souzas, muito nobres, ainda parentes do duque d'Aveiro, que viviam em Albergaria quando foi da invasão franceza.
Os francezes queimaram-lhes o palacio; elles, desgostosos com isso, nunca mais lá voltaram, foram morar para umas herdades que possuiam no Alemtejo e mais tarde venderam tudo o que tinham no norte.
Depois, mesmo o nome de Portugal indicava alguma cousa. Em Semide conhecia uma familia com aquelle appellido, parente dos condes de Montemór que, como se sabe, eram da mais antiga nobreza do reino.
No fundo, o velho Albuquerque sentia uma ligeira contrariedade ao pensar no casamento da filha com Claudio. Tentando convencer os outros, procurava ao mesmo tempo desvanecer as sombras que lhe empannavam o espirito. Claudio não era, infelizmente, fidalgo; só por triste necessidade de ruina o acceitaria para marido de Laura.
Não tardaria que isso succedesse, porque, emquanto os Albuquerques se davam a este novo sonho de riqueza, Claudio resolvia definitivamente a sua situação.
Na madrugada que se seguiu áquella noite tormentosa em que como doido deixára para sempre a capella da rua da Cruz, ainda no ardor da febre em que a anciedade o consumia, Claudio encontrava casualmente sobre a mesa um livro de Paulo Bourget, _L'Irreparable_. Leu e sentiu um subito despertar. Accordava, tinha encontrado a chave do enigma da sua existencia, a resolução de todas as duvidas. Recuperava o animo, n'esta esperança que d'antemão se lhe afigurava uma realidade.
Sim, comprehendia agora o que tinha a fazer, o que ha muito podéra ter feito, se a fraqueza o não tivesse vencido.
Era necessario, urgente, que por um acto de energia creasse entre elle e Emilia uma situação irreparavel em que lhe fosse impossivel voltar atraz; e essa situação não podia ser outra senão o ajuste immediato do seu casamento com Laura.
Com Laura?!... Se ella o acceitasse!... Tremia, recordava as palavras de sympathia que tinha ouvido da sua bocca e, recordando-as, moderava as apprehensões que lhe provinham do confronto da sua humildade plebeia com a nobreza dos Albuquerques.
Fosse como fosse, a hora era de acção; estava resolvido a lançar para longe esta cruz d'uma eterna hesitação.
Ia escrever a Jorge pedindo-lhe que viesse a Coimbra fazer aos Albuquerques o pedido da filha. Elle mesmo, n'aquelle dia, iria ver Laura e, confessando-lhe o seu amor, propôr-lhe-ia o casamento. Se ella recusasse, telegrapharia a Jorge para que elle suspendesse a jornada e partiria para o estrangeiro a refazer-se de todas as dôres no repouso e nos prazeres.
De Emilia não cuidava. Fizesse o que quizesse, não se julgava responsavel da loucura que a accomettera e em que ella pretendia, com um egoismo cruel, reduzil-o a propriedade sua, calcando todas as attribulações da sua consciencia e cuspindo palavras de escarneo e desprezo sobre aquillo que elle amava. Era de mais! A taça trasbordava.
Sentou-se e escreveu:
_«Meu querido Jorge:_
Esta carta será para ti uma surpreza e espero que, conjunctamente, um motivo de alegria. Vae surprehender-te o pedido que venho fazer-te, a ti que me suppunhas talvez cahido na impenitencia final, e ha-de por certo alegrar-te saberes que, embora tarde e o coração rasgado pela dôr e pelo remorso, vou tentar uma nova vida de honestidade e de trabalho, procurando resgatar nos annos que porventura tenha deante de mim, os erros que foram o amargo fructo de toda a minha mocidade.
Depois que estiveste aqui na primavera passada, nunca mais te fallei dos tormentos com que tenho vivido em continuada mortificação; julguei por um lado excessiva fraqueza da minha parte e, por outro, profanação da paz risonha do teu lar ir inquietar-te com lamentos que nunca deveria soltar porque eram unicamente a minha culpa, minha grande culpa. Mas a triste verdade é que ha um anno vivo n'uma constante lucta, procurando fazer penetrar no coração de Emilia a luz de Deus que nos devia guiar, a ella e a mim, no caminho da emenda e salvação.
Todos os meus esforços foram vãos; todos se partiram e desfizeram d'encontro a um egoismo sem limites em que, invocando o meu amôr, procurou prender-me por todos os modos, com rogos e ameaças, já invocando os meus loucos protestos de fidelidade perpetua, já soccorrendo-se das obrigações que me attribuia por ter manchado a sua honra e destruido a sua reputação.
Não pódes calcular, meu querido Jorge, a sinceridade e instancia com que luctei, chamando-a ao dever, em nome dos filhos, da religião, da consciencia e do proprio amor que me jurava e de que implorava um acto de resignação e desprendimento, restituindo-me a tranquillidade d'alma sem a qual me julgo indigno da vida.
Tudo foi em vão! A cegueira do peccado vendava-lhe todos os sentidos e não tive meio de a levantar d'esse abysmo de tenebroso erro em que, por infelicidade sua e minha, ambos nos precipitamos n'um momento de desvairada tentação.
Chegou porém a hora de pôr termo á miseria e vergonha em que me tenho arrastado.
Hontem, louca de ciumes, insultou-me e insultou pessoas a que muito quero em termos que nunca julguei ouvir da sua bocca e que até mesmo ignorava que ella conhecesse, fazendo-me passar talvez a hora mais indigna da minha vida. Fugi, para não a esmagar n'um impeto de raiva, e agora estou no firme proposito de estabelecer entre mim e ella qualquer cousa irreperavel que d'uma vez para sempre nos livre de consentir em prolongar, por mais um só dia que seja, os nossos amores.
Ah! meu Jorge, tu nunca saberás que fortuna significa uma consciencia imaculada nem poderás imaginar o que são as penas do remorso! Como um Lazaro, coberto de ulceras e das mais fundamente gangrenadas, só peço a Deus que me proteja e conduza no seu infinito amor. Todas as dores do corpo, todas as enfermidades serão para mim melhores que o castigo das minhas culpas nas accusações da consciencia.
Vou tentar libertar-me d'esses phantasmas sem piedade que me perseguem e aterram, reunindo n'um só esforço todas as energias da razão e da vontade que ainda possa encontrar nos miserandos restos d'um corpo exausto e d'uma alma repassada de soffrimento. Quero casar-me.
Conheceste como eu as irmãs do nosso bom amigo José d'Albuquerque; é mesmo provavel que mais do que eu as tenhas encontrado na sociedade que frequentas em Lisboa. A mais velha, a Leonor, casou no Porto com um rapaz muito rico; a Laura está ainda solteira e é no seu nome e na sua imagem angelica que estão hoje todas as minhas esperanças.
Não me julgues apaixonado; vão longe esses tempos e devaneios, posto que a sua formosura e os seus dotes bem os justificassem. Procuro realisar um casamento longamente reflectido e meditado, á fria luz da razão.
Hoje, o meu pensar transformou-se. Ha poucos annos a vida era para mim uma festa pagã em que a livre expansão de todas as forças animaes significava a felicidade suprema; mas a experiencia e a dôr ensinaram-me que concorrentemente ha leis moraes, derivadas de inspiração interior, a que não se póde impunemente faltar. Por as ter desconhecido e prostergado, passei pelas mortificações que só agora espero affastar.
Não que a vida mystica me tente ou desconheça o que devo ao corpo. Pelo contrario, vejo e comprehendo as suas imperiosas necessidades. Mas quero que a existencia humana, para ser bella e nobre, se traduza n'um equilibrio das inspirações divinas e das aspirações terrenas, na harmonia da luz da consciencia dominando e regulando o tumultuar das paixões mortaes.
Não contesto as leis da vida organica e tudo o que a sciencia me ensinou; pretendo apenas que, conjunctamente e superiormente, existem leis divinas, um impulso interior que nos domina e ordena a pratica do bem.
N'estas condições, dada a conclusão definitiva a que cheguei sobre o que a vida deva ser, pódes comprehender a que motivos obedeci inclinando-me a casar n'uma familia nobre. Laura trará ao meu casal a candura, a ingenuidade, a educação profundamente religiosa que recebeu e os encantos da vida aristocratica, no melhor sentido da palavra, os delicados instinctos artisticos que são a coroa da vida mundana e a cercam d'um puro deleite; eu levarei com o meu sangue plebeu os habitos de trabalho que são o brazão da gente humilde e o fundamento da dignidade.
E assim viveremos na modestia que convém á exiguidade das minhas riquezas, na caridade que será para nós o premio divino, o melhor dos bens, e no estudo e na arte que elevam o espirito e nos arrebatam n'uma aurora infinda onde o sol se eleva sempre, espargindo serenidade e luz e jámais se afunda derramando a treva.
Quizera dizer-te todo o programma de vida que em longos mezes de inquietação pude determinar na anciedade de paz e de virtude; quizera dizer-te como espero resgatar estes tristes annos de loucura e de erro.
Mas, alem de que te escrevo extenuado pela fadiga d'uma noite tempestuosa que me deixou o espirito em desordem, a esperança de te vêr dentro em pouco convida-me a ser breve. Porque o que desejo pedir-te, e é o fim principal d'esta carta, é que sem perda de tempo venhas vêr-me para me ajudares com o teu conselho e a tua amisade e para regulares a minha situação com Laura e os Albuquerques, conforme as boas regras de cortezia em que és perito e de cujos preceitos me não reputo sabedor.
Seja qual fôr o teu juizo e opinião sobre as duvidas que me trazem perturbado, a tua presença será para mim, estou bem certo, um grande bem. Nem tu pódes calcular que allivio foi esta curta confissão! Sinto-me agora bem, parecem-me distantes as sombras afflictivas da noite; enche-me o coração a esperança e a paz. Meu Deus! Protegei-me no caminho da virtude e fazei que jámais d'elle torne a desviar-me!
Do teu
_Claudio_.»
N'essa mesma manhã, Claudio, levado ainda na impaciencia que o fizera escrever a Jorge, pediu á mãe, no fim do almoço, que viesse fallar-lhe ao seu gabinete e ambos se encaminharam para lá.
A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos negros, a brilhar na face rugosa toucada de cabellos brancos, esperou um instante que o filho começasse. Claudio, tremulo e pallido, não sabia o que dizer; sentia sobre si o peso e o terror d'um grande crime a confessar perante o tribunal supremo. Foi á janella, voltou, dirigiu-se á mesa de trabalho, pegou n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente, e n'estes movimentos inconscientes e desconnexos dava pasto á sua agitação sem poder articular uma palavra.
Queria confessar á mãe toda a sua vida e pedir-lhe perdão das suas culpas. Seria o primeiro passo para a regeneração e para a virtude.
--Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha a perguntar, vendo o silencio do filho e começando a sentir certo mysterio n'esta longa pausa.
--Eu queria, minha mãe... queria dizer-lhe... que, se fosse da sua vontade... se fosse da sua vontade... já lhe tenho dado tantos desgostos...
--Que tens tu? disse ella levantando-se ao vêr a angustia do filho. Senta-te, senta-te aqui, tu não estás bem.
Claudio sentou se e proseguiu, olhando vagamente, sem se atrever a fitar a mãe:
--Queria dizer-lhe que, se fosse da sua vontade, talvez me casasse...
--Oh! Claudio! respondeu ella abraçando-o. Deus Nosso Senhor ouviu as minhas orações...
E, nos braços um do outro, afogaram em lagrimas e soluços a agonia, dissipando-a. A confissão que havia de ser longa, encerrara-se n'estas rapidas palavras; o coração sentira o que os labios não souberam dizer.
Não tardou a resposta de Jorge.
«O casamento e a mortalha no ceu se talha», começava elle. Esse é que era o preceito antigo e authentico sobre casamentos. Que se deixasse Claudio de theorias que já uma vez lhe tinham provado mal e que agora mesmo não podiam prometter-lhe cousa alguma.
Que tinha feito muito bem em acabar com os amores de Emilia, se o inquietavam, e que tambem lhe não dizia que deixasse de casar com Laura, se gostava d'ella; mas que ficasse bem certo que nem o primeiro caso era motivo para os exaggerados remorsos de que se deixára possuir nem devia pôr no casamento tão extraordinarias esperanças que o futuro não as podesse satisfazer. Conhecia muito bem o Albuquerque pae, que a cada passo encontrava em Lisboa; era um dissipador, mas um cavalheiro, excellente homem.
Não conhecia egualmente a mulher que quasi nunca vinha a Lisboa, mas ouvira que era uma senhora de muito tino e que toda se dedicára á administração da casa.
Quanto á rapariga, nada lhe diria senão que era muito bonita, porque ninguem sabe o que está dentro do coração d'uma menina que ainda não conheceu nem póde conhecer o que seja a vida do casamento com todos os seus trabalhos e obrigações. O tempo lhe diria a sua sorte.
Ia partir immediatamente para Albergaria; guardava para a sombra dos platanos, que tanto apreciava, a discussão de todos esses pontos que a Claudio pareciam tão obscuros e que para elle eram tão limpidos como agua da fonte.
Em poucos dias tinha ajustado o casamento de Claudio com Laura. Restavam só os cuidados de ordem material, o enxoval da noiva e a installação da casa, para o que se calculou que quatro mezes seriam bastantes.
Claudio deixava o palacio de Albergaria, ia viver em Coimbra. A mãe voltava a Villalva, separando-se do filho com a mágoa e a resignação que era propria da doçura do seu caracter mas ao mesmo tempo contente por ir acabar onde vivera a sua melhor vida, dando largas aos habitos de simplicidade, ao genio laborioso e á caridade constante. O filho promettia ir vel-a todas as semanas.
A casa escolhida pelos noivos era na estrada da Beira, a pequena distancia do palacio dos Albuquerques. Sobre uma elevação, recolhida no meio d'uma pequena quinta que descia em largos taboleiros vicejantes de jardins, de hortas e de pomares, dominava todo o valle, triste nas tintas sombrias do olivedo que o cobria. Em frente, atravez uma pequena garganta, entre duas collinas, as aguas do rio e os salgueiros mimosos, balouçando-se, lançavam um brando alento de movimento e frescura sobre a morna placidez do valle. Aqui e além, erguiam-se os choupos, corajosamente, brandindo ao vento as tenues folhas.
Á festa da natureza quiz Claudio associar os primores da arte; aos moveis do palacio de Albergaria juntou o _bric-à-brac_ que Jorge lhe enviou de Lisboa.
Elle mesmo veio ajudal-o a dispôr quadros e louças, tapeçarias e bronzes, cogitando artificios para dar relevo á belleza dos objectos.
O ninho era tentador para a mais delicada sensualidade; o proprio Albuquerque, que na frequencia da gente fina adquirira auctoridade em materia d'armador, exclamava contente nos serões do seu palacio, entre os lentes que vinham tomar-lhe o chá:
--A casa fica linda; o rapaz tem muito gosto!...
Quando chegou a hora de se separar da mãe, Claudio sentiu pela primeira vez a apprehensão da inanidade de todo o esforço em que com tanto enthusiasmo e tão boas aspirações se empenhára.
Onde ia? Para que tanto movimento? Que buscava? Que valia á sua vida a riqueza e o ninho que architectára n'esse valle que agora lhe parecia estranho? Sonhára uma companheira para a sua vida... Onde estava? Laura? Afigurava-se-lhe uma mulher alheia. Desconhecia-a.
Varrido e abandonado já o palacio de Albergaria, n'essa pequena sala de Villalva, só com sua mãe, via em torno os montes escalvados, em baixo o estreito campo a que déra todos os seus cuidados, ao longe um retalho da varzea cortada pelo rio. Tarde de primavera, suavidade e silencio, só cortado pela voz guthural do lavrador que animava o jugo! Era a hora de jantar, a ultima refeição que teria em commum com sua mãe antes de partir para essa jornada mysteriosa, que tão ardentemente desejára e que agora quasi aborrecia.
Ia dormir a Coimbra, na sua nova casa.