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Chapter 11

Chapter 113,951 wordsPublic domain

Estranhou que no dia seguinte Emilia não lhe mandasse o convencionado aviso para ir á capella.

--Ou o marido saiu ou está desesperada com ciumes, pensava; seja como fôr, em boa hora!... Não sentia o menor desejo de a vêr, antecipadamente aborrecido das explicações que tinha de lhe dar.

Não tardou porém a carta da amante. Dois dias depois da sua visita a Coimbra, exactamente áquella hora em que o silencio e a suavidade da noite mais lhe aggravavam a saudade dos doces momentos em ouvira a voz de Laura confundindo-a n'uma só delicia com as caricias d'uma atmosphera impregnada d'uma subtil sensualidade, encaminhava-se vagarosamente para a rua da Cruz.

Emilia estendeu-lhe seccamente a mão e foi sentar-se affastada, no degrau do altar-mór.

--Então como estás, perguntou elle, ao fim d'uma ligeira pausa, tentando tomar-lhe a mão que ella distraidamente retirou.

--Bem, tenho passado muito bem.

--Antehontem não pude vir porque o jantar acabou tarde, o Albuquerque instou comigo para me demorar e pareceu-me que não seria muito delicado...

--Fez muito bem, como é proprio da sua educação. Nem eu mesmo o esperava.

--Estás a dizer isso maliciosamente, e não tens razão. Pódes crêr que fiquei muito contrariado. Deus sabe o que me custou!

--Imagino! disse ella então levantando-se e dando largas á sua colera. Que impostor!...

--Não sejas injusta comigo. Magôas-me tanto... Se adivinhasses o mal que me fazes...

--Muito grande! Deve soffrer muito, calculo bem!

--Talvez mais do que julgas...

--Oh! sim, acredito. Tem pressa de se casar e quer vêr-se livre d'este trapo velho. Pois case-se!... Quanto mais cedo, melhor!... O meu desejo é que fosse já amanhã, para me vingar... para lhe vêr coberta essa cabeça de cornos como a mãe d'ella fez ao pae!

Claudio ergueu-se raivoso; os punhos cerrados, o olhar dardejante, os labios e as narinas palpitantes de frenesi, cresceu para Emilia.

--Veja o que faz! disse ella recuando e acobardando-se.

Um lampejo da propria indignidade, como um relampago, lhe illuminou o espirito; n'um salto, transpôz a capella, lançou a mão á porta e saiu.

--Canalha!... ouviu ainda.

E começou a fugir atravez dos campos sobre que poisava, quietamente, bafejando-os, o véu de humida gaze que se desprendia dos regatos.

O amor, offendido no insulto a Laura, vencera onde a razão e a consciencia tinham sossobrado, debatendo-se passivamente no remorso e na duvida.

V

D. Pedro Menezes de Tavora Abreu e Albuquerque era todo o nome com que nos actos solemnes se assignava o fidalgo que vivia em Coimbra, na estrada da Beira, e cujas relações Claudio frequentava.

Senhor de grandes propriedades e muitos bens no valle de Lafões, onde era conhecido pelo morgado de Cercosa, reunira nas suas mãos, por successivas heranças dos seus antepassados, uma das maiores fortunas territoriaes que por aquellas regiões se conheciam.

Em Coimbra tinha menos; mas fazia ahi maior assistencia porque o palacio era bello e rico, e a vasta quinta que o rodeava, com grandes insuas a morrer no rio, um ninho de frescura entre o arvoredo magestoso.

Demais, tinha a convivencia de muitos lentes da Universidade que, tirados de condição humilde, se curvavam reverentes perante a nobreza, felizes de se acercarem d'ella.

Tratavam-n'o por sr. D. Pedro d'Albuquerque, e elle queria mais a este tratamento, que aos seus olhos indicava funda e genuina fidalguia, do que ao de sr. fidalgo ou sr. morgado que em Lafões usualmente lhe davam.

Fidalgos e morgados havia muitos; que usassem o titulo de Dom eram raros. De portas a dentro, em Coimbra, esse tratamento era de obrigação e indicado aos creados, logo que entravam em casa.

Uma vez que Claudio singelamente perguntára pelo sr. José d'Albuquerque, o filho do fidalgo, o creado apressou-se a corrigir:

--O sr. D. José está a almoçar.

D. Pedro nascera em 1825. Muito cedo, aos cinco annos, ficára sem o pae que tinha morrido d'uma catarrhal, apanhada andando á caça em Cercosa, segundo lhe diziam. Ficára entregue aos cuidados da mãe e d'um tio, filho segundo, irmão do pae, que em vida d'este tomára a seu cargo os cavallos e os cães de caça, e de nada mais se occupava. Na verdade, póde dizer-se que ficára unicamente entregue aos cuidados da mãe, senhora fidalga de origem, de maneiras e de costumes, caridosa e boa, mas com excessivo affêrro ao estreito formalismo da gente da sua egualha.

Um dos motivos por que ella, á morte do marido, se apressára a tomar nas suas mãos toda a administração da casa, fôra o temor de que o seu governo caisse sob as ordens do cunhado.

Temia-o e evitava-o, não por ciumes de dominio mas porque receiava a influencia d'elle, grosseiro e rude, sempre em gracejos com as raparigas do campo; queria affastar o filho d'essa má escola, queria, no seu pensar, fazer d'elle um legitimo fidalgo, de modos nobres e nobres sentimentos, como convinha á gente fina. Por isso fazia valer os seus direitos de mãe e tutora, para que ninguem podesse com auctoridade interpôr-se entre ella e o filho.

D. Pedro passou a mocidade, ora em Cercosa, ora em Coimbra, sempre acompanhado por um padre que a custo lhe ensinou a lêr e a escrever, porque o discipulo era, além de pouco intelligente, remisso na applicação e no estudo.

--Esperto, esperto! dizia o padre á morgada. Mas muito distraido... O que elle quer é brincar, está sempre com o sentido no que lá vae fóra.

Por seu lado, a mãe toda se esmerava em educar os modos do filho. Até aos dezaseis annos, em Coimbra, nunca o deixou sair que não fosse seguido por um creado, para não se perder em más companhias; tinha-o sempre a seu lado na egreja e em todas as suas devoções, corrigindo o mais pequeno gesto descompassado, se o filho se benzia com excessiva rapidez, se ajoelhava ou se levantava estouvadamente, se deixava de se curvar com reverente moderação e suavidade ao erguer a Deus.

Na sala, os seus cuidados eram extremos e as lições completas; mandava-o entrar e sair, sentar-se, cumprimentar, despedir-se, indicando d'uma maneira precisa as palavras, as attitudes, os logares e as distancias que convinham a cada momento. No dia em que pela primeira vez viu o filho descendo a escada com uma dama pelo braço, a acompanhal-a á carruagem, lento, pausado, com toda a nobreza de movimentos que lhe vinha do seu corpo moço e robusto, teve um fremito de alegria e de triumpho. A sua obra estava consumada. Que fidalguia! Que gentileza!

Com intimo pezar e grande receio, era necessario entregar o morgado ao tio para as lições de equitação. Tão má companhia... Mas d'essa penosa impressão cobráva allivio quando, ao entrar no palacio, o tio que em casa era sempre tratado pelo sr. D. Joãosinho, vinha dizer-lhe enthusiasmado:

--O rapaz dá um cavalleiro! É atrevido e firme. Hoje na Calçada era tudo a olhar para elle. Trazia o _Corisco_ numa dobadoira.

D. Pedro aproveitára as lições; exteriormente estava tal qual ella o desejára. Interiormente, porém, o caracter era o do tio e as preoccupações dominantes, absorventes, os cavallos e as mulheres. Muito novo ainda, não saia de ao pé das creadas que continuamente inquietava, perseguindo-as e apalpando-as.

--Menino! Isso não se faz! Olhe que eu digo á senhora!... Que tal está o fedelho?... Eram as vozes que a cada instante corriam na cosinha e na casa de trabalho, por toda a parte em que elle se encontrava com as creadas.

Aos creados, com quem ás vezes vinha conversar ás occultas da mãe, dizia sempre que havia de ter um cavallo grande, hespanhol, como o que vira na serra, aos Malafaias, de Serrazes, e uma boa mulher, com boa perna.

--Isto ha-de ser bom!... commentavam os creados. Temos outro como o sr. D. Joãosinho! Cão de caça quer-se de raça!

A mãe julgava-o uma vestal, e já elle ia longe nas suas aventuras, tendo começado pela mulher do jardineiro e proseguindo com uma costureira habitual da casa, quando ella, por conselho do padre, começou a dar ao filho liberdade de dispôr de si, do que elle usou com a largueza que os seus instinctos exigiam.

A elegancia do novo morgado, que a mãe procurava, quasi unicamente, na sua educação, combinada com o fogo d'um temperamento sanguineo, deu em resultado o amor do luxo alliado a uma vida de continuadas festas, caçadas, conquistas amorosas e jogo.

Ás muitas despezas que provinham da lauta vida provinciana, juntaram-se em breve alguns mezes de inverno passados em Lisboa onde D. Pedro Albuquerque acabára por estabelecer residencia que lhe permittisse frequentar a capital com as commodidades de que era tão cubiçoso. A abertura das linhas ferreas deu o ultimo impulso a esta ruina. A cada passo estava a caminho de Lisboa, para assistir ao baile do conde de X..., para ouvir uma cantora em S. Carlos, ou mesmo, mais simplesmente, para se vestir no Keil, que a esse tempo era o alfaiate dos janotas; e, inversamente, a cada passo estava acarretando de Lisboa para Coimbra moveis de mau gosto que vinha misturar ás solidas mobilias de pau santo, herdadas de seus avós, roliços estofos armados em casquinha que um estofador francez, chamado Gardé, lhe vendia por bom preço, farrapos d'algodão arrendados que vinham substituir os sumptuosos cortinados de damasco de seda vermelha.

Tambem trouxe um cosinheiro que, á força de _consommés_, _foie gras_, _galantines_, _mayonnaises_ e outras preparações que muito confundiam e intrigavam os velhos fidalgos beirões que se sentavam á meza do morgado de Cercosa, veiu banir para a frugalidade dos banquetes da burguezia prospera o succulento pato com arroz, o cosido bem adubado com carnes de porco e a famosa vitella de Lafões.

Foi á meza do Albuquerque que primeiro, em Coimbra, se viram gordos espargos, comprados em Lisboa, n'uma salchicharia franceza; houve lentes da Universidade que, sentindo com vexame faltar-lhes o seu profundo saber para usar tão exoticos petiscos, deixavam de os comer por hesitarem na forma de se servirem.

O Albuquerque, que lhes percebia o embaraço mas que por cortezia não queria dizer-lhes francamente como se comiam espargos, fallava alto, rolando-os no molho com a mão e chamando para si a attenção, a dar o exemplo.

Mas apezar d'isso passaram-se mezes sem que os bisonhos convivas acceitassem os novos manjares. Os mais ousados, os que primeiro entraram na communhão dos usos estrangeiros, vinham depois para a Via latina gabar aos collegas menos elegantes a cosinha franceza, os espargos e as _galantines_, pondo um particular deleite em ostentar o conhecimento d'essas cousas finas perante a gente rustica que as ignorava.

Entretanto, a administração dos bens andava por mãos de feitores e procuradores que todos enriqueciam e serviam a contento, se tinham a habilidade de arranjar dinheiro sempre que de Lisboa ou de Coimbra o Albuquerque o pedisse, o que bastas vezes fazia.

A velha morgada, a mãe de D. Pedro, julgava ter cumprido a sua missão no mundo fazendo do filho um homem religioso, que ia á missa aos domingos e dias santificados e se confessava todos os annos, de casaca e gravata preta, e um fidalgo pela distincção com que se havia n'uma sala e na presença das damas.

A sua grande preoccupação era a manilha e os parceiros de todas as noutes, no salão do palacio da estrada da Beira onde ella invariavelmente se encontrava no mesmo logar, distribuido mesuras e palavras doces aos que entravam, perguntando-lhes com o seu finissimo tacto pelas cousas que os interessavam, a este pela saude dos filhos, áquelle pelo andamento dos trabalhos na Universidade, e áquel'outro pelas colheitas das propriedades que possuia nos campos do Mondego e a que amiudadamente se referia, para dar mostras de riqueza.

Quando essa senhora falleceu, cerca de 1865, a casa do Albuquerque estava na realidade escalavrada. Em Lisboa tecera uma rede de lettras passadas a amigos e a agiotas que lhe tinham valido em apuros de dinheiro, os bens de Cercosa já estavam hypothecados á misericordia de Vizeu, e um negociante da Praça Velha, em Coimbra, com quem se adeantára em contas, sabendo que as dividas cresciam, instava por uma hypotheca das melhores insuas. Nem ao certo se sabia a quanto montavam as dividas porque nunca se tinha pago um real de juros a ninguem, havia contractos feitos em condições leoninas e, quando se chegasse á liquidação, era de esperar que a somma se elevasse a uma quantia fabulosa.

O tio do Albuquerque, que os annos e a gotta tinham privado do regabofe que fôra toda a sua vida, com o grosseiro bom senso que acompanhou a sua existencia descuidada via o estado da casa. Chamou o sobrinho, procurando convencel-o da conveniencia de se salvar pelo meio simples que lhe ia propôr.

Era preciso casar-se, dizia-lhe; a mãe tinha fallecido, faltava áquella casa uma senhora que lhe désse o tradicional resplendor; elle, D. Pedro, estava com quarenta annos e era necessario que tivesse um herdeiro. Demais, accrescentava, em continuação do exordio que invocava os brios fidalgos, as dividas tinham crescido e se encontrasse uma noiva com um dote bom...

A estas palavras, o sobrinho que se tinha conservado silencioso e indifferente, de perna cruzada, limpando pachorrentamente as unhas com um canivete, ergueu a cabeça ante-gozando boa maré de dinheiro e recrudescencia de prazeres.

--Pois depende só de ti! apressou-se o tio a concluir aproveitando a impressão favoravel. Tua prima Maria Francisca...

--Oh! diabo! Mas ella em tempo não tinha tido umas historias com um Mendonça, capitão de engenharia?

--Não, quem sabe lá d'essas cousas?! Fallaram um pouco, mas isso passou. Raparigas tem sempre os seus namoriscos...

--Em todo o caso...

--Deixa-te de piéguices; vamos ao que importa... Tua prima está agora com os seus trinta annos,--e é uma mulher toda perfeitaça!--o pae não póde ir longe porque já deve ter passado os oitenta, e tu bem sabes o que ali está... um poço sem fundo! O Ornellas, do Pragal, disse-me, a ultima vez que estive com elle, que só em ouro o velho devia ter para cima de cem contos de réis.

O sobrinho não pôz mais objecções, fizesse o tio como quizesse. Foi para Lisboa, a gastar por conta das suas novas esperanças e das heranças futuras, e o tio partiu para Vizeu. Em quinze dias, estava tratado o casamento de D. Pedro.

Esta menina, Maria Francisca de Menezes Noronha e Mello, tinha em Vizeu uma historia muito sabida e commentada.

Era uma mulher alta, morena, d'olhos negros, dentes perfeitos e longos cabellos d'azeviche, filha d'um fidalgo, avarento e sórdido, e d'uma creada que elle tivera.

A creada fallecera quando a pequenita tinha cinco annos; e o velho, que tudo consentia menos que lhe pedissem dinheiro, deixou crescer a filha ao Deus dará, entre creados grosseiros que nem na sua presença se guardavam de toda a casta de brinquedos e gracejos maliciosos.

Demais, sendo filha natural, só muito tarde os parentes consentiram em a receber. Ficou por isso sem a minima educação nem de intelligencia e sentimentos nem de delicadas exterioridades.

Apesar d'isso, como era bonita e rica, não lhe faltavam casamentos que todos se goravam, uns pela opposição do pae, que ella desde creança se habituára a temer pelo seu genio irrascivel, outros por capricho da rapariga que não olhava a fortunas nem fidalguias e pretendia marido que lhe satisfizesse os sentidos.

Entre os pretendentes, contava-se um capitão de engenheiros, homem alentado e grande, de grandes bigodes atrevidamente levantados, jogador e conquistador famoso.

Diziam que D. Maria Francisca tivera por elle profunda paixão e nada poupára para lh'a demonstrar, compromettendo o seu bom nome em longas entrevistas nocturnas que se tornaram sabidas na cidade.

Mas nem por isso o casamento se realisára, porque o pae d'ella se oppunha e o capitão, desde que não presentia probabilidades de dote, preferia não crear obrigações e lançar mais esta á conta das aventuras de que tinha já larguissimo ról. A rapariga chorou, desgostou-se, e em breve, por despeito e desespero, tinha novo namoro.

A proposta do tio, offerecendo-lhe o casamento com D. Pedro, vinha encontral-a na mais favoravel disposição de espirito. Perdida a esperança de casar a seu contento, mórmente depois dos infelizes amores com o capitão, estava com trinta annos. Que lhe restava?

Ao menos, casando, seria senhora da sua casa e gosaria uma liberdade e independencia que muito apetecia. Acceitava.

O pae acceitava tambem. Suppunha que o sobrinho estava ainda rico, não lhe pediria dote, morava longe e não o incommodaria. Era até uma economia! A lembrança de que ia ter menos um encargo, menos uma pessoa a sustentar e a vestir, trazia-o contente.

Verdade seja que era necessario dar-lhe alguma coisa... Parecia mal! Mas tinha as joias que herdára da irmã, algumas pratas, peças de panno de linho, colchas de damasco... Emfim, veria. Dinheiro é que não!

O Albuquerque recebeu em Lisboa a noticia de que o casamento estava ajustado, o que só pela certeza d'uma nova fortuna a desbaratar o commovia. Comprou ricos presentes para a noiva, depois de conseguir do agiota da Praça Velha um novo emprestimo para o qual hypothecou as insuas, fazendo-se então largas contas de todos os atrazados que d'esta vez ficaram garantidos. Veio immediatamente a Vizeu prestar homenagem, que era de bom estylo, á futura esposa, a qual de resto conhecia muito de perto dos bailes e festas beirôas onde costumava encontral-a e onde uns leves pruridos de conquista tinham creado já entre os dois uma certa intimidade.

Depois recolheu a Coimbra para presidir a uma ligeira reparação do seu sumptuoso palacio, que foi rapida, e sem mais delongas se realisou o casamento.

Passados os primeiros e curtissimos tempos em que o Albuquerque julgou de bom gosto acompanhar a mulher em visitas e apresental-a aos seus velhos amigos n'um riquissimo baile, como tradicionalmente eram os da sua casa, voltou ao seu antigo viver, jogo, mulheres e bastas visitas a Lisboa. Entregava a administração da casa á esposa para melhor conquistar a sua generosidade e simultaneamente se desonerar de enfadonhos encargos.

Ella, em quem dominavam os instinctos plebeus e uma insaciavel sede de mandar, exultava com tão subida investidura.

Não se casára com outro fim; a liberdade compensava-a de todas as magoas presentes e passadas, incluindo a indifferença do marido que tratava respeitosamente mas que no intimo considerava como um simples e pouco incommodo tributo imposto á sua independencia.

Quando o velho pae de D. Maria Francisca morreu, o Albuquerque veio com ella a Vizeu; mas ao fim de poucos dias, já tristemente convencido de que a fortuna a herdar ficava muito áquem do que lhe tinham annunciado, deixou-se ganhar pelas saudades dos seus prazeres habituaes e apressou-se a voltar a Coimbra onde agora tinha uma amante, rapariga do povo, travessa e maliciosa, muito cubiçada dos estudantes, e que possuia o condão de despertar em D. Pedro os mais insoffridos ciumes.

A D. Maria Francisca ficava o cuidado de liquidar a herança, o que realisou com uma ganancia e uma crueldade que recordavam bem a ascendencia paterna.

Foi então que ella contractou um procurador e administrador, que havia de a acompanhar a Coimbra e ficar sob as suas ordens, para a coadjuvar n'aquella missão de morgada e senhora rica que aos seus olhos significava uma corôa real.

O procurador era um padre, novo, de vinte e cinco annos, lindo, d'olhos azues e cabellos louros, occultando sob uma apparencia de doçura e placidez um coração apaixonado e ardente.

Em breve D. Maria Francisca o presentiu e, n'uma inflammada avidez de luxuria, entregou-se sem reservas a um amor que realisava a melhor fortuna da sua vida.

A humildade do padre, casada com um vigor juvenil, dava-lhe uma impressão de plenitude em que o contentamento do espirito coroava os regalos do corpo satisfeito.

Pelo seu lado, o padre correspondia impetuosamente a esse amor, concentrando todos os seus esforços em affastar de Coimbra D. Pedro para mais tranquillamente possuir a amante.

--Vá v. ex.ª para Lisboa, dizia ao morgado; não se prenda com os negocios da casa. Estão a meu cuidado; não vim aqui para outra cousa. É a minha obrigação.

O Albuquerque partia e, depois de estar em Lisboa, o padre fazia de modo que o dinheiro nunca lhe faltasse para que não se tentasse a voltar a casa. O fidalgo escrevia ao procurador, reconhecido por tanto trabalho e affecto; aos seus amigos não cessava de o elogiar, como um modelo de dedicação, associando-lhe sempre o nome da mulher cujo zelo pelos bens e pelas commodidades do marido, dizia este, a obrigava a viver quasi sempre no meio d'aquellas inhospitas serras de Cercosa, mal servida por uma velha creada que trouxera de casa de seu pae.

Porque era Cercosa a habitação preferida dos amantes. As visitas, os serões com os lentes e mais frequentadores do palacio da estrada da Beira, a creadagem basta, tudo isso perturbava em Coimbra as horas d'amor, e tudo isso desapparecia no silencio do solar de Cercosa protegido pela discrição da creada que já em Vizeu fôra confidente de D. Maria Francisca.

Do casamento de D. Pedro nasceram, com largos intervallos, tres filhos; Leonor, José e Laura. Até aos nove annos foram educados com os velhos creados da casa, no abandono proprio das circumstancias em que se encontravam; a mãe a todo o momento estava em jornada com o capellão para Cercosa, o pae fugia para Lisboa sempre que se via com algum dinheiro e, quando estava em Coimbra ou na Beira, passava o tempo em caçadas, visitas e recepções, folgando continuamente, como um rapaz, ora em sua casa ou nas festas visinhas, que retribuia com largueza. D'este modo, os filhos tornavam-se um estorvo, quer aos amores da fidalga, quer aos prazeres do morgado.

Era preciso remover esse embaraço. Sobre isso conversaram amigavelmente os paes, que de resto sempre viviam em paz e harmonia, n'uma indifferença intima e exteriormente na mais estremada cortezia.

Queriam para os filhos uma educação primorosa, diziam, como aquella que elles mesmos tinham tido, queriam-n'os, principalmente, educados na religião christã.

Por isso resolveram mandar as filhas para o recolhimento das irmãs de Santa Ignez, estabelecidas em Lisboa, umas freiras irlandezas que a marqueza de Fermelã, piedosa senhora que lá ia todos os dias ouvir missa, lhes tinha elogiado como um modelo de bons costumes e fina educação.

Durante muitos annos, no 1.º d'outubro, D. Pedro era certo á porta do recolhimento, que ficava para os lados do Campo d'Ourique, a principio só com Leonor, mais tarde, quando Laura chegou aos nove annos, com as duas filhas.

Ele, pelo seu natural descuido e por certo pendor para a bondade, que facilmente o levariam a ceder aos rogos das filhas, consentiria em alongar as ferias; mas a mãe que vivia contrariadissima com a sua presença, por causa do capellão, punha todos os seus esforços em que os regulamentos collegiaes fossem cumpridos a rigor. Era um bom costume, dizia ao marido sempre que o sentia propenso a qualquer concessão.

No collegio elogiavam a pontualidade das meninas Albuquerques; apontavam-na como exemplo aos mais remissos. Aquelles sim, aquelles educavam conforme as boas regras d'outros tempos! Os filhos lh'o saberiam agradecer mais tarde. Não eram como a gente de Lisboa que estragava as creanças com mimo.

Com o rapaz não se podia fazer outro tanto; o pae não consentia. Queria-o educado em liberdade, para que fosse um homem; o collegio tornal-o-ia maricas.

O melhor seria um professor que viesse a casa dar-lhe lições até ao exame de instrucção primaria, depois havia de frequentar o lyceu para se habituar a tratar com os outros rapazes e por fim formar-se-ia em direito na Universidade.

D. Maria Francisca acceitou e applaudiu o programma. Tinha pensado em que a solução era boa; durante o tempo lectivo o filho estava preso em Coimbra, deixando-lhe por conseguinte a liberdade de gozar a sua querida tranquillidade de Cercosa, as ferias do natal e da paschoa eram breves, e dos mezes de agosto e setembro não tinha a preoccupar-se que esses estavam d'antemão prejudicados pela presença das filhas.