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Chapter 10

Chapter 103,883 wordsPublic domain

Seria mais um remorso, havia de mentir-lhe, havia de a convencer de que era sempre a victima dos seus zelos infundados, mas era certo que Laura lhe deixára uma impressão profunda, e vagamente, com uma tenacidade perigosa para os amores de Emilia, pensava em que talvez estivesse ali a sua salvação. Seria um capricho dos sentidos, o encontro casual d'um temperamento ardente e d'uma natureza nervosa, uma surda concupiscencia? Talvez não. Laura era uma rapariga educada em ociosidade absoluta, sem a minima instrucção, sabendo com segurança apenas valsar, brincar e montar a cavallo e a Claudio, burguez por habito e por educação, d'uma delicadeza moral doentia pela aturada insistencia dos problemas da sua vida, repugnava uma existencia tão vasia e inutil.

Qualquer cousa ignorada o atraia, porém. Tambem aqui o espirito e a reflexão não lograram vencer o sentimento.

Ouem podia saber a verdade? Quem podia dizer-lhe o que se abrigava n'aquelle corpo de creança? Talvez um coração apaixonado, uma d'estas mulheres que se consomem n'um só amor.

A imaginação representava-lhe prazeres infinitos, n'um lar todo illuminado por essa luz de sacrificio. Havia de a dominar pelo amor, havia de banir dos seus desejos os habitos de ociosidade. Ella seria bondosa, ingenuamente amoravel; não era uma rapariga prevenida e, quando tivesse amamentado um filho, quando tivesse vivido n'uma atmosphera de labor e de virtude, a esposa da sua alma revelar-se-ia.

Depois, se errasse nas suas esperanças, tambem saberia mandar a quem não soubesse amar. A herança paterna, o homem sevéro e frio, accordaria.

Mas Emilia, Emilia?... A sua falta pesava-lhe então n'uma fadiga e n'um desespero invenciveis; entre o desejo de sair d'uma vida, a seus olhos criminosa, e a ambição duma vida normal, cavava-se um abysmo innundado de lagrimas que era precioso transpôr. Recuava. Nunca! Pobre Emilia...

Ás vezes, sobre o conflicto d'aspirações passava uma onda de scepticismo. Laura, Emilia, o casamento, o adulterio... phantasias! Fugisse d'ali, fosse viver em Lisboa, não poupasse ao seu corpo todas as delicias que a fortuna lhe consentia. Mas o dever dominava-o, não havia modo de se libertar, n'uma vida facil, d'essa pesada escravidão a que desde a infancia fôra votado.

Outras vezes, esquecia Emilia. Laura apparecia-lhe como uma visão de candura, o anjo que lhe annunciava a paz, e caia na tristeza da infinita saudade das cousas cubiçadas e impossiveis.

Queria aquecer-se ao sol da sua ingenuidade e da sua fé, beber na sua simplicidade um alento purificador. Loucura! A felicidade fugira-lhe para sempre, de tudo poderia curar-se menos do remorso, a vása de todas as almas delicadas, a toldar-lhes o mais pequeno movimento. Só o dever seria a sua ambição; deixasse como um forte, por justo castigo da sua culpa, os sonhos de felicidade. Loucura ainda! Dever, felicidade, que estranhas vozes eram essas?

Luctar era bom para quem tinha os favores do destino. Elle não; vinha batido dos erros e contrariedades e só na escuridão da terra encontraria repouso.

Comprehendia agora. E pensava na doce paz do cemiterio e nas flores que haviam de lhe cobrir a sepultura.

Nova loucura! O suicidio era um crime. Não lh'o ensinára sua mãe?!...

Iam decorridos oito dias sem que Claudio tivesse voltado a casa dos Albuquerques, como costumava depois dos bailes, por obrigação de cortezia. O seu desejo de tornar a vêr Laura ficava aqui prejudicado pelo receio d'um novo accesso de ciumes de Emilia.

Por fim, uma tarde, ou por mais animado ou por indifferente e fatigado de tanto meditar, metteu-se na carruagem e partiu.

A visita foi curta; pouco pôde fallar com Laura.

--Sei que tem um jardim muito bonito, disse ella. Se algum dia lá passar, quero pedir a meu pae que m'o deixe vêr.

--Muita honra... e com o maior prazer. Mas nada tenho notavel; só uma collecção de rosas que não é má. N'este tempo, porém, póde dizer-se que não há rosas.

Ficava confundido com a lembrança de Laura. Que mysteriosos instinctos a attraiam á sua casa e ás suas flores, ás cousas que elle tanto amava. Ah! Se Emilia o soubesse... Tremia.

D'aquella visita voltava quasi doente, sobresaltado, um vaguear permanente, os olhos cavados, o corpo quebrado, com todos os symptomas physicos da paixão.

A fadiga era extrema; com ella veio um somno profundo de que despertou n'uma tranquillidade que ha muito desconhecia.

O que fôra? Que se passára? Porque tantas inquietações?

A indifferença vencia. Voltaria aos braços de Emilia mais firme do que nunca nos seus propositos de eterno amor.

Para que abandonal-a? Não era o dever que o instigava, não; era o egoismo, o desejo d'uma vida repousada, uma sêde de carinhos e de affectos.

Ingratidão! Tão cedo esquecia o que Emilia era para elle...

Voltasse aos seus livros, ao estudo e ás suas occupações habituaes, resignado com o destino. A felicidade dependia unicamente d'elle; era conformar-se com a natural expiação do seu erro, sacrificando humildemente ao bem alheio os seus sonhos de ventura.

Virtude e saber, tudo era orgulho; a humildade a sabedoria suprema. Fôra o que sua mãe lhe ensinára e era o que o coração n'aquelle momento lhe repetia.

Da incerteza em que então começou a viver ficou testemunho no «diario» a que Claudio confiava as suas penas, n'um isolamento e n'uma clausura que as aggravavam. D'ahi tiramos os seguintes fragmentos:

_7 d'agosto._ Tranquillidade, abandono. Entregue ao tempo e ao acaso, vejo correr os dias n'uma resignada desesperança. N'esta calma perpassa a imagem Laura e ouve-se por vezes uma dorida voz de anciedade. A vida é mais alguma cousa do que esta apathia na dôr, a vida é a pratica do bem. Até a minha serenidade é crime!... Não! enganei-me. As bençãos da resignação não desceram ao meu peito, vivo na tristeza das cousas desejadas e inaccessiveis. Sinto uma prostração das luctas vãs, não chegou ainda a hora da conformidade.

_16 d'agosto._ Scismo. A intensidade da aspiração instiga-me a romper com o passado. As fézes d'um amor illegitimo toldam-me a alma até ao azedume. Que direitos tem Emilia sobre mim? É cumplice d'um mesmo crime? Seja pois victima do mesmo resgate.

_17 d'agosto._ Esta tarde fui surprehendido pela visita dos Albuquerques. Vinham de passeiar, disseram, e desceram para vêr o meu jardim. Laura veio tambem. Perceberia o velho o que me passava pelo espirito? Desconfio. Apressa-se a não perder o ensejo de remendar a sua fortuna escalavrada. Nos primeiros instantes, esta lembrança de que era instrumento de especulação revoltou-me; depois, a presença de Laura tudo desvaneceu. A graça, a candura, a ingenuidade! Só esse alento me restituiria a vida. Acompanhei-a colhendo flores para ella, recebeu-as com avidez, á partida não as quiz pousar na carruagem, guardou-as nas suas mãos carinhosamente. Ella tambem quererá prender a sua descuidada ventura á miseria da minha alma ensanguentada? Talvez... talvez a guie um mysterioso impulso de caridade! Sinto renascer a esperança.

O Albuquerque pediu-me que fosse jantar com elle. Prometi-lhe que iria muito em breve.

_18 d'agosto._ Noite terrivel. Fui encontrar Emilia n'uma exaltação de loucura com a noticia da visita de Laura. Quando lhe annunciei que tinha promettido ir brevemente a casa do Albuquerque, respondeu-me com uma seccura brutal:

--Vá, está livre, póde ligar-se a quem quizer. Nada me deve. Na minha desgraça não perdi a dignidade, fique sabendo! Os nossos amores terminaram hoje. Aborreceu-se. Era tempo... Sei muito bem o que me cumpre fazer; é voltar áquillo de que nunca deveria ter saido.

Emudeci de surpreza perante aquella linguagem e aquella firmeza; a alegria de vêr terminadas as minhas hesitações e as minhas duvidas lança para longe todas as demais preoccupações. Livre emfim!... E sem lagrimas nem manchas de sangue, sem os espectros que me guardavam o somno. A vida é uma festa. Corramos ao prazer. Affasta quanto póde perturbar-te e aprende na miseria moral quanto vale a sã alegria do corpo repousado na satisfação dos seus apetites. Para traz, para traz todas as atribulações da consciencia; retempera-te no vigor d'um naturalismo ingenuo.

_19 d'agosto._ Voltei a casa de Emilia. Disse-lhe que queria saber quaes seriam em publico as nossas relações.

--Mas, evidentemente, da maior amizade, respondeu-me. Nem outra cousa se justifica. Não valia a pena ter o incommodo de vir aqui só para isso.

Mentia; o que eu procurava era a confirmação das palavras do dia antecedente. Tudo acabou. Conversamos duas horas, com a animação que o contentamento intimo me dava, sem uma referencia d'amor, sem a mais leve tentativa de reconciliação. Quando parti, pareceu-me que os olhos se lhe humedeciam. Porque? Comprehendeu que a separação está consumada? Para sempre!

Extincto todo o capricho sensual, só ligações moraes nos poderiam prender, e essas desvaneceram-se ao vêr por terra todas as illusões de emenda, de doçura, de resignação, que d'ella esperava para resgatar a nossa falta commum. Restaria a compaixão pela sua desventura e o receio de uma allucinação que, pondo-lhe termo á vida, aggravaria as minhas dores com o mais pesado remorso. Tudo isso passou! Eis-me livre e tranquillo.

_20 d'agosto._ Fui talvez cruel, abandonando Emilia á sua miseria. Se não fosse Laura, tel-o-ia feito? Cedi á virtude ou ao egoismo, a um novo apetite, ao cansaço do corpo saciado, ou ao arrependimento e ao proposito de emenda? Voltam as duvidas a rasgar-me o coração. Melancolia. Fraqueza. Toda a alegria se esvae.

Oh! a volupia das lagrimas, o prazer de sentir o soffrimento dos que choram por nós! Talvez uma vága saudade...

_27 d'agosto._ Uma hora cruel, extrema angustia. Hoje recebi uma carta de Emilia, pedindo-me que fosse vêl-a á noite, na capella. Todo o dia fiquei na maior inquietação. Passeei de tarde procurando accalmar-me com a fadiga do corpo. A excitação crescia e foi na maior anciedade que ás dez horas cheguei á rua da Cruz.

Emilia fez-me sentar no velho confessionario e rojando-se na terra, a meus pés, suffocada pelas lagrimas, disse-me que me chamára porque já não podia soffrer mais; que sabia que eu ia partir para uma viagem longa, não podia crêr que tivesse acreditado o que n'um momento de ciume me tinha dito, tres annos de amôr em que tudo sacrificára por mim não podiam terminar com duas palavras de separação. N'isto, ergueu-se. Succumbido de terror, vi ressuscitar, deante de mim, banhada de luar, aquella pallidez e os olhos flamejantes em que um dia me abrazei ebrio d'amôr; e da humida escuridão da capella vieram aos meus ouvidos, como uma anathema, como a eterna excommunhão da paz e da virtude, lentamente, pausadamente, estas palavras:

--Diga-me... diga-me... oiça bem!... se não posso contar mais com o seu amôr. Quero suicidar-me!

Um sentimento de miseravel cobardia se apoderou de mim e menti, menti com firmeza, vilmente. Tudo era falso; nunca amára Laura, nunca pensára em casar-me, ia a Lisboa por breves dias para cuidar de cousas urgentes, o meu amor por ella não afrouxara um só momento, queria só castigal-a dos seus imerecidos ciumes. Convenceu-se e serenou. Beijei-a. Entre os meus labios e a sua face interpunha-se uma sombra que em vão procurei dissipar, a sombra da mentira. No fundo, bem o sei, não cessaram um instante as ambições de regeneração. Só o temor do suicidio me contém.

_30 d'agosto--Lisboa._ Vim até aqui calcando as supplicas mais compungentes que podem sair d'um coração humano. Se ouvisse sómente a compaixão e a piedade, voltaria atraz... Não posso mais! Morro esmagado entre a fraqueza e o desejo. Revolta-se o orgulho e ergue-me um impulso de rectidão. Rectidão ou crueldade? Commetti um crime e para resgatal-o tenho de arriscar uma vida. Deverei permanecer na vergonha ou ensaguentar a virtude? Vae, não receies, diz-me uma voz occulta.

As lagrimas de Emilia são uma fraqueza, o apêgo aos beneficios do seu crime. Não seria a tua compaixão uma fraqueza tambem?

Cuidado! Pensa bem. Não é talvez a virtude que te guia, é a crueldade; não é o amor do bem, é a paixão por Laura.

_31 de agosto._ Esta manhã encontrei F... que me fallou dos Albuquerques. Conhece Laura, viveu muito com ella. É encantadora de singeleza e de bondade, disse-me. Passei o dia no maior contentamento. Todas as esperanças renascem, vibrantes de vigor. Esqueci que ao longe uma mulher afflicta, semi-doida, bebe o calice da minha culpa. Nem as lagrimas, nem a deshonra alheia, nem a consciencia do proprio aviltamento podem perturbar-me a alegria.

Serão assim os outros homens?... Será a virtude um acaso e a miseria moral a lei comum?

_2 de setembro. Lisboa._ Tristeza, desalento. Impossivel conservar-me aqui, tenho de voltar a Albergaria. O que me espera? Vou luctar? Cederei abdicando para sempre da paz da consciencia e da felicidade na virtude em proveito dos caprichos e da fraqueza de Emilia? Hora maldita a da tentação! Tudo na minha vida é incerto, só o soffrimento me resta por companheiro. Abraça a tua cruz, é a cruz do teu erro!

_4 de setembro._ Voltei a casa de Emilia. Encontrei-a fatigada, abatida, mas ao ver-me, o rosto illuminou-se-lhe d'uma candida alegria. Julgava-me restituido ao seu amor. Quando, tentando novamente desprender-me, lhe declarei que só para a tranquillisar lhe tinha dito que nunca julguei terminado o nosso amor mas que, na verdade, o tinha acreditado e estivera em risco de tomar compromissos com Laura, não teve uma palavra de resposta. Silenciosa, muda de espanto, na paralysia da dor, só lagrimas se moveram na face immovel e queda. O que se passou dentro em mim, não o sei; uma compaixão profunda, angustiada, e, mais alto do que ella, o bramar da consciencia e a tortura do dever. Que me resta? Confessar a verdade inteira, pedir o seu perdão e separar-nos. Deixal-a-hei pois na miseria e no abandono?... Nunca! Dorme, enxuga as lagrimas, dou-te a paz da minha consciencia e serei só a soffrer, soffrerei resignado, sem um lamento!

Desde esta hora, durante longos dias, todo o «diario» de Claudio revela uma incerteza e uma confusão infindas.

O sentimento d'um dever a cumprir, a compaixão pela miseria de Emilia, a lembrança de Laura, cujo affecto sentia crescer, o cansaço d'uma vida inquieta e a ambição de tranquillidade, tudo o fazia oscillar constantemente entre os mais desencontrados propositos.

Debalde o pensamento procurava guial-o; a energia e a vontade haviam naufragado nas ondas do seu coração.

A vida arrastava-se penosamente, sem norte, sem rumo, desvairada, em meio de esperanças, desillusões e desalentos.

_27 de novembro._ Um dia chuvoso, pesado, humido, escuro. Tres horas de leitura junto ao fogão, no doce goso de aprender e de pensar. Mas esta cella é vasia.

Torturam-me ambições d'amor e de conforto moral. Nunca o tive. A affeição illegitima que contradiz o dever, rasga e esphacela o coração sem o aquecer; é uma consumpção doentia.

Quero o amor de Laura, o seu amor e não a sua piedade pelas minhas dores, quero um alento que me restitua á vida corajoso e são, não quero os balsamos com que se occulta a miseria de Lazaro.

_28 de novembro._ Não póde ser boa a caridade que alimenta o peccado. A minha compaixão pela sorte de Emilia é um novo erro. Coragem! Sê justo!

Aproxima-se a noite, fria, escura, revolvida na sua treva por um vento inclemente. Succumbo; invade-me um suave desejo de morrer. A morte seria a paz, a libertação de todas as duvidas, de todas as hesitações, das interrogações da consciencia. Não!... Seria cobardia e vaidade: a cobardia de arrastar a minha cruz, a vaidade de ungir o meu cadaver com as lagrimas dos que me amaram. Devo viver. Quero resgatar pela virtude as offensas a Deus.

_28 de novembro._ A dissolução do passado torna-se um encargo em que só entra a razão implacavel e fria. Injustiça?... Não. A severidade é tambem um meio de ser caritativo; a minha complacencia com Emilia é uma falta d'amor.

_30 de novembro._ Um dia alegre, sorridente; a atmosphera quieta, a paysagem rutilante. Na minha alma, um esvoaçar de esperanças boas. Laura, Laura!... Toda a natureza me repete o seu nome.

_1 de dezembro_. F... veio vêr-me. É um antigo companheiro que se quedou no materialismo natulista. Durante duas horas, fallou-me de transformismo e de evolução, muito crente na sciencia. Emquanto o ouvia, erguiam-se na minha lembrança as illusões do passado e a tristeza caía mais pesada sobre o meu coração que sobre a terra as sombras da noite. Anciedade d'amor e de perdão. Podesse a tua alma, Laura, sentir o palpitar d'esta vida dilacerada pela amargura e havia de protegel-a, abrigando-a na sua pureza!

_2 de dezembro._ Destino cruel! Quero terminar uma vida de mentira, mentindo áquella mesma que foi a minha amada. Degradação extrema. Quizera dizer aos que passam:--Fugi d'este ser impuro, cuspi-me na face e desprezai-me!

_14 de dezembro._ Emilia morreu no meu corarão; apenas o dever e a piedade me prendem. Sinto-o bem, vendo a meu lado permanentemente a imagem de Laura. Só por ella apeteço a vida. Egoismo, ambição de repartir com uma alma pura as agruras das minhas culpas? Talvez... Ai! Quanto a duvida me opprime!

_16 de dezembro._ Enganas-te. Não é remorso, é orgulho o que tu sentes; não é o amor da virtude, é o pejo de confessar a tua mesquinhez e fraqueza. Aprende a humilhar-te.

Tempestade. O sybillar do vento desperta em mim sonhos de paz e de conforto domestico, as ambições do corpo dissipam as atribulações da alma.

_18 de dezembro._ Um immenso desgosto da vida, cansado de luctar em vão. A morte seria para mim a melhor esmola de Deus. E todavia aterra-me. Porque? Saudades de Laura, ambição do seu affecto.

Chove. Gotejam mansamente as arvores e os beiraes, a noite vem descendo suave, humida e negra. Só o repouso da minha alma não vem; em vão o imploro da natureza propicia!

_20 de dezembro._ Indifferença, fadiga, reacção da intelligencia. Que te importa a miseria estranha, as lagrimas que espalhaste? Que te importa o passado? Orgulho imbecil! Vive a tua vida, conforme o teu destino, fabrica o teu mel ou o teu veneno, como a vibora nos brejos ou a abelha sobre a rosa. A natureza não erra. Não tentes dominal-a. Vaidade das vaidades!

_31 de dezembro. Meia noite._ Atmosphera limpida e calma, o céu estrellado, nem a mais ligeira nuvem nem o estremecer d'uma folha. Interrogo os astros. Bom agouro? É a tranquillidade que o novo amor me traz?

_1 de janeiro._ Saí sósinho. Impressão de abandono, ao pensar nas alegrias do novo anno em volta do lar. Só minha pobre mãe me resta por companhia. Advinha talvez as minhas dores e roga a Deus que as affaste. Na praça encontrei um mendigo mal abrigado nos seus farrapos de burel. Serenamente, estendeu-me a mão, recebeu a esmola e seguiu o seu caminho. Ao longe, vejo a casa de minha irmã; no campo, descendo para o rio, os gados que meus sobrinhos guardam. O amor divino, o burel, o trabalho--suprema sabedoria! Por que estranha loucura os abandonaste, por que aberração voltaste a face á felicidade que tinhas deante dos teus olhos e te lançaste nas vagas da ambição e da vaidade?

_3 de janeiro._ Passei a manhã no jardim, cultivando as minhas flores. Alegria plena. Cantava, arrebatado no palpitar de energia que se desprendia á luz tépida e branda. Ao longe, distante, quasi perdido, um lugubre rebate de remorso, phantasmas da consciencia voando levados pelos balsamos a exalarem-se da terra que o sol beija e fecunda, castamente.

A crise terminava para Claudio n'uma inacção de impotencia; o ardor do sentimento e a intensidade da razão quebravam todas as energias da vontade.

Os dias succediam-se eguaes na sua infinita inconstancia; a melancolia, o remorso, a indignação, a alegria, o desprendimento, confundiam-se obscuramente, ora no desejo de possuir o amor de Laura, ora no temor do abandono de Emilia, ora n'uma viril resolução de emenda, ora finalmente n'um cansado scepticismo.

Mas, anniquilado para toda a acção, entregára-se n'uma conformidade de desesperança ao seu triste destino.

Virtude, felicidade, estudo, tudo se perdera! Nem sequer para ahi podia volver o pensamento que logo na memoria não surgissem lembranças crueis dos espinhos por onde deixára em pedaços todo o viço da sua mocidade.

Uma unica imagem, uma unica, vogava nos destroços do naufragio, incolume, resplandecente, irradiando uma luz divina que penetrava a alma de beatitude,--sua mãe.

Perante ella, todas as sombras se dissipavam; o tumulto da paixão convertia-se n'um culto singelo, purificador e ardente.

Instinctivamente, habituava-se á irregularidade da sua vida. A consciencia parecia adormecer,--não se repele um drama interior,--e essa indifferença, quasi satisfeita, começava a conquistal-o. Habituara-se ao egoismo absorvente de Emilia e ao seu incorregivel ciume e habituara-se tambem á presença de Laura que sabia ser o fructo prohibido. Exteriormente, a sua vida era d'uma tranquillidade e d'uma satisfação completas; cuidava das suas terras, passeiava, vinha bastas vezes a Coimbra conversar com os amigos ou assistir aos espectaculos publicos, e até mesmo frequentava a capella da rua da Cruz, corajosamente, sem aquelle receio de que as suas visitas fossem sabidas, que em outro tempo tanto lhe pesava e que hoje punha á conta de preoccupação pueril.

Pois podia alguem illudir-se sobre a natureza das suas relações com Emilia?! Era claro que todos as percebiam e advinhavam. Pasmava de que só agora tivesse feito este raciocinio tão simples e tão seguro.

Assim se consumiram cinco mezes, durante os quaes Claudio muitos dias visitou Emilia sem que em longas horas de palestra banal houvesse uma unica referencia ás luctas passadas. De longe em longe, o problema voltava á discussão, mas agora quasi friamente, á parte a ligeira irritação de Claudio, que provinha do sentimento da sua escravidão, e os fogosos impetos de Emilia que temia vêr fugir-lhe a preza.

Claudio insistia sempre pela necessidade de pôrem termo a uma vida que os envergonhava; Emilia respondia-lhe com a obrigação em que elle estava de nunca a abandonar, obrigação que lhe custara, a ella, a perda da sua honra.

Um dia, em fins de maio, Claudio recebeu o convite do filho do Albuquerque para jantar. Era no dia dos seus annos; festa intima para que só convidava Claudio, que dos velhos amigos da casa não fallava, eram sempre convidados.

Claudio foi com conhecimento prévio de Emilia, que pouco se amedrontava já com estas visitas, convencida de que os amores por Laura não adeantavam. De resto, promettera-lhe que voltaria immediatamente, no fim do jantar, e ás onze horas estaria na capella.

Debalde o esperou até á meia noite, hora a que, receiando a entrada de Ricardo, se deitara para soffrer uma noite de insonia, torturada de despeito e de ciume.

Claudio ficára até tarde em Coimbra, bem certo do que na primeira entrevista o esperava, mas intimamente indifferente, n'esta indifferença que a frequencia dos arrebatamentos de Emilia e o seu indomavel egoismo tanto ajudára a crear.

A noite estava tépida e serena. Depois do jantar, todos os convivas sairam para o jardim e Claudio foi sentar-se no banco que dominava a varzea, ao lado de Laura, que para ali se tinha affastado pelo braço de uma prima sua hospede, vinda da Beira a Coimbra para dar lições de piano com uma mestra afamada.

Conversaram da paizagem, das flores, dos apetites e prazeres de cada um, trocando entre si impressões e ideias que se lhes afiguravam da mais perfeita conformidade.

Laura adorava a musica, dizia; estudára-a cinco annos em Lisboa, no collegio das irmãs de Santa Ignez, com uma senhora irlandeza, e continuara depois, tres annos, com um professor que vinha do Porto uma vez por semana, para a ensinar. Claudio admirava os primores de educação de Laura e tristemente se deixava levar em devaneios de ventura e em vagas esperanças d'um futuro feliz.

Foi n'este scismar que voltou a Albergaria, tão magoado de saudade como enfadado de Emilia, que n'aquelle momento não representava nem um affecto nem um remorso; era apenas um estorvo.