Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

Chapter 8

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Disse-lhe ao que ia; mas, como da nossa conferencia resulta uma resposta á segunda communicação que recebi, é bem que n'este momento aqui fique exarada essa communicação.

Trata-se d'um bilhete-postal anonymo, e, se quebro a minha velha praxe e o bom-conselho de todos de lançar para os papeis inuteis esta ordem de documentos, é porque se trata d'um assumpto litterario e o meu correspondente, por qualquer razão se não querer fazer conhecido, o que muito me contraria. Diz assim:

«O soneto que v. reproduziu no _Diario Illustrado_ tem mais de dois seculos. Bastava o estylo para o denunciar seiscentista; mas a prova positiva está em a Nova Floresta, terceiro tomo, tit. V, apopht. LIV. Permitta-se a um obscuro padre dizer mais. Com essa ancianidade de taes versos toma nova força o contra argumento de v. sobre o silencio dos cancioneiros a respeito de Crisfal. Na margem do soneto pag. 207, da edição da _Nova Floresta_ de 1759 (4.^a impressão que tenho á vista) lê se o nome do autor assim: _Do Doutor Manuel da Nobrega_. Quem fez um tal soneto, tão seriamente engenhoso, apesar do gongorismo, e tão bem metrificado, havia de ter mais poesias: e sendo _doutor_, não era um desconhecido. Que temos d'elle na _Fenix Renascida_? Quem o conhece? Alguns annos ha, o soneto reproduzido anónimo em muitos livros devotos, foi publicado em o _Novo Mensageiro do Coração de Jesus_ (revista piedosa mas de muita litteratura) com a indicação, que a minha memoria aproveitou agora, da _Nova Floresta_, e com uma nota que dizia ser o nome do Dr. M. Nobrega desconhecido dos bibliographos.»

Vamos agora, rapidamente, ao resultado das pesquizas com Fernandes Thomaz.

O soneto _A vós, correndo vou, braços sagrados_ encontra-se a fechar uma dedicatoria a «Jesus Christo Senhor Nosso Crucificado» d'um curiosissimo livro de 1734 intitulado «_Anacephaleosis medico theologica, moral e politica_, etc., etc.», obra d'um tal Bernardo Pereyra, medico do partido da villa do Sardoal.

O meu primeiro correspondente, que conhecia o livro, attribuiu facilmente a Pereira a autoria do soneto, por não reparar nas palavras que precedem a sua reproducção, e que dizem:

«...e finalmente como se consegue a gloria que é a melhor conclusão que se tira depois de sahir da Universidade do mundo para as Escollas do Céo; mas será bem, meu amoroso Jesus, _que antes de tudo diga com hum devoto_ que hoje para renacer do estado da culpa ao da graça, que de vós espero, para seguir o caminho por onde não vá precipitado, mas antes com a vossa direcção fortalecido!

«_A vós correndo vou, braços sagrados_, etc., etc.»

Mas (e vae isto em resposta ao anonymo correspondente) tanto Barbosa, na sua _Bibliotheca_, como Innocencio, no _Diccionario_, citam Manuel da Nobrega, como auctor do _Epicedio inconsolavel á morte do Ser. Principe de Portugal D. Theodosio que falleceu em 15 de maio de 1653_ e como collaborador nas _Memorias funebres de D. Maria de Athayde_ fallecida em 22 de agosto de 1649.

É livro muito interessante estas «_Memorias funebres sentidas pelos engenhos portugueses na morte da Senhora D. Maria de Athayde_». N'ellas se encontram poesias em portuguez, francez, hespanhol, italiano, latim, assignadas pelos nomes dos poetas mais illustres do tempo e, para não citar outros, bastará lembrar os de Soror Violante do Céo e D. Francisco Manuel de Mello.

Ao que parece tratava-se d'uma extremada formosura _doublée_ (como hoje se diz) d'uma alma de eleição. _O Doutor Manuel de Nobrega_ concorre a este florilegio poetico com um soneto e uma egloga. O soneto:

_Aquelle bello Sol, que amanhecia_, não desmerece, antes tem grandes ares de familia com o que tem sido causa d'esta palestra... algo pesada.

Não quero, porém, terminal-a sem exarar o meu parecer de que o Soneto, embora _culterano_, tem tão pouco de _gongorico_ que Guilherme Braga, ou qualquer outro grande poeta de hoje, não desdenharia assignal-o, se essa fosse _a sua corda_.

Hemeterio Arantes.

(Do _Diario Illustrado_, de Lisboa, de 9 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

Subsidios para a Historia da literatura portuguesa, por Delfim Guimarães. 1908--Liv. ed. Guimarães & C.^a Lisboa--8.^o, 274 pag.

Delfim Guimarães, Bibliographia: Prosa: _Alma Dorida_, com prefacio de Teixeira Bastos, _O Rosquedo_ (scenas do Minho), _Ares do Minho_ (contos).--Critica litteraria: _A viagem por terra do sr. João Penha_.--Verso: _Lisboa negra_, _Confidencias_, _Evangelho_, _Não! mil vezes não!_, _Sim! mil vezes sim!_, _Sonho Garretteano_, _A Virgem do Castello_ e _Outonaes_.--Theatro:--_Aldeia na Côrte_, de collaboração com D. João da Camara. (3 actos--Th. D. Amelia), _Juramento sagrado_ (1 acto, verso.--Th. D. Maria). Traduziu a _Dama das Camelias_, de Dumas, filho; reviu e publicou as _Saudades_ de Bernardim Ribeiro e as _Trovas de Crisfal_, do mesmo auctor. Fundou e dirige a Bibliotheca Classica Popular. Collaborou longo tempo na _Mala da Europa_, _Provincia_, _O Lima_, _Chronica_, _etc._ Varias obras de Delfim Guimarães teem já 2.^a edição, estando algumas outras exgotadas.

Desde longos tempos até este anno 1908 da era de Xpõ, como escreviam os nossos velhotes, tudo era suppor que, ahi por alturas de mil quinhentos e tal da mesma era do Senhor, viveu, floresceu, e ninguem mais soube d'elle, certo _Crisfal_, poeta e namorado, que toda a gente indicava como sendo Christovão Falcão, um Christovão Falcão que se sabe agora escrever como um carreiro e ter mais erros de orthographia do que cabellos tinha na cabeça... se a Historia não provar que elle era careca. Indicava se Christovão Falcão tacteando. Para manter a suspeição havia só o corresponder o pseudonymo _Cris fal_ ás primeiras sylabas do nome do supposto poeta. Longo tempo a mentira prevaleceu e longo tempo os doutos acceitaram de boamente a patranha, uns supplementando-a com fabulações _á priori_, outros asseverando que tal era porque era e «por ser verdade passavam a presente que assignavam».

Caminhava tudo em doce paz quando Delfim Guimarães, publicando o livro de que nos occupamos, desfez a lenda, tombou os castellos e pôz a cousa nos devidos termos. Mas vamos ao que importa.

«De como e porquê Delfim Guimarães achou que _Crisfal_ não passou de um pseudonymo de Bernardim Ribeiro e de cousas varias que ao deante se verão», é um capitulo que, n'esta critica, deve interessar o leitor, agora que já sabe que tal _Crisfal_ nunca existiu.

Delfim Guimarães é um estudioso e um devotado. Manuseia os classicos com a mesma curiosidade com que aguarda o ultimo livro de Anatole France ou o novo romance de Octave Mirbeau.

Ha tempo, dirigindo uma collecção, publicou as _Saudades_ do nosso Bernardim, auctor que, por sua natural tristura e dulçorosidade, desde menino e moço mais o prendia e captivava. Tudo estaria bem até aqui se, mente cogitativa e emprehendedora, não scismasse em publicar uma Bibliotheca de Classicos animado pelo exito das _Saudades_. Uma Bibliotheca de vulgarisação, destinada a mostrar á alma do vulgo o escrinio das melhores joias dos nossos antepassados.

Anteriormente uma natural curiosidade o levara a estudar os poetas que se apontavam como maiores amigos de Bernardim: Sá de Miranda e _Crisfal_, o celebrado Christovam Falcão que hoje deve ás musas a celebreira que por seculos desfructou,--elephante que conseguiu passar por canario, o animal.

A extraordinaria semelhança de _Crisfal_ a Bernardim, os mesmos lamentos, a mesma situação amorosa, os mesmos queixumes; a ausencia absoluta de noticias e referencias na obra de Sá de Miranda e Bernardim ao poeta coevo e imitador, tudo isto deu a Delfim Guimarães a certeza de que _Crisfal_ e Bernardim era o mesmo, só, e altissimo poeta. Além d'isto nenhum documento da epocha autorisava a pôr a carapuça _Crisfal_ em cabeça de Christovam Falcão. O mesmo editor de Bernardim, edição de 1554, onde se acha incorporada a «Egloga chamada Crisfal» escreve, referindo-se-lhe: «_que dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece alludir ho nome da mesma Egloga».

Estudado o contemporaneo Christovão Falcão, vê-se que elle era pouco menos de bronco e não poderia ser nunca o auctor da _Egloga_. Adquirida a certeza, que era _Crisfal_? E logo, deductivo, Delfim Guimarães achou a chave. É _crisma falso_, pois que na Egloga se move a mesma passionalidade de Bernardim com supositicios nomes--falsos crismas.

O livro do escriptor é ilustrado com um fac-simile de uma carta do pretenso Christovam Falcão e acompanhado de uma arvore genealogica dos Falcões. De uma logica cerrada e inteligente, preciosamente documentado, é um trabalho collosal que dará echoantissimo nome ao seu auctor. E enquanto se não perder na memoria das gerações o nome do bardo amoroso, o triste Bernardim, o nome de Delfim Guimarães não se desacorrentará da gloria de ter focado com intensa luz um tão curioso e deturpado caso da litteratura portugueza.

Lá fóra esta obra faria não só a gloria mas o nome de um trabalhador. As Academias levar-lhe-hiam o seu _fauteuil_ estofado, e os editores disputariam a honra de lhe pagar.

Cá dá desgostos, nada mais.

O illustre publicista José Sampaio (Bruno) chegára ás mesmas conclusões. Anselmo Braamcamp Freire vae publicar um trabalho curiosissimo sobre Maria Brandão; José Caldas é da opinião de que se achou a verdade. Quem resta? Carolina Michaelis, cuja opinião importa saber, e Theophilo Braga, que discorda.

As impugnações que Delfim Guimarães fez aos livros de Theophilo estão em aberto. E Delfim veio com este seu trabalho não só elliminar um Christovam da litteratura e uma Maria das muitas Marias enamoradas, mas fazer luz sobre uma poesia de Camões falsamente attribuida a Bernardim Ribeiro, e documentar que _sómente_ Sá de Miranda foi o introductor da Escola Italiana em Portugal. Bernardim Ribeiro foi o introductor mas das novas eglogas vergilianas.

Raro talento, muito estudo, aturada analyse, observação profunda e um grande serviço prestado á litteratura, eis como julgamos o livro _Bernardim Ribeiro_. Com ares impugnativos veio o sr. Jordão A. de Freitas no _Diario de Noticias_ carretar materiaes para o rude e esforçado prelio a travar-se. Não crêmos que o haja. Theophilo Braga, porém, que tem estado silencioso, dirá de sua justiça. O trabalho de Delfim Guimarães é probo e consciencioso. Merece o applauso incondicional de todos, e que rejubile a litteratura que ainda tem artistas que, fructo de seu labor, lhe dão tão bellas obras.

Albino Forjaz de Sampayo.

(Do jornal _A Lucta_, de Lisboa, de 16 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães

A obra que Delfim Guimarães acaba de publicar é o producto d'um lucido criterio aliado a uma habil quanto meticulosa investigação. Sem ser um erudito nem rebuscador d'archivos, Delfim Guimarães, antes de encetar quaesquer pesquizas, teve a maravilhosa intuição--ou elle não fosse um poeta--de que os admiraveis versos do _Crisfal_, desirmanados no decorrer do tempo da obra litteraria de Bernardim, constituiam com o poetico romance de _Menina e Moça_, reflexos d'um mesmo espirito, vibrações d'um unico coração.

É que o illustre critico interpretára com verdadeiro sentimento o genio do infortunado poeta, levando a tal ponto a sua predilecção por elle, que com as _Saudades_ abrira essa galeria de publicações classicas portuguezas em edições populares vulgarisadas, cujo inicio no nosso meio litterario a Delfim Guimarães se deve.

Toda aquella paixão do enternecido bucolista das _Saudades_, a fluidez incomparavel d'essa linguagem que é na sua simplicidade uma mimica d'alma e tem a harmonia d'um fio d'agua gorgolejante, tudo isso,--o sentimento, que é a vida na obra d'arte, Delfim Guimarães foi encontrar nas composições erradamente attribuidas a Cristovam Falcão.

Obtida a prova subjectiva de que o poeta das _Saudades_ era o trovador do _Crisfal_--na realidade um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das palavras _crisma_ e _falso_--o distincto escriptor encetou a investigação historica do que para elle fôra um presentimento e pelo estudo feito sobre os documentos da epoca, seu confronto e interpretação, conseguiu destruir n'uma argumentação irrefutavel e cheia de brilho, a lenda feita tradição e cimentada pelo mais auctorisado critico da nossa litteratura, que o trovador do _Crisfal_ nunca poderia ter sido Cristovam Falcão.

A carta d'este moço fidalgo a D. João III, que Delfim Guimarães transcreve na integra e que na edição de Theophilo Braga apparecera deturpada, é inquestionavelmente a prova mais evidente--e outras não houvesse com relação a datas--de que nunca o espirito trivial que alinhavou aquelles periodos--se é que ali os ha--idealisaria a enternecida ecloga do _Crisfal_, que é ainda, a alguns seculos de distancia, n'esta epocha em que a arte possue riquissimos processos de technica e a linguagem tanto ganhou em expressão emocional,--uma soberba joia litteraria.

Nesta obra, tão cheia de revelações, começa o auctor por fixar em bases positivas as _étapes_ da infortunada vida de Bernardim, desde o seu nascimento no Alemtejo em 1482 até á sua morte no Hospital de Todos os Santos, de Lisboa, em 1552, submerso nas trevas horriveis da loucura. Depois com o esboço dos seus amores da adolescencia e paixão tragica que votou a Joanna Tavares, que foi a mais intensa affeição de Bernardim e a inspiradora do seu triste trovar, entra-se nos capitulos da exegese, sendo todo o livro uma refutação completa das idéas correntes sobre a problematica personagem do trovador do _Crisfal_. Nêle se visionam muitos pontos de vista até então desconhecidos e se estabelecem novas pistas para norteamento dos estudiosos, as quaes, certamente, muito contribuirão para que todo o interessante enigma literario se desvele em absoluto.

Nas suas curiosas investigações, fez Delfim Guimarães preciosos achados que denotam uma grande subtileza nas suas faculdades de critico, como a da poesia de Camões, erradamente atribuida a Bernardim, que se acha no cancioneiro de Luis Franco, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, tão interessantemente descoberta, e o das tres poesias constantes d'um _pliego-suelto_ de 1656, da mesma Biblioteca, que o distincto escriptor filia com boas razões no estro de Bernardim.

Mercê da linguagem castiça, tão saborosamente portugueza, de que o auctor se serve, assim identificada com o thema historico versado, a obra é por si só, e independente da maneira de vêr do auctor, o trabalho honesto de um escritôr que é ao mesmo tempo um artista, n'essa evocação, d'um tão forte relevo, das saudosas edades em que os poetas amavam mais sinceramente e eram menos complicados, a arte não sendo como hoje um _métier_ lucrativo, mas a manifestação espontanea d'um espirito no vôo errante da inspiração.

Fecha o livro um curioso estudo sobre a vida de Cristovam Falcão e sua genealogia, certamente o mais completo até agora.

Felicitamos Delfim Guimarães pelo seu valioso trabalho que vem deslocar cómodos preconceitos arreigados e abrir novos horizontes aos que se interessam--que são todos os portuguezes--pelo estudo da litteratura portugueza no periodo aureo d'esta nacionalidade.

(Do jornal _O Dia_, de Lisboa, de 9 de janeiro de 1909.)

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

É esta obra que perpetuará o nome do seu auctor, se bem que Delfim Guimarães em precedentes trabalhos litterarios tenha já adduzido sobejas provas para que lhe possâmos reconhecer um elevado grau de intelligencia.

Com a publicação do volume cujo titulo encima esta noticia, o serviço prestado por Delfim Guimarães á historia da litteratura patria está sendo louvado tão extraordinariamente a ponto do sr. Albino Forjaz de Sampaio, primoroso chronista da _Lucta_, não ter duvida em afirmar que no Estrangeiro tal publicação franquearia ao seu auctor as portas d'uma Academia.

O livro apresentado é o producto d'uma ardua tarefa em que pacientes faculdades de investigação, alliadas a uma singular vivacidade, removem com cauteloso tino os escabrosos obstaculos que tão ingrato estudo frequentemente depára. Por isso é que, sem receio de contradicta, nos afoutamos a asseverar que em Portugal ninguem melhor do que Delfim Guimarães conhece o periodo da historia litteraria a que o mesmo assumpto directamente respeita. E nem isso pode causar surpreza ao leitor illustrado, uma vez que a arrojada affirmativa do illustre publicista, que é por signal a _negação_ da existencia de Christovam Falcão, como trovador quinhentista, demandava um minucioso exame analytico a todos os documentos litterarios de então; e nisso só a mais escrupulosa cautella conjugada com uma aguda perspicacia, como já deixamos dito, poderia lograr o exito desejado.

Os materiaes que Delfim Guimarães colligiu para invalidar a personalidade litteraria de Christovam Falcão, deixa-os elle dispersos nos varios capitulos do seu livro, os quaes sobrepostos uns aos outros, á medida que se vai avançando na leitura, introduzem em qualquer espirito a certeza da these que o auctor se propoz comprovar.

De envolta com os persuasivos esclarecimentos allegados em prol do seu proposito, o auctor rectifica raciocinios errados e affirmações insustentaveis de Theophilo Braga, se bem que o sabor acre d'essas frequentes correcções seja attenuado ou neutralisado quasi pelas assucaradas referencias ao passado de tão incançavel trabalhador.

Pelo volume a que estamos alludindo vê-se que a obra de Bernardim Ribeiro chegou para fazer a reputação de dous homens, vindo o nome de Christovam Falcão usurpar em seu proveito algumas das produções d'aquelle mavioso lyrico, e sendo, portanto, a sua memoria um nefasto saprophyta que do merito alheio foi vivendo durante um longo periodo de tempo. A duplicidade desapparece agora com as aturadas canceiras de Delfim Guimarães que assim reivindica para o grande corypheu do bucolismo em Portugal todos os fructos do seu prodigioso talento, corrigindo um erro em que os bibliophilos laboraram durante seculos. D'aqui resalta--e é esse um dos evidentes intuitos do auctor do livro em questão--o desenho da verdadeira figura de Bernardim Ribeiro, com as proporções proprias da sua gigantesca estatura litteraria, em cima do seu elevado pedestal de gloria, pedestal a que algumas pedras foram subtrahidas para sobre ellas figurar o ficticio vulto trovadoresco de Christovam Falcão.

Em Portugal abundam os devotados enthusiastas de Camões e Camillo, apparecendo agora um ardente propugnador d'outro nome tambem illustre, a legitima-lo como uma das maiores glorias litterarias de que se pode ufanar um povo. Esse nome é Bernardim Ribeiro e entrelaçado n'elle apparecerá d'oravante o de Delfim Guimarães, que acaba de restituir a obra do immortal bucolista á sua primitiva integridade.

Antonio Ferreira

(Do _Commercio do Lima_, de Ponte do Lima, de 9 de Janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»

Com este titulo e o sub-titulo de _O Poeta Crisfal_, tambem o distincto escriptor a cujo nome, já tão merecidamente aureolado, fica feita referencia na rubrica anterior, publicou recentemente um interessante volume, apodado por esse proprio auctor de _subsidios para a historia da litteratura portugueza_, e que não é nem mais nem menos do que a demonstração a nosso vêr evidentissima, digam os _mestres_ pilhados em deturpação o que quizerem, de que Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ são uma e a mesma pessoa, não sendo _Crisfal_ pseudonimo de Christovão Falcão, mas sim um composto das primeiras sylabas das palavras _Crisma falso_, de que Bernardim Ribeiro fez uso. Percorrendo se, com olhos de ver, e com vontade de acertar com a demonstração explanada por Delfim Guimarães, todas as 200 e tantas paginas do volume em questão, adquire-se o convencimento de que ficaram por terra, uma a uma, «as pedras basilares com que o nome consagrado do sr. dr. Theóphilo Braga ergueu o monumento, aparentemente solido, que offertou ás lettras patrias, fazendo quase real, palpavel, uma miragem secular»--que dava _Crisfal_ como sendo Christovão Falcão, quando este não pertence senão ao dominio da lenda, sendo uma perfeita mystificação a sua pretendida existencia de litterato.

O trabalho de verdadeiro erudito, que representa o livro de Delfim Guimarães, assignala de um modo inconfundivel o seu alto valor de estudioso, de investigador benemerito e de operoso trabalhador das nossas lettras. Felicitando-o cordealmente por esta nova prova das suas excepcionaes qualidades, cumprimos apenas um dever.

A. B.

(Do _Jornal das Colonias_, de Lisboa, de 13 janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»

Temos retardado a noticia do apparecimento d'este livro notavel do illustre poeta e prosador, sr. Delfim Guimarães, porque quizemos consagrar á sua leitura algumas horas socegadas, afim de poder estudar convenientemente o problema litterario que em suas paginas se debate.

Esta obra é o resultado de longas e aturadas investigações e de um estudo conscienciosissimo, não só da obra de Bernardim Ribeiro, mas ainda da obra de todos os poetas, apontados como seus amigos e companheiros.

Cotejando os versos do iniciador do lirismo portuguez com os que se attribuem a Cristovão Falcão, o sr. Delfim Guimarães facilmente reconheceu que, embora pudésse admittir-se que a educação litteraria dos dois poetas tivesse sido a mesma, não era possivel que as suas tendencias esteticas fossem por tal maneira similhantes, que os seus versos chegassem a confundir-se. Um d'elles teria sido seguramente o imitador do outro.

Continuando nas suas indagações, e apreciando demoradamente a obra supposta contemporanea de Cristovão Falcão, notou ainda o sr. Delfim Guimarães que era frequente Sá de Miranda referir-se a Bernardim Ribeiro nas suas obras poeticas, havendo tambem allusões repetidas, nos versos d'este poeta, ao seu amigo e confidente. Ao auctor do _Crisfal_ não notou a mais leve referencia.

N'aquelle bello poema havia allusões que alvejavam claramente Sá de Miranda, e foi do estudo attento d'essas allusões, que perfeitamente condiziam com as referencias das éclogas de Bernardim Ribeiro ao seu amigo, que resultou chegar aquelle illustre escriptor a conclusões inteiramente satisfatorias.

A analise de varios documentos de caracter historico e juridico produziu no espirito do sr. Delfim Guimarães a convicção de que a personalidade litteraria de Cristovão Falcão não existiu, sendo a obra que se lhe attribue toda do autor das _Saudades_.

Houve, é certo, um Cristovão Falcão de Sousa, que foi moço fidalgo em 1527 e capitão da fortaleza de Arguim em 1545, mas este personagem, na opinião de Delfim Guimarães, era incapaz de escrever a mais insignificante das quadras de Bernardim Ribeiro.

Como se vê, é realmente muito notavel este livro, que os eruditos e todos os que se interessam pelo movimento litterario portuguez, certamente deverão apreciar pela intensa luz que projecta sobre um dos principaes capitulos da historia da poesia nacional.

(Do jornal _O Primeiro de Janeiro_, do Porto, de 20 de janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães

Não pode um povo viver sem ideal e esse ideal ha de ser como a flôr que firma as raizes no terreno proprio das suas tradições. O futuro ha de ser explicado pelo passado em que potencialmente está contido.

Assim, comprehende-se quanta importancia tem para a vida intellectual e artistica d'um povo o conhecimento de tudo quanto se refere á evolução litteraria dos generos e ás condições mesologicas em que os seus grandes prosadores e poetas produziram monumentos de dura.

É por isso que lá fóra se não considera trabalho inutil todo aquelle que consiste em escavar no passado, com paciencia e com intelligencia, para d'elle desenterrar uma ideia, uma verdade, a correcção d'uma data, a explicação de um texto obscuro.

É sobre este trabalho á primeira vista inglorio que philosophos e historiadores edificam as largas syntheses, cuja necessidade é redundancia encarecer para a comprehensão da psychologia d'um povo.