Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal
Chapter 7
Admirador entusiastico, apaixonado, de Bernardim Ribeiro, Delfim Guimarães apurou um facto da mais alta importancia para a historia literaria do seu paiz:--que Christovão Falcão e Bernardim Ribeiro são uma mesma entidade.
É essa demonstração, consciente, documentada, que o nosso amigo vem de fazer neste livro--_Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)_--que é digno de ser lido por quantos querem conhecer a historia das letras patrias.
A Delfim Guimarães, os nossos parabens pelo seu valioso trabalho.
(Do jornal _O Mundo_, de 16 de Novembro de 1909)
«Bernardim Ribeiro» por Delfim Guimarães
É um livro de incontestavel valor, este que o sr. Delfim Guimarães acaba de publicar, editado pela Livraria Guimarães & C.^a, da rua de S. Roque. Fructo de um aturado e consciencioso estudo, n'elle se demonstra que Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ representam um unico poeta, e que _Crisfal_ é apenas um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das palavras _Crisma_ e _Falso_, não passando, portanto, de uma lenda a existencia do poeta Christovão Falcão. Como se vê, o assumpto d'este livro do laborioso e intelligente escriptor é de molde a interessar vivamente todos quantos se dedicam ao estudo da nossa litteratura patria.
(Do jornal _O Seculo_, de 16 de Novembro de 1909).
«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)
_Subsidios para a história da literatura portuguesa_, por Delfim Guimarães.--Lisboa, 1908. Livraria Editora Guimarães & C.^a, 274 pág. 800 réis.
É o livro sensacional da semana que hoje finda. É o desabar de uma lenda secular. A ineptidão de uns editores quinhentistas insinuara a crença de que as trovas de _Crisfal_ eram de _Cristovam Falcão_, cujo nome era representado pelo anagrama, formado da primeira silaba do nome e a primeira do apelido.
A lenda criou raizes; e, não obstante as hesitações e dúvidas de alguns criticos, ninguém, até hoje, contestara abertamente em publico a personalidade poética de Cristovam Falcão.
Mas Delfim Guimarães, estudando Bernardim Ribeiro, editorando-lhe as _Saudades_, e confrontando os trabalhos dos bucolistas do século XVI, chegou á convicção de que, tendo havido algumas personalidades com o nome de Cristovam Falcão, este nome não pertencia a nenhum poéta, e as trovas de Crisfal eram obra de Bernardim Ribeiro.
Documentando e justificando a sua convicção, acaba êle de dar á estampa o substancioso volume que hoje noticiamos.
No prefácio da obra, expõi o autor, com a devida lealdade, as circunstâncias e o processo que o levaram á absoluta rejeição da referida lenda, e congratula-se justamente por ter agora a noticia de que o ponderado publicista Pereira de Sampaio (Bruno), tinha já adquirido convicção análoga, que esperava justificar em livro.
Metodizando as provas e a documentação de que o poeta _Crisfal_ não é outro, senão Bernardim Ribeiro, Delfim Guimarães faz minuciosamente a biografia crítica do poeta, estuda e analisa a primeira edição das obras de Bernardim, dá nos a história e a genealogia do suposto poeta Falcão; e, depois, de nos dar a exegese de numerosos factos e documentos, cerra o seu volume com a reproducção da _Carta_ e da _Écloga_ de _Crisfal_, e de _três_ poesias mais de Bernardim Ribeiro, até agora ignoradas.
Claro é que, de um livro de tal significado e alcance, mal se podem formular juizos e sentenças em meia dúzia de linhas do nosso registo bibliográfico; e temos de nos restringir a dar da obra ideia sumária, chamando para ela a atenção, e naturalmente o apreço, de quantos se interessam pelos mais momentosos problemas da nossa história literária.
Mas remorder-nos-ia a consciência, se cerrássemos já a presente noticia, sem significar a Delfim Guimarães a satisfação que nos deu o seu melindroso e arrojado trabalho, e o encanto com que repassamos os olhos pelo ingénuo e delicioso bucolismo dos avoengos da poesía nacional.
Formoso livro e serviço memorável.
Dr. Candido de Figueiredo
(Do _Diario de Noticias_, de Lisboa, de 28 de novembro de 1908).
O poeta Chrisfal
_Delfim Guimarães_: Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)--Subsidios para a historia da literatura portuguêsa--1908--Livraria Editora Guimarães & C.^a--68, R. de S. Roque, 70--Lisboa.
Ha uns espiritos fortes, solidos--e que tanto abundam n'esta nossa bôa terra de Portugal--que hão de sentir-se escandalisados com a arrogancia d'alguem que, contra a opinião dogmatica e ensinamento incontestado dos grandes Sacerdotes, se abalança a demonstrar que os bucolistas Bernardim Ribeiro e Chrisfal (pretenso anagramma de Christovam Falcão) são uma e mesma pessoa; isto é: que o glorioso auctor da 1.^a parte da novella pastoral «Menina e Moça» é igualmente auctor da celebre peça poetica conhecida pelo nome da «Egloga de Chrisfal»--n'uma palavra, que o poeta Christovam Falcão nunca existiu e que a maioria das composições poeticas que andam com o seu nome pertencem de juro e herdade ao principe do bucolismo entre nós, a esse surprehendente Bernardim Ribeiro, que é, em toda a nossa litteratura, o vaso d'eleição d'onde mais trasborda o sentimento augusto da alma portugueza.
Mas outra raça d'espiritos não menos solidos sorrirá piedosamente (e, n'este caso, o sorriso é uma outra fórma de nos sentirmos escandalisados) perante a utilidade proxima ou longinqua que póde adquirir-se d'uma descoberta d'esta ordem.
Que importa ao bem do individuo ou da collectividade de hoje, que uns versos repassados d'uma verdade sentimental, á força de sentida quasi incomprehensivel,--versos, demais a mais vasados n'uma trama ingenua, bucolica, pastoril, sejam obra d'um ou d'outro recuado quinhentista ou, mesmo, tenham sido levados á conta d'um lendario personagem que, como poeta, nunca tivesse existido, a não ser na phantasia d'uns novelleiros de profissão que, com o rodar do tempo, conseguiram guindar a sua improbidade litteraria aos pinaculos d'uma certeza irrefutavel?!
Pois essa arrojada impiedade e esse improductivo bysantinismo--esse magno escandalo--acaba de perpetral-os o meu velho amigo Delfim Guimarães, poeta de verdade, infatigavel estudioso, paciente investigador, acurado cultista em materia litteraria, com a publicação do seu recente estudo «_Bernardim Ribeiro_ (_o poeta Chrisfal_)», cujo apparecimento estas ligeiras notas intentam celebrar.
O mesmo é dizer que me não sinto com forças para, pormenorisadamente, passo a passo, ir vincando as passagens exegeticas d'este trabalho masculo e delicado que revela, no seu auctor, uma erudição e um methodo que eu entendo precisos n'aquelles que se propuzerem critical-o.
Não é, pois, um artigo critico o que vou fazer; mas se uma affirmação sincera e sentida, de valor nimiamente critico, me é permittido accentuar desde já, eu direi: Delfim Guimarães está na verdade. Christovam Falcão, poeta, nunca existiu. Chrisfal é um pseudonymo de Bernardim Ribeiro.
E isto porquê?!
Porque todos os que se occupam de Falcão o dizem pessoa de qualidade--pertencia á primeira fidalguia portugueza, diz o sr. dr. Th. Braga--e, quanto ao valor do seu estro, tanto era que mereceu ser confundido com Bernardim Ribeiro seu amigo e confidente, quando não seu predecessor. Como se explica, pois, que um tão illustre personagem não figure no Cancioneiro de Resende, onde aliás se encontram, com tão assombrosa profusão, nomes que, nem pela clareza da estirpe nem pelo fulgor do engenho, se impunham á consideração dos posteros?!
É crivel que o erudito, o dedicadissimo collector que se chamou Garcia de Resende--o homem, do seu tempo, que mais larga e intensamente privou na corte dos nossos reis--não tivesse noticia d'uma individualidade tão fortemente accentuada e tão parecida com o então e já apreciadissimo Bernardim?! Não me parece.
Seria qualquer despeito, qualquer d'estas pequeninas miserias que se transmudavam em acerbos espinhos d'odio (e ao tempo e antes e depois e sempre tão vulgares!) que levariam mesquinhamente o celebre collector do Cancioneiro a relegar, da convivencia dos seus 351 poetas, esse illustre Chrisfal e ao mesmo tempo (segundo o ensinamento do sr. dr. Theophilo Braga) a recolher, como de Bernardim Ribeiro, versos de Falcão?!
Não me parece. Gil Vicente, como é sabido, apodára cruelmente Resende, e nem por isso deixou de figurar no Cancioneiro.
Estes simples e, quero crel-o, contestaveis argumentos levavam-me de ha muito, a duvidar da existencia poetica de Christovam Falcão, só muito mais tarde posta em fóco, entre outros, por Faria e Sousa, cujos _escrupulos_ de caracter são por demais conhecidos.
Mas a simples argumentação sobre cancioneiros nem sempre é de colher, como um facto recente me leva a constatar.
Ha dois annos (outomno de 1906) appareceu nas livrarias a seguinte publicação: _Odysséa dos Tysicos--Album de Musicas para piano e canto, original de Raul Pereira, sobre versos de poetas portugueses?_ É obra musical do sr. Raul Pereira que, á falta d'outra indicação, entendo dever tambem consideral-o como collector das varias poesias que o album encerra.
A primeira d'estas poesias, posta em musica apparece sob um retrato com esta epigraphe: _Guilherme Braga (1845-1874)_, e tem este titulo «_A Jesus Crucificado_», e é como segue:
A Vós, correndo vou, braços sagrados N'essa cruz sacrosanta descobertos Que para receber-me estaes abertos E, por não castigar-me, estaes cravados.
A Vós, olhos divinos eclypsados De tanto sangue e lagrimas cobertos: Que para perdoar-me estaes despertos E por não devassar-me estaes fechados.
A Vós, pregados pés, por não fugir-me; A Vós, cabeça baixa, por chamar-me; A Vós, sangue vertido para ungir-me;
A Vós, lado patente, quero unir-me, A Vós, cravos preciosos, quero atar-me, Para ficar unido, atado e firme.
Devo confessar que ao ler este soneto nasceram-me duvidas--muito vagas, é certo--sobre a sua authenticidade quanto ao nome que o firmava. E como não o encontrasse entre as poesias colligidas nas _Heras e Violetas_, assentei, á falta de melhor solução, que se tratava de uma poesia solta, religiosamente recolhida por pessoa intima ou admiradora convicta do insigne e mallogrado poeta portuense.
N'isto estava, quando o acaso d'uma busca litteraria me levou a folhear, na Bibliotheca Publica, _O Ramalhete_, «jornal de Instrucção e Recreio» (2.^a série, n.^o 165, 4.^o anno) e a encontrar, a paginas 112 do vol. IV, o mesmissimo soneto, sem descrepancia d'uma unica palavra, sob esta assás curiosa rubrica:
«_No momento derradeiro da vida humana, qual o estado de moribundo, nada excita amor e conforto como a doce inspiração de abraçar um crucifixo, unico remedio d'alma. Por este motivo fez o dr. Manuel da Nobrega o seguinte soneto: «A Jesus Crucificado»_».
Portanto, teremos nós: os vindouros, que não leram o _Ramalhete_, a attribuir a Guilherme Braga (que, segundo o sr. Raul Pereira, nasceu em 1845, embora Innocencio nos diga 1843) uns versos do dr. Manuel da Nobrega, que vieram á estampa em 1841.
Veiu isto a proposito da confiança absoluta a depositar nos cancioneiros. Verdade seja que entre Garcia de Resende e o sr. Raul Pereira (que eu não tenho a honra de conhecer), o unico elo que os prende deve ser, se não laboro em erro, o laço musical...
Outras razões, porém, antes do trabalho de Delfim Guimarães, me levavam a pender para o arrocho da não existencia poetica de Christovam Falcão. É certo que a Renascença produzira uma eclosão genial em todos os ramos da vida sentimental, artistica e scientifica do occidente europeu, e que nós tivemos largo quinhão nas benemerencias d'esse glorioso Sol--e tão grande que ainda hoje d'elle vivemos. Mas é igualmente certo que, por grande que fosse, e foi, a prodigalidade do estro que nos coube, não era natural que dois vultos geniaes, a um tempo, surgissem tão parecidos, tão irmãos na concepção sentimental, na realisação artistica e até--suprema coincidencia--nos azares da vida amorosa! Delfim Guimarães embrenha-se em trabalhos de genealogia e de exegese litteraria, pacientemente cuidados, para nos infiltrar o convencimento que eu, sem razões de peso e sem auctoridade para as formular, de ha muito _sentia_ da existencia d'um só poeta na obra de Bernardim e na obra de Chrisfal.
É, pois, para mim um livro de consolação. Por um lado, simplifica, no meu espirito, um caso que se achava enredado nas malhas autoritarias, embora convencionaes, de nomes respeitados; por outro, entorna, no meu coração, o intimo, o ineffavel jubilo de ver alguem da minha estima e do meu tempo elevar-se tanto, pelo trabalho intelligente e probo, n'uma manifestação eloquente de força moral e espirito combativo de que tanto carecemos.
E esta probidade litteraria não é coisa de pouca monta ou que alguem possa dispensar-se de a encarar com o mais profundo respeito, porque me hei de lembrar d'aquelle supremo prefacio do _Disciple_ de Paul Bourget, quando elle se dirige á mocidade da sua terra: _Dentro de vinte annos tereis em vossas mãos a fortuna d'esta velha patria, nossa mãe commum. Vós sereis a propria patria. Que tereis recolhido nas nossas obras? Pensando n'isto, não ha homem de lettras, por mais modesto que seja, que não deva tremer de responsabilidade_...
Hemeterio Arantes.
(Do _Diario Illustrado_, de 2 de dezembro de 1908).
«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)
_Subsidios para a historia da litteratura portugueza_, por Delfim Guimarães. 1 vol. de 278 pag. Livraria editora Guimarães & C.^a 1908 Lisboa, typ. Libanio da Silva.
A velha sentença portugueza--_o seu a seu dono_ viria muito a propósito, noticiando o apparecimento d'este livro, com que se pretende, e consegue a nosso ver, reivindicar para o nome do grande poeta quinhentista a autoria e a glória de differentes producções que inconscientemente andavam attribuidas a outros. E se não fosse a bella coragem do sr. Delfim Guimarães, nosso antigo e presado amigo, que sendo poeta muito primoroso é tambem investigador ordenado e pacientissimo, o deploravel engano continuar-se-ia por muito tempo, ou, peor ainda, não se desvaneceria jámais talvez.
Entre outras, a lenda de que existira um Christovam Falcão, pretenso poeta de tão alto valor como Bernardim Ribeiro, e, assim, auctor tambem de maviosos versos, principiara a correr mundo em 1554, dois annos depois de fallecido este, e teria origem, parece, em certa nota posta n'uma edição pouco criteriosa feita n'aquelle anno, de differentes poesias, esparsas umas, outras logo colligidas após a morte de Bernardim, edição onde veem de mistura com a _Historia de Menina e Moça_, diversos motes, cantigas e églogas e entre estas, (diz a tal nota) «_h[~u]a muy nomeada e agradavel... chamada Crisfal, que dizem ser de Christovão Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma egloga_...»
D'isto, e de outras investigações pacientemente realizadas pelo sr. Guimarães resulta a presumpção de provir a dita lenda principalmente d'aquellas vagas referencias e a allusão que o editor julgou encontrar em o nome de Crisfal do facto de serem as duas syllabas de que elle se compõe eguaes ás primeiras dos dois nomes *Cris*tóvam e *Fal*cão. Mas isto, que não constitue prova e não passa de mera hypothese, teria de cahir redondamente, quando se verificasse que esse Falcão era homem de poucas lettras e, portanto, incapaz de produzir trabalho de tanta valia como é a _Égloga de Crisfal_.
E assim succederia talvez se o sr. dr. Theophilo Braga não houvesse, em má hora, pretendido transformar a hypothese em lei, apresentando como definitivamente adquirida para Falcão a paternidade d'aquella e de outras poesias de altissimo valor litterario.
Não seguiremos o sr. Delfim Guimarães na critica acerba, se bem que correctissima, com que se refere a este erro do sr. dr. Theophilo Braga e ainda a muitos outros. Este operoso escriptor dirá de certo da sua justiça, não deixando, d'esta vez, mal parada a sua fama de erudito. E, sendo como é, sempre consciencioso nos seus trabalhos de historiador litterario, virá certamente á estacada, para explicar a razão do seu engano.
Muitos outros descobrimentos são indicados n'esta valorosa reivindicação, não se mostrando possiveis mais duvidas a respeito da não existencia de Christovam Falcão, poeta, e parecendo ao contrario definitivamente provado que o nome de Crisfal fôra um dos muitos pseudónymos e anagrammas adoptados por Bernardim Ribeiro nas suas obras. Tambem graças ao indefesso trabalho do sr. Delfim Guimarães ficará pertencendo irrevogavelmente ao poeta de _Menina e moça_ não sómente a celebre égloga, mas ainda outras poesias attribuidas a diversos e que veem apontadas ou reproduzidas n'este volume.
Em compensação, porém, algumas até agora emprestadas ao bucólico poeta, lidima gloria das lettras portuguezas, terão de passar para outros, com o que, seja dito de passagem, a exceptuarmos o solau[11]--_Pensando-vos estou filha_, que o sr. dr. Theophilo Braga deu, tambem levianamente, como de Bernardim, sendo aliás de Camões, nada virá a perder o nome de Bernardim Ribeiro--antes pelo contrario!
N'este trabalho notavel do sr. Guimarães, obra de paciente investigação e bem disciplinado criterio, faz-se referencia a muitos outros factos interessantes, que nos abstêmos de contar, porque do livro apenas pretendemos dar rapida noticia; mas todos os elogios serão poucos a quem com coragem estréme veio inteirar a gloria de Bernardim Ribeiro que, desventuroso poeta, de uma parte d'ella havia sido espoliado.
Muito agradecemos a captivante offerta de um exemplar de _Bernardim Ribeiro_, com que fomos brindados pelo auctor.
(Da _Mala da Europa_, de Lisboa, n.^o 669, de 6 de dezembro de 1908).
Ainda Chrisfal
Longe estava de ver tão depressa e amplamente confirmada a minha asserção de que o trabalho de Delfim Guimarães «_Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)_» era, para mim, um «livro de consolação», quando o _Diario de Noticias_ de 3 do corrente, sob a epigraphe «_Academia de Sciencias de Portugal_» me trouxe esse verdadeiro manjar (para lhe não chamar capitoso petisco...) espiritual á minha insaciavel fome de aprender.
É como segue a passagem, que me interessa da local jornalistica em questão:
«_Em seguida_ (o sr. dr. Theophilo Braga) _realisa uma communicação sobre Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1565, senão n'aquella data moço fidalgo, e tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já idoso; evidencia como na Égloga transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jámais confundir-se_».
Eu imagino estar vendo estas palavras cahir do labio venerando, sobre a douta assembleia, como outras tantas perolas que, depois de serem ali devidamente apreciadas, resvalaram cá p'ra fóra, para o monturo anonymo, offerecidas em repasto magnifico aos cerdos iconoclastas.
Bacorejemos, pois, as preciosas gemmas...
Diz o Mestre que a _vida amorosa_ de Christovam Falcão oscilla entre 1525 e 1565, sem ficarmos sabendo se a sua _vida poetica_ tambem oscilla dentro do mesmo periodo, isto é: se a actividade _amorosa_ e a actividade _poetica_ de Chrisfal se confundem, caminham a par-e-passo ou se, pelo contrario, é o amoroso que precede o vate, se este antecede o namorado.
Eu, por mim, se alguma coisa entendo n'esta complicada psycologia, estou em dizer que, em geral, as duas actividades se confundem, são isochronas, e, segundo este criterio, Falcão só poetou com exito desde 1525.
Não póde elle, pois, ter figurado no Cancioneiro de Resende, que tem a data de 1516, como o sr. dr. Theophilo Braga pretendia até ha uma duzia d'annos atraz--opinião que depois modificou no seu trabalho, sobre Bernardim Ribeiro, que veio á estampa em 1897.
Mas o Mestre, em 1897, deixou de lhe dar entrada no Cancioneiro pela subtil razão de que Chrisfal não poetára nos Serões da côrte por pertencer ao _ramo pobre_ dos Falcões. Lembrança exegetica que nos leva a concluir que todos os poetas do Cancioneiro poetaram nos ditos serões e demais a mais com a escarcella bem provida d'aureos recursos--embora muitas e muitas poesias d'aquella grandiosa collecção resvalem da casuistica amorosa, que é a caracteristica da poetica palaciana, para a lucta dos interesses em que se revela a necessidade do vil metal.
Mas agora que o insigne Professor colloca a vida amorosa de Falcão entre 1525 e 1565, pergunto eu: permanece este argumento para a sua exclusão do Cancioneiro ou teremos de assentar que Chrisfal n'elle não figurou pela simples razão de, em 1516, andar ainda com coeiros?
Naturalmente teremos de optar por esta ultima versão e, portanto, pôr de banda a sua amisade e apregoadas confidencias com o auctor das _Saudades_.
Fica de vez assente, pois, que Christovam Falcão não foi poeta do Seculo XV.
Proponho-me agora provar, _currente calamo_ (como não pode deixar de ser tratando-se d'alguem que se não familiarisou com _os processos inductivos da critica moderna_... ) que Christovam Falcão tambem não foi poeta do Seculo XVI, como agora pretende o sr. dr. Theophilo Braga.
E isto porquê?!
Porque eu posso duvidar (ainda que me apodem de irreverente pedantismo) das, por vezes, arrojadas conclusões chronologicas do insigne Professor. Mais anno menos anno, mais seculo menos seculo são, para os grandes Generalisadores, coisas d'uma importancia mediocre. Outro tanto me não succede, quando a generalisação visa um assumpto basilar na essencia, no modo de ser do facto scientifico.
E é este o caso. Cristovam Falcão foi poeta entre 1525 e 1565?!
Ouçamos o sr. dr. Theophilo Braga:
«Se Cristovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de Miranda propagou as formas da poetica italiana, teria então adoptado o verso endecasyllabo, e a fórma da _outava_, do _terceto_, e trocaria pelo _soneto_ o conceite provençalesco dos que ainda seguiam o typo do Inferno de Amor (_Bern. Rib. e os Bucolistas_, pag. 141)».
Na edição refundida do seu Bernardim Ribeiro, publicada em 1897, esta affirmação cathegorica permanece igual ou identica, como, aliás, não podia deixar de ser.
Demos de barato que se possa ter opinião diversa da do insigne lente do Curso Superior de Lettras, o que ninguem póde é contrariar a _realidade historica_, porque, como é sabido, contra factos não ha argumentos.
E esta _realidade_ diz-nos que, depois de Sá de Miranda, não houve um uníco poeta que não tivesse experimentado as formas petrarchinas e o verso heroico.
Houve um dr. Antonio Ferreira que nunca em sua vida fez um verso de _medida velha_; houve muitos, e entre elles o proprio iniciador da poetica italiana, que não desdenharam a redondilha e os velhos agrupamentos metricos. De quem poetasse _exclusivamente_ pelos antigos processos... não consta.
Logo, a não ser que rasguemos a _logica_ do Mestre e a _verdade_ da Historia, Christovam Falcão não encontra cadeira onde se sente, nem na vasta saleta da poesia palaciana, nem no refulgente salão do Seculo de Quinhentos!
* * * * *
Uma passagem do meu ultimo artigo teve o condão d'excitar duas communicaçôes que amavelmente me foram endereçadas.
A primeira, d'um amigo, que me escreve: «Sobre o soneto attribuido a Guilherme Braga, devo dizer-lhe que o auctor do mesmo não é o dr. Manuel da Nobrega, mas sim outro poeta.»
Claramente, corri logo a casa d'este amigo que me aconselhou uma intervista com o insigne bibliophilo e bibliographo sr. Annibal Fernandes Thomaz, o que, para mim, foi d'um prazer espiritual, como, de ha muito, me não era dado gosar.
Annibal Fernandes Thomaz é pessoa familiar a todos que n'este paiz se occupam de livros e--coisa rara!--a todos sorri, a todos mette no coração e em todos tem um admirador dos seus vastissimos conhecimentos e, o que é mais, um amigo devotado das suas grandes qualidades.