Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

Chapter 6

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«A segunda divisão deste livro consiste em algumas Memorias de successos raros de Europa, como são uma carta del Rei Ludovico de Hungria para o Emperador na ultima batalha que deu ao Turco, uma Relação dos infelizes principios de Luthero, e outros. Seguem-se cartas de homens celebres d'aquelle tempo pelo seu engenho, e graça, que entre as alusões jocoserias descobrem memorias particulares: deste genero são sete de Antonio Ribeiro Chiado, duas de Lourenço de Caceres, e outros. As obras em prosa, e verso de Francisco de Sá de Miranda, as de Bernardim Ribeiro, Christovão Falcão, André Soares, Francisco de Moraes, Gil Vicente, Duarte de Oliveira, o Barão D. Diogo Lobo, e outros Poetas antigos, servem de verificar as varias lições das impressas, e de restituir as manuscriptas.»[10]

Como se vê, por uma fórma irrefragavel, não se tratava dos manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro, como não se tratava egualmente de manuscritos de Cristovam Falcão...

Tratava-se de uma miscelánea manuscrita, em prosa e verso, que continha produções de vários poetas, e, entre essas, as que se atribuiam ao suposto _Crisfal_. A simples citação do nome de Cr. Falcão logo após o de Bernardim não bastará para se ajuizar que no manuscrito havia cópia das poesias que nas obras de B. Ribeiro vinham atribuidas, sob reservas, ao suposto trovador?

Se nós, para documentarmos o nosso livro _Bernardim Ribeiro_, tivessemos recorrido a expedientes semelhantes, como não seriamos julgados pelo snr. dr. Theóphilo!

*6*

«tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a _Menina e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dicc. Bibliog._)»

_Do artigo «Movimento litterario»._

O arcediago do Barreiro, invocado pelo snr. dr. Theóphilo Braga, era o arcediago do Barroso, cujos apontamentos manuscritos foram explorados por Innocencio.

Vejamos o que o benemérito bibliófilo escreveu a pag. 379 do seu _Diccionario Bibliographico portuguez_:

«Nos apontamentos manuscriptos do arcediago de Barroso Jeronymo José Rodrigues, de que já outras vezes me aproveitei n'este volume, encontro ácerca do auctor da _Menina e moça_ o trecho que se segue:

«As obras de Bernaldim Ribeiro (que assim se acha escripto o seu nome no manuscripto que lemos, e assim diz Nicolau Antonio na _Bibl. Hispanica_, que vulgarmente era chamado) por sua muita raridade são difficeis de encontrar, e duvidamos que se hajam impresso todas. A _Bibl. Lus._ faz só menção da Menina e moça, ou _Saudades de Bernardim Ribeiro_. Além das impressões que alli cita, que são tres, faz Nicolau Antonio menção de uma, impressa em Lisboa em 1559, em 8.^o, que em tudo tem muita semilhança com o manuscripto, que tivemos alguns tempos em nossa mão, e que vamos aqui extractar. O titulo em nada desmente do que traz a _Bibl. Hisp._, e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, de que se faz menção n'este mesmo logar de Nicolau Antonio.--O titulo que se lê no manuscripto é: _Historia da Menina e moça, por Bernaldim Ribeiro_. Principia: «_Menina e moça me levaram de casa de minha may para muito longe_», e acaba: «_Com demasiada ira disse contra a Donzela que ho aly trouxera estas palavras_». Consta de historia em prosa, e inclue em alguns lugares poesias de gosto são e pura linguagem, etc. E além da historia, acham-se no manuscripto duas eclogas de que o abbade Barbosa talvez não teve noticia. Na primeira são interlocutores Persio e Fauno; principia: «_Nas selvas junto do mar_», e consta de trinta e quatro estancias de dez versos cada uma.--Na segunda são interlocutores Jano e Franco, principia: «Dizem que havia um pastor», e acaba: «Tambem tempo é tormento.»

«De tudo o que diz aqui o arcediago de Barroso concluo, que não só elle ignorou a existencia da moderna edição da _Menina e moça_, feita em Lisboa no anno de 1785, mas tambem só conheceu de nome as edições anteriores sem que lograsse ter presente algumas d'ellas, pois que a tel-as visto, nenhuma novidade encontraria nas duas éclogas que cita do tal manuscripto, onde pelo que se mostra faltavam todas as outras já então impressas.»

Não conheceu Innocencio a edição das obras de Bernardim Ribeiro publicada em Ferrara em 1554, porque se a houvesse conhecido logo concluiria que o manuscrito examinado pelo arcediago de Barroso outra cousa não era mais do que uma cópia incompleta d'essa edição.

Ignora o, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga?

Se o não ignora, para que veio a público com a citação incompleta da passagem do Diccionário de Innocêncio?

Bom serviço prestou o arcediago de Barroso trasladando o período inicial na novela na edição de 1554, conforme o manuscrito que teve entre mãos: «Menina e moça me levaram de casa de minha may...»

*7*

«Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram?»

_Do artigo «Movimento litterario»_.

Chamámos ineptos aos editores das obras de Bernardim Ribeiro, e que não erramos em nossa apreciação demonstra-o evidentemente o próprio snr. dr. Theóphilo Braga, quando na carta que nos escreveu, referindo-se ás edições de Ferrara e de Colónia, diz terem sido feitas _por curiosos sem critério litterário_.

Se esses curiosos não fossem ineptos, podia porventura o ilustre professor negar-lhes _critério_?

As rúbricas da edição de Colónia, em 1559, são reprodução das de 1554, como o snr. dr. Theóphilo Braga não desconhece.

Pertencem as rúbricas da edição de 1554 ao seu editor ou este não fez mais do que reproduzi-las da primeira edição?

Sem que seja conhecida a edição principe das obras de Bernardim Ribeiro, não é possivel aclarar este ponto, mas o que ninguem póde dizer com autoridade é que taes rúbricas: «que dizem ser... ao que parece aludir...» pertencessem aos manuscritos do infortunado Bernardim.

«Por terem reproduzido _esses textos_ manuscriptos como os encontraram», escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga, procurando incutir que taes edições foram feitas sobre os manuscritos pertencentes ao Conde de Vimieiro e sobre o outro examinado pelo arcediago do Barroso!

A primeira edição das obras do poeta bucolista resultou dos manuscritos de Bernardim Ribeiro, recolhidos após a morte do apaixonado cantor de Joana, ou no ultimo período da sua desventurada existência, e dados á estampa por qualquer curioso sem critério literário...

E proclamando isto, que representa a expressão do nosso sentir pessoal, estamos convencidos de que está com a nossa opinião o snr. dr. Theóphilo Braga, que sempre tem sustentado que as edições das obras de Bernardim se fizeram sobre os manuscritos encontrados no seu espólio....

Mudará s. ex.^a de orientação? Até prova em contrário, não acreditamos.

*8*

«...o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta...»

_Do artigo «Movimento litterário»_

«_Grande descoberta_», é como o snr. dr. Theóphilo Braga chama, ironicamente, ao resultado dos nossos trabalhos... Pequena ou grande descoberta, o facto é que està de pé, não conseguindo o abalisado professor destrui-la.

Compreendemos bem que isso seja pouco agradavel a s. ex.^a, que tanto se havia empenhado em pôr um pedregulho sobre o caso do poeta _Crisfal_, mas nós, só pelo prazer de ser agradaveis ao ilustre escritor, é que não vamos ressuscitar o trovador Cristovam Falcão. Deixá-lo dormir em paz, serenamente.

Quanto a descobertas grandes, lembra-nos citar uma que _in illo tempore_ fez o snr. dr. Theóphilo Braga...

Dirigia o distinto poeta snr. Joaquim de Araujo uma publicação camoneana, cujo título nos não ocorre.

Vae se não quando recebe uma comunicação do snr. dr. Theóphilo Braga... Uma descoberta importante... Nada menos que um parente ignorado do grande épico Luis de Camões.

Chamava-se o homem _Pero Camões_, segundo o ilustre professor lera, radiante, em determinado texto...

Pois, senhores, na volta do correio, Joaquim de Araujo prevenia generosamente o Mestre de que este errara a leitura do texto... O _Pero Camões_ do snr. dr. Theóphilo Braga era um simples e inofensivo *pero camoês*!

*9*

«No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Por esta fórma pouco... _generosa_ se referiu o snr. dr. Theóphilo Braga ás palavras de caloroso elogio com que o ilustre escritor snr. José Pereira Sampaio, em carta publicada no «Diario da Tarde», do Porto, valorizou com o prestígio do seu nome o fruto do nosso trabalho.

Contra a injusta apreciação do professor do Curso Superior de Letras, já lavrámos o nosso protesto, de amigos e admiradores de _Bruno_, no artigo que publicámos na «Lucta» e que vae transcrito no primeiro capítulo d'este livro.

Quando mesmo, o que não sucede, o ilustre escritor portuense estivesse em erro, era digna de todo o respeito a sua opinião, e não seria nunca o snr. dr. Theóphilo Braga, com a sua consciente falta de sinceridade, quem teria direito para o arguir pela maneira insólita por que o fez.

Será, porventura, o _positivismo_ inimigo inconciliavel da Justiça?

*10*

«A verdadeira descoberta pertence ao snr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 refere se a Christovam Falcão, com a tença de moço fidalgo leva a deduzir que nascera em 1512.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Fixa o snr. dr. Theóphilo em 1530 os amores do suposto poeta com a sua suposta amada Maria Brandôa.

Muito bem.

Admitindo que assim fosse, só depois de 1530 Cristovam Falcão poderia ter produzido a _Carta_ e a _Écloga_ que lhe foram atribuidas...

Ora como podia isto ser, em face dos _processos inductivos da critica moderna_, tam preconizados pelo snr. dr. Theóphilo Braga?

Ouçamos a lição autorizada do ilustre professor, que se lê a pag. 4 da sua chamada edição das obras de Cristovam Falcão:

«*Se Christovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de Miranda propagou as fórmas da poetica italiana, teria então adoptado o verso endecasyllabo, a fórma da OUTAVA e do TERCETO, o SONETO, e teria perdido o conceito provençalesco dos poetas que seguiam o INFERNO DO AMOR; Falcão desconheceu esta nova poetica.*»

Pela mesma maneira se exprimiu o snr. dr. Theóphilo Braga na sua edição de _Bernardim Ribeiro e os Bucolistas_.

Repudia s. ex.^a o que com tanta clareza e precisão deixou estampado?

Seria caso para invocar o _era, não era, andava lavrando_...

Para o nascimento do pseudo-trovador, escolhe o snr. dr. Theóphilo Braga, em ultima análise, a data de 1512, sem se lembrar talvez de que por essa fórma caía em contradição consigo proprio...

Vejamos:

Na carta que nos dirigiu, escreveu o distincto escritor:

«...D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, _sendo ambos muito crianças_...»

Ora tendo Cristovam nascido em 1512, como afirma o snr. dr. Theóphilo Braga, e fixando-se as suas relações amorosas em 1530, como quer s. ex.^a, tinha o mancebo quando começou a namoriscar os seus dezoito anos seguros...

A um rapazola de 18 anos ninguem com propriedade poderá classificar de _muito creança_, a não ser por troça,--salvo melhor opinião.

*11*

«Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Cristovão Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Não só corrigimos a interpretação das eclogas I e III de Bernardim Ribeiro como todas as outras do desventurado poeta... Mas o snr. dr. Theóphilo Braga entende em seu alto critério que só ha a corrigir as duas que citou, e essa correcção reserva-se s. ex. fazê-la, certamente. Aguardemos a futura refundição do livro sobre os bucolistas, para ajuizarmos da fertilidade inventiva do ilustre professor,--_de fantasia fertil em combinações_, no dizer autorizado da senhora D. Carolina Michaëlis.

*12*

«Os logares comuns a Cristovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua carta de Africa intercalava na sua prosa.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Como comentário único, permitir nos-emos endereçar algumas perguntas ao snr. dr. Theóphilo Braga:

Estando Bernardim Ribeiro louco no ano de 1532, como o próprio snr. dr. Theóphilo tem sustentado, como explica o ilustre professor que no espólio do poeta bucolista fossem encontradas as composições atribuidas ao falso Crisfal?

Na edição refundida do seu livro sobre os bucolistas, em 1897, o snr. dr. Theóphilo Braga explicou o facto da seguinte maneira:

«...*os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se salvaram as poesias do auctor do Crisfal.*»

Ora não podendo o abalisado professor continuar persistindo em que Bernardim Ribeiro teve por amigo e confidente Cristovam Falcão de Sousa, como poderá s. ex.^a explicar que entre os manuscritos legados por Bernardim se encontrassem as composições do... _último eco do alaúde_?

Para prevenir qualquer subtiliza de argumentação, é conveniente não esquecer s. ex.^a que na écloga _Crisfal_ se encontram lugares comuns a todas as éclogas de Bernardim Ribeiro e á própria novela _Menina e moça_.

E não esquecer egualmente que, após a publicação do nosso estudo sobre o _Poeta Crisfal_, já o snr. dr. Theóphilo Braga foi obrigado a reconhecer que: não podia continuar a admittir _as relações pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade_.

Bernardim nasceu em _1482_, é bom não olvidar tambem.

Cristovam Falcão de Sousa nasceu em... _1512_, conforme a ultima versão apresentada pelo articulista do _Movimento litterário_.

Os amores de Falcão e Maria Brandôa foram fixados pelo snr. dr. Theóphilo Braga, em ultima análise, no ano de _1530_.

Ora na _Carta de Crisfal_, fala o poeta na prisão de amor que está sofrendo _ha cinco anos_... Logo, ou não ha lógica, uma das composições do suposto trovador foi elaborada pelo ano da graça de _1535_, quando Bernardim havia já três anos que fôra ferido pela desgraça que o levou ao hospital de Todos os Santos, onde veio a acabar seus desventurados dias em _1552_.

Consignado o que fica exposto, aguardemos a resposta ás perguntas atrás formuladas, e, para fechar o capítulo, façamos nossos os seguintes versos de Bernardim:

Baste o que tenho dito pera aver, por galardão, tres regras de vossa mão, pera resposta das quaes ......... fique o mais que aqui escrever devera, se o escrever podera.

VI

Uma patranha genealógica

Seguindo a lição de vários genealogistas, démos curso, no nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, á atoarda que fazia Cristovam Falcão de Sousa descendente de certo John Falconet, cavalheiro inglês que viera para o nosso país na comitiva da desposada d'el-rei D. João I, Filipa de Lencastre. Antes de nós, os snrs. Epiphánio Dias e dr. Theóphilo Braga haviam incorrido no mesmo erro.

Publicado o nosso trabalho, honrou-nos o erudito escritor sr. Anselmo Braamcamp Freire com o seguinte esclarecimento, que registamos com prazer:

«...Julgo-me obrigado a advertil-o que publiquei um documento no _Archivo histórico_, suficiente para destruir a petarola inventada pelos genealogistas dos Falcões descenderem do tal Falconet. Catorze anos antes deste chegar a Portugal já existiam Falcões, proprietarios em Evora, e vassalos de D. Fernando (_Arch. hist._ III, 407.) É uma minucia que não influe em nada no seu têma; mas, repito, entendo dever meu avisál-o».

Não será este, certamente, o único erro em que teremos incorrido no nosso trabalho, e de que nos penitenciâmos sem a menor relutância.

Errar é próprio dos homens, como afirma o conhecido aforismo latino; o que é condenavel é persistir no erro.

Não temos a estulta vaidade de haver produzido um trabalho sem defeitos, e de bom grado aceitaremos as correcções que nos ministrarem, e com que o nosso critério se conforme. Somos incapazes de persistir n'um erro por simples capricho de amor-próprio, indesculpavel em assuntos de natureza _histórica_.

Bem presentes conservâmos as palavras sensatíssimas do professor bracarense Pereira Caldas: «Em _história_, ha sempre que discutir, sempre que examinar, sempre que emendar, sempre que aditar.»

VII

O criptónimo «Fileno»

No numero do jornal _O Dia_, de 15 de dezembro de 1908, consagrou-nos o conceituado filólogo, snr. A. R. Gonçalves Viana, uma das suas interessantes _Palestras filológicas_.

É aquela que vamos registar, e que em seguida comentaremos:

«Delfim Guimarães, no seu livro recentemente publicado, e que faz honra á erudição portuguesa, com o titulo *Bernardim Ribeiro*, e o sub titulo *O poeta Crisfal*, aventa a idea de que o criptónimo _Fileno_ seja o disfarce do adjectivo _felino_, latim _felinus_, procedente do substantivo _felis_, «gato», por alusão ao apelido _Gato_, do marido de Joana Tavares, sua apaixonada.

«Não se pode aceitar esta origem do dito nome, porque tal adjectivo não existia em português ao tempo do poeta. É êle modernissimo na lingua, pois nem Bluteau o incluiu no seu *Vocabulario portuguez e latino*, nem mesmo no próprio *Diccionario portuguez* de Morais e Silva figura tal adjectivo atè á 3.^a edição, feita no anno de 1823, «correcta e acrescentada.» Vê-se pois que a introdução do vocabulo _felino_ é não só posterior, e muito, ao século XV, mas até aos começos do XIX, e que o poeta o desconhecia portanto.

«Assim, pois, o nome Fileno, masculino, foi talvez fabricado conforme o femenino Filene, que os gregos usaram, e cujo radical será o de _Filipe_, por exemplo.»

Em primeiro lugar agradecemos ao snr. Gonçalves Viana o cumprimento amabilissimo com que nos penhorou, que muito bem sabemos representar uma gentileza, que não um acto de justiça. A benevolência usada para comnosco por s. ex.^a motivou um remoque do snr. dr. Theóphilo Braga, do que resulta tornar se ainda maior a nossa dívida de reconhecimento para com o sábio poliglota, o que temos a peito deixar registado nas páginas d'este trabalho.

Consignado isto, digamos o que se nos oferece sobre a _palestra_ motivada pelo nosso livro:

Coube ao snr. visconde de Sanches de Baena a interpretação do nome _Fileno_ como criptónimo de _Felino_, em alusão a *Pero Gato*, que o referido titular apresenta como marido de Joana (_Aonia_).

Nós não acreditamos na existência do Pero Gato do snr. Sanches de Baena, como com inteira franqueza deixamos exarado nas páginas do nosso trabalho; mas não nos repugnou admitir que o criptónimo invocado alvejasse a alusão a um animal felino. E assim escrevemos a pag. 87 do nosso estudo sobre Bernardim:

«O anagrama _Fileno_ oculta, provavelmente, um individuo que tinha por nome, apelido ou alcunha o nome de um animal _felino_. Seria Pantaleão? Seria Gato? Estamos em crer que o assunto ainda poderá ser resolvido, como outros muitos pontos por aclarar respeitantes á vida de Bernardim.»

E na mesma página, a propósito do nome de _Lor_, ou _Lor-Vão_, referido nalgumas edições da écloga de _Crisfal_, escrevemos nós:

«Desde que se apure, *com segurança*, quem fosse o marido de Joana etc.»

O não se ter ainda apurado quem fosse o feliz rival de Bernardim, não se nos afigura motivo para pôr de parte, por em quanto, a interpretação enunciada pelo snr. visconde de Sanches de Baena quanto a Fileno, aceite pelo snr. dr. Theóphilo Braga, e a que nós tambem demos curso, embora sob reservas.

O facto dos antigos dicionários não fazerem menção do vocábulo _felino_ não constitue razão para que se abandone essa hipótese, que póde não ser exacta, mas que é sem dúvida racional. Como o snr. Gonçalves Viana muito bem sabe, desde que no latim existiam os vocabulos _felis_, _felinus_, com o significado de _gato_, ou _respeitante a gato_, nada mais natural do que um escritor ter introduzido, lógicamente, o termo português _felino_. E ninguem poderá contestar que Bernardim Ribeiro tivesse envergadura sobeja para crear essa palavra. Bacharel formado em direito, e poeta bucolista não ignorava certamente o vocábulo latino.

A ser exacta a maneira de ver do snr. Gonçalves Viana sobre semelhante assunto, como poderiam justificar-se tambem os numerosos neologismos com que Luis de Camões enriqueceu a lingoa portuguêsa?

Hoje mesmo, após recentes trabalhos de dicionaristas distintos, quantos vocábulos portuguêses não falta ainda registar?!

A hipótese, porém, que o ilustre filólogo apresenta merece ser ponderada devidamente, sendo até possivel que s. ex.^a tenha resolvido o problema quanto ao nome do marido de Joana Tavares, que poderia muito bem ter sido _Filipe_.

N'um _pliego-suelto_ castelhano do século XVI, de que existe um exemplar na secção dos _Reservados_ da Biblioteca Nacional de Lisboa, ha um dialogo em verso entre as personagens: _Alethio_ e _Fileno_.--Aleixo e Filipe? Talvez!

Em fim, parafraseando o que já escrevemos: Quando se apure _com segurança_ quem foi o marido da mulher amada por Bernardim Ribeiro, estarà implicitamente resolvido este problema.

VIII

In terminis

Não estamos sós no combate que tivemos a satisfação de iniciar em prol da obra de Bernardim Ribeiro.

Ao nosso lado contamos a individualidade cheia de prestígio do snr. José Pereira Sampaio, que em breve defenderá em livro tese idêntica á nossa, demonstrando que o Poeta Crisfal é o bucólico Bernardim.

Se de estímulo carecessemos para prosseguir confiadamente na tarefa que nos impusemos, seria incentivo bastante o contarmos já entre aqueles que se confessam convencidos pelo nosso trabalho, alem de muitos outros espìritos esclarecidos, os nomes preeminentes dos srs. Anselmo Braamcamp Freire, José Caldas e dr. Sylvio Romero.

Não conseguiremos nós fazer vingar em nossos dias, por uma fórma absoluta, a obra de justiça a que metemos hombros? Não será dada essa satisfação ao ilustre escritor snr. José Sampaio?

--Que importa? As sementes estão lançadas, o solo não é ingrato... As sementes hão de vingar; a verdade triunfará, alastrando, impondo-se...

Por fim, só nos resta endereçar, muito comovidamente, um aperto de mão, agradecido e sincero, a quantos--bons amigos, camaradas e simples conhecidos--nos teem bafejado com palavras de elogio e incitamento por motivo da publicação do livro que deu origem a este novo trabalho.

_Amadora, 16 de março de 1909_.

APRECIAÇÕES DA IMPRENSA AO LIVRO "Bernardim Ribeiro (O POETA CRISFAL)"

«Bernardim Ribeiro» (O Poeta Crisfal)

Delfim Guimarães é um poeta e um contista que há muitos annos firmou brilhantemente o seu nome. Alma delicada de poeta, é, ao mesmo tempo, um prosador elegante e correcto que conhece a sua lingua e sabe maneja-la. Afastado de todas as egreginhas literarias, isento de todos os snobismos, sem perder tempo nos cenaculos dos cafés, Delfim Guimarães tem-se destacado e destaca se entre os da sua geração, sem dever nada ao reclamo.