Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

Chapter 5

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Se o professor de literatura estivesse de boa fé, e entendesse realmente que nós haviamos errado a interpretação de versos de Bernardim, que lhe competia fazer, que lhe cumpria fazer?

--Indicar-nos onde haviamos errado, fazendo-nos ver que estavamos em erro; e quando s. ex.^a nos convencesse da razão das suas corrigendas, ou reprimendas, acredite o snr. dr. Theóphilo Braga que havia de ver-nos confessar, com honestidade, sem o menor rebuço, que tinhamos errado, e não fugiriamos a apregoar que o ilustre censor nos aplicara umas palmatoadas merecidas.

Mas quando mesmo (o que não está demonstrado) tivessemos incorrido em erros ao interpretar versos de Bernardim, tinha, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a precisa autoridade para os apontar por aquela fórma agressiva, com semelhante crueza?

--Não tinha. S. ex.^a não póde arguir quem quer que seja de _forçar interpretações_, porque ninguem como o professor do Curso Superior de Letras é useiro em amoldar interpretações de versos ao sabor da sua imaginação.

Para que ninguem nos incrimine de injustos para com o snr. dr. Theóphilo Braga, vamos demonstrar com exemplos colhidos em obras do Mestre algumas _interpretações_ bizarras, que oferecemos ao critério dos que nos lêem:

N'uma das éclogas de Bernardim Ribeiro, o poeta bucolista, referindo-se a uma visita que lhe fez o seu amigo Sá de Miranda, escreveu a narrar o facto:

....................... e neste mêo chegou um pastor seu conhecido, e que dormia cuidou.

Franco de Sandovir era o seu nome, e buscava [~u]a frauta que perdera, que elle mais que a si amava. Este era aquelle pastor a quem Celia muito amou, ninfa do maior primor que em Mondego se banhou, e que cantava melhor.

Veja-se como o snr. dr. Theóphilo Braga anotou estes versos:

«*Deve entender-se que foi o pastor, que se banhou no Mondego, e não Celia, como pode inferir-se*.»

_Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 49_

* * * * *

Na écloga em que Bernardim adoptou o criptónimo _Crisfal_, descreve o poeta a aparição da mulher amada, que vê em sonho

vestida de *arenoso*,

ou seja de amarelo, a côr simbólica do pesar ou desespero, o que qualquer bronco namorado de aldeia sertaneja não ignora.

Pois o snr. dr. Theóphilo, querendo fazer da mulher amada por _Crisfal_ uma freira cisterciense, interpretou a passagem aludida pela seguinte maneira:

«*Crisfal viu a sua Maria vestida de côr de arenoso, ou do habito amarellado da Ordem cisterciense*...»

_Obras de Christovam Falcão, p. 11_

Ora o hábito da Ordem de Cister não era amarelado, mas branco!

Não obstante, seguindo o mesmo critério, o distinto professor tambem quis reivindicar para o suposto poeta Falcão a paternidade de uma poesia de Bernardim Ribeiro consagrada a _uma senhora que se vestiu de amarelo_...

Té aqui me pude enganar, mas agora que podeis trazer a *côr do pesar* pera mim só a trazeis...

que o snr. dr. Theóphilo Braga comentou pelo seguinte processo _inductivo_:

«*Ora o amarello só podia ser côr de pezar no caso de representar a cúgula cisterciense; e em vista dos factos sabidos, só estava no caso de escrever esta cantiga Christovam Falcão, e não Bernardim Ribeiro pelo que se sabe da sua vida*.»

_Obras de Christovam Falcão, p. 12_

Mas, felizmente para a memória do poeta bucolista, a poesia em questão foi uma das que o benemérito Garcia de Rèsende reproduziu no Cancioneiro Geral, publicado em 1516, quando Cristovam Falcão de Sousa... ainda andava de coeiros, se é que já pertencia ao numero dos vivos...

Ora que distinção concederia o ilustre professor áquele dos seus discípulos que, interrogado sobre a _côr branca_ do cavalo de Napoleão 1.^o, lhe respondesse que o sobredito imperial cavalo _branco_... era _amarelo_?

* * * * *

Em uma das suas éclogas, o poeta-filósofo Sá de Miranda, aludindo ao Amor, causa da desventura do seu camarada Bernardim Ribeiro, expressa-se por esta fórma:

Amor burlando vá, muerto me deja; Tiene de que por cierto; a su merced Como de señor vine; armó la red, Puso me en prision dura, ende me aqueja; Cada ora mas se aleja De mi, mucho cruel. Quien me desmiente? Ah que lo saben todos! quien ganó El precio de la lucha, ese perdió! Enemigo señor que tal consiente!

Pois no Amor, no travesso, inconstante e cruel Cupido, o snr. dr. Theóphilo viu nada menos que a personificação do favorito d'el-rei D. João III, D. António de Ataíde, conde da Castanheira!

Para que os leitores não julguem que fomos nós que interpretamos mal quaesquer palavras do arguto exegeta, reproduzimos a sua anotação:

«...*aquelle retrato do inimigo senhor que tal consente, bem se parece com o omnipotente valido o conde da Castanheira*.»

_Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 206_

* * * * *

Por um recente trabalho do nosso estimado camarada Hemetério Arantes sobre Frei Agostinho da Cruz, já os leitores não ignoram que o professor do curso Superior de Letras fez de *um gato bravo... uma cavalgadura*, e do *Monte do Lobo... um lobo* carniceiro que devorou, chamando-lhe um figo, a sobredita cuja cavalgadura!

Para fechar esta exposição, referiremos ainda mais um interessante episódio exegético da obra do Mestre:

Em uma das poesias líricas de Luis de Camões, alude o grande poeta á desventura que desde a infância o perseguia, como se vê dos seguintes magoados versos:

Foi minha ama uma fera; que o destino Não quis que mulher fosse a que tivesse Tal nome para mi, nem haveria. Assi criado fui porque bebesse O veneno amoroso de menino...

de que tambem se conhece a seguinte variante:

Por ama tive [~u]a fera, que o destino Não quis que melhor fosse a que tivesse Para o que elle de mi fazer queria...

Em face da segunda versão, concluiu o snr. dr. Theóphilo Braga, arguciosa e sibilinamente:

«*Esta versão tira todo o sentido figurado á antecedente, e d'aqui se conclue, que Camões fora amamentado por uma alimaria, etc.*»

_Historia de Camões, Parte II, Livro II, p. 564_

Esta ideia verdadeiramente original de interpretar os versos de Camões, dando-lhe por ama uma *alimária*, ou seja uma cavalgadura ou uma besta, corre parelhas com a interpretação dada á _gineta_ de Frei Agostinho da Cruz.

Não se póde dizer que o eminente professor faça de um argueiro um cavaleiro, mas não ha a menor dúvida de que s. ex.^a transforma um gato bravo e uma brava ama de leite... em cavalgaduras!

Pelo que respeita á ama de Camões, o que vale ao snr. dr. Theóphilo Braga é o facto do nosso grande épico não poder, com facilidade, escapulir-se do túmulo em que repousa no Panteão dos Jerónimos, _si vera est fama_! De contrário, o _Trincafortes_ era capaz de fazer uma das suas.

Parece-nos que fica suficientemente demonstrado quem é que fórça interpretações de versos alheios a significarem aquilo que imagina...

*2*

«Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de Christovam Falcão--«dois poetas de temperamento semelhante, com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente eguaes.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Pela transcrição que o snr. dr. Theóphilo Braga indica, póde alguem acreditar que foram realmente aquelas as palavras por nós empregadas no nosso estudo. Não foram. O ilustre professor modificou a seu bel-prazer o que nós escrevemos, que se lê a paginas 6 do nosso livro sobre Bernardim:

«Muito embora o temperamento dos dois poetas fosse semelhante, mesmo muito semelhante, e eguaes as influências e educações literárias que houvessem recebido; embora fossem eguaes os episódios dos seus infortunados amores, é estranho que por fórma tam absolutamente semelhante traduzissem o seu sentir, revelassem o seu temperamento artístico, chegando a empregar versos absolutamente eguaes! etc.».

Porque não reproduziu, _fielmente_, o snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que escrevemos? Estranha maneira de exercer a crítica... moderna!

*3*

«D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de _Crisfal_ indo buscar á tôa ás palavras _Crisma falsa_, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Afirma o snr. dr. Theóphilo Braga que consideramos a individualidade poética de Cristovam Falcão como uma lenda estúpida formada pelos genealogistas... Onde encontrou s. ex.^a a base em que firma a sua menos verdadeira afirmativa?

Vamos reproduzir o que escrevemos a paginas 9/10 do nosso livro, para desfazer a arbitrária interpretação do venerado professor.

«Cotejámos então as referências de Bernardim a Francisco de Sá com a alusão que na écloga de _Crisfal_ haviamos interpretado como visando esse poeta, e qual não foi a nossa alegria, a nossa viva satisfação ao reconhecer que os versos de _Crisfal_ que alvejavam Miranda condiziam perfeitamente com as referências das éclogas de Bernardim ao seu grande amigo e confidente! Não condiziam apenas: completavam, aclaravam, a nosso ver, essas alusões.

«Fez-se então uma grande luz no nosso espírito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ eram um ùnico poeta. O trovador Cristovam Falcão era o produto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_.

«E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, lá estavam os dizeres alusivos á ecloga de _Crisfal_ da edição de Colónia, revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphánio Dias: «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, _ao que parece aludir_ o nome da mesma écloga.»

«_Que dizem ser_... _ao que parece aludir_...

«Isto, a nossos olhos, era decisivo. «Os editores de 1559 das obras de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois viemos a apurar, tinham registado com relação á écloga uma fábula que devia datar da primeira edição das _Trovas de Crisfal_, etc.»

O que nós dissemos, pois, e isso sustentâmos, é que a individualidade poética de Cristovam Falcão nascera da errada interpretação prestada pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_,--fábula que os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro tinham registado, _sob reservas_.

Como haviamos nós de propalar terem sido os genealogistas que formaram a lenda, se os genealogistas, depois de 1554 e 1559, é que foram buscar as _tradições vagas_ recolhidas pelos editores de Bernardim?

Onde estão os genealogistas anteriores ás edições de Ferrara e de Colónia que se fizessem éco da fábula do _Crisfal_?

Ah! malfadados _processos inductivos da crítica moderna_!

Diz o snr. dr. Theóphilo Braga que nós fomos buscar _á tôa_ as primeiras sílabas das palavras _Crisma_ e _falso_ para a nosso alvedrio designarem Bernardim Ribeiro!

Não foi _á tôa_, como inculca o nosso acerbo censor, que conseguimos apurar a constituição do criptónimo _Crisfal_; e que não foi á tôa sabe-o muito bem o implacavel critico, que não deixou de ler, e que até a reproduziu, a explicação que sobre tal facto demos:

«Alcançada a convicção de que _Crisfal_ era um anagrama de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas produções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com um pequeno trabalho de raciocínio não nos foi dificil deduzir a constituição do criptograma, que era formado pelas primeiras sílabas das palavras _Crisma_ e _Falso_.»

E corroborando estes dizeres do prólogo do nosso livro (p. 10), escrevemos mais adeante (p. 82/83) ao tratar da interpretação da écloga atribuida ao suposto _Crisfal_, Cristovam:

«Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta écloga das palavras _Crisma_ e _Falso_, de que aproveitou as primeiras sílabas, formando assim a palavra _Crisfal_.

«Os nomes pastoris que figuram n'esta écloga, obedecendo á ideia que fundamentou a composição, são todos êles _crismas falsos_, sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta pôs em scena, o que deu lugar a erradíssimas interpretações, contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do próprio anagrama _Crisfal_, que foi tomado como deduzido dos nomes de Cristovam Falcão.»

Não foi á tôa mas seguindo uma orientação criteriosa, que alcançámos a verdade, que nenhuma subtileza conseguirá destruir já agora.

Outro-tanto não se póde dizer da maneira pela qual o snr. dr. Theóphilo Braga conseguiu, por exemplo: decretar os *cantos de ledino, estampar como documento do século XVI um apócrifo contendo versos do século XVIII, e fazer Camões bacharel formado... em latim pela Universidade de Coimbra*!

Se nós, invocando esses precedentes, ousassemos retorquir que _á tôa_ costumava proceder o escritor que contraditâmos, caía-nos em cima o Carmo e a Trindade!

_Á tôa!_... É realmente forte, e não deixa de ofender.

*4*

«Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na écloga de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes como o de _Pantaleão_ Dias de Landim, seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr. Jordão de Freitas?»

_Do artigo «Movimento litterário»._

_Lenda genealógica_, chama o snr. dr. Theóphilo Braga á lenda do _Crisfal_, como se fossem os genealogistas que a inventassem, quando s. ex.^a muito bem sabe que estes não tiveram tal primasia... O caso está sobejamente debatido, e por isso não vale a pena perder mais tempo com tam ruim defunto.

Tratemos do _Pantaleão_...

Na eclóga de _Crisfal_, refere se Bernardim ao _Val de Pantaleão_...

O snr. dr. Theóphilo Braga, interpretando erradamente uma passagem da _Pedatura_ do genealogista Alão de Moraes, em que se mencionava o casamento de uma parenta remota de Maria Brandôa com um João _Patalim_, escreveu a pag. 344 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_:

«Pelo Manuscripto já citado de Alão de Moraes acha-se noticia do aqui chamado _Val de Pantaleão_: D. Joanna, tia avó de D. Maria Brandão, casara a primeira vez com João _Pantalião_; etc.»

No nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, desfizemos esse erro, escrevendo a pag. 159:

«O ilustre professor equivocou-se na leitura do texto. Não se trata de nenhum João _Pantalião_, como erradamente leu, mas sim de um João _Patalim_, que é o que se lê no manuscrito de Alão de Moraes, como verificámos por nossos próprios olhos.»

Desfeita essa interpretação, não se dá o snr. dr. Theóphilo Braga por vencido, e vae agarrar-se a um avoengo de Maria Brandôa para justificar a referência ao _Val de Pantaleão_...

Quanto á _Joana_, o caso não é menos interessante...

Vejamos o que, no seu _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ (pag. 342), escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga em 1897:

«Esta Joanna, que denunciou os amores de Crisfal e Maria, era D. Joanna Pereira, sua irmã mais velha; Maria era a mais nova, de cinco filhos que tinha o Contador João Brandão.»

Foi esta mais uma _gaffe_ em que o snr. dr. Theóphilo incorreu, por haver confiado demasiadamente nos créditos do genealogista Alão de Moraes.

A pag. 162 do nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, desfizemos esse erro, escrevendo:

«Maria Brandão, a lendária amada do _Crisfal_, não teve nenhuma irman! era filha única!»

Em face da corrigenda, o distinto escritor não se sentiu com coragem para sentencear que Joana era irman natural de Maria Brandôa, mas procurou arranjar (iamos a escrever _á tôa_, mas não tivemos coragem) outra Joana, e, á primeira que encontrou á mão, chamou-a em seu auxílio.

Dera-se o caso de o snr. Jordão de Freitas, distinto funcionário da biblioteca da Ajuda, no louvavel empenho de auxiliar aqueles que quisessem discutir a questão literária suscitada pelo nosso livro, publicar no «Diario de Noticias» o resultado das suas pesquizas nos arquivos, reproduzindo quanto julgou interessante para o estudo do problema.

Fez s. ex.^a menção de uma parenta de Maria Brandôa com o nome de Joana...

Como um naufrago, que se agarra á primeira táboa que lobriga ao alcance da mão, o snr. dr. Theóphilo agarrou-se (no bom sentido da palavra, bem entendido!) á sobre-dita Joana, e, radiante de contentamento, exclamou:--«Estou salvo!»

E, julgando-se, realmente, salvo da rascada, escreveu ufano:

«...a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas.»

A esse engano de alma, ledo e cego, foi arrancá-lo o snr. Jordão, desapiedadamente na carta que, a propósito, dirigiu ao «Dia», e de que reproduziremos a parte essencial:

«O sr. dr. Theóphilo Braga equivocou-se na sua referencia a Joanna e ao que diz ter sido notado por mim.

.................................................................

...tive unicamente em vista assentar que Joanna Brandão não era tia avó de Maria Brandão, como erroneamente escrevera o sr. dr. Theophilo Braga, mas sim sua prima remota.

«Tão remota, direi agora, que era neta de um irmão (Diogo Lopes Brandão) do 4.^o avô (Gonçalo Brandão) de Maria Brandão (Bibliotheca Real da Ajuda, 49-XII-28, pag. 259).

«Sendo assim, nem é presumivel que aquella chegasse a viver no tempo de Maria Brandoa, quanto mais que andasse a pastorear com ella, etc.»[9]

Veremos, depois de este insucésso, que nova Joana nos apresentará na primeira oportunidade o distinto escritor...

Quem sabe se a Joana do _Crisfal_ não teria sido aquela encantadora Joaninha dos olhos verdes, que tanto enfeitiçou Garrett... Mas não; em caso contrário o autor das _Viagens_ não deixaria de mencionar essa circunstância!

* * * * *

Na estrofe de Bernardim Ribeiro, na écloga _Crisfal_, em que a amada do poeta se refere a ter passado para o _casal da Figueira_ do _Val de Pantaleão_, designações que a nosso ver disfarçam, sob _falsos crismas_, os nomes verdadeiros da casa e localidade para onde se transferiu, talvez após o casamento, a decantada _Aonia_, encontra-se, nítida, a alusão á ultima entrevista dos namorados:

«Quando contigo falei aquela ultima vez, o choro que então chorei, que o teu chorar me fez, nunca o esquecerei. Foi esta a vez derradeira, mas começo de paixão, passando-me eu então pera o casal da Figueira do Val de Pantalião.»

Achamos interessante reproduzir, n'esta altura, do capítulo XXVIII da _Menina e moça_, os periodos referentes á ultima entrevista de _Bimnarder e Aonia_ para que os leitores, com maior facilidade, possam orientar o seu juizo, verificando a absoluta identidade entre as duas produções de Bernardim Ribeiro:

«...Buscando achaque de querer lá ir pera detraz das casas, levando Enis consigo, ouve tempo pera Aonia entrar onde elle (Bimnarder) estava então deitado, escontra a outra parte da parede, chorando, porque não vira Aonia ao passar, que bem se podera elle erguer. E como isto perdera, cuidava tambem que avia de perder a tornada; porque um mal nunca lhe viera sem outro; pelo que estava no maior pranto do mundo, antre si.

«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que elle chorava, e suspirava baixo, de maneira que como, naquello, se forçava a si mesmo.

«Ella, para ver se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber d'elle, deteve-se ainda mais; mas elle, com pensamentos muitos, que sobrevinham ao choro, mais o acrescentava do que o diminuia.

«Assentando-se então Aonia na borda d'aquella sua pobre cama, lhe pôs a mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o espirito.

«Virando-se Bimnarder, e vendo a, tambem lhe faleceu o seu.

«Estiveram assi ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro: e elle, com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão, que, em se virando Birmnarder, tomou vergonha. Levando-os assi á terra, cobriu-se-lhe o seu fermoso rosto de uma tamalavez de côr, alem da natural; e soía dizer meu pae (que parte d'esta historia em seu tempo se soubera) que não parecia se não que viera aquella côr como por ajudar ainda Aonia escontra Bimnarder, tam formosa a ella, formosa, fizera.

«Mas, estando assi nisto elles ambos, e não estando elles ambos ali, chegou Enis muito rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a mandavam chamar.

«Assi, foi forçado levantar-se Aonia, e ir se, e Bimnarder ver tudo, e ficar.

«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma manga de sua camisa, e, rompendo-a, pera remedio de suas lagrimas lh'a deu, significando, na maneira só de como lha deu, o pera que lh'a dava; que parece que a dor grande que sentia não lh'o deixou dizer por palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só assi:

--«Pesa-me, pois a minha ventura ou desaventura, não quis que eu vos deixasse de magoar com o que eu não quisera.»--

«E estas palavras lhe disse já fora da porta.

«E com ellas, e com o que sentiu ao dizer d'ellas, duas e duas, lhe começaram as lagrimas a correr dos seus fermosos olhos, e, pelas suas faces fermosas abaixo, lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que Bimnarder a tanto pranto convidou quanta era a rezão d'elle, pois perdia a vista.

«Foi tanto o choro, que não lhe abastavam os seus olhos ás suas lagrimas...»

*5*

«Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão;»

_Do artigo «Movimento litterário»._

É com verdadeiro pesar que vemos o encanecido trabalhador recorrer a processos como o que ressalta da afirmação que deixamos transcrita, só pela caturrice de não querer confessar que errou...

O leitor desprevenido ficou julgando, certamente, por honra da firma que subscrevia o artigo _Movimento litterario_, que na livraria do Conde de Vimieiro tinham existido _os manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro_, que _andavam ligados com os de Christovam Falcão_...

Pois, se tal ficou julgando, enganou-se redondamente.

O snr. dr. Theóphilo Braga adulterou a verdade dos factos, procurando talvez iludir-se a si proprio, pois não podemos admitir que s. ex.^a imaginasse, por tal processo, mistificar alguem. É até possivel, muitissimo provavel mesmo, que o ilustre escritor não pesasse devidamente as palavras de que se serviu, e que assim incorresse, na melhor boa fé, n'uma indesculpavel inexactidão.

Vejamos onde o snr. dr. Theóphilo Braga foi fazer a descoberta preciosa dos _manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro_...

Ao n.^o 180 do catalogo da Livraria do Conde de Vimieiro, como consta do tomo V da _Colleçam dos documentos, e memorias da Academia Real da Historia Portugueza_.

O distinto professor não indicou a _fonte_, certamente por lapso, mas nós conseguimos descobri-la sem carecer do auxílio de _dunguinha_.

Ouçamos agora a conferência do Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes, em relação ao codice N.^o 180:

«Tem o volume que examinei 287 folhas, as quaes nos primeiros numeros eram 330, porem as que lhe faltão, parecem mudadas para outras Collecções, e sendo a letra, e papel de duzentos annos de antiguidade, pois a folhas 122 se acabão as noticias com a morte del Rei D. Manoel, que foi a 13 de Dezembro de 1521; se conserva este manuscripto inteiro, e em bom estado.......................

(Traz a divisão do livro em 5 partes e segue: