Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

Chapter 4

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O snr. dr. Theóphilo Braga, que aos catorze anos já se entregava a devaneios poéticos, não deixou certamente de dar publicidade a versos em que foi decantada alguma dama unida pelos laços matrimoniaes... E estamos convencidos de que ninguem chamou _inconfidências_ aos suspiros poeticos do trovador açoreano. As inconfidências não servem de tema ás locubrações dos vates; onde existe arte, no bom sentido da palavra, não ha inconfidências, embora n'este ponto estejamos em absoluta discordância com a doutrina exposta pelo professor do Curso Superior de Letras.

Em toda a obra, prosa ou verso, de Bernardim Ribeiro, vive, palpita, a história ingénua da sua vida, o trama dos seus mal-aventurados amores por uma dama que trocou a afeição do poeta pela de um outro zagal. Foi um inconfidente o magoado Bernardim?--Não, foi um artista, foi um poeta apaixonado, alma de eleição que da sua dor fez um poema, como diria Goethe. E que adoravel e sentido poema nos legou o grande poeta bucolista!

Mas não vale a pena insistir mais n'este ponto. A afirmativa do snr. dr. Theóphilo Braga constitue, naturalmente, um gracejo inofensivo de s. ex.^a.

*8*

«A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Cristovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em 1547 na Carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do _Crisfal_, que então andava no gosto.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Reproduzamos aqui o que o autor da _Historia da Litteratura Portugueza_ escreveu a paginas 394/5 do seu volume _Bernardim Ribeiro_ (edição refundida):

«N'esta folha volante não vem a _Carta_, nem as _Cantigas_ e _Esparsas_ incluidas na edição de Colonia. Parece mais uma vulgarisação popular, talvez uma das muitas que tornaram a Ecloga _muy nomeada_, e de que a reprodução de 1571, feita em Lisboa (existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que serviu para a reprodução de 1619, em que apparecem elementos só conhecidos pela edição de 1559.

«A folha volante _sem data_ diverge do texto de Colonia profundamente; basta observar as variantes entre as lições das estrophes 51 e 52. Attribuimos a impressão das _Trovas de Crisfal_, a 1536, quando appareceram tambem em folha volante as _Trovas de Dois Pastores_ (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro.

«A vinheta do Pastor com capuz e cajado no _Crisfal_ é a mesma que serve nas _Trovas de dois Pastores_; o typo gothico corpo 12 do titulo do folheto de 1536 é o empregado no texto do _Crisfal_. Tambem a vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em outra folha volante de 1536, intitulada _Tragedia de los amores de Eneas y de la reina Dido_.»

Procedemos ao mesmo exame a que o snr. dr. Theóphilo Braga sujeitou o _pliego-suelto_, e chegamos a egual conclusão. Algumas vezes nos haviamos de encontrar em concordância de vistas com s. ex.^a. E porque o nosso pensar sobre o assunto egualava o do ilustre professor, escrevemos a pag. 119 do livro _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal), aludindo ao folheto sem indicação de data nem de lugar de impressão:

[Figura]

«...mas reconhecendo-se, pelo confronto com outros folhetos, ser de 1536).

«Como muito bem observou o snr. dr. Theóphilo Braga, etc.»

Seguiu-se a transcrição do parágrafo do snr. dr. Th. Braga que atrás reproduzimos.

Mudou o abalisado professor de opinião quanto á data do _pliego-suelto_, querendo agora fixar-lhe o ano de 1542, como poderia fixar-lhe o de 1552 ou 1562, arbitrariamente.

Se ao menos s. ex.^a tivesse a condescendência de indicar-nos quando seguiu os _processos inductivos da crítica moderna_! Ao fixar a data de 1536 ou quando arbitrou a de 1542?

Em folha apensa, damos uma reprodução foto-zincográfica das primeiras páginas dos tres folhetos que levaram o snr. dr. Theóphilo Braga a fixar a data da primeira edição conhecida das _Trovas de Crisfal_ em 1536.

Se nos perguntarem se estamos dispostos a quebrar lanças para sustentar a antiga opinião do historiador da _Litteratura Portugueza_, responderemos, com toda a franqueza, negativamente. O que não podemos admitir é que se procure agora determinar-lhe _com precisão_ a data de 1542, com o simples fundamento de que n'esse ano estava em Roma o seu suposto autor...

Alude o snr. dr. Theóphilo Braga ao facto de Camões empregar versos do _Crisfal_.

A explicação, a nosso ver, é muito simples:

Em Faria e Sousa, o insigne fabulista, autor muito da predilecção do snr. dr. Theóphilo, encontra-se uma afirmativa, que constitue em nosso juizo uma das raras que merecem algum crédito, não obstante a impureza da _fonte_.

Referindo-se a Bernardim Ribeiro, escreveu Faria e Sousa: «poeta bien conocido y a quien llamava su Enio el divino Camões.»

Não desconhece isto o professor do Curso Superior de Letras, porque a pag. 131 da primeira edição do seu _Bernardim Ribeiro_ reproduziu da _Fuente de Aganipe_ o dizer de Faria.

Como demonstrámos no volume sobre o _Poeta Crisfal_, Camões glosou o magoado solau da _Menina e moça_, de Bernardim Ribeiro.

Em uma das cartas atribuidas ao cantor dos _Lusiadas_, encontra-se uma alusão directa ao autor das _Saudades_, indicando-lhe o nome: _Bernardim Ribeiro_.

Se Bernardim era o seu _Enio_, naturalíssimo é que Camões se deixasse influenciar pelo Mestre, imitando alguns dos seus versos.

A não ser que o snr dr. Theóphilo Braga queira concluir que, sendo Bernardim o _Enio_ de Camões, Cristovam Falcão era o _Enio_ numero 2 do mesmo poeta,--assim a modos de um _Enio_ barato, para trazer por casa.

Prossigamos...

*9*

«Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma _inconfidencia_. Isto leva a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Salvo erro, o snr. dr. Theóphilo Braga quer referir-se apenas a uma, e não a duas estrofes.

E á estrofe que reza:

Muitos pastores buscaram mas um pastor por ser-te amigo, e outro por ser-te enemigo, um e outro se escusaram. E dão-lhe logo comigo gados que farão mil queijos; mas como se despediam é já mostrar que temiam que o sabor dos teus beijos na minha boca achariam!

Falava-se em _beijos_... Era uma _inconfidência_, e gravíssima, e por isso a estrofe foi suprimida nas edições de Ferrara e de Colónia! Está claro, e tam claro que, no dizer do snr. dr. Th. Braga, «_isto leva a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga_...»

Ora admitindo por um momento que Cristovam Falcão houvesse sido poeta, e tivesse a lembrança de escrever uma écloga abundante em _inconfidências_, pespegava-lhe, sem mais nem menos, com um anagrama deduzido das primeiras sílabas do seu nome, para que toda a gente logo o apontasse a dedo como _inconfidente_?

De mais a mais, como quer o snr. dr. Th. Braga na sua exegese, se o suposto poeta empregasse os nomes verdadeiros de todas as personagens que a écloga alvejava, isso constituiria um _apagamento_ de paternidade muito pouco apagado...

Todo o mistério, o discreto veu da fantasia, a cobrir a realidade dos episódios que a écloga do _Crisfal_ menciona, equivaleria á ingenuidade infantil d'aquela antiga adivinha: «Branco é, galinha o põe»!

Ponha se o snr. dr. Th. Braga no lugar do pseudo-trovador, imagíne que resolvia arquitectar uma écloga cheia de _inconfidências_, e diga-nos, com franqueza, se, desejando apagar a paternidade de um tal feito, assinaria a sua produção com o anagrama _Theobra_?

Logo os seus discípulos concluiriam, triunfalmente: «Cá temos mais um poema do Mestre!» E fosse lá s. ex.^a convencê-los de que não era tal o autor da _inconfidência_!

*10*

«Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na decadencia.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Com o respeito devido ao professor de literatura, de modo nenhum podemos aceitar a sentença de s. ex.^a

A _subtileza_ do snr. dr. Theóphilo Braga, proclamando que os lugares comuns a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discípulo do que á fusão dos dois poetas, é da natureza do conhecido artifício pelo qual se póde sustentar que cinco vintens não são um tostão, ou vice-versa!

Admitindo que Cristovam Falcão tivesse sido um imitador de Bernardim, como quer o abalisado professor, explica-se porventura que levasse tam longe a sua improbidade literária, que roubasse por inteiro versos e cantigas ao seu mestre, com a maior desfaçatez? Pois o autor da _Carta_ e da _Eclóga de Crisfal_, a ser um imitador, não teria o bom senso suficiente para reconhecer que, roubando versos de Bernardim, não alcançaria renome de poeta, mas o apodo de salteador literário?

Um imitador, por mais inexperiente e tacanho, não se aproveita dos textos que imita de maneira a que lhe possam apontar os versos _palmados_. Ou não será isto o que a lógica permite conjecturar?

Como ignoramos _os processos inductivos da critica moderna_, é possivel que estejamos em erro, e que da mesma ignorância resulte não alcançarmos o sentido das palavras do snr. dr. Theóphilo Braga quando afirma que o mestre (Bernardim Ribeiro) se repetiu na decadência.

Que repetições? e que decadência?

*11*

«Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em situações differentes.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que, pacientemente, estamos anotando.

É verdadeira esta afirmativa?

--Não, não é verdadeira, e o professor do Curso Superior de Letras sabe muito bem que o não é.

Em 1897, ao publicar a sua edição refundida do livro _Bernardim Ribeiro_, confrontando versos de Bernardim com os atribuidos a Cristovam Falcão, escreveu o professor de literatura.

«Vê-se que á medida que *a situação dos amores de Bernardim Ribeiro seguia o mesmo desfecho dos amores de Cristovam Falcão*, os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se salvaram as poesias do auctor do _Crisfal_.»[6]

Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz s. ex.^a, procurando agarrar-se a uma boia salvadora...

Mas tanto a paixão é uma só que o snr. dr. Theóphilo Braga, na écloga em que Bernardim se personifica sob o nome bucólico de _Persio_, viu n'essa personagem *Cristovam Falcão*! E estamos em crer que o ilustre professor não irá agora sentencear que a écloga primeira de Bernardim tambem foi elaborada pelo suposto trovador...

Pois se o snr. dr. Theóphilo Braga até concluiu que tanto Bernardim como Cristovão Falcão sofreram as agruras do _carcere privado_!

Como póde suceder que o distinto escritor já se não recorde do que escreveu a pag. 76/78 da sua edição refundida do livro «Bernardim Ribeiro», arquivemos aqui algumas das suas passagens:

«...Não ignorava Bernardim que o namorado de Maria tambem estivera em carcere privado:

_Vi-me já preso_; contente A meu mal queria bem.

«Na Carta, que escreveu _estando preso_, e mandou áquella com quem estava casado a furto, diz Christovam Falcão:

Mal cuja dor se não crê de _prisão_ e de ausencia! .............................

Bem se enxerga nos meus danos _que estou preso ha cinco annos_, afóra os que heide estar...

«Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro:

Logo então começou _Seu gado a emagrecer, Nunca mais d'elle curou_, Foi-se-lhe todo a perder Com o cuidado que cobrou.

«Em Christovam Falcão lê-se:

Crisfal não era entam dos bens do mundo abastado, tanto como de cuidado, que por curar da paixão _não curava do seu gado_.

«E continuando o parallelismo, por onde se vê que os dois poetas eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais estes traços com que Bernardim Ribeiro retrata o _Crisfal_:

Sentava-me em um penedo Que no meio d'agua estava; Então alli só e quedo A minha frauta tocava.

«E no _Crisfal_, quasi pela mesma maneira:

Alli sobre uma ribeira de mui alta penedia,

d'onde a agua d'alto caía, dizendo d'esta maneira estava a noite e o dia...

«Bastam estas comparações para se reconhecer a communhão artistica entre os dois namorados poetas.»

Depois de haver escrito o que acaba de ler-se, como se compreende que o snr. dr. Theóphilo Braga venha proclamar, com a maior sem-cerimónia, que ha _dois schemas de paixão amorosa que se não confundem_!

Quanto a _Fauno_, nome pastoril que, em uma das éclogas, Bernardim dá ao seu amigo, confidente e colega Francisco de Sá de Miranda, quer o snr. dr. Theóphilo Braga que seja a personificação do próprio B. Ribeiro,--talvez para não confessar que nós acertamos na interpretação apresentada no _Poeta Crisfal_.

Temos certa curiosidade em saber se na futura refundição do livro sobre os poetas bucolistas o seu autor transferirá para Sá de Miranda o crisma de _Persio_, na impossibilidade de continuar a ver na mesma figura os traços de Cristovam Falcão...

De uns versos de Francisco de Sá, imitando uma canção de Petrarca, já o ilustre professor concluiu que o amigo de Bernardim sofrera a prisão, por motivo de amores... É meio caminho andado para que, na fantasia de s. ex.^a, o douto Sá de Miranda vá tomar o pouso do derreado Falcão.

A ver vamos... como dizia o cego, e cada vez via menos!

*12*

«Através de todo o hypercriticismo, o livro sobre Bernardim revela um trabalhador fervoroso, etc.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Duas palavras apenas:

A nosso juizo, aquele _através_ está a substituir, amavelmente, o advérbio _apesar_... É o que julgamos depreender da sequência da frase.

No nosso modesto e desvalioso estudo, o snr. dr. Theóphilo Braga apenas viu _hipercriticismo_, o que de modo nenhum póde agradar ao historiador da _Litteratura Portugueza_, que só emprega os modernos processos da crítica scientífica,--graças aos quaes... se vê obrigado a refundir amiude os seus trabalhos!

Continuaremos, impenitentes, a cultivar o _hipercriticismo_, deixando ao snr. dr. Theóphilo Braga o uso exclusivo dos seus processos, que não nos seduzem, com toda a franqueza o dizemos.

IV

A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal

No seio da sociedade scientífica e litéraria, de que é ilustre presidente, proclamou o snr. dr. Theóphilo Braga, á porta fechada, isto é, em reunião privativa dos sócios d'aquela Academia, que a vida amorosa de Cristovam Falcão «_oscila entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos_».

Cristovam Falcão de Sousa era moço fidalgo em 1527, como se demonstra indubitavelmente pelo registo exarado n'um livro que existe no arquivo da Torre do Tombo, registo que reproduzimos com fidelidade a paginas 168/9 do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro.

Na sua erudita comunicação á Academia das Sciencias de Portugal, afirmou o snr. dr. Theóphilo Braga que o suposto autor do _Crisfal_ tinha _pelo menos 12 anos á data de 1525_...

Não indicou o douto académico o documento ou _recurso histórico_, em que se estribava para sentencear, sem admitir réplica, que o pseudo-trovador tinha _pelo menos 12 anos á data de 1525_, mas é possivel que s. ex.^a esteja munido de concludentes provas para demonstrar a justeza da sua afirmativa, se alguem se lembrar de contestar-lhe tam peremptória opinião.

Se o ilustre professor não possue a tal respeito documentos bastantes, póde dar-se o caso de alguem vir àmanhan, quando mais não seja para fazer pirraça a s. ex.^a, declarar que Cristovam Falcão de Sousa, á data de 1525, não era ainda nascido, ou, quando muito, teria doze mêses, e não 12 anos...

Mas é possivel que o snr. dr. Theóphilo Braga tenha conseguido descobrir qualquer documento em que apoie a sua sentença. É até muito possivel!

O importante, por agora, é verificar que o laureado académico fixou o ano do nascimento do pseudo-poeta em 1513, poucos mêses mais, poucos mêses menos, se a lógica não é uma cantata para adormecer meninos.

Ora, sendo assim, vê-se que alguma cousa se ganhou com a publicação do nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, onde a paginas 176 escrevemos:

«*Quanto a Cristovam Falcão de Sousa, moço fidalgo em 1527, por muito que se queira afastar a data do seu nascimento, não poderá esta ser fixada em ano anterior a 1510. Fixando-se o seu nascimento entre os anos de 1510 a 1515, é natural que se fique muito próximo da verdade.*»

O snr. dr. Theóphilo Braga, em face do nosso estudo, escolheu o ano de 1513, cifra que se encontra compreendida _entre 1510 a 1515_, salvo erro.

Nós, porém, com inteira franqueza o dizemos, temos ainda suas dúvidas, e após recentes pesquizas, em que vamos prosseguindo, inclinamo-nos a ajuizar que o pseudo-_ultimo eco do alaúde_ ainda não era nascido no ano de 1516...

Mas, para aclarar este ponto de capital importância, aguardemos a nova versão que o snr. dr. Theóphilo Braga tem na forja sobre os poetas bucolistas.

Além de ter modificado a sua antiga doutrina sobre a epoca em que floresceu o falso _Crisfal_, na sua comunicação ao grémio literário a cujos destinos preside, o snr. dr. Theóphilo determinou que a vida amorosa do homenzinho oscilara *entre 1525 e 1526*,--isto é no período ingénuo e viçoso dos doze para os treze anos, quando a suposta mulher amada pelo Xpouão contaria, na melhor das hipóteses, as suas fagueiras e menineiras dez primaveras...

Mas, decorrido menos de um mês sobre a comunicação... scientífica, o egrégio conferente emendou este seu parecer, como se verá quando analisarmos o artigo epigrafado _Movimento litterario_.

Segundo o extrato publicado no jornal «O Mundo», que condizia com os de outras gazetas, o snr. dr. Theóphilo Braga «_evidenciou que na ecloga «Crisfal» transpareciam diversas situações da vida de Cristovam Falcão_.»

Infelizmente, os jornaes não nos forneceram qualquer pormenor elucidativo sobre a referida _evidenciação_, pelo que ficamos, com verdadeiro pesar, privados de reconhecer a maneira engenhosa pela qual o distincto professor de literatura conseguiu demonstrar, _urbi et orbi_, que na magoada écloga de Bernardim Ribeiro transpareciam _diversas situações da vida de Cristovam Falcão_.

É possivel, porém, que na próxima futura refundição do seu livro sobre os bucolistas, o snr. dr. Theóphilo Braga inclua um largo capítulo em que trate o assunto com o devido desenvolvimento, completando o extrato que os jornaes fizeram da sua apreciavel comunicação, com o que preencherá uma sensivel lacuna. Oxalá assim suceda.

Terminou o conferente a sua palestra por invocar, mais uma vez, Diogo do Couto e Gaspar Frutuoso; e mais uma vez afirmou que as duas individualidades (Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão de Sousa) _não podem jàmais confundir-se_.

Perfeitamente de acordo, n'esta parte, com o venerado professor!

Cristovam Falcão, o iletrado autor das _Quartas_, não póde jàmais confundir-se com Bernardim Ribeiro, o mavioso autor da _Carta_ e da _Ecloga de Crisfal_...

Pelo que, implicitamente, fica demonstrado que nós não temos dúvida em adoptar uma ou outra das conclusões do presidente da Academia das Sciencias de Portugal, apesar de todo o nosso hipercriticismo, como está vendo o nosso _prezadíssimo amigo_!

V

O artigo «Movimento litterário»

Como os leitores viram, pela reprodução que fizemos no primeiro capítulo d'este trabalho, no artigo que publicamos nas colunas do diário «A Lucta», sob a epigrafe: «_Os processos... scientificos do snr. dr. Theóphilo Braga_», salientámos várias inexactidões contidas no capcioso desarrazoado que o professor do Curso Superior de Letras estampou no jornal «O Dia», a pretexto de dar notícia do movimento literário português no ano de 1908.

Não insistiremos sobre os pontos já visados, embora prestassem o flanco a mais largas considerações, mas nem o tempo nos é sobejo nem tam pouco desejamos abusar da benevolência dos que nos lêem, prolongando demasiadamente este comentário desenfastiado e despretencioso ás refutações embrogliadoras e falhas de sinceridade do snr. dr. Theóphilo Braga.

Sem a publicação do artigo _Movimento litterário_, aguardariamos pacientemente a futura refundição do livro consagrado ao estudo dos poetas bucolistas pelo egrégio professor, e só em face das novas exegeses fantasiadas pelo snr. dr. Theóphilo Braga viriamos a público dizer o que se nos oferecesse, defendendo, o melhor que soubessemos e pudessemos, as conclusões que apresentámos no nosso trabalho sobre o _Poeta Crisfal_.

Não o quis assim o distinto escritor açoreano. Seja feita a sua vontade!

*1*

«...o snr. Delfim Guimarães publicava o seu livro _Bernardim Ribeiro--O Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido da biographia do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a significarem os factos que imagina.»

_Do artigo «Movimento Litterario_.»

Na opinião soberana do consagrado professor, no nosso livro sobre Bernardim Ribeiro resumimos o _já sabido_ da biografia do autor da _Menina e moça_, e forçámos interpretações de versos a significar os factos que imaginámos!

Tem carradas de razão o implacavel crítico quando proclama, desdenhoso, que nós resumimos o que já era sabido da biografia do grande poeta bucolista.

Resumimos quanto pudemos, exageradamente talvez, o que _já era sabido_ da biografia de Bernardim Ribeiro, mas muito de propósito assim procedemos, para que ninguem, em face do nosso trabalho, pudesse dizer com justiça que fôra nosso intento fazer substituir no mercado o livro do snr. dr. Theóphilo Braga pelo nosso.

É certo que nos poderiamos ter conduzido pela mesma fórma adoptada pelo consciencioso escritor ao _resumir_ no seu _Garrett_ o trabalho desenvolvido de Gomes de Amorim, mas não quisemos seguir semelhante conduta, muito embora pudessemos invocar, como modêlo, o exemplo que nos fornecia o historiador da *Litteratura Portugueza*.

Não quisemos enveredar por esse caminho, e não estamos arrependidos, apesar do remoque com que fomos alvejados. Cada qual segue os processos que muito bem entende, mais em harmonia com o seu temperamento ou educação.

Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, é um facto; mas tivemos o cuidado de não aproveitar aquela descoberta mais que problemática que localizou a _Quinta dos Lobos_ na _Quinta da Piedade_, em Sintra, e nem por um momento nos passou pela cabeça perfilhar as palavras do snr. dr. Theóphilo Braga quando vê «*a persistencia do elemento mauresco, na paixão exaltada do poeta e no calor surprehendente da sua linguagem*».[7]

Não seguimos tam pouco na esteira do eminente exegeta quando s. ex.^a pinta, ao sabor da sua fantasia rocamboliana, Bernardim Ribeiro: «*moreno, fino e enchuto de carnes, com a perdição no olhar e a fatalidade invencivel no amor*.»[8]

Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, alto e bom som o declaramos; mas alguns erros tivemos ocasião de apontar ao biógrafo ilustre do autor da _Menina e moça_, para que os corrija, querendo, nas futuras edições, pelo que nenhum agradecimento nos deve, seja dito.

Que teria perdido o renome universal do Mestre em se mostrar, não diremos mais benevolente, mas mais justo? Oh! o positivismo!...

Mas assevera o snr. dr. Theóphilo Braga que nós *forçamos interpretações de versos a significarem os factos que imaginamos*!

Onde viu s. ex.^a essas interpretações forçadas?

Tendo-as visto, por que motivo não veio indicá-las em público, para exautoração do nosso _hipercriticismo_, para maior glória do seu laureado nome, para mais intenso fulgor da nossa História literária?

Forçâmos interpretações de versos!