Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal
Chapter 3
Como se vê da transcrição feita, o autor declarava que o documento invocado referia-se ao suposto poeta *de um modo irrefragavel*, isto é: «*irrecusavelmente, incontestavelmente*.» Esse documento dizia respeito, segundo inculcava o snr. dr. Theóphilo Braga, a _uma graça régia_, mercê de _97$000 réis_, concedida ao suposto bardo _talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraçada paixão, ou apparentemente pelos serviços de seu pae_.
Ora fazendo taes afirmativas, autoritária e catedraticamente, o snr. dr. Theóphilo Braga abusava da boa fé dos seus leitores, por isso que s. ex.^a muito bem conhecia que estava deturpando a verdade, a seu bel-prazer, que nada d'aquilo que apregoava como autêntico era verdadeiro.
Nem o alvará de 1517 dizia respeito ao suposto poeta, nem semelhante alvará mencionava a verba de 97$000 réis.
Tratava-se de uma tença de 97$734 reis (resultante de dois padrões) que pertencia a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, e não ao suposto poeta Cristovam Falcão de Sousa.
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a existência dos dois padrões constituitivos da referida tença?--Não ignorava. E a prova de que os não desconhecia está nas citações que s. ex.^a faz a paginas 331/2 do seu mencionado livro, atribuindo-os a quem eles diziam respeito, isto é a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, que nada tinha que ver com o suposto poeta, como o snr. dr. Theóphilo Braga, de resto, muito bem estabelecia.
Mas a existência de uma tença de 97$000 reis, pelas alturas de 1517, a favor de Cristovão Falcão de Sousa, comprovaria de certo modo a data em que o snr. dr. Theóphilo Braga fixou habilidosamente o nascimento do _ultimo eco do alaúde_, e permitia ao fantasioso escritor justificar tam rasgada mercê régia atribuindo-a á _sympathia que suscitava a sua desgraçada paixão_.
D'esta maneira, servindo-se de um alvará que não dizia respeito ao suposto poeta, e alterando-lhe caprichosamente a quantia mencionada, o snr. dr. T. Braga creava um _recurso histórico_ graças ao qual os discípulos do professor do Curso Superior de Letras podiam aceitar que pelas alturas do ano da graça de 1517 já existia um afamado poeta com o nome de Cristovão Falcão, tam desventurado em seus amores que el-rei, compadecido, lhe fizera mercê da tença, verdadeiramente principesca, de 97$000 réis! E sucedendo um _caso_ d'estes em nossos dias, ainda ha quem ache estranho que Faria e Sousa e frei Bernardo de Brito improvisassem (é este o termo próprio?) documentos... históricos!
Ao publicarmos o nosso trabalho sobre Bernardim Ribeiro, não salientamos devidamente estes pouco recomendaveis processos do snr. dr. Theóphilo Braga, poupando, com generosidade, o nome do encanecido trabalhador, em respeito aos seus cabelos brancos.
E á nossa manifesta generosidade correspondeu o aclamado professor apodando os nossos processos críticos de:--processos... á tôa!
Que nome conceder a esses processos do snr. dr. Theóphilo Braga?
Mas não ficaram por aqui as habilidades de que se serviu o autor da _Historia da Litteratura Portugueza_. E chamamos-lhes _habilidades_, por não encontrarmos á mão um termo mais anodino, mais suave, mais doce, para definir o feito, e não por qualquer propósito agressivo.
Existem na Torre do Tombo cartas autógrafas do suposto autor do _Crisfal_. A simples publicação d'essas cartas constituiria um golpe decisivo na lenda que atribuia produções de Bernardim Ribeiro a Cristovão Falcão de Sousa, por isso que taes documentos revelam que este, alem de iletrado, não escrevia meia dúzia de linhas sem uma enfiada de asneiras...--«_uma acumulação de tolices_», no dizer insuspeito de uma ilustre escritora.
Que fez o snr. dr. Theóphilo Braga?
Publicou essas cartas, alterando-lhe, paternalmente, a ortografia e a gramática, e deixando assim transparecer que o autor de taes escritos poderia muito bem ter produzido as poesias bucólicas que lhe atribuiam.
Para que se não ajuízasse que faziamos uma afirmação gratuita ao dizer que o snr. dr. Th. Braga publicara _emendada_ a obra... em prosa de Cristovam Falcão, démos no volume _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal) uma reprodução foto-zincográfica de uma das cartas do suposto poeta, e, não desejando colocar n'uma situação pouco invejavel o professor do Curso Superior de Letras, escrevemos, procurando desculpar o seu procedimento:
«........o copista, a quem o distinto professor encarregou de reproduzir o documento existente na Torre do Tombo, forneceu-lhe uma reprodução _com summa deligencia emendada_, que o snr. dr. Theóphilo, com a melhor boa fé, estampou no seu livro, e que muito se afasta do original.»[4]
Nem na sua comunicação á Academia das Sciências de Portugal, nem no seu artigo do jornal «O Dia», nem na carta que nos dirigiu, se referiu, embora ao de leve, o snr. dr. T. Braga á carta de Cristovam Falcão de Sousa... Compreende-se. O documento é tam esmagador, que o infatigavel polígrafo foge d'ele como dizem que o diabo foge da cruz.
Mas, embora isso não agrade a s. ex.^a, vamos dar aqui a reprodução paleográfica de outra carta de Cristovam Falcão de Sousa, devendo elucidar os leitores que o snr. dr. Theóphilo Braga já deu publicidade a tal documento a pag. 368/70 do seu _Bernardim Ribeiro_ (edição refundida). Mas deu-lhe publicidade: _emendando-o_...
Como não temos a peito celebrizar o alto engenho e mais partes que concorriam na pessoa do suposto poeta, reproduzimos a carta fielmente, e, para desfazer algum erro de leitura ou qualquer _gralha_ que passe á revisão, juntamos em foto-gravura o seu _fac-simile_.
Eis a carta:
[Figura: Reproducção foto-zincográfica da carta de Cristovam Falcão de Sousa]
«Sñor. mjnha jrmã dona bracajda faleceo da ujda presemte a dez dias deste mes pasado estando eu nesa corte [~e] serujço de v. a. onde me foy a noua pera [~q] viese prover [~e] alg[~u]as cousas da su alma por me ela dejxar por seu testam[~e]tejro cõ seu marido ejtor de figuejredo. fiquou-lhe h[~u] só filho e doutro marido [~q] deste não ouve nenh[~u] e tão Riquo [~q] me diz[~e] que foy posta a faz[~e]da de seu pay quãdo faleceo (que eu não era no Rejno) [~e] doze contos. fez meu pay antes [~q] eu de la partise petição a uosa a. [~q] lhe mãdase [~e]tregar seu neto e tirar de poder de seu padrasto. sayo lhe na petição [~q] Requerese ao Juiz dos orfãos da uila donde ho moço está que he borba donde seu padrasto he natural e alquajde mor pelo duque de bragança e que ele prouerja e que não no faz[~e]do proverja [~e]tão vosa a. a qual delig[~e]cia eu tenho fejto que Requery ao Juiz [~q] lho tjrase de poder e que fose loguo por [~q] eu tjnha sabjdo [~q] eitor de figueiredo detremjnaua quasar ho moço cõ sua f.^a no fim deste mes [~e] que lhe diziã que ho moço faz quatorze anos pera ho matrimonjo ser valioso. mãdou ho Juiz dar ujsta de meu Requerim.^{to} a eitor de figueiredo e njsto e [~e] ele Responder pasaram ojto dias e nestes me fizerão mujtos agrauos alomgãdo me ho tempo e me fizerão perdediça h[~u]a petjção dagrauo na qual agrauaua pera v. a. apresemtandoa eu [~e] audiencja onde foy lida e jsto tudo por ele ser alquajde mor e ser toda a ujla de seus paremtes e criados e por [~q] da li não pasão os agrauos se não pera ho ouujdor do duque onde tão b[~e] me deterjão pera ho moço chegar ao termo dos quatorze anos detremjney dejxar a cousa neste termo e fazelo saber a v. a. pera [~q] proueja njsto como lhe parecer serujço de deos e seu que mjlhor proueja [~q] pois t[~e] tal faz[~e]da que v. a. ho quase cõ qu[~e] ouuer por seu serujço [~q] não [~q] ho orfão seia asy Roubado. no que v. a. deue loguo prouer como pay dos orfãos [~q] he quanto mais [~q] quarega jsto sobre cõcj[~e]cja de v. a. por h[~u] alu.^{rá} que vosa a. pasou a ejtor de figueiredo ao t[~e]po [~q] quasou cõ mjnha Jrmã pelo qual tjrou a titorja a meu pay de seu neto por lha dar a ele. ao qual agora ajnda se pega, como se não fose cerada a cousa por morte de mjnha Jrmã. e o [~q] me parece [~q] se deue fazer he pasar v. a. logo alu.^{rá} por esta quarta [~q] pode serujr de petjção, [~q] polo qual mãde a h[~u] dos quoReiadores destremoz elvas ou por talegre [~q] qualquer deles va a borba e tjre ho moço de poder de seu padrasto e [~e]tregue sua p.^a a meu pay seu auô ou a meu jrmão barnabé de sousa [~q] t[~e] faz[~e]da p.^a ho mjlhor mãter [~q] biue [~e] portalegre onde ho moço t[~e] parte de sua faz[~e]da e lhe he já dado por tutor desta fazemda e despois do moço tjrado prouer v. a. [~e] qu[~e] seia seu tutor e seja ouujdo ejtor de figuejredo das Rezomis [~q] diz ter pera [~q] ho moço quase cõ sua f.^a mas jsto deuela ser amte v. a. [~q] qua não sey quãto se gardara Justiça e ho aluará pode v. a. mãdar dar a demjão de sousa meu irmão [~q] la amda [~q] ele ho fará vir cõ mujta delig[~e]cia [~q] eu fiquo qua esperamdo p.^a ho Requerer e apresemtar. e l[~e]bro mais a uosa a. [~q] mãde ao mesmo coReiador que [~e]t[~e]da nas partjlhas e jmb[~e]tajro [~q] doutra manejra será Roubado ho orfão e asi [~q] o t[~e]po aquaba p.^a fim deste mes e eu s.^{or} neste trabalho nõ pretendo mais [~q] fazer ho [~q] deuo e tenho dejxado os Requerjm.^{tos} que trago cõ v. a. [~e] mão de fernão daluarez peço a v. a. que nõ perqua por ausente de ser despachado. a qu[~e] deos a ujda e Real estado acrec[~e]te. de portalegre sete de novembro. as Reajs mãos de v. a. bejjo. xpouão falcão de sousa.»[5]
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ao leitor deixamos a faculdade de comentar a carta _primorosa_ do sarrafaçal engenho que durante alguns séculos gosou da fama de poeta insigne, em prejuizo do nome aureolado de Bernardim Ribeiro.
III
Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga
*1*
«A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Não ha a menor dúvida quanto á primeira parte d'esta afirmação.
Com efeito, o snr. dr. Theóphilo Braga esboçou uma biografia de Cristovam Falcão, e ninguem ousará contestar-lhe o mérito de haver sido o Plutarco do suposto trovador.
Esboçando-lhe a biografia, o abalisado professor de literatura serviu-se de documentos autênticos... mas utilizando alguns que não diziam respeito ao pseudo-poeta, e sim a um outro Cristovam; e interpretando, modificando e adulterando outros documentos ao sabor do seu paladar, ao capricho da sua fantasia.
No capitulo XIX do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro destrinçamos os documentos históricos que o snr. dr. Theóphilo Braga propositadamente confundiu, e restabelecemos o texto de uma das cartas de Cristovam Falcão de Sousa que o habil professor _emendara_, com o zelo de Plutarco cioso do bom nome do seu heroe... lendário.
No segundo capítulo d'este livro, ficou tambem fielmente reproduzida outra carta de Cristovam Falcão, que o infatigavel historiador havia _corrigido_, como se se tratasse de um tema de algum discípulo seu. Mesmo quando se entrega a trabalhos de reconstituição histórica, o snr. dr. Theóphilo Braga não se esquece de que é professor de literatura portuguêsa!
Depois de isto, como ousa o snr. dr. Theóphilo Braga invocar os documentos autênticos de que tam mau uso fez?
*2*
«Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Tem graça, e não ofende!
Se leu imediatamente o nosso livro, não foi para ver que novos subsídios forneciamos para o estudo da história da literatura portuguêsa, mas sim para conhecer quaes os materiaes que lhe facultariamos para o aperfeiçoamento do seu trabalho...
Cabe n'esta altura, a talho de foice, deixar consignada certa passagem de uma palestra que o snr. dr. Theóphilo Braga teve com um dos seus mais inteligentes discípulos a propósito da publicação do nosso livro sobre Bernardim Ribeiro:
«V. compreende... Eu sou como um mestre de obras... na construção de um edificio. Ha vários pedreiros... Vão-me chegando ás mãos diversas pedras... Aproveito aquelas que se me afiguram de feição, geitosas, convenientes para a minha obra, e as outras ponho as de parte, deito-as fóra.»
E a um distinto confrade nas letras, ainda por motivo da publicação do nosso livro, o professor do Curso Superior de Letras teve ensejo de referir-se á nossa obscura pessoa, fazendo o favor de nos reconhecer talento, mas... _que os estudos de investigação histórica eram umas teclas muito dificeis, muito complicadas_...
O apreciado _mestre de obras_ (segundo a frase de s. ex.^a) escusava de ter lido o nosso trabalho. O sub-título do livro, _O Poeta Crisfal_, demonstrava suficientemente ao snr. dr. Theóphilo Braga que nenhuma pedra de feição poderiamos proporcionar-lhe para o _aperfeiçoamento_ da sua obra, porque o nosso livro lhe atirava a terra com os alicerces em que se firmava o edificio... ou monumento erguido ao falso _Crisfal_.
Foi um castelo de cartas que um sopro deitou ao chão...
Oh! os estudos de investigação histórica são realmente... umas teclas muito complicadas!
*3*
«Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Não escrevemos tal no prólogo do nosso livro que o snr. dr. Theóphilo Braga aproveitaria d'ele _tudo quanto se prestasse a futuras emendas_.
O que nós escrevemos a pag. 24 do nosso estudo sobre Bernardim é o período que segue:
«Embora, em resultado da nossa descoberta, o snr. dr. Theóphilo Braga tenha de refundir mais uma vez os seus trabalhos sobre Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda, estamos plenamente convencidos de que ninguem estimará mais do que o incansavel professor do Curso Superior de Letras a luz derramada sobre a figura do grande poeta bucolista, amigo de Francisco de Sá.»
Nas linhas transcritas, o que havia da nossa parte era um cumprimento de cortesia,--uma gentileza, uma amabilidade, própria de quem, não tendo qualquer agravo do snr. dr. Theóphilo Braga, procurava colocar s. ex.^a em bom terreno, oferecendo lhe, por assim dizer, uma ponte, uma táboa de salvação, pela qual, sem quebra de linha, o escritor consagrado pudesse atravessar, reconhecendo, ou fingindo reconhecer, o mau terreno que estava pisando, e abraçando honestamente a verdade evidenciada.
Era um cumprimento, repetimos; não um acto de justiça, que a ele não tinha jus o infátigo escritor. E da mesma natureza, no decurso do nosso trabalho, outras demonstrações de cortesia ficaram assinaladas, prestando homenagem á vida laboriosa do escritor encanecido cujos erros combatiamos.
Mas como as amabilidades se agradecem, e os actos de justiça não são credores de qualquer agradecimento, aprouve ao snr. dr. Th. Braga ver nas nossas palavras um acto de justiça.
Não lhe queremos mal por isso, pode crer o venerado professor.
Cada qual segue os impulsos do seu temperamento.
*4*
«Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, sendo ambos muito crianças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Quando chegámos a esta altura da preciosa carta do snr. dr. Theóphilo Braga ficamos verdadeiramente surpreendidos, para não dizer boquiabertos!
Lemos e tornamos a ler o período transcrito, pesamos detida e pacientemente cada uma das palavras que o constituem, e, ao cabo, alcançamos o convencimento de que uma tal afirmação constituia uma habilidade, um processo, uma engenhoca,--deixem chamar-lhe assim, embora o termo destôe, por menos académico,--a que o professor de literatura recorria para não confessar ter sido o nosso trabalho que o obrigava a aceitar o nascimento do suposto poeta no fim do primeiro quartel do seculo XVI.
Fôra pelas noticias genealogicas trazidas pelo snr. Braamcamp Freire sobre D. Maria Brandão que o snr. dr. Theóphilo Braga, conforme nos escrevia, se vira forçado a não insistir no nascimento do pseudo Crisfal no ano de 1497, se não antes!
Mas como podia isto ser, se o trabalho do ilustre escritor invocado pelo snr. dr. Theóphilo ainda não fôra dado á estampa?
Teria o professor do Curso Superior de Letras recebido qualquer comunicação sobre o assunto por parte do snr. Anselmo Braamcamp Freire?--Não, não tinha recebido, como o demonstram eloquentemente os seguintes períodos de uma carta que em 5 de dezembro de 1908 nos dirigiu, em resposta a uma nossa, o primoroso director do _Archivo Historico_:
«Vamos agora á sua pergunta de hoje originada pela carta do dr. Teofilo Braga. Elle não conhece nada do meu trabalho sobre a Maria Brandoa, e faça-me a justiça de crer que, não lho tendo mostrado a si, não o mostraria a mais ninguem. Não lho mostrei a si, porque nas 150 paginas já impressas, de que em breve lhe mandarei um exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos Brandões do _Cancioneiro_ e da Feitoria de Flandres.»
Depois da transcrição d'estas linhas, eloquentes e insuspeitas, do snr. Braamcamp Freire, tornam-se desnecessários de nossa parte quaesquer comentários á afirmação sem base do snr. dr. Theóphilo Braga.
Passemos adeante sobre este caso triste!
*5*
«Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as relações pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V. acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as relações com Cristovam Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim Ribeiro.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Pelo exposto, entende o snr. dr. Theóphilo Braga que nós lhe demos elementos para uma melhor interpretação das éclogas de Bernardim, o que importa implicitamente a afirmação de que não soubemos interpretá-las, ou que erramos a exegese com que julgavamos ter corrigido as lições ministradas pelo ilustre professor.
Aguardemos, pacientemente, que o snr. dr. Theóphilo Braga refunda mais uma vez o seu livro sobre Bernardim Ribeiro, para então apreciarmos as novas interpretações que o imaginoso historiador se propõe apresentar das éclogas de Bernardim, e ficarmos tambem conhecendo quaes os _centões e intercalações_ de versos de Ribeiro que o novel Falcão introduziu nas suas produções... em prosa, únicas que obrou. Obrou, no sentido de: produziu, claro está.
*6*
«Ha uma affirmativa histórica, de Diogo do Couto, na sua _Decada VIII_, que fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: «irmão de *Cristovam Falcão*, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas de Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Cristovam Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Cristovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se repete a attribuição «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, ho que parece alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos genealogistas.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
A habilidade, ou antes o processo habilidoso, ou, melhor, a tendenciosa redacção d'estes períodos não consegue iludir ninguem... Julgou talvez o snr. dr. Theóphilo Braga que nos desnortearia com esta subtileza de processos... críticos. Tal não conseguiu, como terá de reconhecer no foro íntimo da sua consciência.
Vamos por partes:
Foram os editores de Ferrara e Colónia que propagaram pela imprensa a lenda de que a paternidade da carta e ecloga de Crisfal era atribuida a Cristovam Falcão, e, fazendo-o, limitaram-se, com honestidade, a escrever: «que dizem ser... ao que parece aludir o nome da mesma ecloga». Ao contrário do que o snr. dr. Theóphilo Braga procura fazer incutir, tendenciosamente, os editores citados não repetiram uma atribuição de homens de letras do seculo XVI...
Os homens de letras do seculo XVI é que repetiram, fazendo-a certa, a atribuição feita com reservas pelos editores das obras de Bernardim Ribeiro em 1554 e 1559. Aceitaram por boa, sem se darem ao trabalho de a verificar, uma simples atoarda.
Quem eram os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro?
Di-lo, judiciosamente, o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que vamos analisando:
Eram «*curiosos sem critério literário*».
Será a estes obscuros obreiros do século XVI que o laureado professor quer guindar á categoria de homens de letras com foros de autoridades?
Não, os editores de 1554 e 1559 foram realmente creaturas sem o menor critério literário, e por isso deram alentos á lenda forjada pelo vulgo; mas não resta a menor dúvida de que eram pessoas de bem, porque consignaram uma _tradição vaga_, sem se atreverem a registá-la como um facto positivo, indiscutivel, incontroverso. A cobrir a sua responsabilidade de editores conscienciosos, lá estamparam: «que dizem ser... ao que parece aludir.» Outros fossem eles, que asseverassem que as duas produções, carta e écloga, pertenciam a Cristovam Falcão incontestavelmente, irrefragavelmente!
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga que os editores da obra de Bernardim Ribeiro, ao produzirem as rúbricas respeitantes ao suposto autor do Crisfal, mencionavam apenas uma atoarda, uma vaga tradição?
Não; o venerado professor não ignorava isso. Testemunha-o o que s. ex.^a escreveu a paginas 21 da sua chamada edição crítica das obras de... Cristovam Falcão:
*«As rubricas do editor de Colonia, encerram as tradições vagas, que, passados nove annos, ainda corriam ácerca d'aquelle infeliz namorado.»*
Para que veio pois o snr. dr. Theóphilo Braga asseverar que _tambem nas edições de Ferrara e de Colonia se repete a atribuição_?
Mais diz o apreciavel escritor que «não se podem refutar por negativa» as atribuições que Diogo do Couto e Frutuoso fizeram, repetindo _como certo_ o que os editores das obras de Bernardim registaram _sob reservas_.
Não se podem refutar por negativa, não; mas podem refutar-se cabalmente, pondo em confronto da obra poética atribuida a Cristovam Falcão a obra em prosa que ninguem ousará disputar ao suposto trovador.
E a admitir alguem, de reconhecida inteligência e critério, que o autor das cartas em prosa podia ser o poeta da Carta e da Ecloga de _Crisfal_, o mesmo equivaleria a aceitar como razoavel que Rosalino Candido pudesse firmar as obras do snr. dr. Theóphilo Braga, e que, consequentemente, o laureado professor de literatura fosse capaz de produzir a obra gigantesca de Victor Hugo.
É realmente desolador, para a fabula consagrada, que a Torre do Tombo conserve os autógrafos de Cristovam Falcão de Sousa!
*7*
«A ecloga de Crisfal não podia ser publicada pelo seu autor, nem pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_ de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Esta bizarra revelação do snr. dr. Theóphilo Braga constitue, naturalmente, uma desenfastiada brincadeira de s. ex.^a.
Pois qual é a obra _lírica_ onde se não encontrem _inconfidências_ semelhantes ás da ecloga de Crisfal?