Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal
Chapter 2
Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que não torci a meu bel-prazer a verdade, nem falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o dever moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justiça, antes de ir para o seio de uma agremiação, a que eu não pertenço, impor um desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu trabalho.
E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr. Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto é certo que s. ex.^a não desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.
Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de boa fé, quem lhe assegura que os argumentos de Bruno não conseguirão convencê-lo, já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal não conseguiram?
É tempo de pôr de parte o _magister dixit_, porque, felizmente, os processos crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são coisas que passaram á _historia_, e que não se ressuscitam já facilmente.
Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade na nossa _Lucta_ a esta minha carta, que representa o legítimo desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como tal tem jus a ser considerado.
Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,
De V. Ex.^a
amigo, admirador e obrigado
S/C, Lisboa, 3-12-908.
Delfim Guimarães.»
Com o espírito de rectidão que todos, amigos e adversários, são concordes em reconhecer ao snr. dr. Brito Camacho, o brilhante jornalista deu acolhimento benévolo á nossa carta, acrescentando-lhe as seguintes linhas de saudação ao professor do Curso Superior de Letras:
«O nosso ilustre correligionario dr. Theóphilo Braga tem as columnas d'este jornal ás suas ordens para dizer da sua justiça, como quizer. Trata-se d'uma questão de facto em historia literária, e não d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.»
Não correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga á gentileza do director da _Lucta_; e até para comnosco estamos persuadidos de que, desde o momento em que s. ex.^a viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito Camacho é a alma, o pontífice da _Litteratura Portugueza_ excomungou o intemerato jornalista. Que o dr. Camacho nos perdôe a excomunhão que, involuntariamente, lhe acarretamos!
Guardou silêncio o snr. dr. Theóphilo Braga durante semanas, mas não esteve inactivo, ao contrário do que muitos poderiam supor. Com todo o engenho e arte, s. ex.^a consagrou-se ao fabrico de uma peça, que não podemos classificar de literária, porque é a negação de todos os processos literários dignos de este nome, mas a que poderá caber a designação de produto de arte... culinária. Como _pastelão_, faria honra a um cozinheiro, mas cremos bem que o snr. dr. Theóphilo Braga deseja passar á posteridade como um discípulo fervoroso de Augusto Comte, e não como aprendiz ilustre da _sciência_ de Vatel.
A redacção do jornal _O Dia_, seguindo a praxe dos anos anteriores, honrou o snr. dr. Theóphilo Braga pedindo lhe um artigo sobre o movimento literário português em 1908, para o numero de 31 de dezembro d'esse ano. Como nunca, recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga jubilosamente o amavel convite. Tinha ensejo para impingir... o _pastelão_. Era o momento oportuno para respostar á nossa carta publicada na _Lucta_, sem nos dar a honra de deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confissão de que havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro procedimento por parte do snr. dr. Theóphilo Braga? Não, evidentemente. Pois não haviamos nós,--cúmulo das audácias!--ousado protestar contra a comunicação do presidente da Academia de Sciencias de Portugal?!
Reproduzimos do _Dia_ de 31 de dezembro do ano findo a parte do artigo do snr. Theóphilo Braga que diz respeito á questão literária suscitada pelo nosso livro:
«...No recente fasciculo (do Archivo historico português) ficou publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o _Maria Brandoa a do Crisfal_, por que o pae d'esta dama, que inspirou o amor e a Ecloga de Christovão Falcão, foi o pae d'ella, João Brandão Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo Gomes de Figueiredo.
Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta mesma inscrição: _Maria Brandoa a do Crisfal_; e nos livros dos linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandões Sanches, confundidos por vezes com os Brandões do Porto, com os de Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve em uma nota: «Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance _Menina e Moça_ d'aquelle auctor.» E accrescenta que o sr. Delfim Guimarães empenhado na interessante averiguação o consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.
Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu livro _Bernardim Ribeiro_--_o Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido da biographia do auctor da _Menina e Moça_, forçando interpretações de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de Christovam Falcão,--«dois poetas de temperamento semelhante, com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Christovão Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de _Crisfal_ indo buscar á tôa as palavras _Crisma falsa_, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. «Fez-se então uma grande luz no nosso espirito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falcão era o producto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo (![2]) ao anagrama _Crisfal_.» (Op. cit., p. 10). «Alcançada a convicção de que _Crisfal_ era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas producções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho de raciocinio não nos foi difficil deduzir a constituição do cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras _Crisma_ e _Falso_.»
E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves Vianna--honra a erudição portugueza,--ataca as fontes genealogicas d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir: «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome litterario do verdadeiro _Crisfal_, o doce, o inimitavel e inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes como o de _Pantaleão_ Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas?
Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a _Menina e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e até se acham no fim algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dic. Bibliog._)
Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia, reputava de alta importancia para a historia das lettras portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de outra individualidade.»
No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa, intercalava na sua prosa.»
Esta produção peregrina do snr. Dr. Theóphilo Braga veio publicada no jornal _O Dia_ com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras em _fac-simile_, e ainda bem, para que não se pudesse ajuizar tratar-se de uma brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse.
Quando lemos um tal documento, a primeira impressão que se apoderou de nós foi a de revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir esta--um sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mágoa...
E, sem prazer, pudemos constatar que a impressão que o snr. Dr. Theóphilo Braga deixára nos leitores inteligentes do seu tendencioso _Movimento Litterario_ era egual á nossa,--uma sincera mágoa.
Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados, e o nosso trabalho depreciado com tal rancor e má fé, que não podiamos ficar silenciosos.
No jornal a _Lucta_, do dia 3 de Janeiro d'este ano, como protesto, publicamos o artigo que vamos reproduzir:
*Os processos... scientíficos do snr. dr. Theóphilo Braga*
Não se dignou o sr. dr. Theóphilo Braga aceitar o oferecimento que o distinto jornalista que dirige _A Lucta_ lhe fez em 4 de dezembro ultimo: pondo á disposição de s. ex.^a as colunas deste diário, para que o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua justiça em face da carta que tive ensejo de dirigir ao meu bom amigo snr. dr. Brito Camacho, estampada n'este jornal, motivada pelo procedimento estranhavel seguido para comigo pelo snr. dr. Theóphilo Braga.
Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente silêncio, eis que o sr. dr. Theóphilo Braga, a pretexto de pôr os leitores do _Dia_ ao corrente do movimento literário no ano findo, com ares dogmáticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele jornal com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as conclusões do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro.
Não me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do snr. dr. Theóphilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso para o professor do Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma vez dois dos volumes da sua chamada edição integral da _Historia da Litteratura Portugueza_: «Sá de Miranda» e «Bernardim Ribeiro». Isto, junto ao conhecimento que possuo da maneira de ser do snr. dr. Theóphilo Braga, é para mim explicação bastante do seu ressentimento, que a prosa do infatigavel «carreador de materiaes» não consegue disfarçar.
A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um jornal da índole da _Lucta_.
Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve, algumas inexactidões flagrantes do artigo _Movimento litterario_, do snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a _correcção_ dos processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras.
Referindo-se ao ultimo tomo do _Archivo Historico_, a revista dirigida pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr. dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta _Crisfal_.
Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos ardilosamente engendrados:
«O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance _Menina e Moça_ d'aquelle auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.»
Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s. ex.^a gratuitamente lhe atribue.
Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem:
«O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no pleito e continuarei com a rotina.»
Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara as _bases_ em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente _as principaes bases_, e o consciencioso investigador não declarava que taes bases _não conseguiram demovê-lo da rotina_, mas sim que «em quanto não aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitasse sem apelação em julgado, _não lhe competia intervir no pleito e continuava com a rotina_».
Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia de correcção do ilustre escritor?--Para se servir, como de um escudo protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando, com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do _Archivo Historico_.
Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na 2.^a pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho, conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro _Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_.
Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova feita transitasse em julgado--muito embora isto pese ao snr. dr. Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr. Gonçalves Viana, achasse que o meu livro _Bernardim Ribeiro_ fazia honra á erudição portuguêsa.
Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a lendária amada do Crisfal, passara á historia...
Foi fazer companhia aos _cantos de ledino_...
Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos... scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente, intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no _Dia_.
É como segue:
«...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro capitulo, um dado importante para a biographia de *Maria Brandôa, já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de heroina da ecloga Crisfal*.»
Ás afirmações, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no _Diario da Tarde_, do Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (_Bruno_), refere-se tambem o snr. dr. Theóphilo Braga da seguinte maneira:
«No noticiario de outro jornal sairam afirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que afasta de todo a idéa de ironia».
O snr dr. Theóphilo Braga, referindo-se, com desdem, á _sinceridade inconsciente_ de Bruno, não nos magôa sómente a nós, que votamos uma grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das suas mais legítimas glórias.
Tristes processos está seguindo o snr. dr. Theóphilo Braga!
Delfim Guimarães
O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da _Lucta_ ao nosso artigo, nòvamente pôs o seu jornal á disposição do snr. dr. Theóphilo Braga, para que s. ex.^a, querendo, dissesse de sua justiça. O professor do Curso Superior de Letras não aceitou o oferecimento que pela segunda vez lhe era feito.
E, em verdade, que havia o autor do artigo _Movimento Litterário_ de dizer em contestação do libelo documentado que tinhamos produzido? Nenhuma justiça lhe assistia, e por consequência não ousou reclamar. Recolheu-se ao silêncio,--áquele prudentíssimo silêncio que se seguiu á publicação do notavel trabalho do Dr. Sílvio Romero sobre a _Patria Portuguêsa_.
No artigo que publicamos na _Lucta_, de 3 de janeiro do ano em curso, tomámos o compromisso de tratar em livro todos os pontos tocados pelo snr. dr. Theóphilo Braga no seu aranzel do _Dia_, com a largueza e documentação que o assunto exige, em homenagem á memória de Bernardim Ribeiro; pelo dever moral que nos impusemos de contribuir, quanto em nossas mingoadas forças caiba, para que justiça seja feita, embora tardia, a um dos mais belos temperamentos poéticos da nossa terra.
Uma lenda é fácil de forjar, e com facilidade toma corpo e lança raizes, obcecando muitas vezes os mais esclarecidos espíritos.
A nossa Historia Literária está cheia de lendas e embustes, graças aos Farias e Sousa e Bernardos de Brito. Mas a Verdade, superior a todas as lendas, e a todas as reputações de historiadores burlões e de críticos trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora isso leve anos, embora decorram séculos.
Na defeza da causa que prosseguimos, que é nobre e justa, não nos animam quaesquer intuitos de evidenciação, não nos move qualquer mesquinho sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos contribuir com o nosso esforço de modestos obreiros das letras para desfazer um erro que a ignorância engendrou, que a rotina não-te-ralesca impôs como um dogma, e que a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Theóphilo Braga persiste em sustentar, a torto, que não a direito, impondo-o autocraticamente a quantos vêem no professor do Curso Superior de Letras o pontífice máximo, ditador inviolavel e sagrado da Republica... das letras portuguêsas.
II
O snr. dr. Theóphilo Braga, descobrindo a verdade, e procurando enterrá-la
Ao preparar os materiaes para a refundição de seu livro sobre Bernardim Ribeiro, o snr. dr. Theóphilo Braga teve ensejo de reconhecer que a figura do _trovador_ Cristovam Falcão era mero produto de uma lenda, mas não teve a coragem precisa para vir a público declarar que tinha errado ao dar á estampa o seu primeiro volume sobre os poetas bucolistas, em que, seguindo a rotina, dera existência real ao suposto poeta, que já havia classificado de *ultimo eco do alaúde provençal, modificado pelo gosto hespanhol de Padron e Stuniga*.[3]
E não querendo confessar que errara, como se semelhante facto constituisse desdoiro ou apoucasse de qualquer fórma seus méritos, o autor do livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ procurou, por um processo que não nos atrevemos a chamar genial, enterrar a verdade, sepultando-a sob um pedregulho enorme, para que ali dormisse um sono de séculos, tantos séculos pelo menos como a lenda contava, para que, assim, ninguem pudesse aludir ao erro em que se deixara enredar o professor do Curso Superior de Letras.
Como o snr. dr. Theóphilo Braga procedeu, vão os leitores conhecer, e depois ficarão habilitados a julgar da sinceridade com que o infatigavel escritor impugna o nosso livro sobre o poeta _Crisfal_.
A pag. 356/7 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, na parte respeitante a Cristovam Falcão, escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga:
*«O primeiro documento historico que encontramos acerca do poeta, de um modo irrefragavel, é datado de 1517; é uma graça régia motivada talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraçada paixão, ou apparentemente pelos serviços de seu pae. Em um alvará ao Almoxarife de Coimbra foi passada ordem para que dê o rendimento d'este anno de 1517 a Christovam Falcão: 97:000 réis. Recebeu-os o seu procurador Mestre Jorge.»*