Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

Chapter 1

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*Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Maio 2008)

Theóphilo Braga

E

A LENDA DO CRISFAL

Obras de Delfim Guimarães

PROSA:

*Alma dorida*, com prefácio de Teixeira Bastos, 1 vol broch. 500 réis

*A Viagem por terra do snr. João Penha*, (crítica literária) 1 folh. 100 »

*O Rosquedo* (Scenas da vida de província). Esgot.^o

*Ares do Minho* (Contos) 1 vol. broch. 200 réis

*Bernardim Ribeiro*: O poeta Crisfal (Subsídios para a Historia da literatura portuguêsa) 1 vol. broch. 800 »

EM PREPARAÇÃO:

*Luis de Camões.--Diogo Bernardes.*

VERSO:

*Lisboa Negra*, 1 fol. 200 »

*Confidencias*, 1 vol. broch. 400 »

*Evangelho*, 1 vol. 400 »

*Não! Mil vezes não!* 1 fol. 200 »

*Sim! Mil vezes sim!* 1 fol. 100 »

*Sonho Garretteano* Esgot.^o

*A Virgem do Castelo*, (2.^a edição) 1 fol. 100 reis

*Outonaes*, 1 vol. broch. 500 »

NO PRELO:

*Flores do mal* (interpretação em versos portuguêses de poesias de Carlos Baudelaire)

TEATRO:

*Aldeia na Côrte*, drama em 3 actos, de colaboração com D. João da Camara, representado no D. Amelia, 1 vol. broch. 500 réis

*Juramento Sagrado*, comedia n'um acto em verso, representada no D. Maria II, 1 fol. 200 »

A PUBLICAR:

*Domingo de Páscoa*, peça de costumes minhotos.

OUTROS TRABALHOS:

*A Dama das Camelias*, de _Dumas, filho_ (tradução), 1 vol. broch. 200 réis

*Saudades*, (História de Menina e moça), de _Bernardim Ribeiro_, edição revista (vol. 29 da Colecção Horas de Leitura) 200 »

*Trovas de Crisfal*, de _Bernardim Ribeiro_, edição revista 300 »

*Versos portuguêses*, de _Sá de Miranda_, edição revista 500 »

DELFIM GUIMARÃES

Theóphilo Braga

E

A Lenda do Crisfal

1909 Livraria Editora GUIMARÃES & C.^a 68, Rua de S. Roque, 70 LISBOA

THEÓPHILO BRAGA E A LENDA DO CRISFAL

I

Razão de ser d'este livro

Quando em maio de 1908 tornamos pública a conclusão a que haviamos chegado de ser _Crisfal_ um pseudónimo do autor da _Menina e moça_, como procurámos demonstrar no volume recentemente dado á estampa: *Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), tinhamos o convencimento pleno de que uma tal nova, divulgada pela imprensa, seria bem acolhida por quantos se interessam pelo estudo da nossa História literária, com excepção apenas do snr. dr. Theóphilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas sentenças, nem vê com bons olhos que outros, que não s. ex.^a, encarem problemas que se prendam com a História da literatura portuguêsa.

E n'este caso do _Poeta Crisfal_, mais do que em nenhum outro, o snr. dr. Theóphilo Braga não desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que teremos ocasião de apontar no decurso d'este livro.

Não contavamos com o acolhimento benévolo do infatigavel escritor. Para fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos, tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforço pouco generoso do snr. dr. Theóphilo Braga para com a memória d'esse desventurado que se chamou Antero,--porque o poeta incomparavel dos _Sonetos_ ousara flagelar o dogmatismo scientífico do antigo camarada universitário; o fel que o plumitivo da *Historia da Litteratura* deixa transparecer nas apreciações com que, baldadamente, procura amesquinhar a figura gigantesca de Herculano,--porque o insigne historiador nacional jàmais se associou aos turibulários do filósofo comtista (sem calemburgo);--o desdem com que o professor de literatura apoda, soberanamente, de _gramático_, o distinto romanista, snr. Epiphánio Dias,--por este haver despedaçado, com a autoridade do seu nome, aquela invenção alegre dos _cantos de ledino_, em que o snr. dr. Theóphilo continua a persistir, apesar de tudo, com manifesta falta de sinceridade.

Mas não ignorando taes precedentes, e conhecendo que o estudo que iamos apresentar ao público não deixaria de nos acarretar a má vontade do autor da _História da Litteratura Portugueza_, nem por um momento hesitamos em levar a bom termo o nosso trabalho, tendo em atenção tam sòmente que se tratava de desfazer uma lenda, estúpida como tantas outras lendas, que privava de parte da glória a que tinha jus o nome aureolado de um dos maiores poetas portuguêses, o delicado e inditoso Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim.

Derruíamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas erguiamos a um pedestal mais grandioso e altívolo a figura amoravel do grande bucolista.

A literatura portuguêsa só ganhava com a descoberta. Que, se alguma cousa perdesse, era sobeja compensação o que se conquistava para a verdade histórica...

Mas a proclamação de uma tal verdade ia prejudicar um livro, ou livros, do snr. dr. Theóphilo Braga... Não havia dúvida. Que importava isso? Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da Écloga de _Crisfal_, não valeria a pena sacrificar uma das muitas produções do operoso escritor?

Bernardim Ribeiro é um dos astros fulgurantes da rútila constelação que brilha, intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. Já conta alguns séculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor...

Após a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu _Diario de Noticias_, dando conta dos nossos trabalhos de investigação, que punham termo á lenda de _Crisfal_, tivemos a ventura de ver que o snr. José Pereira Sampaio (_Bruno_) havia chegado a conclusão idêntica á nossa, como foi registado n'um brilhante artigo de João Grave no _Diario da Tarde_, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de _Bruno_, reproduzida no jornal citado, em que o prestigioso publicista, com a reconhecida autoridade do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava de maneira absoluta que estavamos com a verdade; que o _trovador_ Cristovam Falcão era simples produto de uma lenda, que o criptónimo _Crisfal_ pertencia a Bernardim Ribeiro.

Do artigo do nosso camarada João Grave, e da carta do ilustre escritor snr. José Sampaio, não faremos citações n'esta altura. Ambos os preciosos documentos se encontram integralmente exarados no nosso livro _Bernardim Ribeiro_. Não os desconhecem, por certo, aqueles que nos dão a honra da leitura d'este trabalho.

Como recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga essas comunicações do _Diario de Noticias_, de Lisboa, e do _Diario da Tarde_, do Porto?

--Passando a José Pereira Sampaio (_Bruno_), e a nós outros, um diploma de ignorantes!

Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal _A Epoca_ a secção que o escritor snr. Silva Pinto tinha a seu cargo, e que n'essa data estampava, reproduzida do _Diario da Tarde_ do Porto, a seguinte carta do snr. dr. Theóphilo Braga:

_«Meu caro João Grave_:--Encantou-me o favor da sua carta, communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho amigo e luminoso critico José Sampaio sobre a apochryficidade do auctor do «Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato Delfim Guimarães. É sempre boa a vindicação d'uma verdade em qualquer campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma conquista, d'um triumpho.

Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é realidade demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim Guimarães, sobre a identidade de Christovam Falcão em Bernardim Ribeiro. *Isso, porém, não passa d'uma miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos*[1].

Diogo do Couto falla em Christovam Falcão como celebrado auctor do «Crisfal», quando narra factos praticados por seu irmão Damião de Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India, inventava-lhe um irmão? E tendo sido impresso o «Crisfal» sem nome d'auctor, (no _pliego-suelto_ da Bibliotheca Nacional de Lisboa) dava-o como auctor d'essa celebrada écloga a capricho seu? O Padre Antonio Cordeiro, na «Historia Insulana», (resumo das «Saudades da terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões) tambem faz as mesmas referencias ao _poeta_ Christovam Falcão. E a edição de Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome? E Frei Bernardo de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda parte do «Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D. Maria Brandão, a namorada d'este poeta do «Crisfal».

Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a lume os seus resultados. A vantagem é de nós todos.

Com um abraço do seu, etc.

Theophilo Braga.»

Para o professor do Curso Superior de Letras, a conclusão a que, tanto _Bruno_ como nós, haviamos chegado, não passava *d'uma miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos*, e esta sentença autoritária vinha a público quando o snr. dr. Theóphilo Braga ignorava em absoluto quaes os argumentos com que nós e o insigne publicista nosso conterráneo procurariamos fazer vingar nossas teses.

Magoou-nos a impertinência, confessamos, e não resistimos a manifestar publicamente a impressão em nós produzida pela prosa do snr. dr. Theóphilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta a João Grave, que este distinto jornalista fez inserir no numero de 1 de junho do _Diario da Tarde_:

«_Meu prezado camarada João Grave_:--Acabo de ler, reproduzida por Silva Pinto na «Epoca», a carta que o snr. dr. Theóphilo Braga dirigiu ao meu caro João Grave a propósito do trabalho que preparo, em que me proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente um anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por conseguinte a este lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a Cristovam Falcão.

O nosso bom amigo e erudito escritor José Pereira Sampaio--_Bruno_--, como se viu da interessante carta que estampou no «Diario da Tarde», como complemento ao artigo que o meu caro João Grave publicou sobre o assunto, chegara a conclusões eguaes, e para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu concurso.

Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se isto uma «_miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos_», que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de Brito.

Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de dizer no seu jornal que conheço perfeitamente os _recursos históricos_ a que alude o incansavel historiador da _Litteratura Portugueza_, como não podia deixar de conhecer pela leitura das edições do «Bernardim Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga.

Que Bruno não ignora nenhum d'esses _recursos_, estou convicto, que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga póde ter dúvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao justificado nome literário de José Sampaio.

Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo nenhum eu vou sustentar que não existiram vários _cavalheiros_ com o nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem existido não tomaria vulto até aos nossos dias a lenda do «Crisfal»!

Não o enfado mais.

Creia-me, com verdadeira estima,

seu amigo, adm.^{dor} e obg.^{do}

S/C. Lisboa, 29-maio/90.

Delfim Guimarães.»

A _Bruno_ tambem não passou despercebido o _amavel_ diploma do professor do Curso Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu melindrado prova-o suficientemente a carta que dirigiu a João Grave, e que, confiados na benevolência do sr. José Pereira Sampaio, vamos trasladar das colunas do jornal _A Epoca_, que a reproduziu do _Diario da Tarde_:

«_Meu caro João Grave_:--Novamente o venho importunar, pois entendo que, perante a carta, aliás tão bondosa e honrosa para mim, do dr. Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar em publico, ainda uma vez, que após o apparecimento do livro de Delfim Guimarães, defendendo a propozição de que Christovam Falcão não é mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V. na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que refutarei ahi cabalmente as asserções, na sua carta de hontem no «Diario da Tarde», pelo nosso doutissimo confrade e illustre publicista produzidas, mostrando então, com todo o respeito devido a tão indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de Delfim Guimarães) não é tal uma miragem e que, pelo contrario, o ensino corrente no assumpto é que é inteiramente phantastico e chimerico.

A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.

Todo seu

Porto, 27 de Maio de 1908.

José Pereira Sampaio (Bruno).»

O snr. dr. Theóphilo Braga achou que era prudente não voltar á estacada, e assim deixou passar em julgado a nossa carta e aquela em que o snr. José Sampaio, por uma fórma categórica, visando directamente as lições ministradas pelo professor de literatura, declarava que o ensino corrente sobre Cristovam Falcão era _inteiramente phantastico e chimerico_.

Na elaboração do livro: *Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_) obedecemos ao propósito de não converter o nosso trabalho n'uma diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a situação em que eramos forçados a colocar o snr. dr. Theóphilo Braga, em obediência á verdade, e não porque nos animasse qualquer desejo de ser desagradaveis ao infatigavel vulgarizador. E, procedendo assim, entendiamos cumprir um dever, que tinha sobeja justificação nos cabelos brancos do professor do Curso Superior de Letras, cuja primeira edição do seu _Bernardim Ribeiro_ coincidiu com o ano do nosso nascimento. Não esquecemos nunca que fomos educados no respeito devido á velhice.

No trabalho da revisão das provas do nosso estudo, em que fomos auxiliados pela prestante amizade de Henrique Marques, mais de uma vez modificámos referências feitas ao professor que contraditavamos, e sempre da melhor vontade substituiamos um adjectivo, suavizavamos a saliência de um erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique Marques, com o seu apreciavel critério, nos fazia notar que uma palavra, uma frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr. dr. Theóphilo Braga.

Queriamos fazer vingar uma obra de justiça; não era nosso intento agravar quem quer que fosse.

E que não fomos descortêses, nem violentos, nem injustos, para com o professor que contraditavamos, prova-o o testemunho insuspeito do eminente publicista snr. José Caldas, que nos honrou com uma carta penhorantíssima, de que reproduziremos neste lugar algumas linhas:

«*A delicadeza das suas referencias, com relação aos auctôres cujas conclusões não acceita ou impugna, é verdadeiramente modelar.*»

Se houvessemos sido menos cortêses para com o snr. dr. Theóphilo Braga, s. ex.^a não se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o professor do Curso Superior de Letras escreveu-nos a agradecer o livro, embora na sua carta transpareça o despeito que lhe produziu o nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vários erros contidos em volumes da _Historia da Litteratura Portugueza_.

Registâmos aqui essa carta do snr. dr. Theóphilo Braga, que não deixa de constituir um documento interessante para aqueles que seguirem com atenção a marcha dos acontecimentos provocados pela pendência literária em que estamos envolvidos.

É, textualmente, como segue:

«Lisboa, 25 de Novembro de 1908

_...sr. Delfim Guimarães e meu presadissimo amigo_

Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que apresenta o seu processo para a identificação do poeta Bernardim Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de ler immediatamente o seu livro, para vêr que materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam Falcão amou, sendo ambos muito creanças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de continuar a admittir as relações pessoaes de Christovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V., acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as relações com Christovam Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa historica, de Diogo do Couto, na sua _Decada VIII_, que, fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: «irmão de *Christovam Falcão*, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Christovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario se repete a attribuição «_que dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos genealogistas. A Ecloga do Crisfal não podia ser publicada pelo seu auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_ de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada. A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Christovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em 1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do _Crisfal_, que então, andava no gosto. Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma _inconfidencia_. Isto leva a explicar como Christovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em situações differentes. Através de todo o hypercriticismo o livro sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me veio revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga _Alexo_ assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante estudo, sou

admirador obr.^{mo} e amigo

Theophilo Braga»

Começa a carta do snr. dr. Theóphilo Braga por um _rebuçado de ovos_: o tratamento de «prezadissimo amigo», que não tinha qualquer justificação... Isto é, tinha uma justificação única, qual era a de nos adoçar a bôca, para engulirmos sem relutância aquela amargosa pílula com que fecha a epístola de s. ex.^a, quando, com generosa magnanimidade, confessa que o nosso livro _revelou um trabalhador fervoroso_, que ao professor do Curso Superior de Letras foi _revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no Porto_, e que em Lisboa _descobriu o texto precioso da ecloga_ *Alexo* _assignada por Sá de Miranda_.

E, graças a estas _revelações-revelativas_, a que não ligavamos importância de maior, o historiador da *Litteratura Portugueza* felicitava-nos pelo nosso _importante estudo_, que, volvidas algumas semanas, havia de classificar de fruto de _processos á tôa_!

Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr. dr. Theóphilo Braga.

Por agora, continuemos na catalogação das peças d'este processo, para que os leitores julguem da justiça que nos cabe, e avaliem da sinceridade, da correcção, e dos processos do professor intangivel.

No jornal _O Mundo_, de 3 de dezembro de 1908, na local consagrada á sessão da Academia das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos que o snr. dr. Theóphilo Braga fizera uma comunicação, que outra cousa não era senão um desmentido formal e gratuito ás conclusões do nosso livro,--mas sem a mais leve citação ao nosso obscuro nome, sem a menor referência ao nosso desluzido trabalho, embora aproveitando-lhe os subsídios. Comprehende-se: o ilustre académico não desejava contribuir de modo nenhum para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao volume sobre o _Poeta Crisfal_.

Transcrevemos do _Mundo_ o periodo referente a tal comunicação... scientífica:

«...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão, mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já edoso; evidencia como na Ecloga transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jàmais confundir-se».

Ante este procedimento do nosso _prezadissimo amigo_, não pudemos ficar silenciosos, e, como um desforço legítimo, inadiavel, apelamos para o snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas colunas da _Lucta_ a seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero de 4 de dezembro do seu diário:

_«Ex.^{mo} Snr. Dr. Brito Camacho, meu prezado amigo:_

Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se passou na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi que o snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse, procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro, e insistindo na lenda do _poeta_ Cristovam Falcão de Sousa.

Não me admira que o original autor da «Historia da Litteratura Portugueza» persista n'um erro crasso, só para não se confessar vencido, porque já o caso engraçadíssimo dos _cantos de ledino_ era precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de reconhecer publicamente que errou. Está no seu direito, e ninguem lh'o contesta.