Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo
Chapter 7
É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa, se acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella haver descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a sua honra purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.--O homem que matou teu pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens de D. Affonso Henriques, é D. Pedro Framariz.
D. MENDO
D. Pedro! Jesus, meu Deus!...--Elle!.. não minha mãi, isso não póde ser.
D. GONTRADE
Hesitas?
D. MENDO
O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto entre os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes defensores da fé.
D. GONTRADE
O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente D. Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada, em quanto em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os principios da honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.»
D. MENDO
Mais tarde; ainda não...
D. GONTRADE
Hoje... agora.--Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal no coração de teu pai... de meu marido.--Foi uma noite horrivel... uma noite de sangue e infamia!
D. MENDO
Assassino!... eu!...--Minha mãe, a vingança é um crime covarde e miseravel. Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz do dia, diante de todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas trevas escorrega cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes de um homem desarmado, só merece desprezo.
D. GONTRADE
A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de seu pai.
D. MENDO
E Violante?...
D. GONTRADE
Entre ti e ella ha um cadaver.
D. MENDO
Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo.
D. GONTRADE
Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle...
D. MENDO
Que Violante não veja... que não o saiba!
D. GONTRADE
Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes...
D. MENDO
Não posso... Aquelle anjo!--Pois eu hei de ser odiado por Violante! (_Com muita desesperação._)
D. GONTRADE
A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (_Dando o punhal a D. Mendo, que o recebe com terror_) Vinga a morte de teu pai, ou sê maldicto! (_Sáe._)
SCENA VI
_D. Mendo, só_
D. MENDO
Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me salvaes, que salvaes vosso filho! (_Olhando para o punhal._) Este sangue ha de ser lavado com outro sangue?! Assim o exige a honra de uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de um homem, dar-vos-hei todo o meu! (_Chorando._) Se as lagrimas de um filho podem lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre elle em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse mundo mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da morte, tambem ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um bando de feras? Essas paixões duram a eternidade? Onde está o descanço, aonde está a paz? Onde existe o ceu?--Ai! Quem me livra deste martyrio? Quem salva a minha honra? Quem dá força á minha alma, para que se não perca... para que não renegue a Deus?!
SCENA VII
_D. Mendo e Fr. Bermudo_
FR. BERMUDO
Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração, parece-nos impossivel que o coração a possa conter, que o coração não estale.
D. MENDO
Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do assassino de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não tenho animo de executar.
FR. BERMUDO
Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.--É o ultimo sacrificio que faço ás malditas paixões humanas: faço-o com horror, mas não quero que tu sejas odiado pela candida Violante. Esse odio matal-a-hia a ella!
D. MENDO
Como te hei de confiar uma vingança que é só minha?
FR. BERMUDO
Eu tambem tenho direito de a tomar para mim.
D. MENDO
Porque?!
FR. BERMUDO
Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra para ti ceder-me essa vingança.
D. MENDO
E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união.
FR. BERMUDO
Não te disse que Violante não podia ser tua?
D. MENDO
Que hei-de fazer?
FR. BERMUDO
Esquecel-a... se fôr possivel.
D. MENDO
Não, não... não posso... não é possivel.
FR. BERMUDO
Pobre de ti, que a amas tambem!
D. MENDO
E ella?... Se morrer, meu Deus!
FR. BERMUDO
A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...--Que morra ao menos com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que importa? Esse odio fará mais miseravel ainda quem do mundo só conheceu os amargores. Que importa?
D. MENDO
(_Chorando._) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em que ha tanta dor, e tanta miseria!....--Oh! A minha felicidade, as minhas esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai caiu sobre mim, e tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o homem por escarneo...
FR. BERMUDO
(_Pondo-lhe a mão na boca._) Calla-te, não blasfemes.
D. MENDO
(_Abatido._) Não... não devo blasfemar porque vou morrer.
FR. BERMUDO
Não percas assim o animo, homem.--A alma é infinita nas suas forças, inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo, acorda, toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes.
D. MENDO
A minha morreu de todo!
FR. BERMUDO
Ha homens que teem padecido tanto... muito mais do que tu, e que soffrem ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou odio, vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o espirito não póde suportar. O homem crê na sua propria immortalidade, porque quando o corpo está a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva o pensamento, e as paixões. Tens a gloria ainda, Mendo. Tens a fé...
D. MENDO
Essa!... Não sei... (_Pauza._) Tenho fé, tenho.
FR. BERMUDO
Tens um allivio, uma esperança--então bemdicta seja ella.--Deixa-me para mim essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na desesperação, se tu lhe assassinasses seu pae.
D. MENDO
(_Dando-lhe o punhal._)Ahi tens esse punhal... É um presente maldicto, esse que te dou.
FR. BERMUDO
(_Beijando o punhal._) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (_Á parte._) Terei eu n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?--Irmão, meu irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças, meu irmão!
D. MENDO
Que tens?
FR. BERMUDO
(_Tranquillo._) Ámanhã teu pai estará vingado.
D. MENDO
Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...--Desgraçado de mim!
FR. BERMUDO
E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me inspire... Sou fraco, sou um um fraco (_Entra para a capella do fundo, e vae ajoelhar deante do altar_).
SCENA VIII
_D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante, D. Pedro Framariz, Damas, e Cavalleiros da Côrte_
D. MENDO
E eu tambem, já nem tenho alento para viver!--Ó minha fé, minha fé, accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel.
D. AFFONSO
(_Entrando._) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia da victoria. (_Aos cavalleiros._) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha D. Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes.
D. MENDO
Não posso acceital-a... não posso!... (_Cahindo de joelhos._) Violante!... Perdão!...
D. VIOLANTE
(_Desmaiando._) Mendo!
D. AFFONSO
O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade agora?
FR. BERMUDO
(_Á porta da capella apontando para o altar._) A vontade do céu.
FIM DO 3.º ACTO.
ACTO QUARTO
_A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns instrumentos de alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito; outra ao fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a scena._
SCENA I
_Frei Bermudo (Só.)_
FR. BERMUDO
(_Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando._) Os espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros. Accompanham-os essas harmonias infinitas das constellações, que os sentidos imperfeitos dos habitantes da terra não podem ouvir, mas que a rasão atrevida ousa advinhar e comprehender. Caminham pelo céu os espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo vão escrevendo com as estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr claramente essas phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como a existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de que no ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde duvidar?... Eu, eu mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da astrologia. Pois o homem merece que os espiritos superiores escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega a nossa ignorancia e nada mais.--O homem, em vigilias longas e virtiginosas, gasta a vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a pureza de espirito, mas não penetra o segredo d'essas palavras, lançadas no céu pelos poderes da natureza. (_Pauza._) Caminha, ó minha pallida estrella, caminha... caminha astro de funebre agouro; que em breve marcarás a hora mais fatal da minha existencia.--(_Longa pausa; calla-se a orquestra_). Hoje maldicto... hoje serei amaldiçoado por Violante.--Tomei para mim esta tremenda vingança... heide ser eu o assassino de D. Pedro, do pai de Violante.--Se ao menos esta vingança podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz, depois o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!--Ai! Que dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que os separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um abismo a minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões.. a amizade, a vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica, exclusiva. Um desejo de vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se houvera nascido no coração de um cadaver. Um amor... um amor que pode fazer esquecer a vingança... que pode esquecer-se a si proprio para só desejar a felicidade d'aquella a quem se consagra.--Ó Violante... quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu não odeies o homem que te captivou o coração. (_Silencio; ouve-se de novo a orquestra muito longiquamente até ao fim do monologo._) Se nesses livros, onde homens orgulhosos escreveram o que elles chamavam a sua sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!... Se eu podesse criar um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo poder do pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado! Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum poder, nem mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um desses espiritos superiores, para lhe fallar, para saber delle os mysterios do material e do immaterial... (_Com abatimento._) para saber quando ha de acabar este padecer, esta minha vida.
SCENA II
_Fr. Bermudo e D. Violante_
D. VIOLANTE
(_Entrando toda vestida de branco._) Fr. Bermudo.
FR. BERMUDO
Um espirito... um anjo... falla... falla...
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo, escutae-me.
FR. BERMUDO
Violante! aqui!
D. VIOLANTE
Vim para vos pedir a paz... o repouzo, o que só me póde salvar, o que vós só me podeis dar.
FR. BERMUDO
(_Baixo._) Que sinto, meu Deus?... Que dor, e que alegria me dilaceram aqui o peito?... (_Alto._) Dizei, sr.ª D. Violante, que quereis de mim?
D. VIOLANTE
Venho pedir-vos...--Escutai-me. Já sei tudo, conheço o que para sempre me separa de Mendo. Sei que esse que para mim era a alegria e a vida perdi-o para sempre... e talvez que nem por elle seja amada já; eu a filha do homem que...--Horrenda idéa!--Perder uma felicidade tão grande, assim de repente, é uma dor com que não pode este coração--Fr. Bermudo, sois forte, tendes uma alma superior a estas fraquezas do mundo... A minha alma não é assim. Uma pobre mulher, como eu, tem um espirito fraco, e que não pode resistir á dor extrema...
FR. BERMUDO
Que quereis... que quereis de mim, D. Violante?
D. VIOLANTE
Quero o que não me dareis talvez. Mas estou resolvida... Nada me pode fazer mudar de resolução, porque não é a vontade que me impelle, é o desalento; não é a força, é um abatimento desanimador; não é a desesperação é a esperança de acabar com um martyrio com que não posso.
FR. BERMUDO
Assustam-me essas palavras!
D. VIOLANTE
A vida é impossivel assim.--Fr. Bermudo, estou decidida a morrer.
FR. BERMUDO
Violante... Que dizeis?
D. VIOLANTE
Mendo acabou, morreu para mim..--E sem luz, e sem alivio, que vida seria esta minha!?--Uma existencia nas trevas, sem esperança nem consolação.
FR. BERMUDO
Como tem sido sempre esta minha... Perdão, D. Violante.--Que vos importam a vós os meus padecimentos?
D. VIOLANTE
(_Com alegria._ ) Sabeis o que é uma dôr, dessas que matam? Julgava encontrar em vós um ente superior aos homens, e tinha medo. Mas agora... posso fallar-vos da minha dôr, pedir-vos... a morte, que desejo, que espero; porque é a paz para o coração.
FR. BERMUDO
Tende animo, paciencia, resignação; se o mundo se fechou para vós, ficavam-vos abertas as portas da igreja, onde ha consolações para todos.
D. VIOLANTE
A oração é consoladora; a fé póde dar allivío ás grandes magoas; mas para orar é preciso pensar em Deus, para ter fé, é preciso força na alma e eu só penso em Mendo, e na minha alma não ha senão desalento.
FR. BERMUDO
Mendo tambem vos amava muito; e daqui a horas fará voto, na ordem dos Templarios, de consagrar a vida ao serviço de Jesus-Christo.
D. VIOLANTE
Mendo é homem, tem força no coração. A dôr--bemdicto seja Deus!--não lhe matou a alma, como a mim.--Olhae, fr. Bermudo, eu já não posso viver, e a morte não me faz horror, antes a amo, e a desejo. Mas o que me assusta é a dôr; é a idéa de me sentir rasgar o coração com um ferro, ou ficar dilacerada ao deitar-me n'um precipicio, que me repugna.--São isto sentimentos que um homem como vós, de coração forte, não póde comprehender talvez!
FR. BERMUDO
Eu comprehendo, e respeito esses sentimentos.--As obras de Deus, a belleza e a graça, só a mão sacrilega de um barbaro as póde destruir sem horror.
D. VIOLANTE
Não seria possível alcançar, por um desses venenos que a sciencia tem descoberto, uma morte, sem dôr, e sem agonia?
FR. BERMUDO
Ha... talvez.
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo, é um desses venenos, que eu venho pedir-vos.
FR. BERMUDO
Eu... pois eu hei-de dar-vos a morte?
D. VIOLANTE
Não é a morte, é a paz; é o termo desta dor infinita, que me dilacera. Por piedade dae-me esse veneno... senão, irei buscar a morte n'um precipicio, ou n'um punhal.
FR. BERMUDO
(_Meditando._) Tem rasão... Tendes rasão, Violante. E hei de ser quem lhe dê a morte... Eu que a amo!
D. VIOLANTE
(_Com horror._) Que dizeis?... Vós!... (_Querendo fugir._) Virgem Maria!
FR. BERMUDO
(_Detendo-a._) Ficae, Violante, ficae.--Este amor é como a vaga esperança, o suave pressentimento, a doce attração que a alma tem para as bellezas do ceu.
D. VIOLANTE
Não sou eu só a padecer no mundo, meu Deus!--Se esse amor é, como dizeis, triste, e sem esperança, como é agora a minha existencia, deveis intender, fr. Bermudo, o padecer, a angustia da minha alma; e não podeis, não deveis recusar-me o que vos pedi.
FR. BERMUDO
O suicidio é um crime, Violante.
D. VIOLANTE
Antes o suicidio do que renegar a Deus... E esta dor far-me-ha duvidar da misericordia divina.
FR. BERMUDO
Um crime, que Deus, não perdôa, talvez.
D. VIOLANTE
Deus tudo póde perdoar, porque a sua bondade é superior a todos os crimes dos homens.--Não me deixeis mais tempo neste martyrio! Fr. Bermudo, pela minha alma, por esse amor, por esse vosso amor, que é tão puro e tão sublime, vos peço a paz. Quero morrer, sem uma longa, sem uma dolorosa agonia.
FR. BERMUDO
(_Dando-lhe um dos frascos que tem sobre a meza._) Aqui tendes um penhor do amor... do amor, que morreu já.--Agora acabou tudo para nós... acabou tudo para mim!
D. VIOLANTE
(_Pegando no frasco._) É a paz que me daes.. Irei esperar por elle no ceu!... Deus hade perdoar-me este crime Padre, não reveleis este segredo a ninguem.
FR. BERMUDO
Não.--É meu. (_D. Violante vae para sahir._)
FR. BERMUDO
(_Com anciedade._) Violante, não me direis ao menos uma palavra?!
D. VIOLANTE
Deus vos dê o descanço da morte. (_Sáe._)
SCENA III
FR. BERMUDO _(só)_
O descanço da morte...--Porque não tenho eu ousado buscal-o já, para pôr termo a esta agonia do espirito, em que ando ha dez annos?--Não sei que poder me prende á vida. É medo... é medo do segredo, que se esconde além do sepulchro.
SCENA IV
_D. Mendo e Frei Bermudo_
D. MENDO
Aqui estou, Fr. Bermudo. Venho já para ficar no convento, até me haver separado do mundo, professando na ordem dos templarios.
FR. BERMUDO
Mendo!... Encontraste?...
D. MENDO
Ninguem. Vim pela porta do campo, para não ser visto. Na igreja está tudo preparado para a minha profissão, não é verdade? Estou com desejo de professar, para sentir quebrados todos os laços que me prendem ao mundo. (_Pausa_) Ella como ficou? Vistel-a?--Eu fugi porque não podia...
FR. BERMUDO
Está mais socegada já.
D. MENDO
Pobre Violante!--El-Rei?
FR. BERMUDO
Mandou elle proprio preparar tudo aqui no mosteiro para a tua profissão.
D. MENDO
Disseste-me que Violante estava mais socegada, que já não padecia tanto? Bemdicto seja Deus. (_Pauza._) Ai! quem sabe se ella se esquecerá de mim!?
FR. BERMUDO
Esquecer-se de ti?!... talvez; se o pensamento tambem morre.
D. MENDO
E se ella me esquecesse, e se amasse outro, que desesperação não seria a minha!
FR. BERMUDO
E é assim que este homem paga tanto amor! Duvidando della!
D. MENDO
Que dizes?
FR. BERMUDO
Digo, que não comprehendes o amor, que póde conter um coração de homem; que não sabes o que é uma paixão, que destroe, que devora a existencia, que está sempre no fundo da alma, inabalavel e tremenda, dominando o pensamento, matando o desejo, e seccando a esperança, digo... que não comprehendes esse amor.
D. MENDO
Frade, tu amas Violante? Tu...
FR. BERMUDO
Amo-a, sim; mas não receies deste amor, que nasceu n'um templo, e irá esconder-se debaixo da terra. Amo-a e ouso... e sinto alegria em fallar deste amor, porque chegou a hora do soffrimento, o instante do martyrio.
D. MENDO
Fr. Bermudo, amas Violante? Não repitas essas palavras desvairadas...
FR. BERMUDO
Nenhum de nós tem já direito de amar, porque para ti, e para mim este amor é um crime. (_Pausa._) Este meu não, que me salvou a alma... que eu sentia perder pelo descrer. Quando ao atravessar o deserto, para ir ao Santo Sepulchro do Redemptor, cahi sobre as areias ardentes, quasi morto pela sede... um anjo me appareceu e me salvou... Em Violante, encontrei depois a imagem do meu Anjo Redemptor: é a mesma fronte pallida do anjo é o mesmo sorriso meigo e triste, o mesmo olhar celeste e candido... a mesma voz... Oh! mas a alma dessa mulher é mais pura do que os espiritos do ceu Amei-a! Amei Violante.
D. MENDO
(_Chorando._) Meu Deus, tende piedade de mim! acabae com esta dôr!... matae-me!
FR. BERMUDO
Quando a voz da fatalidade, troando nos espaços, pronuncia a sentença, que nos condemna, devemos escutal-a, e ter resignação.
UM MONGE
(_Apparecendo á porta da esquerda._) Fr. Bermudo, está á porta do mosteiro uma penitente, que vos deseja fallar.
FR. BERMUDO
Conduzi-a aqui, irmão. (_O monge sae._) Mendo, vae orar por nós ao Senhor.
D. MENDO
Ficarei ali a fazer penitencia, até que me venham buscar, para ir fazer profissão na igreja. É tarde já; d'aqui a poucas horas é manhã.
FR. BERMUDO
(_Levando-o ao oratorio do fundo._) Espera aqui, em quanto vou saber o que me quer essa mulher. (_D. Mendo entra no Oratorio. Frei Bermudo fecha a porta._)
SCENA V
_Fr. Bermudo e D. Gontrade_
D. GONTRADE _(Coberta com um véo negro.)_
Padre, estás disposto a ouvir a ultima confissão de uma grande peccadora?
FR. BERMUDO
Aquelles que, como eu, se votaram ao serviço de Deus, não negam nunca as suas consolações aos que padecem. Mas aqui?
D. GONTRADE
Se as consolações da religião podem fazer esquecer os remorsos profundos, e as infinitas saudades, eu preciso dellas já.
FR. BERMUDO
Porque me não mandastes chamar, senhora; iria eu, como é do meu dever, ter comvosco.
D. GONTRADE
Saberieis então quem eu sou; e o que vou confessar-vos interessa a honra de uma familia nobre. Posso dizer-vos o meu crime, mas devo esconder-vos o meu nome, para que não recaia sobre outros a deshonra, com que esse crime manchou um nome illustre.--Padre, remorsos ha que não podem ter fim... nem talvez com a morte...
FR. BERMUDO
Com o arrependimento e a fé podem apagar-se da alma muitos pensamentos tenebrosos; muitos martyrios podem ter fim.
D. GONTRADE
Mas Deus perdoará sempre á peccadora, que se arrepende?
FR. BERMUDO
Talvez; que a sua misericordia é infinita.
D. GONTRADE
Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo; porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo.
FR. BRMUDO
(_Áparte._) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir, meu Deus! (_Assentando-se._) Dizei.
D. GONTRADE
(_Ajoelhando._) Dae-me forças Senhor! (_Pausa._) Padre, eu era feliz, quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu nome.--Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma, sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi como eu lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os moiros chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava por essas terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de meu marido. Um dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei os olhos ao campo, e vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos homens d'armas, julguei que fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a ultima alegria que tive. Quando o cavalleiro se aproximou... conheci que não era quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em que andára vira meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro com os moiros, peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o exercito, e elle mais que todos havia chorado muitos prantos sobre a sua sepultura. Mais de um mez chorei a morte de meu marido, com uma dôr amarga e sincera. Mas a minha alma era fraca; não sabia soffrer. Depois do pranto vieram as saudades; depois as consolações; e depois o amor por esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal nova.
FR. BERMUDO
(_Com muita anciedade._) E vosso marido!?
D. GONTRADE
(_Continuando._) Passei alguns dias no delirio do crime, sem remorsos, sem arrependimento; por que amava de coração, e julgava ser amada. Esses dias foram para mim como um sonho, hoje apparecem-me como um espectro.
FR. BERMUDO
E o acordar desse sonho?...
D. GONTRADE
N'uma noite, estava eu com esse homem, entregue a esse enlevo d'alma em que se escondia um crime tremendo, quando ouvi um ruido estranho por toda a casa, senti, por um pressentimento subito o frio da morte correr-me pelas veias. Era meu marido que voltava da guerra.
FR. BERMUDO
E então?...
D. GONTRADE
Então vi apparecer diante de mim, que havia quasi perdido a razão, um homem ameaçador, e tremendo, o rosto pallido, os olhos ardentes, a mão armada. Apoderou-se de mim a vertigem... Ouvi um grito de agonia, que me gelou... e depois, o baque de um corpo em terra.
FR. BERMUDO
E esse que morreu, era...
D. GONTRADE
Meu marido--Nessa hora consumou-se o meu crime, nessa hora começou o castigo! O homem, que me enganou, abandonou-me naquella dôr.
FR. BERMUDO