Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo
Chapter 6
Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão tenebroso, que nem eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.
D. MENDO
Tens sofrido muito? Tens padecido?
FR. BERMUDO
Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos ambos ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração, senão essa amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle; tinha-lhe salvo a vida nas batalhas á custa do meu sangue... Tudo que via de bello no mundo desejáva-o para lh'o dar. Se havia a affrontar um perigo ia eu por elle, se havia gloria a ganhar, deixava-o ir, e ficava eu. A minha vida era d'elle só.--Um dia, voltava de uma correria contra os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra assassinado.
D. MENDO
Vingaste a sua morte?
FR. BERMUDO
Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para essas longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a parte; atravessei o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado pela sede, consummido pela fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na minha peregrinação a pé encostado ao bordão de peregrino. Padeci martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse homem que buscava. Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.
D. MENDO
E então?
FR. BERMUDO
Não tinha nada que me prendesse á vida, não tinha nenhuma esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me ao estudo, para vêr se a cabeça matava as saudades do coração.
D. MENDO
E conseguiste?
FR. BERMUDO
Esse homem não tinha morrido, voltou.
D. MENDO
Matastel-o?
FR. BERMUDO
Não.
D. MENDO
Perdoaste?
FR. BERMUDO
Também não (_Pausa._) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde. Tive medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o seu assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço vingador.
D. MENDO
Porque? O que te deteve o braço?
FR. BERMUDO
Amei a filha desse homem...
D. MENDO
Tu?
FR. BERMUDO
Eu?!... Não.--Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração.
D. MENDO
Desgraçado!...
FR. BERMUDO
Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia; tenho descoberto segredos, que poderiam fazer os homens felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um paraizo. A natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem, grão de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o sêr, e o não sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal. (_Pausa._) Aqui tens, Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida para ti se fores ferido na lide.
D. MENDO
(_Repellindo o frasco._) Padre, tu fizeste-me perder o animo: mataste-me as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para mim é fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser escravo, e penar. (_Ouvem-se gritos do exercito ao longe._)
FR. BERMUDO
Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um poder sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força omnipotente de Deus produziria se baixasse á alma do homem... Uma palavra de D. Affonso bastou para pôr em duvida a victoria... talvez para a assegurar.
D. MENDO
Pois julgas...
FR. BERMUDO
Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me o coração. (_Dando o frasco a D. Mendo._) Mendo, toma essa essencia, é a vida..--Ámanhã, no meio dos gritos da victoria, dar-te-hão uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes. Vive para a gloria. Vive para Portugal. (_Em voz baixa._) Vive para vingar teu pae, se tens n'alma força para tanto.
D. MENDO
Acceito.
SCENA V
_Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz_
D. BIBAS
Quero a vida.
BONAMIZ
Não a quero.
D. BIBAS
Pela morte.
BONAMIZ
Só espero. Sem a minha doce amante, Viver não quero um instante.
D. BIBAS
Mas a gloria?
BONAMIZ
E os amores?
D. BIBAS
Mas os cardos?
BONAMIZ
Mas as flores?
D. MENDO
(_Colerico._) Outra vez a escutar os meus segredos?
D. BIBAS
Vingativos frades;
BONAMIZ
E pagens contrictos,
D. BIBAS
Monges aguerridos,
BONAMIZ
Amantes afflictos
D. BIBAS
Só nos fazem rir.
BONAMIZ
Ai! fazem-nos rir...
FR. BERMUDO
(_Colerico._) Que ouvistes?
D. BIBAS
Coisas muito para rir!--Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem mais do que os outros, que são mais avisados. (_Dando uma gargalhada._) Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que fazem chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos astros, bobos que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos bobos, todos jograes e chocarreiros.
FR. BERMUDO
Tens razão D. Bibas.
D. BIBAS
Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa isso? Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?--Matal-o é affastal-o de todos os tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou hoje um bobo serio, não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó num casamento, excita a compaixão e o desprezo.
BONAMIZ
Mestre, estás hoje insipido.
D. BIBAS
Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o genio de um jogral fica vencido.
FR. BERMUDO
Não digaes nada do que ouvistes, bobos.
D. BIBAS
Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos homens? Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir contar aos outros. (_Dando uma gargalhada._) Vingativos frades.
BONAMIZ
E pagens contrictos...
D. MENDO
Calae-vos ahi, bobos do inferno. (_A fr. Bermudo._) Acceito, fr. Bermudo. Não quero a morte ainda.
FR. BERMUDO
Vive...
D. MENDO
Cumprir-se-ha minha sina?
FR. BERMUDO
Cumprir-se-ha. (_O rumor do exercito aproxima-se_)
BONAMIZ
Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante.
FR. BERMUDO
Adeus. D. Mendo--Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (_Sáe._)
(_A noite tem-se cerrado pouco a pouco._)
SCENA VI
_O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e Cavalleiros_
TODOS
Viva o nosso infante! viva!
ALGUNS
Viva El-Rei!
INFANTE
Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor.
ALGUNS
Viva D. Affonso!
INFANTE
Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas.
(_Saem todos gritando--Viva D. Affonso, fica só o infante e D. Mendo._)
SCENA VII
_O Infante e D. Mendo_
INFANTE
Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira vez o furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos inimigos sentirás essa força estranha, superior e independente da vontade, que dirige o braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua patria; essa força que faz os heroes e os martyres; que é a inspiração dos homens de guerra. Não estejas assim triste agora; que depois da peleja terás de chorar os nossos que morrerem... e então... Que importa? Resta-me o amor. Tu és moço, nobre; serás em pouco um dos melhores lidadores de Portugal. (_Sentando-se._) Ajuda-me a tirar este capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado, nem terror do futuro...
D. MENDO
Sr. infante!
INFANTE
Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti.
D. MENDO
(_Com excitação._) Meu senhor!
INFANTE
Falla-me com sinceridade.
D. MENDO
Amo.
INFANTE
Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és amado por ella. Sereis unidos.
D. MENDO
Unidos... Eu, e Violante...
INFANTE
Sou eu que t'o prometto.
D. MENDO
Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino!
INFANTE
Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae pedir ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu santo nome.
D. MENDO
Vou...
INFANTE
Deixa-me só. (_Mendo sáe._)
SCENA VIII
_O Infante. (Só.)_
INFANTE
(_Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe._) Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se lembrarem só do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem, combatendo, ganhar o ceu; outros porque têem ambição, e querem accrescentar as suas terras e augmentar o seu poder. Agora é tudo enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois, mais tarde, quando cada um desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá a meditação; depois as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa... e depois... depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa celeste dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na misericordia de Jesus Christo! (_Cravando no chão a espada e pondo-se de joelhos._) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria, ajudae-nos... Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre diante de mim, e a minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e fraco como eu, os seus eram poucos contra muitos, como são agora esses meus, e o altar de Baal foi derrubado, e em seu logar se levantou o templo de Jéhovah. É por que a sua fé era viva, é por que a sua offerta tinha sido consumida pelo fogo do ceu no altar do sacrifício, é por que a mão de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma inspiração sagrada... Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor... e o vosso nome será adorado por toda a parte onde chegar o meu poder. Onde eu poder fazer ouvir a vossa palavra divina, grandes e pequenos, nobres e humildes a escutarão com amor e contricção. Dae-me a victoria, meu Deus!
SCENA IX
_O Infante e Fr. Bermudo_
FR. BERMUDO
(_Á entrada do Real._) A victoria será tua.
INFANTE
(_Levantando-se._) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te mandou?
FR. BERMUDO
A sua benção caiu sobre ti, e os teus.
INFANTE
A victoria!... Será nossa a victoria?
FR. BERMUDO
(_Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando para o Oriente._) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor estender-se sobre o teu exercito.
INFANTE
A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (_Abraçando de joelhos a cruz da espada._) Gloria ao teu nome Senhor!
FIM DO 2.º ACTO
ACTO TERCEIRO
_Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao fundo. É noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante. Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena._
SCENA I
_D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas, Cavalleiros, Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os Cavalleiros e Damas passeiam e dançam._
D. GONÇALO DE SOUSA
(_A uma dama que traz pelo braço._) Foi bello, magnifico este nosso jogo do tavolado.--Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria em corações de mais ardentes e destros cavalleiros.
DAMA
Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o primeiro, sr. D. Gonçalo de Sousa?
D. LOURENÇO VIEGAS
(_Aproximando-se._) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para vos offerecer, linda Branca.
DAMA
Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem vale tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de _espadeiro_.
BONAMIZ
Mas nem por isso lhe tem valido grandes triumphos em amor. É por que o amor não se leva á espada, como se levam os infieis sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela brandura, e que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para conquista destas, D. Lourenço.
DAMA
(_Rindo._) Que tem isso?--Não se póde ser grande em tudo. (_Vão para o fundo da scena._) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas batalhas do que nos amores.
D. SOEIRO VIEGAS
(_Vindo á frente da scena com uma dama._) D. Sancha, sois a formosa de todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu adoro-vos como a um anjo.
DAMA
É nos campos da lide que se aprende a lisonja?
D. SOEIRO VIEGAS
Aprende-se a ser franco, e leal...
D. BIBAS
(_Rindo._) Como todos os da vossa raça, dom namorado...
D. SOEIRO VIEGAS
Excommungado bobo!
D. BIBAS
Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é o avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os seus escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor.
(_Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da scena._)
1.º CAVALLEIRO
Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade.
DAMA
Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo...
1.º CAVALLEIRO
O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro Framariz. Feliz Mendo!
DAMA
Em quanto o pagem d'El-Rei...
1.º CAVALLEIRO
Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D. Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão.
DAMA
Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias e as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso que lhe dilacera o coração.
1.º CAVALLEIRO
Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de costume.
DAMA
Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia tenebrosa, que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe.
1.º CAVALLEIRO
Seu filho Mendo vae casar.....
DAMA
Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido.
(_Um grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)_
1.º CAVALLEIRO
Foi uma rija arrancada aquella de Ourique. El-Rei D. Affonso derrubou de um golpe dois daquelles perros infieis.
2.º CAVALLEIRO
Ismael pouco resistiu.
3.º CAVALLEIRO
Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta.
1.º CAVALLEIRO
Parecia que o braço de Deus pelejava por nós.
2.º CAVALLEIRO
E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por nosso rei a D. Affonso Henriques.
3.º CAVALLEIRO
Agora já temos rei independente.
2.º CAVALLEIRO
Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal.
(_Outro grupo de cavalleiros vem á frente da scena._)
1.º CAVALLEIRO
É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz.
2.º CAVALLEIRO
Honrado como Egas Moniz.
3.º CAVALLEIRO
Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para não faltar á palavra dada, á lealdade jurada.
2.º CAVALLEIRO
Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal.
BONAMIZ
(_Rindo._) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (_Vae-se cantando._)
3.º CAVALLEIRO
Estes bobos!...
2.º CAVALLEIRO
Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um cazamento muito honroso para D. Mendo.
3.º CAVALLEIRO
Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez.
2.º CAVALLEIRO
É a vontade d'el-rei, que se cazem.
4.º CAVALLEIRO
Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa.
3.º CAVALLEIRO
Um homizío... dizem.
D. MENDO
(_Aproximam-se de Violante que está assentada._) Violante, ficae; deixae sahir todos.
VIOLANTE
Fico. (_D. Mendo affasta-se._)
_Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados, vem á frente da scena_
1.º PRELADO
Vae-se demorando o banquete.
2.º CAVALLEIRO
Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os excommungados da Moirama...
2.º PRELADO
As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta ceia.
3.º CAVALLEIRO
Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar.
UM OVENÇAL
(_Na salla d'armas, á porta._) Nobres, ricos-homens, infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e alcadarias, el-rei de Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete.
2.º CAVALLEIRO
Em fim!
PRELADO
Vamos, vamos.
(_Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D. Violante. D. Bibas esconde-se detraz de um pilar._)
SCENA II
_D. Mendo e D. Violante, D. Bibas (escondido.)_
D. MENDO
Violante!... minha Violante!
VIOLANTE
Mendo?!
D. MENDO
Uma palavra... uma palavra, por minha alma.
VIOLANTE
Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava esperando com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de amor.
D. MENDO
E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora?
VIOLANTE
Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve diante de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a palavra e o gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim. Faltam-me forças, faltam-me faculdades para tanto.
D. MENDO
Falta-vos o amor... talvez.
VIOLANTE
(_Sorrindo com muito amor._) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente.
D. MENDO
O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não valia mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do mundo tem havido.
VIOLANTE
Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos tornaria a vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada no meu oratorio.
D. MENDO
Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando.
VIOLANTE
Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos lançastes por meio das lanças dos inimigos?
D. MENDO
Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não; era a esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante, tenho um nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de Portugal, tenho esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos, tudo minha Violante!»
VIOLANTE
(_Apertando a mão de D. Mendo._) Acceito.
D. MENDO
A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta divina palavra.
VIOLANTE
(_Com susto._) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento com a nossa felicidade?
D. MENDO
Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar.
VIOLANTE
Para vos salvar?
D. MENDO
Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das hostes dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques impetuosos dos cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos recuarem deante dos inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas mulheres; e, com uma espada na mão precipitei-me sobre a phalange sarracena; rompi a primeira e segunda linha, e quando me voltei para vêr se os cavalleiros portugueses me haviam seguido, achei-me de todos os lados cercado pelos infieis. A minha morte era certa: o braço já ía cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava sempre presente ao meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém, quando já, fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás cegas sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um instante, vi abrir-se uma larga estrada juncada de cadaveres; e foi assim que me salvei da morte.
VIOLANTE
E o soldado?
D. MENDO
Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão grande, que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que não tenho coração para tanto. É uma felicidade que mata!
VIOLANTE
Tem-me consumido a vida, mas amo-a.
D. MENDO
Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura! (_Beija-lhe a mão--D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente._)
VIOLANTE
Jesus!
D. MENDO
(_Levando a mão á espada._) Quem ousaria?!
D. BIBAS
(_Vae-se cantando com, voz lugubre._)
«Vivem loucos namorados Vendo futuro formoso Onde não ha mais que a dôr De um mysterio tenebroso.»
VIOLANTE
Bobo.
D. MENDO
D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.--Louco!
FR. BERMUDO
(_Entrando._) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os avisados--Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós.
D. MENDO
Tudo nos separa...
D. VIOLANTE
Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus! (_Sae._)
SCENA III
_D. Mendo e Frei Bermudo._
D. MENDO
Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim.
FR. BERMUDO
Não sou eu; é o teu destino fatal.
D. MENDO
Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga; não queiras que eu tome odio a ti, e á vida...
FR. BERMUDO
Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros. (_Sáe._)
SCENA IV
D. MENDO _só_
Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre mim; quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o coração no peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me que lhe não posso ser grato.--Sou cavalleiro já, e agora saberei o segredo tremendo, que desde a infancia me involve, sem que o possa conhecer. Minha mãe--quando ao chegar da guerra a fui vêr--recebeu-me com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio. Está mais pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me faz medo. Sinto caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de fugir para o não ouvir. É covardia... é fraqueza, isto!
SCENA V
_D. Mendo e D. Gontrade_
D. GONTRADE
(_Entrando._) Meu filho...
D. MENDO
(_Estremecendo._) Minha mãe...
D. GONTRADE
Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho; porque não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não tirares vingança do assassino de teu pai.
D. MENDO
Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer; mas quem o matou é o que eu não sei ainda.
D. GONTRADE
Mendo, até ao dia em que ganhaste--gloriosamente, bem o sei--essa nobre espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou: tens já um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu deves conservar puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está deshonrado. A mão de um homem desleal manchou-lhe a pureza, deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu pai, foi assassinado, covardemente assassinado; e o seu assassino vive ainda!.. Ficas assim calado?!... Não se te revolvem lá dentro os desejos da vingança? Meu filho, enganar-me-hia a esperança? Não serás tu digno de teu pai?
D. MENDO
(_Com terror._) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém, faz-me susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar a mim tambem.
D. GONTRADE
Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu filho, porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da vingança, Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a saibam. A vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que esse acto se cumpra.--Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do banquete, entre os risos e os gritos do triumpho, que te espera a victima. (_Tirando um punhal._) Foi esta a arma traidora que serviu ao crime; sobre ella ha ainda o sangue de teu pai ennegrecido pelo tempo, mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o sempre como uma reliquia sagrada, para t'a confiar na hora do castigo...
D. MENDO
O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada...
D. GONTRADE
E se morresses?... se esse homem te matasse tambem?
D. MENDO
Morria como cavalleiro.
D. GONTRADE
Quem vingaria teu pai?--Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve ser punido... O assassino de teu pai é...
D. MENDO
Callai-vos... callai-vos...
D. GONTRADE
Que tens?
D. MENDO
Tenho medo!
D. GONTRADE
Medo?!...
D. MENDO
Se esse bomem fosse?...
D. GONTRADE
Quem?
D. MENDO
O pai da mulher que amo..
D. GONTRADE
Morreria... da tua mão receberia a morte.
D. MENDO
Minha mãi!
D. GONTRADE