Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo

Chapter 5

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A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a irradiação de Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante...

D. MENDO

O que quer dizer tudo isso?

FR. BERMUDO

Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos tenebrosos. Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da batalha... foge, foge do teu negro destino... se ao homem é possivel fugir ao destino.

D. MENDO

Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa disposição dos astros?

FR. BERMUDO

Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha de separar-te da que amas; que depois terás a gloria...

D. MENDO

Calla-te...--Sem ella... que m'importa o resto?

FR. BERMUDO

Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu leio pelo seu livro.

D. MENDO

Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella.

FR. BERMUDO

A tua estrella não se apagou.--Serás grande e forte.

D. MENDO

O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das fallanges serracenas.

FR. BERMUDO

Tudo póde o destino!

D. MENDO

Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo...

FR. BERMUDO

O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os homens apagar.

D. MENDO

Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca.

FR. BERMUDO

O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.--Mendo, sou teu amigo, sou, e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo--Entre ti e Violante ha um abysmo.

D. MENDO

Hei de transpôl-o.

FR. BERMUDO

Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de sangue.

D. MENDO

Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes.

FR. BERMUDO

Nem a mão de Deus, póde apagar o passado.

D. MENDO

Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o.

FR. BERMUDO

Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me accusam, que me condemnam.

D. MENDO

Mas...--Fr. Bermudo quero o meu segredo.

FR. BERMUDO

Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te manchará o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas a esperança e a fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece ainda até onde póde chegar a perfidia dos homens.

D. MENDO

Esquecer este amor?--Este amor é...--Não t'o posso dizer, não me intenderias, padre.

FR. BERMUDO

Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão com o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua infinita misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de impuro no homem.

D. MENDO

Ai! que dôr, que dôr esta minha!.. Sou o maior desventurado da terra!

FR. BERMUDO

Quem póde dizer que o é?--Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste o palpitar de um coração que batia por ti.--Tens uma esperança... Amanhã serás cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois terás um nome, uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse futuro?.. Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e puro.

D. MENDO

(_Cobrindo o rosto._) Sem Violante!... Jesus, meu Deus!

FR. BERMUDO

Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma sempre em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo.

D. MENDO

Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma... Nunca te fiz mal, para que assim me lances na desesperação.

FR. BERMUDO

Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o.

D. MENDO

Não te creio...--Mentem os astros...--Violante!... não a perderei, não... nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!.. Ella não póde tardar.--Deixa-me... Quero ter esperança; estar alegre.--Vae-te. Vae-te, que te não veja ella, feiticeiro agoirento e máo.

FR. BERMUDO

Deus tenha dó de nós... de todos nós! (_Sáe._)

SCENA VI

_D. Mendo e depois D. Violante_

D. MENDO

Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o sorrizo na bocca e a esperança no coração, para que um dos vossos anjos não soffra.

D. VIOLANTE

(_Entrando agitada._) Mendo, que tendes? O que é isso que vos afflige. D. Mendo?

D. MENDO

Minha sr.ª D. Violante!.. Não quizestes deixar-me partir sem vir lançar-me a força no coração.

D. VIOLANTE

Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo?

D. MENDO

Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um anjo as palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos agradeço o que fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter fallado do meu amor, e sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de esperança, parece-me que me deixava morrer por lá. Este amor é a minha vida!

D. VIOLANTE

(_Com embaraço._) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa? (_Com ternura._) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado... parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr...

D. MENDO

A flôr da esperança?

D. VIOLANTE

(_Cobrindo a cára._) A do amor... Enganei-me, meu pagem?..

D. MENDO

Não. (_Apontando para o peito._) Essa vive aqui, sempre bella, sempre doce, e perfumada. E é da minha querida Violante.

D. VIOLANTE

(_Seria._) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que vos dizia elle?

D. MENDO

Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões!

D. VIOLANTE

Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros?

D. MENDO

O que nos importa a nós isso tudo? (_Levando-a para um assento de pedra_) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía dizer uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve fallar; mas é porque no mundo não ha com que se compare este amor!

D. VIOLANTE

(_Brincando, mas com muita ternura._) Mas se esse amor mudar?... O coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr.

D. MENDO

Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este meu amor não mudará... não póde mudar.--E depois tudo em roda de nós está alegre, tudo parece fallar-nos de felicidade.

D. VIOLANTE

Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra...

D. MENDO

Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro, para ter uma espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós, do que o do obscuro pagem.

D. VIOLANTE

Mendo!

D. MENDO

Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa felicidade!

D. VIOLANTE

Nunca.

D. MENDO

Sereis minha? sempre minha?

D. VIOLANTE

Serei.

D. MENDO

Amaes-me?

D. VIOLANTE

Mais que tudo!

D. MENDO

(_Ficando triste._) Este amor será para nós uma benção do céo... será.--É de certo.

D. VIOLANTE

Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que disse elle?

D. MENDO

Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde destruir.

D. VIOLANTE

Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o coração já advinhou tudo.

D. MENDO

Para que quereis?...

D. VIOLANTE

Dizei.

D. MENDO

Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos separava para sempre.

D. VIOLANTE

(_Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo._) Virgem Nossa Senhora, vallei-nos!

D. MENDO

Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora!

D. VIOLANTE

Deixar-te...

D. MENDO

Não chores... Minha Violante!

D. VIOLANTE

Esta guerra!... Esta auzencia!...

D. MENDO

O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por esses certões do Al-Gharb.

D. VIOLANTE

Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de amor, que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um céo sereno e bello.

D. MENDO

Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves, para vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros.

D. VIOLANTE

Ai! Se te eu perdesse...

D. MENDO

Quando voltar, seremos um do outro, para sempre!

D. VIOLANTE

Sinto gente! Adeus

D. MENDO

Violante!.. (_Cáem nos braços um do outro._)

D. VIOLANTE

Sou tua!.. Adeus.

D. MENDO

Adeus. (_D. Violante sáe._)

SCENA VII

_D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz._

D. BIBAS

(_Cantando o que se segue._)

Porque choras Pagem terno? Teu inferno Não melhoras. Trá--lira.

(_Cantando e rindo._) Ah! Ah! Ah!

D. MENDO

Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo?

D. BIBAS

(_Apontando para Bonamiz._) Foi elle.

D. MENDO

(_A Bonamiz._) Tu?

BONAMIZ

(_Apontando para D. Bibas._) Foi elle.

D. BIBAS

(_Cantando._) Uma bruxa nos guiou.

BONAMIZ

(_Cantando._) Um diabo nos mandou.

AMBOS

(_Cantando._)

Segredos do coração Mui grandes segredos são.

BONAMIZ

Am!

D. BIBAS

Am!

BONAMIZ

Am!

D. MENDO

Que viste, D. Bibas?--Que ouviste Bonamiz?

D. BIBAS

Vi-te dar um abraço... e tive inveja.

BONAMIZ

Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei estar-te na pelle.

D. MENDO

Nada mais...

D. BIBAS

Ah!--Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a morte...--Que importa isso, a quem ama?

D. MENDO

Que importa?...

D. BIBAS

O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma borboleta, que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca?

D. MENDO

Mas...

D. BIBAS

Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as crianças.--Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos duram, e de todos os homens os mais ridiculos... são os amantes.

D. MENDO

Deixa agora essas chocarrices.--Escutae, ambos.--Se disserdes a alguem o que acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos.

D. BIBAS

Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar?

D. MENDO

Juro...

D. BIBAS

Não jures, que não é precizo para nada. (_Serio._) Pagem namorado, somos vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de vos dizer um segredo... que segredo!

D. MENDO

O que é?

D. BIBAS

Pois deveras quereis saber.

D. BIBAS

(_Cantando._)

Não has-de cazar Não cazarás, não. Has-de Dom Bulrão, Solteiro ficar.

D. MENDO

Maldicto!

D. BIBAS

(_Cantando._) _De profundis clamavi ad te..._

D. MENDO

Bobo, bobo!

BONAMIZ

Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada presta.--Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças. (_Cantando._) _De profundis clamavi..._

D. MENDO

(_Ameaçando-os._) Excomungados bobos!..

D. BIBAS

(_Rindo._) Ahi vem nosso tio, o infante.

AMBOS OS BOBOS

(_Fugindo._) Adeus! adeus!

SCENA VIII

D. MENDO, _só_

Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que sempre vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas trevas de uma noite horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia manchar de sangue e de vergonha a nossa casa. Mas que historia pavoroza é esta de que eu ainda não pude penetrar o mysterio? Quem foi o assassino de meu pae? Qual é a família contra a qual a honra me ordena de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei, porque minha mãe só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este funebre segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na isolação, tambem conhece os segredos da minha familia, que eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer.

SCENA IX

_O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D. Tello, D. Gonçalo Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme Ricardo, D. Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas, Frecheiros, Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz._

INFANTE

(_A D. Mendo._) Tu aqui, Mendo?

D. MENDO

Esperava por vós, meu sr. Infante...

INFANTE

Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (_Mostrando D. Gontrade._) Tua mãe foi tambem... para te vêr.

D. GONTRADE

E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal.

INFANTE

Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua espada gloriosa.

D. BIBAS

Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura espada de cavalleiro.

BONAMIZ

E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della.

D. LOURENÇO VIEGAS

Callai-vos ahi, bobos.

D. BIBAS

(_Ao Infante._) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio?

INFANTE

(_Aos pagens._) Fazei callar esses bobos. (_Os pagens levam os bobos._)

D. MENDO

(_Beijando a mão de sua mãe._) Sr.ª mãe, minha senhora...

D. GONTRADE

Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu.

D. MENDO

Não julguei que partiriamos tão depressa... (_Abraçando-a._) Minha mãe, minha querida mãe perdoae.

INFANTE

De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que vae ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a accrescentar á terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas provincias, com as quaes o nome de Portugal se tornará temido em toda a Hespanha.

D. GONTRADE

Meu filho! (_Ficam abraçados._)

INFANTE

(_Aos cavalleiros._) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em roda de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos por elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de nossos ricos homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de ser rijas; carecemos para ellas de toda a nossa força. É esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros.

D. EGAS MONIZ

Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante.

INFANTE

Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as ganhava.

D. JOÃO PECULIAR

O ceu proteje as armas dos portuguezes.

D. GONÇALO MENDES

Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos d'ella para derribar com as nossas espadas o poder dos infieis--A vossa força, srs. bispos e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra, appoia-se na fé, e nas armas.

INFANTE

Sois avisado, meu lidador. (_Aos prelados._) Vós, srs. oraé por nós. D. Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia preces, para que o Senhor nos tenha da sua mão. (_Aos cavalleiros._) E vós, cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes todos os homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que ganhastes; cingi as vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz que é a nossa divisa, e atravessaremos, então, essas terras de Alem do Téjo, e lançaremos sobre ellas o nosso dominio.

TODOS

Aos infieis! aos infieis!

D. EGAS MONIZ

(_Pegando na mão do Infante e beijando-a._) Meu senhor meu amo, deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos... Sois um grande principe... Haveis de ser um grande rei!

TODOS

Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe!

ALGUNS

Viva o nosso rei!

D. GUILHERME

A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal, a guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos de Deus como a feita n'essas longes terras da Palestina.

D. LOURENÇO VIEGAS

A minha espada é tua, Infante de Portugal.

MUITOS CAVALLEIROS

E a nossa.

INFANTE

(_Alevantando os braços ao céu._) Senhor, a nossa fé é immensa! Senhor, não enganeis a nossa confiança!

D. MENDO

(_Caíndo aos pés do Infante._) Dae-me uma espada, sr. Infante... Quero combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno do nome que meu pae me legou!

INFANTE

Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais.

(_D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao fundo._)

ALGUNS CAVALLEIROS

D. Pedro Framariz!

D. GONTRADE

(_Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho._) Ganha a tua espada, e então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança.

D. PEDRO FRAMARIZ

Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa!

FIM DO 1.º ACTO

ACTO SEGUNDO

SCENA I

_O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D. Tello_

D. JOÃO PECULIAR

É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito.

D. GONÇALO DE SOUZA

As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu tenho feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos infieis; mas esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade, por uma loucura. Se perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de Portugal, quem ha de defender a nossa independencia?

D. TELLO

Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que nos hade quebrar nas suas ondas.

D. GUILHERME

Morremos pela cruz.

JOÃO SIRITA

Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi na solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O Senhor fez por mim grandes milagres, e a minha fé é immensa como o deserto:--morreria feliz se morresse por ella!--Porém agora o combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D. Henrique ganhou em tantas, e tão rijas pelejas.

JOÃO PECULIAR

João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para lhe exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos. (_Com solemnidade._) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo por sua Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas em lide tão desigual, porque n'ella nos perderias a todos.

GONÇALO DE SOUSA

Tratae tregoas com Ismael...

LIDADOR

Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei mouro não guardaria a sua fé.

ALGUNS CAVALLEIROS

Não, não peleijemos.

D. TELLO

Salvae a cruz.

UM PRELADO

Salvae a cruz sr. infante.

INFANTE

Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que estes condados se conservem livres e gloriosos.--Estamos cercados de perigos, e só um conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e resolver o que devemos fazer n'esta conjunctura difficil e grave. Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua santa guarda.

(_Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D. Mendo._)

SCENA II

_(O infante, D. Tello, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo)._

D. EGAS

Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em que nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão verdes annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos inspirará o melhor conselho.

LIDADOR

Que resolveis, sr. infante?

INFANTE

Combatter e vencer.

D. TELLO

O numero dos inimigos é sem conto.--Vencêr é impossivel.

INFANTE

Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas não morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje este pequeno canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os reinos das hespanhas veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós entre Galliza contra o poderoso imperador, e ganhavamos em Cerneja uma bella victoria. Se hoje a nossa independencia se acha compromettida, pelo tractado que assignámos em Tuy: se estamos quasi como vassallos de Affonso VII, esse estado acabará logo que ganharmos uma batalha sobre os sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa batalha. Ámanhã; pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez accrescentaremos mais uma provincia a Portugal.

D. TELLO

Cinco chefes inimigos...

INFANTE

Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses blasphemadores vingaremos a fé.

LIDADOR

Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer.

INFANTE

Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos, enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (_O Lidador sáe._) (_A D. Mendo._) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (_D. Mendo dá-lh'os._) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (_D. Mendo sáe._) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento.

EGAS MONIZ

N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu principe, para receber por vós os golpes do inimigo.

INFANTE

Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os amargores d'esta existencia senão tu.

EGAS MONIZ

Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama.

INFANTE

(_Com exaltação._) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa espada, e a nossa fé.

D. MENDO

(_Entrando._) Está tudo prompto.--Esperam o sr. infante todos os cavalleiros reunidos...

INFANTE

Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti, Mendo.--Vamos, senhores. (_Sáe com Egas Moniz, e D. Tello._)

SCENA III

_D. Mendo só_

D. MENDO

Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante... a gloria!... um nome egual ao de meu pae!--Ser admirado por ella; ter um nome entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso, pelo meu infante... que gloria, que felicidade! Ai! Violante, Violante!--(_Triste._) Violante... longe de ti! Violante não esqueças o amor, que é a vida d'este coração. Quando penso na ventura de viver com ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o terror esfriar-me todo. Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr. Bermudo, e aquella vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de mim como espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que importa isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca commetteu um grande crime, de quem nunca o offendeu! (_Pausa._) Ai! perdel-a!... (_Fica pensando._) Morrer!... antes morrer!

SCENA IV

_D. Mendo, e fr. Bermudo_

FR. BERMUDO

Ainda não. É ainda cedo para morreres.

D. MENDO

Bermudo!

FR. BERMUDO

Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim.

D. MENDO

Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras deixava-me matar na batalha de ámanhã.

FR. BERMUDO

Não irás buscar a morte porque amas a vida.

D. MENDO

Amo sim, porque amo Violante.

FR. BERMUDO

Não amas Violante só.

D. MENDO

Pois...

FR. BERMUDO

Amas a gloria.

D. MENDO

Para lh'a dar a ella.

FR. BERMUDO

E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (_Compaixão._) Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a vida, o alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle, era preciso que o teu coração houvesse padecido desde o berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e que, quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo, uma luz, uma esperança.--Para comprehender a luz é preciso ter estado na escuridão; para apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos não podem intender as alegrias do céu, porque nunca supportaram os tormentos do inferno...--(_Pausa._) Os corações novos, que nunca foram provados pelo martyrio não podem amar como... como esses que se escondem n'um claustro, ou n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que ninguem saiba delles.

D. MENDO

Que querem dizer essas palavras?

FR. BERMUDO

Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não quero, nem posso ainda morrer.

D. MENDO

A sciencia prende-te á vida.

FR. BERMUDO

A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as horas a um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A flôr morreu em botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é mais do que uma palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão miseravel... E quero a vida, mesmo assim.

D. MENDO

Queres a vida?

FR. BERMUDO