Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo

Chapter 4

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E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar uma violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo. Resolvi acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer fazer esse favor... póde ajudar-me... e eu ajuntarei, da minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem... Se quizer, póde servir-me de muito.

JOAQUIM

Mas como?

JOZE

Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara, furtar... levar d'aqui a Joanninha.

JOAQUIM

Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente?

JOZE

Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja.

JOAQUIM

E se a pequena gritar?

JOZE

A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de Joanninha é aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca, quando estiver a dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois não tem remedio senão casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu.

JOAQUIM

Vm. lá o lê, lá o intende.

JOZE

Então está prompto?

JOAQUIM

Estou, mas venha o papel.

JOZE

Você faz de mim quanto quer. (_Dá-lhe o papel._) Vá abaixo ao Calháo, e espere por mim. Os dois marinheiros lá hãode estar.

JOAQUIM

Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto.

JOZE

Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir.

JOAQUIM

O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (_Sae.)_

SCENA II

JOZE, _só_

Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da Madeira. Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado, commendador... barão... e quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com este coração, heide chegar... até onde chegam os que são do meu feitio.

SCENA III

_Joze Velhaco e Antonio Prudente_

JOZE

Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim?

ANTONIO

Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram da sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que passa por homem serio, disse-me que melhor do que sr. Joze Velhaco não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o velho riu-se tanto com aquella cara de bom homem!...

JOZE

(_Á parte._) Que maroto! (_Alto._) Bom homem de certo, devo-lhe bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein?

ANTONIO

Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze.

JOZE

Desgraças! Quem póde evital-as?

ANTONIO

Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os dois negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado antes de lhe dar a minha filha.

JOZE

(_Com admiração._) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os contos do Vigario sempre pegaram!

ANTONIO

Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É facil, e não leva muito tempo.

JOZE

A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio Prudente.

ANTONIO

Isso depois: por em quanto esperaremos.

JOZE

(_Á parte._) Eu te direi logo se espero! (_Alto._) O que o fez mudar, sr Antonio Prudente?

ANTONIO

(_Com embaraço._) Respeito muito a opinião do nosso Vigario; e em quanto elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor... demorarmos o casamento.

JOZE

Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar!

ANTONIO

A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que mais, Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao pescador, a quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha presença. O pobre homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um abraço... cuidei que o arrebentasse!

JOZE

Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim! Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que nesta gente é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr. Antonio Prudente, a virtude é o meu fraco! Santa palavra!

ANTONIO

(_Apertando-lhe a mão._) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o Vigario tão má vontade?

JOZE

Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão?

ANTONIO

Não me diga...

JOZE

Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do Campanario...

ANTONIO

Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver se ella o esquecia...

JOZE

Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege.

ANTONIO

Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o Vigario?... Um homem que morreu.

JOZE

Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario sabe que elle está...

ANTONIO

Aonde?

JOZE

Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha.

ANTONIO

Aqui?

JOZE

Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a sua por deante.

ANTONIO

Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se o Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o sr. Joze.

JOZE

Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e não se arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos da ilha: sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua filha case comigo?

ANTONIO

Dou, permitto! (_Battendo o pé no chão._) Hade fazer-se o casamento. (_Depois de pensar um pouco._) Mas quero levar o negocio de vagar, e com prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora deixe-me com a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais descanço.

JOZE

Pois fique-se com Deos.--Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas duvidas. Fie-se no que lhe digo. (_Indo para sair._) É preciso que um homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (_Sáe._)

SCENA IV

_Antonio Prudente e Joanninha_

ANTONIO

Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (_Chamando.) Joanninha!_

JOANNINHA

Meu pae!

ANTONIO

Anda cá. Responde-me... e não mintas.

JOANNINHA

Eu nunca lhe menti, pae.

ANTONIO

Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze Velhaco?

JOANNINHA

Já lhe disse, pae, que não.

ANTONIO

Nem com elle, nem com outro?

JOANNINHA

Dezejo ficar na sua companhia.

ANTONIO

(_Colerico._) Mentes.

JOANNINHA

Eu? sou muito sua amiga!..

ANTONIO

Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque te namoraste de um desgraçado sem dinheiro.--Prometteste casar com o Luiz do Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de não t'o deixar esquecer. Invencioneira!

JOANNINHA

Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do Campanario. Com elle fui creada, e só com elle posso viver!..

ANTONIO

Contra minha vontade!

JOANNINHA

O coração póde mais.

ANTONIO

Creancices, filha! Isso hade passar!

JOANNINHA

Em eu morrendo!

ANTONIO

É a ultima vez que to digo, Joanna. (_Severo._) Has de casar com quem eu mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem palavras do Vigario, me torcem desta resolução!

JOANNINHA

(_Chorando e com muita dôr._) Eu... não choro nem lhe desobedeço. Deixo-me morrer.

ANTONIO

Historias! (_Olhando para a filha com muita dôr._) As raparigas não morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer, filha... (_Agarrando-a com muito amor._) Minha rica filha!

JOANNINHA

Meu pae! (_Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara._) Se eu não posso viver sem elle...

ANTONIO

Viste-o hoje? Sei que chegou.

JOANNINHA

Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle!

ANTONIO

Invenções... para te seduzir.

JOANNINHA

Não diga isso:..--Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres, e foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre Luiz! Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça, causou-me tal dó... fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha...

ANTONIO

E eu a escutar-te... a chorar quasi! (_Limpando os olhos._)

JOANNINHA

Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram.

ANTONIO

(_Repellindo-a sem violencia._) Gosto muito de ti, filha; mas as lagrimas e as festas não me fazem mudar. É para teu bem! Essas calumnias que dizem do Joze Velhaco... que não é capaz...

JOANNINHA

Elle é capaz de tudo.

ANTONIO

Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para ser...

JOANNINHA

A minha desgraça. Pae se soubesse...

ANTONIO

(_Com muita colera._) Joanna!

JOANNINHA

Oiça; que é verdade. Escute!

ANTONIO

Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá.

JOANNINHA

Quando o Luiz foi para Demerara--enganado por elle, e levado pelo amor que me tinha--entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das Dores....

ANTONIO

E então?

JOANNINHA

Joze Velhaco roubou o pão da mizeria.

ANTONIO

É falso!

JOANNINHA

O Luiz e Maria das Dores não mentem.

ANTONIO

Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se provar que tudo são mentiras promettes casar com elle!

JOANNINHA

(_Com firmeza._) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de mim o que quizerem.

ANTONIO

Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem deshonrado.

JOANNINHA

(_Abraçando-o._) Meu querido pae!

ANTONIO

Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo destinado. Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje inquieto para ambos nós. (_Dando-lhe um beijo._) Adeos filha. Não queiras mal a teu pae. (_Sae._)

SCENA V

_Joanninha, depois Luiz do Campanario_

JOANNINHA

Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae? (_Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada na parede._) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me. Peço descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe de mim vá aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz. (_Durante esta oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem ajoelhar junto de Joanninha._)

LUIZ

Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede!

JOANNINHA

(_Levantando-se._) Luiz!...! Aqui?

LUIZ

Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades?

JOANNINHA

E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias amargurados. Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora, parece que já me sinto outra.

LUIZ

Mas teu pae não consente!

JOANNINHA

Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou em duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua innocencia.

LUIZ

Não póde mostrar!

JOANNINHA

Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do sr. Vigario!

LUIZ

Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo... havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós felizes.

JOANNINHA

Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de ti; mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa. Podia alguem descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado, e sentir-te...

LUIZ

Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica tudo deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me disse! É preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.»

JOANNINHA

Porque?

LUIZ

Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci. Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a Nossa Senhora que nos soccorra.

JOANNINHA

E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria! Quando formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a Joanninha, a filha de Antonio Prudente, que vai com seu marido.

LUIZ

Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não ha outra na Madeira! Bonita, séria, galante!...

JOANNINHA

Luiz.

LUIZ

Joanninha!

JOANNINHA

E quando será?

LUIZ

Cedo, bem cedo! (_Esta scena deve ser representada com muita rapidez._)

SCENA VI

_Os mesmos Joze, Joaquim, e dois marinheiros_

JOZE

(_Apparecendo á janella, com uma pistola na mão._) Veremos.

JOANNINHA

Ah!

LUIZ

Joze! (_Correndo alguns passos para elle._) Agóra pagarás tudo... malvado!...

JOZE

(_Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada._) Nem mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente.

LUIZ

(_Detendo-se._) O que fazes?

JOZE

(_Entrando._) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (_Aos dois marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim._) Rapazes, segurem-me este heroe!

LUIZ

Maldito!

JOZE

Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa!

JOANNINHA

Jezus, acudi-me!

JOZE

(_Aos marinheiros._) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para Demerara, donde fugiu... o escravo!

LUIZ

(_Rezistindo apenas._) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!... Condoão-se de mim... e daquella desgraçada...

JOZE

(_Aproximando-se de Joaninha._) Joanninha, tudo isto faço pelo muito amor, que te tenho!

JOANNINHA

E consente Deos isto?

JOZE

Vem commigo!

LUIZ

Não consintas, Joanninha!

JOANNINHA

Antes morrer.

JOZE

(_Colerico._) Não morrerás, e serás minha.

JOANNINHA

Só tua, Luiz!

JOZE

Ajuda-me, Joaquim!

JOANNINHA

(_Gritando._) Deixe-me, deixe-me.

JOZE

Se gritas... se dizes uma palavra. (_Aponta a pistolla a Luiz._)

LUIZ

Grita... brada... pede soccorro...

JOANNINHA

Soccorro!

JOZE

(_Cego de furia._) Morre, para não gritares! (_Dispara a pistolla sobre Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço._) Errei! (_A Joaquim_) Que fizeste?...

JOAQUIM

(_Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o._) Chegou tambem a tua vez, Joze! Pagarás tudo agora. (_Neste momento saltam pela janella, e entram arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario._)

SCENA VII

_Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo depois Antonio_

VIGARIO

Segura-o, Joaquim.

LUIZ

(_Armado com a faca de um dos marinheiros._) Tem firme, esse malvado: vou-lhe arrancar o coração!

VIGARIO

(_Detendo-o._) Luiz! Luiz... diante de mim!..

LUIZ

É um preverso!

VIGARIO

A justiça o castigará.

ANTONIO

(_Entrando espavorido._) Que é isto... em minha caza?

JOZE

Querem-me assassinar. Acuda-me!

VIGARIO

Calla-te...

JOZE

Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir sua filha...

ANTONIO

Seduzir minha filha?...

JOZE

E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com risco de vida... Quando ia para o castigar...

VIGARIO

Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e frustei os teus planos.

JOZE

É falso, é falso!...

VIGARIO

Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem não te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe?

LUIZ

Roubou.

VIGARIO

Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos?

JOAQUIM

É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (_Da-o a Antonio._)

VIGARIO

Para servir de prova.

JOZE

A obrigação que me pediste?!... Traidor!

VIGARIO

Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio Prudente!

JOAQUIM

Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse.

VIGARIO

(_A um homem._) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas?

O HOMEM

Foi, sr. Vigario!

VIGARIO

Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario.

TODOS

Somos.

JOZE

É mentira.

VIGARIO

Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (_Alguns homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!_)

ANTONIO

Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?.. salvou a minha querida Joanninha. (_Abraça-a._)

VIGARIO

Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim.

ANTONIO

O sr. Vigario manda nesta caza.

VIGARIO

Então mando que não haja ninguem triste. (_Pondo a mão de Joanninha na mão de Luiz._)

ANTONIO

Mas, sr. Vigario...

VIGARIO

O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado Bittencourt.

LUIZ

(_Com fogo_) Viva o nosso Vigario!

TODOS

Viva!

ANTONIO

Deos proteja o nosso Vigario.

VIGARIO

Deus proteja a Ilha da Madeira.

_Cae o panno._

Fim do 3.º acto e do drama.

O ASTROLOGO

DRAMA EM 5 ACTOS

PERSONAGENS

Fr. Bermudo. D. Gonçalo de Sousa. D. Mendo Paes. D. Soeiro Viegas. O Infante D. Affonso. João Sirita, Ermitão. D. Pedro Framariz. D. Bibas, bobo. O Bispo D. João Peculiar. D. Bonamiz, bobo D. Tello, Prior de Santa Cruz. Um Judeu. D. Gonçalo Mendes. Um Templario. D. Egas Moniz. D. Gontrade. D. Lourenço Viegas. D. Violante. D. Guilherme Ricardo

Ricos homens, templarios, cavalleiros, damas, homens de armas, frecheiros e besteiros.

ACTO PRIMEIRO

_Um campo junto á pousada de D. Pedro Framariz, no Burgo de Guimarães._

SCENA I

_Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz, trazendo um Judeu prezo com uma corda_

1.º BESTEIRO

Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa, que o teu sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos maravedis.

2.º BESTEIRO

Olá!--O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.--Bons meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um judeu um sacco de oiro.

1.º BESTEIRO

E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro ha de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste judeu. D'aqui a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe quanto tempo.

2.º BESTEIRO

Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e vassallos. Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas migalhas do que der a conquista.

1.º BESTEIRO

E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além do Téjo!

2.º BESTEIRO

E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre ha que apanhar.

1.º HOMEM D'ARMAS

Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro.

2.º BESTEIRO

E a alma de indulgencias.

1.º HOMEM D'ARMAS

Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar...

1.º BESTEIRO

E tem razão.--E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez, nas guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar para o inimigo como um homem.

1.º HOMEM D'ARMAS

(_Em voz baixa._) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a matou.--Aquella prizão... e depois aquelle desterro...

2.º BESTEIRO

O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia. Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher.

1.º BESTEIRO

Palavras inuteis... e perigosas!--Vamos levando este maldicto judeu para a pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa.

1.º HOMEM D'ARMAS

Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros a ouvir a missa no mosteiro de Mumadona.

1.º BESTEIRO

Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos.

2.º BESTEIRO

(_Puxando pelo judeu_) Vamos, vamos. (_Ao 1.º homem d'armas._) Garcia, faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é para dar nos judeus e nos cães da moirama?

1.º HOMEM D'ARMAS

(_Dando no judeu._) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram nem pelo diabo!

JUDEU

Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros.

1.º HOMEM D'ARMAS

Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu.

JUDEU

Sou pobre... um miseravel... não tenho nada.

1.º BESTEIRO

Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro.

JUDEU

Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo.

ALGUNS BESTEIROS

Uh! uh! maldito judeu.

1.º HOMEM D'ARMAS

Has de ser assado vivo.

JUDEU

Deus de Jacob, salvae-me!

1.º HOMEM D'ARMAS

Vamos, que alli vem fr. Bermudo.

1.º BESTEIRO

O feiticeiro... o magico.

JUDEU

(_A fr. Bermudo._) Salvae-me... salvae-me!

SCENA II

_Os mesmos, e Fr. Bermudo_

FR. BERMUDO

Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu?

1.º HOMEM D'ARMAS

Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos...

FR. BERMUDO (_Colerico._)

Para o roubar, para o atormentar.--Deixae-o...

2.º BESTEIRO

Um judeu...

FR. BERMUDO

Um judeu tambem é homem.--Deixae-o.

1.º HOMEM D'ARMAS

Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos.

FR. BERMUDO

Dizei-lhe que fui eu.

1.º HOMEM D'ARMAS (_Com hesitação_)

Mas...

FR. BERMUDO

(_Com colera._) Já disse.

1.º BESTEIRO

(_Baixo aos outros._) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos, e ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu.

TODOS

Deixemol-o. (_Deixam o judeu._)

1.º HOMEM D'ARMAS

Vamo-nos... depressa.

1.º BESTEIRO

Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz?

2.º BESTEIRO

É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (_Sáem._)

SCENA III

_O judeu e Fr. Bermudo_

JUDEU

(_Cahindo de joelhos._) Quero agradecer-vos de joelhos.

FR. BERMUDO

Vae-te... salva-te.--Não pônhas em mim essas mãos.

JUDEU

Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe escrever o destino dos homens...

FR. BERMUDO

Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens d'armas.

JUDEU

Sois o maior homem da terra! (_Sáe._)

SCENA IV

_Fr. Bermudo (só)_

FR. BERMUDO

(_Rindo._) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço mais que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. (_Pauza._) Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter segredos que dão vida, e segredos que matam...--Que tem?! O futuro é um martyrio que me assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e negras. Se esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E depois da vida a morte!... Morrer sem ter sido amado, sem ter recebido um affago... sem ter a esperança de ouvir, mesmo quando já envolvido nas profundas trevas do sepulchro, um grito de saudade que me acorde!.. De que serve a sciencia?.. E o que é ella, essa sciencia que não póde vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas que o regem? De que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, e menos fé...--Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,--porque lhe quero como se elle fôra meu filho,--como o hei de salvar?... E Violante, esse anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...--como os hei de separar, esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro, e que o destino separa por um abismo! (_Pausa--apontando para os astros._) Está escripto... está tudo escripto nos astros...--É fatal! (_Crusa os braços e fica meditando._)

SCENA V

_D. Mendo e Fr. Bermudo_

D. MENDO

(_Vendo Fr. Bermudo._) Aqui, fr. Bermudo!

FR. BERMUDO

Esperava por ti, D. Mendo.

D. MENDO

Por mim?... Neste sitio? Agora?

FR. BERMUDO

É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz.

D. MENDO

De Violante... Quem te disse?

FR. BERMUDO

Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me que consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber o teu futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te venho dizer agora.

D. MENDO

Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre muito amôr?... Seremos felizes?..

FR. BERMUDO