Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo

Chapter 3

Chapter 34,002 wordsPublic domain

(_Pegando nas mãos de Maria das Dores._) Venha, Maria das Dores, venha minha boa, minha santa mãe!.. Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver.

MARIA

Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho, e eu d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze! é da cova, que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha socego, nem o teu corpo descanço, em quanto vivo fores; para que, depois da morte, a justiça de Deos te lance nos infernos. (_Sáem as duas._)

SCENA VI

_Joze, só_

JOZE

Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como se um homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça nestas alturas! Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz caso de rabugices de bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é gastar umas poucas de patacas, e mettel-a no hospital por doida. Logo vi que da mão de Maria das Dores não vinha cousa boa! Tenho de gastar o dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar a mãe no hospital, ou na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda sempre a matinar os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha consinta no casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal podesse acontecer-me!. (_Rindo._) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de terra, que tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o desasocego, em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as cartas, que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus morre-se depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e com o estomago vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha cabeça é uma grande cabeça, e eu ainda heide de ser coiza grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever; aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade. Joanninha hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa palavra!

SCENA VII.

_Joze Velhaco e Joaquim._

JOAQUIM

(_Batendo á porta._) Ólá, menina Joanninha!

JOZE

Não está cá a menina, saiu.

JOAQUIM

Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem não está aqui?

JOZE

Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores?

JOAQUIM

Trazia-lhe um recado de meu amo.

JOZE

Do sr. Vigario?

JOAQUIM

Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer fallar á velha.

JOZE

Para que?

JOAQUIM

Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse correndo.

JOZE

(_Á parte._) Que será? O Vigario em tudo se mette.

(_Alto._) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das Dores? Em! Joaquim?

JOAQUIM

Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer; mas parece-me...

JOZE

O que?

JOAQUIM

A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma hora só com elle.

JOZE

O que disseram?

JOAQUIM

Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que disseram? Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella quer entrar para o azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe fallou o outro dia á triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez.

JOZE

Hade ser, hade ser isso. (_Á parte._) Fico mais alliviado; já não precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por doida. (_Alto._) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que outro dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna?

JOAQUIM

Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos.

JOZE

Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui a dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar.

JOAQUIM

O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle...

JOZE

Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz... tenho confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade. Não sei se é homem de segredo, sr. Joaquim.

JOAQUIM

Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o sabe. Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é fallarem-me, e prompto; aqui está o Joaquim ás ordens.

JOZE

Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco tempo, sem trabalho, havia occasião.

JOAQUIM

Eu quero; oh! se quero.

JOZE

Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer.

JOAQUIM

Está promettido.

JOZE

O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de segredo? Em?

JOAQUIM

Oh! homem, não me conhece ainda?

JOZE

Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha gente de muitas posses, que o quer bem guardado. (_Com um gesto de ameaça._) Sempre se póde fazer callar um homem.

JOAQUIM

Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca.

JOZE

(_Assustado._) Então?...

JOAQUIM

(_Rindo._) É... é a amizade, que lhe tenho...

JOZE

Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de bom nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso. Caseiro do sr. Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta.

JOAQUIM

O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem que lhe dizer.

JOZE

Pois ahi está; é isso mesmo.

JOAQUIM

Então querem que vá a Demerara?

JOZE

Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico.

JOAQUIM

(_Rindo._) Ah! ah! ah! Rico! E como?

JOZE

Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando.

JOAQUIM

Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr. Joze? Em!

JOZE

Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não.

JOAQUIM

Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a um homem.... Em Demerara comem gente?

JOZE

(_Rindo._) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste mundo.

JOAQUIM

Que querem elles então?

JOZE

Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu, que Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um homem váe, e volta rico sem lhe custar nada.

JOAQUIM

E isso é assim para todos?

JOZE

Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os felizes? Santa palavra!

JOAQUIM

(_Rindo muito._) Agora... agora percebo--Ah! ah!.. É boa! É como quem diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz?

JOZE

Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara?

JOAQUIM

Para quando a partida?

JOZE

No primeiro navio.

JOAQUIM

Pois amanhã lhe dou a resposta.

JOZE

Mas o segredo?...

JOAQUIM

Está dito.

JOZE

Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir?

JOAQUIM

É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os cazos, e em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou procurar a tia Maria das Dores.

JOZE

Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar.

JOAQUIM

Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco.

JOZE

Adeus. (_Joaquim sáe._)

SCENA VIII

_Joze, depois Antonio Prudente_

JOZE

Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de patacas. E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente pai de familia!--Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez a governar a sua casa! (_A Antonio que entra._) Ora já sei, sr. Antonio, que a sua Joanninha lhe não quer obedecer.

ANTONIO

Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio Prudente.

JOZE

Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A Maria das Dores repetiu-me uma duzia de vezes--ouvi-lho com estes ouvidos--repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de Joanninha era um tolo--perdão sr. Antonio, eu não faço senão repetir--que era um tolo, um baboso, e que havia de fazer o que ellas quizessem.

ANTONIO

Pois a velha disse isso?.. diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze, em me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a Maria das Dores, onde está minha filha?

JOZE

Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias.

ANTONIO

Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez me porá os pés em casa.

JOZE

Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com sua filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o Vigario protege-a.

ANTONIO

E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem.

JOZE

Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser _prudente._

ANTONIO

Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar as filhas desobedientes.

JOZE

Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me veem, não entram.

ANTONIO

Deixe-as commigo.

JOZE

Tenha moderação... paciencia!

ANTONIO

Deixe-as commigo, já lho disse. (_Joze sae._)

SCENA IX

_Antonio Prudente, Maria das Dores e Joanninha_

ANTONIO

Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que me deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (_Ás duas que entram._) Venham ambas que temos que fallar.

JOANNINHA

(_Assustada._) Que quer, pae?

ANTONIO

A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta.

JOANNINHA

Pae... antes morrer.

ANTONIO

Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais saber de ti. Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu pai!.. És má filha, e só te perdôo se me obedeceres.

JOANNINHA

Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai!

ANTONIO

E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo.

JOANNINHA

Eu... É falso, é uma falsidade infame.

ANTONIO

Calla-te.

MARIA

Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de chorar.

ANTONIO

Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae, quem a ensinou foi você, mulher.

MARIA

Que diz, Antonio?

ANTONIO

Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era boa e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa, nunca mais falle com minha filha...

MARIA

Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?..

ANTONIO

É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus conselhos.

MARIA

(_Chorando._) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas ensinou.

ANTONIO

Pois julga que Antonio Prudente?...

MARIA

Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o enganou, o traz assim mudado.

ANTONIO

Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro. Ponha-se fora mulher. Na rua já!

MARIA

Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a este homem. (_Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de fundo o Vigario._)

SCENA X

_Os mesmos e o Vigario_

VIGARIO

(_Detendo Maria das Dores._) Antonio Prudente, que palavras são essas; porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das Dores?

ANTONIO

Anda desinquietando minha filha.

VIGARIO

Desinquietando sua filha!..

ANTONIO

Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a Deos e obediente a seu pae, e lhe ensinou o atrevimento, e a desobediencia!

VIGARIO

Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi sempre respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de bem, caridozo e justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher que criou sua filha, em se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma desgraçada, velha, doente, quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria, todos hão de pensar que era falso o conceito, que formavam a seu respeito.

ANTONIO

Sr. Vigario, essas palavras são injurias.

VIGARIO

Não faço injurias, digo verdades.

ANTONIO

Mas não sabe...

VIGARIO

Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a desgraça com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a verdade, em consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa?

MARIA

(_Suffocada pelas lagrimas._) Não. Pela vida de meu filho, se elle vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não.

VIGARIO

Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar, pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe desventurada.

ANTONIO

Sr. eu... pensei... acreditei...

VIGARIO

Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado, Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás seducções dos maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer ás paixões, que sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e cegam o espirito.

ANTONIO

Mas minha filha recusa obedecer-me.

VIGARIO

Porque offendeste teu pae, Joanninha?

JOANNINHA

Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas...

VIGARIO

Mas o que?

JOANNINHA

Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer.

ANTONIO

Bem vê, sr. Vigario...

VIGARIO

Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da deshonra.... Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa rapariga não póde unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta, como a de Antonio Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos desprezam.

ANTONIO

O que diz?

VIGARIO

O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas fazendas mais um pedaço de terra o não cegasse!

JOANNINHA

Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo!

ANTONIO

(_Com hesitação._) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra de Antonio Prudente é sagrada.

VIGARIO

Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não for sacrificar sua filha.

Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse homem saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou de madrugada achou as portas abertas, e tudo deserto.

JOANNINHA

O que aconteceu?

VIGARIO

Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr d'aquelle pae!

ANTONIO

(_Como arrastado por uma força invizivel._) Ai, se a mim me roubassem a minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos quem m'a tivesse roubado.

VIGARIO

É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê.

ANTONIO

O que fez o pescador?

VIGARIO

Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca; lembrou-se, foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames que enganam seus irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os que tem ido a bordo dos navios de emigrados, despedir-se dos parentes, ficaram lá contra vontade, e foram para Demerara, occorreu-lhe que miseraveis, que praticam horrores d'estes, eram tambem capazes de usar de violencia, e de augmentarem assim o numero das suas victimas. Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses homens.

ANTONIO

E matou-o?

VIGARIO

Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.»

ANTONIO

E então?

VIGARIO

Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas.

ANTONIO

E quem foi que as roubou?

VIGARIO

Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se...

ANTONIO

De quem?

VIGARIO

Do Joze Velhaco.

ANTONIO

Elle!

VIGARIO

Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido de sua filha um homem perdido de reputação.

ANTONIO

Não... sem elle se justificar.

VIGARIO

Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina; mas, ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe consentia pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o que se diz por ahi do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua consciencia, Antonio, e verá, como eu vejo, que o casamento é impossivel.

ANTONIO

Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e um pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso faltar á minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade.

VIGARIO

Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que quizer. Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (_Vae para sair._)

JOANNINHA

Pae, escute o sr. Vigario.

ANTONIO

(_Commovido._) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma deshonra para estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me!

VIGARIO

Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute.

ANTONIO

Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco, e se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito por não dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar é preciso ouvil-o.

VIGARIO

Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes de a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua probidade, e do muito amor que tem á nossa Joanninha. (_Com brandura._) Bem sabe que a vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe dei uma educação como no Funchal não se dá ás filhas dos morgados; custava-me vel-a casada com um homem, incapaz de a fazer feliz.

ANTONIO

Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença.

VIGARIO

Vá depressa.

ANTONIO

V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?...

VIGARIO

Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é homem honrado, e hade mostrar-se bom pae.

ANTONIO

(_Beijando a mão do Vigario._) Agradecido, agradecido. (_Sae._)

SCENA XI

_Os mesmos, menos Antonio Prudente_

VIGARIO

Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz.

JOANNINHA

Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem já sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer.

VIGARIO

Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de um amigo as enchuga. (_Brincando._) Eu sei, minha menina chorosa, que essa mão benefica não hade tardar muito aqui.

JOANNINHA

Ninguem pode consolar-me.

VIGARIO

Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade ter sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora.

MARIA

Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora.

VIGARIO

Nem tambem cá por cima, quando se é feliz.

MARIA

Feliz, eu?! Sem o meu filho?!

VIGARIO

Quem lhe disse isso, Maria das Dores?

MARIA

Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz.

VIGARIO

Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer.

MARIA

Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o meu Luiz.

JOANNINHA

Ah! diga!

VIGARIO

Joze Velhaco mentio.

MARIA

(_Desfallecendo._) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na alegria!

JOANNINHA

(_Pulando._) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está!

VIGARIO

Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que a dôr.

MARIA

Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a duvida. Elle não morreu?

VIGARIO

Não.

MARIA

Mas está ainda longe?

JOANNINHA

Em Demerara?

MARIA

Teve noticia?

JOANNINHA

Quando chega!

MARIA

Talvez a esta hora já não viva!

JOANNINHA

É preciso mandal-o buscar.

VIGARIO

(_Enternecido._) Soceguem. Já está em caminho.

MARIA

Ha quantos dias?

JOANNINHA

Virá d'aqui a tres?

MARIA

Amanhã?

VIGARIO

Mais breve.

AMBAS

Hoje!?

VIGARIO

Chegou. (_As duas mulheres abraçam-se._)

MARIA

Que alegria, filha!

JOANNINHA

Jesus!

MARIA

Eu... morro, porque não posso...

JOANNINHA

Onde está?

MARIA

O meu filho? (_Luiz entra precepitadamente._)

VIGARIO

Está aqui.

AMBAS

Luiz!

_Cae o panno._

FIM DO 2.º ACTO

ACTO TERCEIRO

_A caza de Antonio Prudente, como no segundo acto. É noite; um candieiro de tres bicos alumia bem a caza_

SCENA I

_Joze Velhaco e Joaquim_

JOZE

É negocio concluido. (_Mostrando um papel que tem na mão._) Esta obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna.

JOAQUIM

Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade! Esse papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o, ou a quem vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de quarenta patacas, que recebi...

JOZE

A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro; assim se faz em toda a parte.

JOAQUIM

Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que em outra que nem de portuguezes é.

JOZE

Pois eu falto ao que prometto, homem?

JOAQUIM

Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (_Rindo-se._)

JOZE

Ri-se, Joaquim?

JOAQUIM

Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze foi mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah!

JOZE

(_Á parte._) O maldito Luiz não ficou! (_Alto._) Com esses não ajustei senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando se ganha.

JOAQUIM

(_Rindo muito._) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que eu não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento.

JOZE

Então o que quer, Joaquim?

JOAQUIM

O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em que vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah!

JOZE

De _aliciador_! Diga homem, não se engasgue com palavras, que escorregam bem.

JOAQUIM

Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que eu quero; e sem ella não vou da Madeira!

JOZE

Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um papel escripto.

JOAQUIM

Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco!

JOZE

Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O ajuste era outro.

JOAQUIM

Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar que a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e morrer, e que o sr. Joze póde morrer...

JOZE

Mas se eu morrer de que serve o papel?

JOAQUIM

Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada.

JOZE

Mas...

JOAQUIM

Vmc. quer ou não quer? O dito, dito.

JOZE

(_Indo a uma mesa e escrevendo._) Pois vá lá. Escrevo a obrigação.

JOAQUIM

Assim é que é fallar.

JOZE

Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque sei que é meu amigo, Joaquim.

JOAQUIM

Pois não sou?

JOZE

E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades.

JOAQUIM

E a obrigação?...

JOZE

Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio...

JOAQUIM

O que é?

JOZE

Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se capacite ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim, com a nossa amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro.

JOAQUIM

Então o que quer?

JOZE

Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem posto duvida...não deu ainda o _sim_... O pae dezeja muito o casamento, e com brevidade...

JOAQUIM

Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz... _sapathia_, que mais dezeja o sr. Joze? Case! (_Com escarneo._)

JOZE

A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo de um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração a puxar para mim, não quer que lhe chamem inconstante.

JOAQUIM

E que remedio posso eu dar a isso?

JOZE