Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo

Chapter 2

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Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser pobre é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu Luiz é bom, foi sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que falla, Joze, só os pode ter um mau homem, um homem sem honra e sem vergonha.

JOZE

É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive sentimentos taes... porque sou...

MARIA

Joze, Joze, sempre teve--desde pequeno que o conheço--propensão para o mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre. Nunca pensei que pelo trabalho honrado se fizesse rico; mas em fim assim aconteceu, e como aconteceu, Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade. Anda sempre desde que veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes, e ás raparigas até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete apparece o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto...

JOZE

Invejosos!

MARIA

Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as culpas.

JOZE

Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre?

MARIA

Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até aos ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa.

JOZE

Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe mal zangar-se--Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim.

SCENA VIII

_Maria das Dores_

MARIA

O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem elle... Nossa Senhora me livre desta ultima dôr; esta era a ultima, porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça, Deus, me leve antes para si (_Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo que fica quasi escondida por detraz de uma moita_). Ave Maria cheia de graça, o senhor é comvosco... (_Continua a murmurar orações._)

SCENA IX

_A mesma--Antonio Prudente--O Vigario--Joanninha_

VIGARIO

Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio. Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de assucar, já para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a parte para alindar tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as sabe escolher bonitas como ella.

JOANNINHA

Ora! sr. Vigario.

VIGARIO

Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores. Se eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas aquelle desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos, paciencia! Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o mais novo, é mesmo uma joia, e eu quero-lhe devéras.

ANTONIO

E merece-o o menino, porque muito bom é.

VIGARIO

Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta instituição dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae, nem consciencia de bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi estabelecida por quem não entendia nada de agricultura, e não tinha nem amor á terra que dá os fructos, nem aos homens que a cultivam. Meu irmão, o morgado Bittencourt, não quer escutar estas verdades: mas eu só lhes recomendo, a elle, e aos outros morgados, que comparem as fazendas livres com as que estão opprimidas pelos vinculos, e que digam, depois de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde, bem cultivado; e nas vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos; que digam que isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por vaidades fofas e impios preconceitos.--Este flagello dos vinculos ha de acabar, e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses.

ANTONIO

E quando acabará ella sr. Vigario!?

VIGARIO

Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e na ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar da inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os morgados em nome das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis; quando nesta ilha, que a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos de escravidão, que ainda hoje existem pezando sobre o homem do povo e unidos ao nome de _villão_. Os grandes padecimentos do povo hão de acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos; quando no mundo civilisado--porque o mal não existe só aqui na ilha--se não soffismar a verdade, e se não confundir a justiça com o interesse; quando a religião, a virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.--Mas esse tempo, se é que tem de chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje querer acabar com a escravidão no mundo; assignam-se tratados para abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que a seducção e a miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel.

ANTONIO

V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o sentido das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são verdadeiras.

VIGARIO

O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê ao espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem sei que entende o que lhe disse.

JOANNINHA

A verdade é para todos.

VIGARIO

Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu que lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo.

ANTONIO

O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha... deve-lhe tudo...

VIGARIO

Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia. Eu entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar as creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos, e a todos é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de bem cá das aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a fazer as leis, nunca as ha de haver que prestem.

ANTONIO

É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem manda.

VIGARIO

Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes, meros expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem passaporte, põe-se um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os alliciadores, e no fim de tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio não guarda nem pode guardar nada, e os aliciadores vivem alegres e enriquecem. Não é prohibindo, é concedendo, que se ha de acabar com a emigração; não é fechando o povo dentro da ilha, como n'um carcere, é dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha de combater a febre que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam em castigar e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a viver; é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que os aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça de vis especuladores lhes arranca das mãos o pão, com que elles procuram enganar a fome.

JOANNINHA

(_Com susto._) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara?

VIGARIO

Muito mais do que se pensa.

ANTONIO

É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre nós algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos.

VIGARIO

Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher e filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão com os pés na sepultura.

ANTONIO

Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia fuja para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo.

JOANNINHA

E quem é, pae?

ANTONIO

O Luiz do Campanario.

JOANNINHA

Isso não póde ser.

MARIA

(_Levantando-se e vindo á frente da scena._) Não pode ser. O meu Luiz não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da morte.

ANTONIO

É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei...

VIGARIO

Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar, tirar-lhas-hei da cabeça.

ANTONIO

Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o pagará, meu senhor Vigario.

SCENA X

_Os mesmos e Joze Velhaco_

JOZE

Sr.ª Maria das Dores... Ah! (_tirando o chapeo._) Boas tardes, sr. Vigario. Estou ao seu dispor.

VIGARIO

(_Com mau modo._) Bons tardes, sr. Joze.

JOZE

V. S.ª está zangado, ao que parece.

VIGARIO

Talvez.

JOZE

É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores...

VIGARIO

Pois dê-lhe a noticia.

MARIA

Diga, homem.

JOZE

Não tenha pressa de saber.

JOANNINHA

Falle, sr. Joze.

JOZE

O Luiz, o seu Luiz, foi-se.

AMBOS

Para onde?

JOZE

Para Demerara.

MARIA

É mentira.

JOANNINHA

Jezus!

JOZE

Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle estará a esta hora o nosso Luiz.

MARIA

Como soube...

JOZE

Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo.

VIGARIO

E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror?

JOZE

Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha de dar remedio a todos os males.

_Cahe o panno._

Fim do 1.º acto

ACTO SEGUNDO

_A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, outra porta á esquerda. Á direita uma janella._

SCENA I

_Antonio Prudente e Joze Velhaco_

JOZE

Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras, umas casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns poucos de centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um mau casamento. Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma rapariga póde desejar.

ANTONIO

Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella fica mal comigo,--olhe que é verdade,--fica mal comigo em eu lhe fallando neste casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe fazer fortuna. Hontem por assim dizer pobre, e hoje rico.

JOZE

Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se fazer. Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha não faz já tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que pode mandar em vez de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu conheço-me, e vmc. tambem me conhece, ein? conheço-me e sei que poucos são capazes, como eu, de fazer feliz uma mulher. Santa palavra!

ANTONIO

Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau pae de familia. É certo... é certo--deixe-me dizer o que penso--que todos na freguezia o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario foi para Demerara; e quando algum rapaz desapparece daqui, dizem uns--foi o Joze Velhaco quem o enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos inglezes--outros dizem--o Joze Velhaco é bom homem, dá dinheiro aos pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas festas a Nossa Senhora...

JOZE

E vmc. o que diz?

ANTONIO

Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que dizem mal.

JOZE

É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices na cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua casa para fora.

ANTONIO

Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr. Joze, que eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre tudo, o não saiba a minha filha. Estava desmanchado o casamento, se Joanninha tal soubesse!

JOZE

Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria das Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os desejos da sua filha. Vmc. bem percebe? Eu não sou muito amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas que nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes falsos testemunhos.

ANTONIO

Quando se está innocente.

JOZE

Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é uma coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este casamento se faça; porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para mim: sabe ler, escrever, e é bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha uma rapariga, que se lhe possa comparar.

ANTONIO

A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!

JOZE

Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer com que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com quem me case. Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até algum morgado que me dê uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se pode alcançar: e eu, em sendo commendador, posso casar com quem eu quizer, e ser até deputado, representante da Madeira. Ah! Ah! Ah!

ANTONIO

(_Rindo muito._) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze Velhaco!

JOZE

(_Em tom de discurso._) É preciso acabar com este odio á chamada escravatura branca: este odio é uma vergonha para a Madeira, uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os portuguezes. Esta escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem ter de ir procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui enriquecer-me a Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que dure a emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é fingir innocencia; porque a moralidade dos politicos...

ANTONIO

Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia falla muito, e falla bem.

JOZE

Então, decide-se o casamento?

ANTONIO

Está decidido, e hade ser já.

JOZE

Falle a Joanninha.

ANTONIO

Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.

JOZE

E ella é quem o hade decidir?

ANTONIO

Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (_Com violencia._)

JOZE

Mandar, sem soffrer observações.

ANTONIO

Como um pai a uma filha desobediente.

JOZE

Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (_Sae._)

SCENA II

ANTONIO PRUDENTE _só_

É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras, depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade, quando for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras de pão, vinha e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se quer. Hade fazer-se commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por ahi mal do Joze; mas não teem razão: elle tem-me provado que de tudo está innocente. O padre Vigario tambem não é amigo delle... mas não tem razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu genro as culpas, do que succede nesta terra. (_Ouve-se a voz de Joanninha cantando_). Ahi vem ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; deves-te fazer respeitar e obedecer por tua filha.

SCENA III

_O mesmo e Joanninha_

ANTONIO

Vens muito alegre, Joanninha.

JOANNINHA

Eu, pae!

ANTONIO

Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.

JOANNINHA

Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que me faz cantar.

ANTONIO

(_Perdendo um pouco a severidade._) E diziam as trovas...

JOANNINHA

Senhora do Monte Trazei-me o meu bem, Com tristezas destas Não pode ninguem.

Senhora do Monte Trazei-mo depressa, Fazei que o meu noivo De mim não se esqueça.

Sem elle, alegria E paz eu perdi, Senhora do Monte Trazei-m'o aqui.

ANTONIO

Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.

JOANNINHA

(_Com alegria._) Elle! Pois chegou?

ANTONIO

Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.

JOANNINHA

Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta freguezia?

ANTONIO

(_Colerico._) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer a teu pae.

JOANNINHA

N'isso, não.

ANTONIO

Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.

JOANNINHA

Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o sr. padre Vigario, e todos...

ANTONIO

É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo. O meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é capaz de pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.

JOANNINHA

Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo, e agora...

ANTONIO

Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.

JOANNINHA

Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...

ANTONIO

Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o que uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a seu pae.

JOANNINHA

Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal homem.

ANTONIO

Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te anda mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É como me paga os beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na rua, e a ti levo-te á igreja por força para te casares. É demais, é demais isto, Joanna.

JOANNINHA

Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (_Cae de joelhos._)

ANTONIO

As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra, que ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui até ao paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze Velhaco. Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres filhos hasde abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento. Choras agora; depois hasde rir.

JOANNINHA

Pae, não me desgrace.

ANTONIO

O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e obedecer. (_Sae commovido, e escondendo as lagrimas._)

SCENA IV

_Joanninha, depois Maria das Dores_

JOANNINHA

Pae!.. pae!.. Elle não me dá ouvidos, e eu morro aqui de pura dor... que me trespassa o coração.. Santo nome de Jesus, valei-me.

MARIA

(_Entrando._) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, perdido de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo toda chorosa?

JOANNINHA

Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo, Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.

MARIA

Tornou-te a fallar no casamento?

JOANNINHA

Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as minhas lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle mandava e não queria ser desobedecido.

MARIA

Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem, com um homem mau, infame, não te podes casar.

JOANNINHA

Mas que se hade fazer?

MARIA

Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do Joze Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é quem na freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que me tem feito, e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu Luiz... se ainda será vivo?

JOANNINHA

E sem noticias delle!.. ha um anno que se foi!

MARIA

Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha cartas, isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande dor, minha Joanninha.

JOANNINHA

Ai, não diga tal.

MARIA

Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece que me diz que elle morreu.

JOANNINHA

Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.

MARIA

Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda como desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores. Nós as mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para depois, quando somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas pelos filhos que criámos. E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E Deos ainda me não chamou para si!

JOANNINHA

Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para mulher de outro não.

MARIA

Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle te amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas... se morreu, de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu soffra... e tu, filha. Que não seja desassocegado no fim da vida o bom Antonio Prudente, do qual não houve nunca rasão de queixa.

JOANNINHA

Então quer que eu case com o Joze Velhaco!

MARIA

Com esse não. Mas com outro...

JOANNINHA

E se Luiz não morreu?

MARIA

Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.

JOANNINHA

Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com que cara lhe havia de apparecer?.. e que olhos havia de pôr em meu marido! E depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle só morta me levarão á igreja.

SCENA V

_As mesmas e Joze Velhaco._

JOZE

É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?--(_As duas mulheres dão um grito de terror._) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum diabo.

MARIA

Bem o parece!

JOZE

Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta ilha a perder as raparigas honestas.

MARIA

Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!..

JOZE

Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá morreu por Demerara, sem se lembrar de sua mãe.

JOANNINHA

Morreu...

JOZE

Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa.

MARIA

Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!...

JOZE

Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante mulher sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas que ella nos roga, a bruxa!

JOANNINHA

Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a minha segunda mãe?.. que todos cá na freguezia a respeitam?

JOZE

Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me levantou, não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com ingratidões o grande amor que lhe eu tenho.

JOANNINHA

Amor que mette medo! É homem de ruim alma sr. Joze... de ruim alma, e má consciencia!

JOZE

Joanninha! (_Querendo pegar-lhe na mão._) Não se deixe enganar pelas mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o sabem. Se a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu?

MARIA

Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os pobres da Madeira.

JOZE

Calle-se, mulher; senão!..

MARIA

Ameaças agora!

JOZE

Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias quanto por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz.

JOANNINHA

Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não... quando me deem por marido um homem que aborreço.

JOZE

Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a...

JOANNINHA

Matar-me é que elle pode.

JOZE

Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (_Brandamente._) Fica-lhe bem a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um homem, que já morreu?

JOANNINHA

Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre mãe, dizendo isso?

MARIA

Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente!

JOZE

Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar com aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os morgados maiores da Madeira!

MARIA

Todos te despresam!

JOZE

(_Levantando a mão com colera._) É de mais. Se te não callas...

JOANNINHA

Que faz Joze? Que se atreve a fazer?

JOZE

Nada... por agora.

JOANNINHA