Talitha: evangelho em tres actos
Chapter 8
E, sem receio de ser contestado por quem quer que seja, o autor da _Talitha_ affirma: não ha poeta algum na lingua de Camões, quer no theatro, quer fóra delle, que obedeça ás exigencias das prescripções francezas, que, aliás, o proprio Corneille, invocado pela critica, não seguiu nem adoptou na _Imitation de Christ_:
«Le desir de savoir est naturel aux hommes: il nait dans leur berceau sans mourir qu'avec eux mais, ô Dieu, dont la main nous fait ce que nous sommes, que peut-il sans ta crainte avoir de fructueux?
Liv. I, Chap. II.
«Vanité d'entasser richesses sur richesses, Vanité de languir dans la soif des honneurs, Vanité de choisir pour souverains bonheurs de la chair et des sens les damnables caresses.
Liv. I, Chap. I.
«Vraiment grand est celui qui dans soi se ravale qui rentre en son néant pour s'y connaitre bien, qui de tous les honneurs que l'univers étale craint la pompe fatale, et ne l'estime en rien.
Liv. I, Chap. III.
Victor Hugo, o mestre supremo, tambem não obedeceu invariavelmente a esta regra que a critica pretende impôr dogmaticamente, como immutavel.
Vejamos na _Esmeralda_, acto I:
«Nous irons au clair de lune danser avec les esprits... Vive Clopin, roi de Thune! Vivent les gueux de Paris!
«Au milieu de la ronde infame qu'importe le soupir d'une ame? Je souffre! oh! jamais plus de flamme au sein d'un volcan ne gronda.
Em _La Forêt mouillée_, Scene II:
«Les moutons promis aux fourchettes Passent là-bas; j'entends leurs voix Sonnez, clochettes, au fond des bois. Le beau Narcisse est en manchettes; Silène a mis toutes ses croix.
Rostand, o impeccavel, na _Samaritaine_, tambem não se subordinou absolutamente a essa regra, como se vê logo na primeira scena:
«Poussé par la brise des nuits, et vagabond jusqu'à l'aurore, je viens pour des fins que j'ignore, comme un fantôme que je suis. D'une sandale sonore je viens, je glisse et je m'enfuis... Mais, ô Jehovah que j'adore! quelle est cette grande ombre encore qui se tient debout près du puits?
e assim prosegue o genial poeta em toda essa scena que se compõe de cento e nove versos.
E para que não diga a critica perversa que n'esses exemplos não ha alexandrinos, aqui ficam estes alexandrinos, ainda do I acto, scena V, em que Photina declama:
«Mon bien aimé--je t'ai cherché--depuis l'aurore, Sans te trouver,--et je te trouve,--et c'est le soir; Mais quel bonheur!--il ne fait pas--tout a fait-noir: mes yeux encore pourrent te voir.
e assim por toda a _fala_ de Photina, gue se compõe de mais de vinte nove versos.
Na lingua portugueza, porém, não ha um poeta sequer que obedeça á regra da metrica franceza, nem no drama, nem no poema.
Junqueiro, na _Morte de D. João_, na _Musa em ferias_, na _Velhice do Padre Eterno_, na _Patria_, ou nos _Simples_ usa indistinctamente as rimas agudas, graves, e esdruxulas, emparelhadas, ou alternadas.
«O pensamento humano mergulhou como um Deus nas grutas do oceano, embebeu-se no azul, andou pelo infinito, interrogou a historia, os ventos, o granito, todas as creações, todas as creaturas, vermes, religiões, abysmos, sepulturas, e disse-nos: Jesus, Socrates, Platão fallaram a verdade. Existe uma rasão, uma ideia, uma lei, mysteriosa, etherea, que rege o movimento e as formas da materia...
_Morte de D. João._--Introducção, pag. 31.
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«Hediondo! assassinar um homem que assassina! Collocar o direito ao pé da guilhotina. Resolver a questão do crime--um cemiterio! Sanccionar Papavoine e decretar Tiberio! Um carrasco de guarda á nossa segurança! O pelotão--juiz e o tribunal--vingança! E é uma coisa que indigna, um facto que comove, que quasi ao terminar o seculo dezenove pensem como Marat, pensem como Cain as leis no velho mundo e o tigre em Bombaim!
_Musa em férias_; Idilios e Satiras, pag. 137.
Julio Dantas, o brilhante poeta da _Ceia dos Cardeaes_ tambem não adoptou a regra que a critica indigena pretende nacionalizar.
Xerez. «Roma! Roma que viu, pela primeira vez, Beneditto XIV, um papa,--a receber Conselhos de Inglaterra e cartas de Voltaire! ............................................
«As cartas de Voltaire, honram! ... É natural fala como francez. ... Fala como cardeal! ............................................
«Mas perdão... Não será politica de mais para uma ceia alegre? Emfim trez cardeaes não salvam Roma...
Como se vê, Julio Dantas, empregou successivamente dez agudos.
E esse arrojo do eminente poeta portuguez não impediu que a _Ceia dos Cardeaes_ tivesse oito traducções em allemão, francez, italiano, hespanhol e no dialeto catalão, nem evitou que fôsse representada mais de quatrocentas vezes.
Entre os poetas brasileiros bastará citar dois nomes de primeira grandeza: Alberto de Oliveira e Goulart de Andrada; nenhum se submette á exigencia franceza da critica indigena.
A _Cruz da montanha_ do primeiro é um poemeto de 126 alexandrinos. Em toda essa obra prima não ha dois versos agudos e apenas se encontra uma parelha de esdruxulos.
Observa-se o mesmo phenomeno em varias outras composições como--_A Enchente_, com 76 alexandrinos; a _Lagarta_, com 124 versos de vario metro, onde apenas ha 14 rimas agudas: _Atmo_, com 88 alexandrinos, entre os quaes apenas dois esdruxulos e nem um agudo.
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_Ascenção perigosa_, de Goulart, é uma poesia composta de 44 alexandrinos, dos quaes apenas quatro são esdruxulos e nem um agudo.
_Apocalypse_ é formado de 158 alexandrinos: nem um agudo, sómente dois esdruxulos.
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E a razão é simples, é natural, é formidavel: o idioma francez é abundantissimo de agudos e o portuguez é, relativamente, pauperrimo.
Para observar inalteravelmente a regra franceza que a critica pedante e fátua pretende impôr vaidosamente, depressa ficariam exgottadas as rimas agudas e o poeta incidiria na repetição das consoantes, o que constitúe o defeito da pobreza de rimas, acremente censurado pela critica.
Além disso, os francezes não conhecem as palavras esdruxulas, ao passo que a lingua vernacula é riquissima d'esses vocabulos e, a ser observada na poesia dramatica portugueza e brazileira a lei da arte de Corneille e Racine, os poetas lusitanos e patricios vêr-se-iam obrigados a escrever alternadamente os seus versos em parelhas systematicas de esdruxulas, graves e agudas, o que seria, além de fatigante e exhaustivo, de um rebuscamento torturado, monotono, somnolento.
O obscuro autor da _Talitha_ preferiu deixar expandir-se naturalmente o pensamento proprio, de accordo com a alma dos personagens: o verso e a rima já de si são condições impostas pela exigencia artistica, apurar essa exigencia com o requinte de uma symetria dispensavel, equivaleria a torturar os sentimentos das figuras que se movem na acção dramatica.
O facto de ser uma regra de Corneille e de Racine tambem geralmente seguida por outros poetas modernos--o emprego alternado de dois agudos e dois graves, não evita a monotonia, principalmente quando se traduz o pensamento de um personagem ou se reproduz um vulto historico: na vida real ninguem se exprime por essa fórma.
Entretanto, admittidos geralmente o verso e a rima, o poeta deve quanto possivel, para evitar a monotonia, variar o rythmo, o metro e o encadeamento da rima: as difficuldades artisticas e technicas não são excluidas por esse criterio, conservam-se; a monotonia desapparece e o pensamento, exprimindo-se com mais liberdade, permitte melhor estudo da psychologia dos personagens, e mais vigor descriptivo.
O proprio autor da _Talitha_ verificou praticamente o que acaba de affirmar quando escreveu a _Visão de Colombo_, em um acto, obedecendo systematicamente á regra da poetica franceza e emparelhando os alexandrinos por ordem de rimas agudas, graves e esdruxulas em toda a extensão do poema dramatico, formado de quatro centos e poucos versos, sem repetição de rimas.
Ramalho Ortigão ensina:
«não são as academias que pautam as proposições e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma, convertida em realidade objectiva e communicando aos homens uma vibração nova de sentimento.
«A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria, deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percussão ella determina.»
Op. cit., pag. 145.
Adherbal de Carvalho doutrina:
«É no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; é neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso.
«A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos. Vimos que a consequencia é a pobreza, a esterilidade do proprio pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta. O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppressão de regras não racionadas: liberdade é fecundidade.»
Op. cit., pag. 282.
E depois d'essas duas sentenças, atreve-se o autor da _Talitha_ a perguntar á critica indigena como será possivel arvorar em preceito obrigatorio de arte poetica da nossa lingua, a regra de Racine e Corneille, quando a tendencia moderna é para supressão da rima e para a cultura extremada do rythmo no verso branco?
A falla de _Cacambo_ e o episodio da morte de _Lindoya_ no _Uruguay_ de Basilio Gama nada perderam em valor artistico pela falta de rima: o _Colombo_ de Araujo Porto Alegre encerra verdadeiras maravilhas em verso branco; Alexandre Herculano, que foi um cinzelador do verso, na _Harpa do Crente_ deixou primorosos lavores em verso solto.
Anthero Quental, cujas _Odes modernas_ arrancaram a Michelet uma soberba explosão de espanto
«Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta das _Odes modernas_, Portugal continuará a ser um grande paiz vivo.»
Anthero legou nessa obra monumental pequenos monumentos em verso branco.
E para não fallar na _D. Branca_ de Garrett, todo escripto em versos soltos, bastará citar os livros admiraveis de Correia de Oliveira: _Ara_ e _Raiz_, demonstração brilhante de que a obrigatoriedade da rima tende a desapparecer cedendo á liberdade do pensamento.
O velho mestre Antonio Feliciano de Castilho, na sua Arte poetica, escreveu:
«Os versos agudos, pelo seu modo secco estalado de acabar, sem elasticidade, sem vibração, se assim o podemos dizer, teem o que quer que seja de ingrato ao ouvido; seriam insoffriveis, se alguem se lembrasse de nol-os dar enfiados aos centos e aos milheiros, como os graves nos apparecem, sem nos cançarem: demais por isso mesmo que os vocabulos agudos são menos frequentes, d'ahi tiram os versos agudos um quid de exhibição e exquisitice que não parece frisar senão com as idéas extravagantes, comicas, brutescas ou satyricas.
«Do expendido por boa razão se infere: l.º que em toda e qualquer especie de metro são os versos graves que devem, predominar.»
A critica pretenciosa e petulante indicadora de regras de arte rebella-se contra a autoridade incontestavel e consagrada de Antonio Feliciano de Castilho e quer que em versos portuguezes o autor da _Talitha_ adopte a regra franceza, que equipare agudos e graves e os manda empregar em numero igual, symetrica e systematicamente dispostos em parelhas alternadas.
O autor da _Talitha_ não adoptou a regra de Castilho mas tem ao seu lado, para apoiarem o seu procedimento, as autoridades dos rebeldes Junqueiro, Feijó, Luiz de Magalhães, Lopes de Mendonça, Julio Dantas, Eugenio de Castro, Antonio Nobre, Gonçalves Crespo, Marcellino de Mesquita, Fernando Caldeira que não a observaram, nem se submetteram á lei de Corneille e Racine, e, o que é tudo, do proprio Antonio Feliciano de Castilho que não adoptou a regra franceza na composição dos alexandrinos emparelhados.
Isso em Portugal, porque no Brasil o autor da _Talitha_ encontra apoio para o seu procedimento em Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Goulart de Andrada, Martins Fontes, Guimarães Passos, Luiz Murat, Machado de Assis, Valentim Magalhães, Lucio Mendonça, Oscar Lopes, Pereira da Silva, Emilio Menezes, Frota Pessoa, Flexa Ribeiro, Zeferino Brasil e Coelho Netto que não consideram a technica franceza como adaptavel ao verso portuguez, se bem que discretamente observem a opinião de Castilho, relativamente á proporção das rimas agudas e graves.
Ora, a critica indigena, ainda rescendendo aos aromas equivocos da primeira infancia, ha de permittir que o autor da _Talitha_ prefira as autoridades artisticas de dois hemispherios, acima citadas, ao impertinente pedantismo da incompetencia de quem, em materia de autoridade litteraria, não chegou ainda se quer á categoria de trintanario do _Pegaso_, na estrebaria de Augias.
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A critica indigena censura a pobreza de rima da _Talitha_: não tem razão.
A _Ceia dos Cardeaes_ é uma obra prima: assim o prégou a critica, assim a considera a opinião.
Pois bem; essa joia tem 338 versos; o primeiro acto da _Talitha_ compõe-se de 492.
A _Ceia dos Cardeaes_ tem apenas 66 rimas diversas; o primeiro acto da _Talitha_ dispõe de 127 rimas differentes: a proporção naquella é de 5%, nesta é de 25%.
Na _Ceia dos Cardeaes_ ha apenas 31 rimas que não foram repetidas; no 1.° acto da Talitha ha 80.
Na primeira, a obra prima, essa proporção é de 9%, na _Talitha_, a condemnada, a proporção é de 17%. A critica indigena tem cabellos na lingua e fel no coração.
A _Samaritana_ é a obra prima de Rostand, assim a julgou a critica europea, assim a julga o proprio poeta.
O primeiro acto d'essa joia magestosa tem 808 versos.
Pois bem: entre esses ha 322 repetições, apenas em 17 rimas.
Poder-se-ia fazer o confronto dos tres actos: basta esse que ahi fica para demonstrar que a critica nem soube o que disse, nem sabe o que é pobreza ou riqueza de rima.
A opulencia de rima póde ser exigida em composições poeticas esparsas, que não tenham grande extensão, mas em um poema dramatico essa exigencia da critica é despotica, é absurda, principalmente quando os personagens que o movimentam são da especie daquelles que figuram no entrecho da _Talitha_.
Collocar nos labios de _Joaquina_ versos de rima escolhida, apurada, sem repetições de termos que andam constantemente na conversa commum, substituindo estes por palavras rebuscadas nos diccionarios de rimas, sómente para que a critica se extasie deante de uma riqueza phantastica, equivaleria a falsear a natureza intima do personagem e fazer de uma santa e simples mulher vulgar da aldeia, uma pretenciosa ridicula; a espontaneidade do escriptor desappareceria para dar logar ao rebuscamento, o artista seria supplantado pelo artifice, o poeta pelo rimador, o sentimento pela paciencia.
A opulencia da rima importaria necessariamente na elevação da linguagem e a critica deixa de ser logica exigindo por essa fórma o que já condemnára, considerando alcandorada em demasia para personagens de aldeia a linguagem que o autor da _Talitha_ confiou a cada um d'elles.
Nos acontecimentos vulgares da vida de aldeia as palavras são simples, corriqueiras; o vocabulario dos aldeãos é pouco extenso e tradicionalmente consagrado: ha phrases peculiares, ha para cada facto da vida, póde-se dizer, um termo que não se substitue, um conceito consagrado pelo uso immemorial; o mesmo sentimento, traduzido por outros termos, em phrase diversa, não é comprehendido.
O eminentissimo critico e brilhante espirito de estheta brasileiro o notavel mestre da lingua vernacula, Snr. José Verissimo, doutrina superiormente:
«O grande escriptor em todas as linguas é o que escreve e consegue todos os effeitos da sua arte com o vocabulario corrente, não só do povo--que é realmente pobre--mas da litteratura do seu tempo.»
Citação de Elysio de Carvalho no livro--_As modernas correntes estheticas_, pag. 27.
Em taes condições, se o dialogo, apezar de ser em verso, deve reflectir, quanto possivel, as condições normaes da vida e do personagem, attribuir a este a expressão dos seus affectos, das suas dôres, das suas alegrias, dos seus desejos ou das suas esperanças, por meio de palavras em rima opulenta, será desnaturar o personagem, será mentir á realidade, será phantasiar um typo que a natureza local reproduzida no theatro, não creou na vida real.
Comprehende-se essa exigencia na alta tragedia historica ou sacra, ou ainda nas phantasias mythologicas: alli, sim, a linguagem póde e deve ser alcandorada sem inverosimilhança, os personagens vem distinguidos pelo prestigio da historia, da Biblia, do sobrenatural, que substituem toda a realidade objectiva.
A admiração, a fé e a idolatria pódem crear os maiores absurdos: Esopo, Phedro, Lafontaine fizeram falar os animaes em verso sublime, limado, terso, brilhante, sonóro, de rima opulentissima.
Zola escreveu:
«C'est, je le répète, le seul cadre ou j'admets, au theatre, le dedain du vrai. On est là en pleine convention, en pleine fantaisie, et le charme est d'y mentir, d'y échapper a toutes les realités de ce bas monde.
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«Jamais les auteurs ne se trouvent acculés par la vraisemblance et la logique: ils peuvent aller dans tous les sens, aussi loin qu'ils veulent, certains de ne se heurter contre aucune muraille.
..................................................................
«La comédie et le drame, au contraire, sont tenus à être vraisemblables.»
Zola. _Le Naturalisme au théâtre_, pag. 357, 358.
Mas João de Deus, que foi em Portugal «a mais completa encarnação do lyrico apaixonado, sem entraves positivos, sem preoccupações estylisticas visando á erudição», que foi «sentimento singelo, o amor, esse amor portuguezissimo, em palavras singelas, versos de medida simples e estylo simples», João de Deus que cantou a simpleza rural da sua terra, a alma dôce do povo e dos campos, esse «que é o lyrico mais portuguez» como considera Fidelino Figueiredo, «um grande scismador e um grande artista, que não tem artificios na sua poesia, singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora como uma parábola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Platão», no dizer profundo de Alexandre da Conceição, João de Deus não se preoccupou com a opulencia da rima, nem mesmo quando escreveu para o theatro aquella encantadora phantasia em um acto _Horacio e Lydia_, romana pelo assumpto, grega pela technica.
Ora, a _Talitha_ é composta de 1873 versos de varios metros, predominando o alexandrino.
Para demonstrar opulencia de rima, o obscuro autor da _Talitha_ reservou as suas modestas poesias esparsas, entre as quaes figura a _Ode ás Arvores_, dedicada a Coelho Netto, ode essa que se compõe de 312 alexandrinos, e não tem sequer uma rima repetida, além da grande abundancia de vocabulos cuja difficuldade de rima é conhecida.
Um dos zoilos da Talitha, com o intuito de provar que os tres actos d'esse evangelho são indigentes de rima, nota que no 2.° acto a palavra enferma rima com erma e no 3.° acto tambem enfermo rima com ermo.
E o zoilo exclama:
«Para _Enfermo_ o poeta encontrou apenas a rima _ermo_, uma rima pobrissima.»
Mais pobre de espirito é o critico.
A _Talitha_ compõe-se de 1873 versos; quatro vezes apenas o maldizente encontrou a rima em _erma_, ainda assim uma vez no masculino e outra no feminino, e fulmina a censura:
«o poeta só encontrou a rima _ermo_ para _enfermo_, rima pobrissima.»
Ignorante, perverso, futil, ou lorpa.
Pois bem, o autor da _Talitha_ consultou os diccionarios de rima de Castilho e de Alencar, duas autoridades na materia, e para _enfermo_ apenas encontrou _ermo_, _termo_ e _estafermo_. As duas primeiras foram applicadas, uma no segundo, outra no terceiro acto.
Quanto á terceira--_estafermo_--o poeta da _Talitha_ só a poderia utilizar se fizesse referencia ao critico.
Para agradar á sua opinião e corresponder á sua exigencia, o zoilo pretende que o autor da _Talitha_ deveria forgicar palavras, neologismos, sómente com o fim de não repetir a rima!
Mas se essa rima é pobrissima, que culpa tem o autor da _Talitha_, se a lingua apenas lhe faculta, além dessa, mais duas, uma das quaes pertencente ao calão?
Entretanto o critico mentiu: no segundo acto a rima de _enferma_ é _erma_; no terceiro acto á palavra _enfermo_ foi dada a rima--_termo_.
2.º acto, pag. 64:
«seria bem melhor que cuidasse da enferma, que vive ali no escuro abandonada e erma»
3.º acto, pag. 89:
«de acudir pressuroso ao leito dum enfermo ardendo em alta febre e bem proximo ao termo d'uma longa existencia...»
Eis ahi ao que se reduz a censura do zoilo: á mentira.
* * * * *
Por ultimo a critica indigena censura o autor da _Talitha_ por ter escripto o drama em tres actos afim de apresentar, desnecessariamente, no terceiro, a _marqueza_, mãe da heroina.
E a critica, em ar de pilheria, pede um quarto acto para que appareça tambem o Pae de _Talitha_.
O autor não teria duvida em satisfazer o desejo da critica, escrevendo mais dois actos para apresentação da sogra de _Talitha_, se tambem a critica de outra tempera, a critica elevada e honesta, não houvesse solicitado a redacção dos tres actos simplesmente aos dois primeiros para que esse obscuro trabalho
«seja legado pelo autor ao seu paiz, como um thesouro, refundindo-a, cortando as scenas a mais, deixando-a nos dois actos primeiros mais o milagre e a oração; assim _Talitha_ será um primor litterario...»
Critica da _Tribuna do Rio_.
«O drama é magnifico. E porque não dizer o melhor drama que se tem escripto no Brazil?»
Critica da _Gazeta de Noticias_, do Rio.
«Os tres actos do Sr. Pinto da Rocha dão a quem os ouviu a satisfação rara e salutar que só produzem as obras de arte, erguidas severamente com a segurança de que só é capaz a sinceridade.»
Critica do _Paiz_, do Rio.
«...mas os bons versos, as rimas felizes e inesperadas abundam na peça, que fica sendo um dos mais bellos poemas da nossa litteratura.
«... pois nao ha muito disso por toda essa America afóra.»
Arthur Azevedo--Critica da _Noticia_, do Rio.
Á critica indigena, rasteiramente inspirada pelo odio e pela paixão politica, o autor da _Talitha_ contrapõe a critica da imprensa do Rio.
Será vaidosa a citação d'essas opiniões, mas o obscuro autor da _Talitha_ tem orgulho do seu trabalho e esse orgulho é como a soberbia das mães que beijam os filhinhos aleijados e loucos, tendo-os no coração como as imagens incomparaveis da suprema formosura.
A _Talitha_ não será brasileira porque o assumpto e os personagens são portuguezes; não será portugueza porque o seu autor não teve a felicidade de nascer em Portugal, mas...
Mas a _Talitha_ é mais que portugueza, mais que brazileira, é humana.
Mas a _Talitha_ é minha... É o producto do meu espirito, do meu trabalho, é filha da minha mocidade...
É modesta, é pauperrima, e futil, mas é minha.
E a critica indigena dos zoilos que produziu? Nada, absolutamente nada; póde viver noventa annos, como Sárah, não haverá Abrahão na terra que lhe arranque um Isaac das entranhas...
Os zoilos são admiraveis, sabem tudo e não fazem cousa alguma.
Conhecem perfeitamente a patria, sob todos os aspectos, desde a fecundidade uberrima da terra aos esplendores astraes do céo; desde a constituição intima da familia á grandeza fulgurante da historia.