Talitha: evangelho em tres actos
Chapter 7
O facto é verdadeiro, era sufficiente que fôsse verosimil: o autor da _Talitha_ dramatisou-o, traduziu nos seus versos modestos as desventuras e a redempção dos seus personagens pelo amor,
«l'amor che muove il sole e l'altre stelle.»
O seu drama obscuro impressionou e commoveu, tanto basta: a agitação da critica apenas conseguiu encrespar a vaidosa pleiade de coripheus do elogio mutuo e a paixão, a animosidade e malquerença politicas.
Zola pontificou:
«Il n'est poin't de jeune homme arrivant de sa province qui ne rève de distribuer des coups de férule.
«Ces pauvres jeunes gens n'ont souvent pas deux idées nettes dans la tête. L'experience leur manque. Ils tapent en aveugles. De lá les jugements extraordinaires qui font resembler notre critique a une veritables Babel, ou on parlerait toutes les langues, sauf la langue de verité et de justice qu'il faudrait y parler.
«Je ne nommerai personne parmi ces jeunes gens.
«Le vent qui les apporte, les emporte.»
_Documents litteraires; la critique contemporaine._--pags. 346, 347.
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O assumpto da _Talitha_ é portuguez, portuguezes são os seus personagens, portuguez o meio em que a acção se desenvolve, portugueza foi a atmosphera em que o autor viveu a sua adolescencia e a sua mocidade: o drama não podia deixar de reflectir
«l'état général de l'esprit et des moeurs environnantes.»
De profundas amarguras, de lacerantes provações para o povo portuguez foi a época dolorosa em que o modesto autor da _Talitha_ aprehendeu em flagrante o desenrolar da acção dramatica do seu poema lyrico: e essa éra prolongou-se em uma crise tremenda que acaba de chegar ao seu auge, a sua maxima intensidade.
Portugal acabava de receber o _ultimatum inglez_ na questão pungentissima das possessões africanas, a natureza fôra de uma dureza extrema: ás innundações dos invernos succedeu a crise agricola que esmagou a producção vinicola pela invasão phyloxerica, as agitações politicas ganhavam terreno e a ideia republicana fazia proselytos ameaçando as instituições monarchico-religiosas de sete seculos e, em meio dessas provações a Providencia, esquecida da immensa piedade d'aquelle povo sublime, ininterruptamente demonstrada em uma historia em que não soffre solução de continuidade o culto da divindade catholica, fulmina-lhe os homens notaveis e successivamente desapparecem no tumulo: Fontes Pereira de Mello, Anselmo Braamcamp, Pinheiro Chagas, Guilherme de Azevedo, Lopo Vaz, Antonio Rodrigues Sampaio, Luciano Cordeiro, Antonio Ennes, Marianno de Carvalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo d'Avila, Eça de Queiroz, Alexandre da Conceição, Raphael Bordallo Pinheiro, Gervasio Lobato, Souza Martins, Camillo Castello Branco e Anthero de Quental imitam o exemplo de Chatterton e atravessam a luminosa região dos seus cerebros geniaes com a inferioridade crudellissima de uma bala.
Da nova geração, Antonio Fogaça, Luiz Ozorio, Antonio Nobre, Moniz Barreto seguiram a estrada da morte.
A crise economica era pavorosa, a emigração clandestina assustava os espiritos mais fleugmaticos, á questão ingleza, seguiu-se a revolta de 31 de Janeiro e a situação geral era tão delicada e complexa que nem o genio de José Dias Ferreira, nem as combinações politicas de homens como Hintze Ribeiro e Fuschini conseguiram solver.
Ao desequilibrio financeiro succederam a questão monetaria e o augmento da divida publica, fortemente aggravadas as condições do credito publico pela questão internacional do emprestimo de D. Miguel. E Teixeira Bastos escreve:
«Diante do desconsolador espectaculo que apresenta a sociedade portugueza estrebuchando no esphacêlo, ha quem tenha perdido de todo a esperança de regeneração; ha quem se persuada que estão chegados os ultimos dias de Portugal. Com effeito, a agudeza da crise, que talvez ainda esteja longo de seu termo, justifica em grande parte este excesso de pessimismo.
«Portugal, como todas as nações contemporaneas, em maior ou menor gráo, lucta com uma crise terrivel, que se revela sob aspectos variadissimos. É uma crise politica, financeira, economica, mas sobre tudo social e moral.»
Teixeira Bastos--A Crise, pag. 435.
Esse estado geral do espirito e dos costumes portuguezes influiu poderosamente na producção artistica e litteraria d'aquelle tempo e na que se seguia.
Na esculptura destaca-se a estatua de _Hermengarda_ em que o talento de Moreira Rato evoca para o marmore a alma dilacerada da heroina de Herculano, o pessimista glorioso, o desilludido sublime de Val de Lobos.
Na architectura não surge cousa alguma que atteste a sublimidade do caracter nacional e o que havia de notavel, legado e herança do passado, soffre a influencia do desanimo, da indefferença, da tristeza geral que domina.
É de Ramalho Ortigão o que se vae lêr:
«Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos architectonicos da nação...
«Dos desacatos de lesa-magestade nacional, a que tenho a dôr e a vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a cumplicidade official. Os primeiros são uma consequencia do desdem: os segundos são um resultado de incapacidade.»
Ramalho Ortigão.--_O culto da Arte em Portugal_, pags., 19 e seguintes.
Quanto á vida e a producção litteraria, o autor da _Talitha_ invoca o depoimento do grande critico portuguez; é elle quem affirma:
«Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de portugal faltam corações portuguezes.
«Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida intellectual.
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«A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional, e vem fallando uma lingua secreta, cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas seitas.
«Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da raça, nem se retrata o genio do nosso povo, meigo, docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias dos seus santos populares, conservando nas intimas camadas sociaes um residuo trovadoresco, de palladino e de menestrel, susceptivel ainda das paixões mais profundas, todo de imposição e repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventureiro e destemido.
«Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimentos.»
Ram. Ortigão.--op. cit., pag. 110 e seguintes.
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Embora modesta a _Talitha_, embora sem merecimento o seu autor obscuro, como poderiam ambos--drama e escriptor--fugir a esse estado geral do espirito e dos costumes, de que falla Taine?
Necessariamente deveriam obedecer á lei, e por isso apparece nos dois primeiros actos do drama essa dolorida tristeza que é o reflexo da situação geral da sociedade e que a desventura daquella familia, pela desventura da pequena Talitha, aggrava e apura com intensidade.
«D'autre part, l'artiste a été élevé parmi des contemporains mélancoliques; partant, les idées qu'il a reçu et celles qu'il reçoit encore tous les jours sont mélancholiques.
«La religion regnante, qui s'est accommodée au lugubre train des choses, lui dit que la terre est un exil, le monde un cachot, la vie un mal, et que toute notre affaire est de meriter d'en sortir»
H. Taine--op. cit., vol. I. pag. 65.
Aliás é profundamente melancolica toda a obra litteraria portugueza desse tempo, muito principalmente na poesia.
É um soluço de magua--o _Espirito Gentil_--de Luiz Ozorio; formam um rosario de amarguras--as _Orações do Amor_ de Antonio Fogaça; é um gemido crudellissimo o _Só_ de Antonio Nobre; é como um echo de Necropole--_Nada_--de Julio Dantas.
No theatro, Marcellino de Mesquita lança a _Noite do Calvario_, reproducção profundamente dolorosa e triste de um acontecimento real da vida de um lar que o dramaturgo generalisa ás condições da vida social, aliás já cruelmente desvendada nos _Castros_.
Para fugir á influencia da actualidade Julio Dantas recorre ao passado, á chronica, a historia e não consegue eximir-se á impressão da desventura: _O que morreu de amor_ é uma resurreição esmagadora de magua; a _Severa_ é um manto de crepe encobrindo um cenotaphio; _O serão nas larangeiras_ é uma ironia finissima, um esfusiar de espirito que occulta, mascára, e pinta um immenso abatimento moral.
Gervasio Lobato passa nesse meio espalhando gargalhadas, ridiculo e _troça_ sobre a sociedade carcomida pela crise e acabrunha de pilherias a burguezia e a classe media no _Commissario de Policia_, no _Solar dos Barrigas_ e na _Lisboa em Camisa_, passando do palco ao romance.
A _Velhice do Padre Eterno_ é uma _charge_ monumental sobre o ultramontanismo da sociedade religiosa: a _Patria_ é uma objurgatoria tremenda, um raio de colera olympica; os _Simples_, constituem um colar de lagrimas de uma jeremiada genial e as _Orações ao Pão e á Luz_ são as aspirações tantalicas do genio ao seio da excelsa divinisação da arte, como refugio extremo de uma alma que foge ás revoltas da terra para não cahir na lama das decomposições sociaes.
A _Rosa engeitada_, de D. João da Camara, é a dôr vivendo e esmagando as almas; os _Velhos_, apezar do seu encanto bucolico e purissimo, é um crepusculo de sombras dôces.
A _Cruz da Esmola_, de Eduardo Schwalbach, é a photographia nitida da tortura e do desespero...
E tudo isso é a reproducção conscienciosa de um estado de pathologia social... a menos que a critica não attribua tudo isso á phantasia dos artistas pelo gozo requintado de esmagar a propria patria ao peso de calumnias...
Mas neste caso como comprehender o collossal successo das obras extraordinarias de Ramalho Ortigão na critica, de Eça do Queiroz ao romance e de Raphael Bordallo na caricatura, profligando esse estado geral de espirito e de costumes como Alphonse Karr, Gavarni e Flaubert na alta cultura genial da França, em plena floração artistica e litteraria?
O terceiro acto da _Talitha_ não destôa dos anteriores, a unidade não se quebra, transmitte-se, completa-se: a mesma suave melancolia dos primeiros conserva-se na narrativa da morte do sargento que _Ruy_ communica a _Joaquina_ e no _raconto_ que das suas desventuras, faz a _Marqueza de Rilma_ ao velho cura João Fulgencio.
A mesma serenidade christan dos primeiros actos paira no terceiro através da descripção em que _Talitha_, ao som dos sinos distantes da missa do gallo, conta a _Ruy_ e a _Joaquina_ a sua allucinação passageira e termina com a _Salve-Rainha_ rezada ao soluçar do orgam e ao repique da alvorada annunciando a missa d'alva.
A alegria que vibra n'este acto é mais intensa, realmente, mas n'elle se encontram trez factos culminantes: a confirmação do noivado de Talitha pelo perdão da Virgem na visão da missa; a cura radical e milagrosa da sua cegueira e o apparecimento da mãe tanto tempo perdida.
Mas a alegria não surge alli de surpresa, repentinamente: no primeiro acto ella vibra na scena final de amor em que as duas almas que se comprehendem recebem a benção da velha Joaquina surprehendendo-as na ventura do seu idyllio, e no segundo acto a primeira scena succede naturalmente a essa e os dois velhos ligam, plas recordações, a passada alegria de outros tempos, a que se vae em breve descerrar quando _Ruy_ levantar definitivamente a venda aos olhos da redimida.
Ahi a alegria vae á intensidade das lagrimas, é a tristeza que nasce das extremas emoções da felicidade que não é triste e, se momentaneamente desapparece quando _Talitha_ se deixa vencer pela fé religiosa e rompe o juramento de amor para cumprir o juramento do voto de clausura, de novo se reata e estala em um sorriso de supremo arrebatamento, quando a piedosa e santa mentira do _Cura_, depois da confissão, lhe relata o sonho da madrugada anterior em que elle viu rolar no espaço
no fulgor de uma estrella o beijo do perdão.
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A virtude daquellas almas!...
E porque razão de alta monta o autor da _Talitha_ devia quebrar a verdade do facto observado, a unidade d'aquelle conjuncto que elle não phantasiou e que, felizmente, encontrou num dia da sua mocidade, em meio da crise social moral que caracterizava aquella época dolorosa de provações populares?
Introduzir um personagem que não tivesse as mesmas qualidades de caracter seria deturpar os factos para obedecer ao _métier_, a carpintaria de theatro vencendo a moral na arte: um cumulo de estupidez.
Além de tudo, inutil: a emoção dramatica, o effeito theatral são completos e seguros com a simplicidade daquellas cinco figuras, porque o Bem, a Virtude e a Harmonia encantam e commovem sempre, em todas as zonas e latitudes da terra.
Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:
«O artista que emprega suas faculdades ao serviço de uma idéa generosa não é menos artista por isso, se bem que não seja por isso que elle é artista. O amor e a intelligencia do bem suppõem uma concepção superior das condições da vida individual e social que é preciso desejar a todos os artistas como a todos os homens...»
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«Entretanto ha uma observação a fazer neste ponto, é que parece mais facil pintar o vicio do que a virtude. Balsac, que se sahiu admiravelmente na pintura dos monstros, encalhava quasl sempre quando era atacado pelos homens pudicos.
«Tão verdadeiros e vivos são os seus libertinos da alta o baixa sociedade, como os outros, na maior parte do tempo, são ternos e mal acanhados.»
Op. cit. pag. 32.
Ainda mesmo quando o autor da _Talitha_ houvesse faltado á verdade dos factos que observou, teria tentado o problema, na opinião do estheta brazileiro, mais difficil de resolver: o estudo e a interpretação da Virtude o do Bem, na psychologia dos cinco personagens que jogam em scena a acção do seu obscuro poema lyrico.
A critica indigena, ignorante ou perversa, petulante ou futil, feriu-se com as proprias armas.
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Que o autor da _Talitha_, sem prestigio para fazel-o, permittiu-se a liberdade de escrever um drama em verso, fórma litteraria que está totalmente banida do theatro moderno, supplantada pela prosa.
É outra censura da critica indigena; espera-a a mesma sorte das anteriores: a critica é vesga e não sabe o que diz.
Do theatro moderno ainda não foi banida a fórma alta e pura do verso: semelhante vandalismo seria uma violencia feita á arte, á belleza, ao bom gosto, á suprema lei do rythmo, para cujo excelso dominio tendem naturalmente todas as manifestações da vida e a linguagem da poesia do metro e da rima, a altissima elegancia.
Moderno é Victor Hugo, gigante de oiro do theatro francez e escreveu em verso: _Esmeralda_, _Burgraves_, _Ruy Blas_, _Cromwell_, _Torquemada_, _Grandmère_, _L'Épée_, _Mangerontils?_, _Sur la lisière d'un bois_, _Les gueux_, _Étre aimé_, _La Forêt-mouillée_.
Modernos são Paul Delair e Lomon e escreveram em verso os seus dramas _Garin_, _Jean Dacier_ e _Marquis de Kenilis_ que Zola critica asperamente na sua obra--_Naturalisme au Théâtre_.
Moderno é Banville e produziu _Hymnis_, _Riquet à la houpe_ e _Socrates et sa femme_, tres comedias em verso.
Moderno é Alphonse Daudet e entre as suas obras figura _Char_, comedia em verso, em um acto.
Moderno é Alfred Musset e legou ao theatro da sua patria: _Les marrons du feu_, comedia; _A quoi rêvent les jeunes filles_, comedia; e _La coupe et les lèvres_, drama, todos em verso.
Moderno é Ed. Pailleron e no seu theatro figuram _Narcotique_, comedia em um acto, e _Hélène_, drama em quatro actos, ambos em verso.
Moderno é Ludovic Halévy, collaborador de Meilhac, e produziu, em verso, a _Phryné_ e _Nina, la Tueuse_.
Modernissimo é Emile Augier, o grande mestre da litteratura dramatica e da carpintaria theatral e escreveu em verso a maior parte das suas peças. São em verso: _Cigüe_, _Paul Forestier_, _Homme de bien_, _Aventurière_, _Gabrielle_, _Joueur de flúte_, _Philiberte_ e _Jeunesse_.
Moderno é Catulle Mendés e em 1872 dotou o theatro com a sua comedia em verso, _La Part du Roi_, em um acto; em 1888 fez representar a sua formosa phantasia, tambem em verso--_Isoline_, em tres actos; e em 1889 produziu, ainda em verso, o drama em 6 actos--_Fiammete_; em 1906, punha em scena no Odéon, o seu drama _Glatigny_, tambem em verso.
Modernissimo é Jean Richepin e, em 1905, fazia representar na Comédie Française o seu _D. Quichote_, em verso.
Modernissimo é tambem André Arnymede, que em 1906 assombrava a critica parisiense com a representação triumphal de _La Courtisane_, em cinco actos e em verso.
Modernissimo é Francis de Croisset e escreveu em verso os tres actos sensacionaes do Paon que subiu á scena na Comédie Française.
Modernissimo é Emile Veyrin que viu os seus formosos versos dos quatro actos de _Embarquement Pour Cythère_, no palco do Theatro des Bouffes Parisienne.
Modernissimo é Jacques Richepin e, em Abril de 1907, viu na ribalta da _Porte St. Martin_, os soberbos alexandrinos da _Majorlaine_, em cinco actos, depois de haver debutado com os versos admiraveis da _Reine de Tyr_, no theatro Sarah Bernhardt.
Moderno é François Coppée, e em 1878, em collaboração com Armand d'Artois, produziu o drama em cinco actos _Guerre des Cent ans_; em 1879, _Le Trésor_, comedia em um acto; em 1881, _Madame Maintenon_, drama em cinco actos e um prologo: em 1883, _Severo Torelli_, drama em cinco actos; em 1885, _Les Jacobites_, drama em cinco actos; em 1880, _Le Passant_, em um acto; e em 1888, _La Grève des Forgerons_, em um acto, e em 1905, _Scarron_, em cinco actos: e todos esses trabalhos são em verso.
Rostand escreveu todos os seus dramas em verso: _Princesse Lointaine_, _Romanesques_, _Cyranno de Bergerac_, _Samaritaine_, _Ayglon_ e ultimamente os tres primeiros actos do _Chant-clair_...
Miguel Zamacoix acaba de escrever e fazer representar em Paris pelo genio de Sarah Bernhardt, _Les Boufons_, em verso alexandrino, obra prima que a critica europea colloca, senão acima, ao lado do _Cyrano_.
E ainda recentemente, em Outubro de 1906, a imprensa franceza se occupou de uma outra obra prima do talento de Catulle Mendés, em soberbos alexandrinos, de um mysticisco celeste, que se intitula _Sainte Thérèse_.
Na Inglaterra, Robert Browning escreveu a tragedia historica _Strafford_ e os dramas _Mancha no Brazão_ e _Regresso dos Deuses_, todos em verso.
Na Italia, Gabriel d'Annunzio escreveu em verso os tres actos da _Filha de Jorio_, e fez representar por Eleonora Duse o seu grandioso monumento _Francesca da Rimini_, em verso, como em verso havia escripto pouco antes o seu extraordinario _Nerone_, o genio brilhante de Boito, e Cavalloti o seu formosissimo idylio _Cantico dei cantici_, em 1882.
Na Hespanha, deixando de parte o _D. Juan Tenorio_, de Zorrilla: o _Trovador_, de Gutierres; a _Roda de la Fortuna_, de Thomaz Rubi, todos de 1850: Hartzemburch produziu mais recentemente _Los Amantes de Terruel_; _Alfonso, el Casto_ e _La Madre de Pelagio_, e Echegaray o seu conhecidissimo _Gran Galeoto_.
E todos esses dramas são escriptos em verso.
Em Portugal, João de Deus, o lyrico sublime, escreveu _Horacio e Lidia_; Eugenio de Castro, o revolucionario de genio, o extraordinario autor da _Belkiss_ e de _Constança_, acaba de publicar o _Annel de Polycrates_; Henrique Lopes de Mendonça, o _Duque de Vizeu_ e a _Noiva_: Fernando Caldeira, a _Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_; Marcellino de Mesquita, a _Leonor Telles_; Julio Dantas, a _Ceia dos Cardeaes_; Francisco Palha, a _Fabia_; Luiz de Magalhães, o _D. Quixote_, os dois ultimos para o Theatro Academico, de Coimbra, todos em verso; sómente para citar os escriptores da actualidade, deixando de parte _O Catão_ e a _Merope_ de Almeida Garrett e o _Camões_, de Antonio Feliciano de Castilho.
Finalmente: em verso tambem escreveram no Brazil: Gonçalves de Magalhães, o _Olgiato_; Arthur Azevedo, o _Badejo_; Zeferino Brasil, o _Outro_ e Coelho Netto, _As estações_.
A critica, portanto, ou é ignorante ou mentiu propositalmente.
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Mas a critica adiantou-se ainda: abriu dogmaticamente uma excepção: o verso em theatro só se admitte para as tragedias historicas.
Outra cincada.
Em Portugal, Fernando Caldeira deixou no theatro duas joias preciosas: a _Mantilha de Renda_ e a _Madrugada_ que nem são tragedias, nem tem filiação alguma historica.
Na Italia, Cavallotti legou á lilteratura dramatica um primor de lyrismo: o _Cantico dei cantici_ que não é tragico, nem historico.
Em França, Catulle Mendès escreveu, em verso, os tres actos de _Isoline_ e os seis do _Fiammette_ que nada tem a vêr com a historia, nem com a tragedia.
François Coppée produziu _Le Trésor_, _Le Passant_, _La Grève des Forgerons_, todos em um acto e que não tem a minima relação com a tragedia, nem o menor vestigio de historia.
No Brasil, o _Badejo_, de Arthur Azevedo, é uma comedia, o _Outro_, de Zeferino Brasil, um drama; _As estações_, de Coelho Netto, uma phantasia, todos em verso, sem relação alguma com a historia ou com a tragedia.
A critica indigena
«appartient à ce monde de paresseux qui font chaque soir une grande oeuvre, en buvant une chope; seulement, le lendemain, ils ont sommeil et ne trouvent pas le temps d'ècrire la grande oeuvre. «La vie se passe, l'âge arrive, ils restent des debutants.»
Zola, _La critique Contemporaine_, pag. 351.
Entretanto, René Doumic, um mestre da critica, escreve na _Revue des Deux Mondes_:
«Je voudrais seulement que les poètes qui se sentent une vocation d'auteurs dramatiques ne s'imaginent point que le succès ne peut être obtenu par eux, à la scène, qu'en nous narrant des histoires romantiques ou des féeries.»
E Gaston Sorbets conclúe:
«M. René Doumic á assurément raison: la poesie dramatique est faite anssi pour exprimer les mouvements les plus profonds de notre coeur ou les aspirations les plus hautes de notre âme. Il suffit de voiler de poesie la Verité nue pour faire de cette divinité une muse nouvelle.»
Deixemos vociferar os maldizentes: nós ficamos com os criticos que sabem sentir e... lêr.
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Os zoilos que se lançaram á modestissima _Talitha_, censuraram ao seu autor o atrevimento inaudito de não observar a regra do Theatro francez de Corneille e Racine, que manda emparelhar systematicamente os graves e agudos na symetria inalteravel prescripta por aquellas duas autoridades.
Mas a critica, absolutamente não tem competencia para impôr aos escriptores brazileiros, por muito modestos e insignificantes que sejam, as leis e as regras da arte poetica franceza.
Se a obra d'arte é portugueza ou brazileira, o auctor não se submette ás leis da poetica franceza: observa os modelos nacionaes e portuguezes.