Talitha: evangelho em tres actos
Chapter 6
Pertencem ao genero historico: _Alexandre_, _Berenice_, _Britannicus_. E ainda mesmo quando Racine, resolvendo esmagar os seus zoilos, escreveu a comedia _Les Plaideurs_, que é uma _charge_ temivel de espirito e de genio, foi pedir ás _Vespas_ de Aristophanes, não só a inspiração, mas o exemplo, o paradigma.
Todas essas tragedias ficaram na litteratura franceza, pertencem ao Theatro da França que não as repudiou, que as ama, que as admira, cultuando a memoria dos genialissimos poetas, não obstante o haverem elles esquecido a seara magnifica da patria pelos encantos das estranhas figuras orientaes.
Victor Hugo foi pedir a Inglaterra o vulto espantoso do dictador para escrever a maravilha dramatica de _Cromwell_, deixando no esquecimento a soberba grandeza de Danton! Para dar á Escola romantica a sua data inicial no Theatro francez, o grande poeta das _Folhas de Outono_ foi buscar á Hespanha a inspiração dos versos maravilhosos do _Hernani_ e deixou á litteratura dramatica da França as figuras esculpturaes de _Dona Sol_, do bandido celebre, do Rei D. Carlos e do velho aristocrata Ruy Gomez.
Mas onde o genio do grande filho de Besançon attingiu a altitude suprema a que não chegaram Corneille no _Cid_ nem Racine na _Phèdre_, foi no _Torquemada_, a epopéa dramatica do fanatismo: e Torquemada foi o inquisidor da Hespanha. Nenhum poeta da peninsula havia arrancado á historia a figura sinistra do sacerdote; Hugo levanta-a do tumulo, illumina-a com as fulgurações do seu genio, como se em torno da cariatide monstruosa da Inquisição ardessem as fogueiras dos autos-da-fé, e liga á litteratura dramamatica da França a figura barbara, apocalyplica do carrasco da Igreja.
No emtanto, na historia da França havia a linha cruel de Luiz XI, algoz do duque de Alençon, que podia ter inspirado o genio do poeta sublime.
Alfred de Vigny, contemporaneo de Victor Hugo, na sua primeira phase litteraria foi quasi totalmente oriental e biblico: _Eloah_, _Symeta_, _Dryade_, _Fille de Jephté_, _Femme adultère_, _Dolorida_, _Deluge_.
Na segunda phase produziu, em verso, o seu drama notavel Chatterton, cujo heróe é o grande e infortunado poeta inglez que, aos 22 annos, procurou no suicidio a solução para a vida das amarguras e tristezas que arrastava o seu genio incomprehendido.
E Alfred de Vigny, tão admirador de André-Chénier que n'este procurou inspiração para a sua _Dryade_, deixou no esquecimento a figura soberba e tragica do poeta da revolução, cuja cabeça rolou no cadafalso como uma cabeça vulgar, não obstante:
«avoir quelque chose là dedans»
E a França não engeitou a obra immortal de Alfred de Vigny, e a _Comedie-Française_ em 1881 fazia a sua _reprise_, com alto successo, não obstante a opinião do Zola que a reputa:
«la negation du théatre.»
A critica, severa para mim, devêra ter vergastado primeiramente a memoria de Lord Byron que cantou na sua lyra de poeta e serviu com a sua espada de guerreiro a obra politica da emancipação da Grecia; devêra anathematisar Sienkiewicz, o polaco genial que estudou no romance a reconstituição da vida romana á época da decadencia cesarista de Nero; devêra ter condemnado á morte M.^me Judith Gauthier, a filha gentil e talentosa de Theophile, que, deixando de parte a herança paterna, preciosa e brilhante, foi procurar o assumpto das suas obras notaveis nas terras e nos costumes do extremo oriente, com especialidade no Japão e na China; devêra ter amaldiçoado e reduzido a pó o sublime poeta contemporaneo da França--Edmond Rostand--que engastou nos tres actos phantasticos da _Princesse-Lointaine_ um assumpto oriental e na _Samaritaine_, a sua obra prima, a vida, a figura, a alma encantadora da filha da Judéa, deixando no esquecimento a belleza mystica de Joanna d'Arc; devêra ter queimado a estatua de Castellar, porque o espantoso rival de Cicero escreveu os extraordinarios volumes dos _Recuerdos d'Italia_, sem ter jámais escripto uma pagina de viagem pela propria Hespanha, sua patria; devêra ter castigado os despojos funebres de Milton, porque o grande poeta inglez, cuja inspiração hombrea com as de Tasso e Ariosto, cuja grandeza genial é, depois de Shakespeare, a creação mais opulenta da poesia britanica, teve o arrojo de esquecer a sua verde Erin e foi ao pincaro do Himalaya, ao berço da tradição adamita, procurar o assumpto do seu _Paradise Lost_.
E a critica para ser sincera, ou, pelo menos, logica, severa como foi para o obscuro autor da desventurada _Talitha_, devêra censurar amargamente a falta de patriotismo de Araujo Porto Alegre que, em versos de um sabor arcadico e em metro solto, celebrou o almirante genovez Colombo, deixando ingratamente no olvido a figura épica do riograndense Tamandaré, lobo dos mares como o piloto de Palos, além de guerreiro como Patterson.
E a censura devêra estender-se tambem a Gonçalves de Magalhães que, em vez de cantar o heróe dos Guararapes ou a figura brilhante de Garibaldi que vive na tradição da liberdade sulina, preferiu celebrar na sua lyra a aguia de Wagram, na queda monstruosa de Waterloo, tanto mais que ao nascer do theatro brazileiro, quando fulgia o talento artistico de João Caetano, deixou no esquecimento a figura negra de Calabar e foi á historia de Milão pedir o assumpto e os personagens da sua tragedia _Olgiate_, em cuja acção se estuda a tyrannia licenciosa de Galeazzo Visconti e o assassinato do tyranno.
E a critica, tão rispida com o autor da _Talitha_, chegando mesmo a citar a sentença do divino Almeida Garrett para aquelles que se abalançam ao estudo de estranhos assumptos esquecendo a patria, devêra começar pela censura ao proprio autor do _Frei Luiz de Souza_, que iniciou a sua vida litteraria no theatro escrevendo _Xerxes_, _Lucrecia_, _Sophonisba_, _Atala_, _Meroppe_ e _Catão_, antes de se lembrar que _D. Filippa de Vilhena_ fôra uma das heroinas de sua terra.
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Mas a critica, severa com o autor da _Talitha_, não tem sinceridade nos seus conceitos.
Um formosissimo talento de artista, alma de raro quilate, aberta ás emoções do Bello, filho d'esta terra, Araujo Vianna, musicista de apurado engenho, escreveu a sua brilhante partitura da _Carmella_, um encanto, uma joia.
A acção do libreto passa-se na Italia, a musica inspira-se claramente na escola de Massenet, sóbe á scena no Rio de Janeiro interpretada por artistas italianos, sóbe á scena em Porto Alegre interpretada por artistas italianos, a critica applaudiu em delirio, extasiou-se, e ninguem viu, ninguem sentiu, que a _Carmella_ é italiana pelo libreto e franceza pela musica; o patriotismo riograndense não se julgou melindrado porque o intelligente _maestro_ patricio deixou na obscuridade a nossa paisagem, o nosso clima, as nossas mulheres, os nossos costumes, a nossa poesia, a nossa musica popular e caracteristica, preferindo a lenda, o lyrismo, a impetuosidade, o céo, a aventura da gloriosa e divina Italia da arte...
A critica emmudeceu.
Entretanto Araujo Vianna apenas visitou a Italia: o seu sangue é genuinamente brazileiro, formou-se o seu espirito na propria patria, nem a natureza nem a sociedade italiana influiram no seu desenvolvimento intellectual e moral...
A critica tinha de tudo isso conhecimento exacto e perfeito mas... _passons là dessus_.
«Dès lors, les impuissants et les hypocrites peuvent injurier l'oeuvre et l'auteur, les couvrir de boue, les nier...»
Zola--_Documents litteraires_, pag. 418.
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Sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, a critica censura a _Talitha_, condemnando-a porque os seus personagens fallam uma linguagem elevada, superior á modestia das suas condições de aldeãos.
A critica é futil e não sabe o que diz.
_Talitha_ falla nos seus dialogos a linguagem do mysticismo que durante dezesete annos ouviu e aprendeu com o seu velho padrinho: o cura.
A sua linguagem é simples, ingenua e lyrica.
Mas simples, ingenua e lyrica é a linguagem do povo portuguez, desde a sua infancia até hoje.
As imagens que o autor lhe põe nos labios são as mesmas que borbulham na phantasia do povo lusitano, ha mais de nove seculos de nacionalidade, affirmada num _folke-lore_ riquissimo e inexgottavel, desde Guesto Ansures até Antonio Fogaça.
Pois a uma creança de dezoito annos, alma pura e boa, natureza casta, intelligente e fina, delicada e vibratil, torturada pela desventura, póde ser negada a phantasia creadora, poetica e imaginosa que caracterisa o povo em cujo meio ella vive, principalmente na aldeia, na atmosphera idylica e bucolica, simplesmente porque a cataracta a cegou aos oito annos?
Mas Antonio Feliciano de Castilho foi o bardo cégo que escreveu a _Noite do Castello_, as _Cartas de Echo a Narciso_, os _Ciumes do Bardo_, a _Primavera_, o _Outono_ e cégo é o anonymato popular que produz ha oito seculos esse rosario encantador e sublime das trovas e cantigas que andam na tradição oral, na garganta de todas as mulheres, na voz de todos os cantores, nos labios de todos os estudantes, desde o _Cancioneiro de Garcia de Rezende_ e de _El-Rei D. Diniz_ até o _Romanceiro_ de Garrett e os _Cancioneiros_ de Theophilo Braga e Gualdino de Campos.
São da poesia popular, são do povo em cujo seio _Talitha_ nasceu, cresceu, amou, sonhou e foi noiva, as formosas quadras que correm de labio em labio, sem autor conhecido e que Junqueiro, Eugenio de Castro, Antonio Nobre e Correia de Oliveira gostosamente assignariam.
I Nessas tuas mãos pequenas como não vi em ninguem não sei como as minhas penas couberam nellas tão bem.
II Perdes mais em me perder do que eu perco em te deixar: perco quem sabe offender, tu perdes quem sabe amar.
III Dizes que deixo saudades, não me posso conformar: pois se eu as levo commigo, como t'as posso deixar?
IV Acostumei tanto os meus olhos a namorarem os teus que de tanto confundil-os nem já sei quaes são os meus.
V Se os meus olhos te incommodam quando estão na tua frente hei de arrancal-os um dia para te amar cegamente.
VI Se eu soubesse que voando alcançava o que desejo mandava fazer as azas que as penas são de sobejo.
VII Eu jurei que não tornava a dar adeus a ninguem: quem parte saudades leva quem fica saudades tem.
VIII Essas tuas sobrancelhas como nunca vi mais bellas são laços de fita preta unindo duas estrellas.
IX Não sei que quer a desgraça que atraz de mim corre tanto, hei de parar e mostrar-lhe que de vêl-a não me espanto.
X Vae alta a noite, vae alta, mais alto vae o luar, mais alta vae a ventura que Deus tem para me dar.
XI É tua bocca ideal um palacio com jardim: as portas são de coral os degráos são de marfim.
XII Aguas passadas não tornam; deixae fallar o dictado: ó saudade, és um moinho móes com aguas do passado.
XIII Pára tu, meu coração! onde estou eu, onde vim? triste caminho de lagrimas tem começo e não tem fim.
XIV Ouço cousas que não ouço, vejo cousas que não vejo: olhos da minha saudade, ouvidos do meu desejo!
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E a um povo que assim traduz tão lyricamente, com tanta philosophia, com tanto sentimento, todas as impressões da sua alma dôce, que assim vibra essa poesia celeste nas cantigas das eiras ao luar, nas espadelladas, nas desgarradas, nos desafios, na Paschoa, no Natal, nas romarias, a um povo que tem alma poetica, mais suave que um paraiso, mais simples e mais colorida que um poente de outono e uma alvorada de primavera, póde-se, com justiça, arrancar essa linguagem que é caracteristica?
O escriptor que o fizesse, a pretexto de ser verdadeiro com os seus personagens, para que estes não pareçam superiores ao seu meio, mentiria á propria consciencia, adulteraria a natureza, roubaria ao povo que quizesse estudar o mais bello reflexo da sua individualidade litteraria.
A um velho cégo que mendigava pelas estradas, entre Villa-Pouca de Aguiar e Pedras Salgadas, na Provincia de Traz-os-Montes, muitas vezes ouvi cantar com a sua voz roufenha, na tristissima toada, monotona como a sua desventura, as quadras que aqui reproduzo fielmente. Andava elle pelas feiras, pelos caminhos, pelas romarias, levando a sua desgraça, como Ashaverus, durante sessenta annos, a toda a parte onde a tradição religiosa celebrava as festas dos seus oragos, onde a alegria popular estuava nas danças e folguedos; o rapazio espantado escutava-o com profundo respeito, as raparigas ouviam-n'o em silencio, porque na amargura das suas cantilenas, na monotonia das suas queixas, na tristeza das suas lamentações havia verdade de conceitos e a revolta justissima de uma alma ferida contra a dureza da sorte e a iniquidade da natureza.
Quem lh'o ensinou, quem escreveu esses versos, onde os aprendeu elle, que poeta mysterioso, simultaneamente artista e philosopho, traduziu na simplicidade mystica d'aquellas quadras toda a immensidade da sua irremediavel desventura? A alma popular, suave e lyrica, de uma raça, filtrada na arêa branca e pura de uma tradição de oito seculos.
Diz toda a gente e eu não nego que Deus é pae de bondade, mas se isso é pura verdade como foi que eu nasci cégo?
Lá que Deus tirasse a luz a quem rouba ou assassina, era a justiça da sina que todo o mundo conduz.
Mas a mim, não foi clemente porque eu não tinha nascido; é que Deus tinha o sentido de cegar um innocente.
Aos lobos que andam na serra matando ovelhas e anhos, dizendo mal aos rebanhos Deus não castiga na terra.
Não ha lobo que não veja, todos são filhos de Deus, só nos tristes olhos meus a eterna noite negreja.
Não tocaria viola se eu fosse fera damnada, mas não andava na estrada soffrendo e pedindo esmola.
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Milton, collocando nos labios de Eva os seus primorosos versos, não curou de saber se no Paraiso a Mãe dos homens fôra educada pela serpente nos mysterios da poesia, da arte, da phantasia, da linguagem alcandorada, nem cogitou de saber se já naquelle tempo, no pincaro da cordilheira industanica, se fallava o inglez.
A Samaritana era uma mulher vulgar e desprezivel; Rostand colloca-lhe nos labios a linguagem sublime dos seus alexandrinos formosos, sem indagar se, ao tempo de Christo, na Samaria, junto ao poço de Jacob, já se fallava francez, em verso, de metrica impeccavel e de rima opulenta, brilhante, artisticamente disposta sob a fórma severa que Boileau, Corneille e Racine haviam de prescrever 1600 annos depois.
A critica, porém, mais céga que a minha desventurosa _Talitha_, mais ingenua que a alma primitiva, mais ignorante que a Samaritana e mais perfida que a Serpente, a sogra feroz de Adão, occultou o preceito de Taine:
«Par cet excès de l'imitation litterale, l'artiste arrive a produire, non pas le plaisir, mais la répugnance, souvent le dêgôut, et quelque fois l'horreur.
«Il en est de même dans la litterature.
«La meilleure moitié de la poesie dramatique, tout le théatre classique grec et français, la plus grande partie des drames espagnols et anglais, loin de copier exactemente la conversation ordinaire, altèrent la parole humaine de propos deliberé. Chacun de ces poètes dramatiques fait parler ses personnages en vers, impose a leurs discours le rythme et souvent la rime. Cette falsification est elle nuisible a l'oeuvre?
«En aucune façon. L'experience en a été faite de la maniere la plus frappante dans une des grandes oeuvres de ce temps, l'_Iphigénie_ de Goethe, ecrite d'abord en prose et ensuit en vers. Elle est belle en prose, mais, en vers, quelle diference! Ici, visiblement, c'est l'alteration du langage ordinaire, c'est l'introduction du rythme et du mètre qui communique à l'oeuvre son accent incomparable, cette sublimité sereine, ce large chant tragique et soutenu, au son duquel l'esprit s'élève au-dessus des vulgarités de la vie ordinaire et voi reparaitre devant ses yeux les herós des anciens jours, la race oubliée des âmes primitives, et, parmi elles, la vierge auguste, interprète des dieux, gardienne des lois, bienfaitrice des hommes, en qui toutes les bontés et toutes les noblesses de la nature humaine se concentrent pour glorifier notre espèce et pour relever notre coeur.»
H. Taine--op. cit., vol. I, pag. 28 et 29.
E a critica indigena censura ao obscuro autor da modesta _Talitha_ a ousadia de ter observado o preceito que Taine, o grande mestre da França e do mundo, ordena que se faça, exactamente o que fez Goethe para dar maior valor e mais gloriosa belleza á sua _Iphigenia_; exactamente o que fez Rostand para poder impôr á civilisação parisiense, na compleição nevrotica de Sarah Bernhardt, a inferioridade da mulher da Biblia, a hetaïra da Samaria condemnada ao supplicio da lapidação pelos heliastas da Judéa.
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Diante da bondade e em face das virtudes caracteristicas dos personagens que se movimentam nos tres actos da _Talitha_, a critica sentiu arrepios de indignação e abespinhou-se: á intelligencia dos censores é inconcebivel a coincidencia de um encontro simultaneo de cinco almas igualmente boas, simples, generosas, quasi santas; a sociedade repelle essa pureza, os factos demonstram o contrario: o autor da _Talitha_ não observou, phantasiou; o seu drama é um trabalho de gabinete, no ambiente do mundo real essa hypothese não existe.
A critica pontificou _ex-cathedra_, infallivel como o successor de S. Pedro, Vigario de Christo na terra.
Taine escreveu:
«Après avoir examine devant vous la nature de l'oeuvre d'art, il reste à etudier la loi de sa production. Cette loi peut, au premier regard, s'exprimer ainsi: _L'oeuvre d'art est determinée par un ensemble qui est l'état général de l'esprit et des oeuvres environnentes.»_
H. Taine.--op. cit., vol. I, pag. 55.
É a influencia do meio na producção artistica: consequentemente, para apreciar a obra d'arte, quando é sincera, a critica necessita de conhecer o meio em que ella foi produzida, o estado geral dos espiritos e dos costumes em cujo seio o pintor, o esculptor ou o escriptor, pintou o quadro, esculpiu a estatua, ou escreveu o poema.
E dos criticos indigenas que se lançaram á _Talitha_, como San Thiago aos moiros, apenas um viveu temporariamente em Portugal, mas nunca se perdeu em terras trasmontanas, gastou o tempo nas ruas das cidades populosas: a aldeia lusitana, se a viu não a estudou, se a estudou ou não a comprehendeu ou... tresleu.
De sorte que a critica, severa e exigente, desconhece por completo o meio que influiu na producção da _Talitha_, não tem noção, sequer, do estado geral do espirito e dos costumes em cuja atmosphera o obscuro autor do drama foi buscar os seus personagens: a critica, portanto, é ignorante e, como todo os ignorantes, é pretenciosa, balofa e petulantissima.
Ha doze annos ficou terminado o terceiro acto d'esse modestissimo evangelho; ha doze annos appareceu pela primeira vez, no Brazil, a sublime pastoral--_Os Velhos_--de D. João da Camara, cuja acção se passa em uma aldeia do Alemtejo.
Quando a critica indigena, do Rio Grande do Sul, assistiu á representação dessa obra prima, extasiou-se e não viu que na formosa comedia do mallogrado escriptor portuguez se movimentam, não cinco, mas nove personagens, nove almas igualmente puras, virtuosas, que em toda a acção da bellissima pastoral ha um ambiente de consoladora bondade.
Applaudiu incondicionalmente, sem conhecer o meio em que D. João da Camara estudou os seus personagens, nem sentiu necessidade de saber qual era o estado geral dos espiritos e dos costumes que o brilhante escriptor portuguez reproduziu no palco, para verificar se aquelles personagens, aquella acção, aquelle ambiente correspondiam á realidade objectiva da vida aldean no Alemtejo, ou se o dramaturgo phantasiara; se seria possivel encontrar no fim do seculo XIX, em plena civilisação occidental europea, reunidas na mesma terra, nove almas puras, virtuosas, preoccupadas apenas com a pratica do Bem, sem um pensamento máo, sem uma palavra rude, sem uma acção menos digna.
Ha nos dois primeiros actos da _Talitha_ uma profunda tristeza, a amargura soluça em todas as gargantas e no terceiro acto ha uma explosão de alegria: esse contraste parece exquisito, inverosimil, sem exemplo na realidade da existencia; todo o drama tem um excessivo perfume religioso que vae ao exaggero, diz a critica.
A critica ignora o que sejam na aldeia portugueza o sentimento religioso, o culto catholico, a tradição christan, porque nunca viveu na intimidade daquelles lares; o que lobrigou, através da obra suspeita e viciada de escriptores trabalhados pelo meio social corrompido dos grandes centros, envenenou-lhe a alma já preparada para receber a semente do mal e a critica, enfunada de leitura superficial, para maldizer, deixou-se ficar na commodidade das biliothecas e dos gabinetes, acceitou as indicações da alma perversa de algum mentor sem sinceridade, explorador da inexperiencia de creanças talentosas e esqueceu a lição de Taine:
«Pour plus de clarté, nous prendrons un cas très simple, simplifié exprés, celui d'un état d'esprit dans lequel la tristesse est predominante.
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«Il faut d'abord remarquer que les malheurs qui attristent le public attristent aussi l'artiste.
«Comme il est une tête dans le troupeau, il subit les chances du troupeau.
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«Sous cette pluie continue de misères personelles, il deviendra moins joyeux, s'il est joyeux, et plus triste s'il est triste. Voilá--un premier effet du milieu.
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«Car, ce qui le fait artiste, c'est l'habitude de degager dans les objets le caractère essentiel et les traits saillants: les autres hommes ne volent que des portions, il saisit l'ensemble et l'esprit. Et comme ici le caractère saillant est la tristesse, c'est la tristesse qu'il aperçoil dans les choses.»
H. Taine--Op. cit., pag. 68 e seguintes.
Pertencem ao Sr. Adherbal de Carvalho as seguintes palavras:
«O que deu nascimento, entre elles, á noção de fatalidade é uma concepção que se refere, não ao futuro, mas unicamente ao passado; o que é, é, e nenhum poder no mundo poderia fazer que um facto concluido não existisse.»
_A poesia e a arte no ponto de vista philosophico._--Cap. II, pag. 50.
O modesto autor da _Talitha_ não podia fugir á acção do meio em que se encontrou com os seus personagens, como doutrina Taine, nem se podia oppôr á verdade: _o que é, é, e um facto concluido, poder algum o annulla_.
Se o autor transformasse á medida do seu desejo, pensando em ser agradavel á critica, mentiria á sua consciencia, deturparia as leis da arte: os zoilos pódem maldizer, á vontade, o autor fica tranquillo e contente com a fiel observancia das lições de Taine e do escriptor brazileiro, inspirado na doutrina de Guyau.