Talitha: evangelho em tres actos
Chapter 5
Nem eu posso esquecer.
Padre
Pois, filha, a Providencia abriu á tua vida a sua immensa graça.
Talitha, _curiosa_
E então?
Padre
Então responde: em tua consciencia que mais desejas tu que o Santo Deus te faça?
Talitha
Que eu possa vêr um dia a minha Mãe querida!
Marqueza, _correndo para ella e abraçando-a_
Talitha, minha filha! Amor da minha vida!
Talitha, _surprehendida_
Minha Mãe! Minha Mãe!
_Abraçam-se em pranto_
Padre
Obrigado, Senhor; abençoado seja este Natal de amor!
Marqueza, _desprendendo-se de Talitha_
Mas como eu sou feliz! Como tu és bonita! Que lindo nome o teu! Quem te chamou Talitha?
_Beija, abraça-a, encara-a sorrindo e soluçando. Senta-a nos joelhos_
Quero ver bem de perto o teu formoso olhar.
_Fita-lhe os olhos_
Talitha
E já sabes, mamã, que de tanto chorar com saudades de ti, um dia fiquei céga?
Marqueza
Com saudades de mim?
Talitha, _agitada_
Não crês, mamã?
Marqueza
Socega; eu acredito em tudo, a tua alma não mente...
Talitha
Mamã, como eu te quero!
_Abraça-a_
Olha-me bem de frente! Tanto tempo sem vêr a imagem dos meus sonhos, agora que te encontro, eu desejo risonhos os teus olhos de Mãe que nunca vi mais bellos; quero beijar, sorrindo, os teus alvos cabellos e sentir palpitar o seio teu, amigo, e o meu seio de filha, a palpitar comtigo.
_O Cura, que se tem enlevado a contemplar a scena, sae pé ante-pé, olhando o grupo e chama para dentro. Entram Joaquina e Ruy._
SCENA VIII
Os mesmos, Joaquina e Ruy
Marqueza
Dize-me, filha, e tu sonhavas muitas vezes com tua mãe?
Talitha
Sonhava!
Marqueza
E o sonho que dizia?
Talitha
Tanta coisa, mamã! Quando os nossos revezes nos vinham perturbar, desde o romper do dia até o anoitecer, pensava em ti, mamã, e, sem dormir, sonhava até pela manhã.
Marqueza
Mas revezes de quem?
Talitha
Desta immensa tristeza que vinha atormentar a vida de pobreza
_baixo, quasi em segredo_
do nosso Padre Cura...
Marqueza
E o Padre Cura é pobre?
Talitha
Muito, muito, mamã, mas tão bom e tão nobre que nunca pude ouvir um lamento, sequer!
Marqueza
D'hoje em diante, porém, não faltará mais nada: será de todos nós aquillo que eu tiver. Tu és rica, Talitha, e d'alma bem formada, por certo acudirás de todo o coração por que não faltem mais nem ventura, nem pão a quem te fez gentil, tão boa e generosa...
Talitha
Muito rica, mamã?
Marqueza
Que te serve saber?
Talitha
É que o velho sargento acaba de morrer deixando na miseria immensa e dolorosa os netinhos com fome. O velho era céguinho! muita vez o encontrei mendigando, sósinho, para matar a fome e, se eu hoje sou rica, só este pensamento a dôr me purifica e, se tu dás licença, o Ruy vae procural-os.
Marqueza
Pois sim, minha Talitha, irás tambem buscal-os; que sejam teus irmãos já que assim o quizeste. Mas dize, o Ruy quem é? Inda não m'o disseste...
_Durante este dialogo as duas não poderão vêr as demais pessoas, enlevadas como estão. Ha sorrisos em todos._
Talitha, _perturbada_
O Ruy?...
_Baixa os olhos, sorri e cala-se_
Marqueza
Sim, sim o Ruy...
Talitha, _enleada_
O Ruy é um doutor... Quando eu estive céga... Eu era tão céguinha!... Elle tratou de mim e fez a operação...
Marqueza
Só?!
Talitha
O resto não conto...
Marqueza
E porquê?
Talitha
Adivinha!
Marqueza
E não furtou tambem o teu primeiro amor?
Talitha
Furtou!... E que mal fez? Deu luz ao meu olhar, eu dei-lhe o coração...
Marqueza
Mas depois de casar deixarás tu sósinho o velho Padre Cura?
Talitha
Nem eu quero pensar em tamanha loucura. Viveremos aqui juntinhos da Joaquina que sempre me guiou, do tempo de menina.
Marqueza
Pois vae dizer ao Ruy que tua mãe quer vêl-o.
Talitha, _soltando-se do pescoço da mãe, sorrindo alegremente._
Tu vais ver que rapaz... intelligente e bello... Ruy! Ruy!
_Voltando-se encontra Ruy, Joaquina e Padre. Fica embaraçada e cobre o rosto com as mãos._
Meu Deus, que susto!
Padre
Ouvimos tudo, tudo!...
Marqueza, _voltando-se_
Desculpe, Senhor Cura... em favor della acudo... A culpada fui eu...
Ruy, _surprehendido_
Ah! Senhora Marqueza!
Marqueza
Sim. Ruy, eu mesma, aqui. Nem me causa extranheza o vêl-o nesta casa. Eu fui quem o mandou em busca deste céo tão puro que o salvou. Previ toda esta scena e quando aconselhei que viesse até cá, senti que palpitava o meu seio de mãe. Já vê que adivinhei e o meu presentimento o bem me segredava...
Talitha, _admirada_
Mamã, tu és Marqueza?
_Silencio prolongado_
Marqueza
A Marqueza morreu... Agora sou a mãe da mimosa Talitha que vem pedir perdão a quem assim soffreu dessa magua sem par, dessa dôr infinita, que tanto fez chorar a tua mocidade, as lagrimas febris e negras da saudade. Agora sou a Mãe que um dia te engeitou e que uma vida inteira a dôr acabrunhou, que vem pedir perdão ao velho Padre-Cura do quanto padeceu para te dar ventura, que vem agradecer á santa da Joaquina, os beijos que te deu quando eras tamanina, que vem pedir a Ruy o supremo favor de dar á sua filha o seu primeiro amor...
Ruy
Marqueza, o meu amor recebe a grande esmola do casto coração da candida Talitha, como um beijo de luz que conforta e consola a dôr da minha vida. O peito me palpita na suprema alegria e eu penso na alvorada desta noite feliz, de lucido natal, bemdizendo, Senhora, a dôce madrugada que vae surgir em breve.
Talitha
Ao despontar o dia vamos todos buscar os netos do sargento... Tu concordas, mamã?
_Ao Cura_
Acha que faço mal?
Padre
Para ti, minha filha, a madrugada é fria. O Ruy irá commigo e apenas num momento as creanças virão: descança, pequenita.
Marqueza, _a Joaquina_
Repare bem, Joaquina: este casal catita como envelhece a gente!
Joaquina
E Deus Nosso Senhor lhe dê por toda a vida o seu sagrado amor!
Padre
Já toca á missa d'Alva...
Ruy, _a Talitha_
Estrella d'Alva, pura, immaculada estrella, o céo desta ventura estende sobre nós a cupula sagrada e eu vejo nesse olhar a luz ambicionada que faz de ti, creança, a dôce Conceição do meu culto feliz, purissimo e christão.
_A Joaquina_
Um dia, bem me lembro, a sua mão amiga mais trémula e subtil do que uma branca estriga ás aragens d'outomno, abrindo-me o sacrario da sua alma de santa, entregou-me um rosario. Recorda-se? Pois bem! nas horas de afflicção esse rosario amigo encheu-me o coração duma frescura immensa e assim se dissipou essa nuvem cruel que sobre nós passou... Quero beijar a mão da santa que me deu nesse rosario astral uma visão do céo: a flôr que se banhou na sua fé divina, bondosa creatura, alvissima Joaquina!
_Beija-lhe a mão. Joaquina, em silencio, enxuga os olhos com o avental._
Padre
O dia vae surgir, o sino da capella convida-nos á missa. Ali pela janella já vem a madrugada entrando alegremente num baptismo de luz que brota do nascente.
Talitha
Meu Deus, como é feliz a minha mocidade! Rasgou a mão de Ruy a dôce claridade ao meu perdido olhar, depois a mãe de Deus envia-me o perdão do fundo azul dos céos: e, dando luz á céga e vida á condemnada, entrega-me, a sorrir, no fim da madrugada do Natal de Jesus, a minha Mãe distante. Meu Deus, como é feliz neste sereno instante
_a Ruy_
a nossa mocidade ao pé desta velhice tão boa e tão leal! Antes que alguem cobice esta aurora de amor que ao céo nos avizinha eu vou rezar por nós uma Salvé-Rainha:
_Ouve-se o repicar dos sinos. Talitha approxima-se do oratorio; ajoelham-se todos, excepto o Padre que fica de pé._
Talitha
Salvé, Rainha Mãe, céu de misericordia, vida e doçura, amor, luz da nossa esperança, lançae por sobre nós o manto da concordia. Salvé, Rainha, Mãe serena de bonança! A vós, os filhos d'Eva, em lagrimas, bradamos, por vós que estaes no céo, gemendo, suspiramos, neste valle de magua e dôr. Eia, Senhora! Sêde a divina Mãe, a dôce protectora da nossa vida inteira e para nós volvei esse olhar piedoso e tão cheio de luz! Sobre o nosso destino a vossa mão pendei, rasgae a nossa dôr, mostrae-nos a Jesus, fructo do vosso ventre, ó sagrada e clemente, ó Virgem dôce e casta, ó candida innocente! ó Santa Mãe de Deus, ouvi a nossa voz tão simples e fiel, rogue no céu por nós, por que sejamos bons e dignos da promessa do moreno Jesus. Que a nossa vida aqueça o materno calor da estrella de Bethlem, á luz do vosso olhar, por todo o sempre.
Padre
Amen!
CAE O PANNO
RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA
_Toute l'operation critique se borne ainsi a constater un fait, depuis la cause qui l'a produit jusqu'aux conséquences qu'il produira. Sans doute, un pareil travail contient une leçon, et à se voir dans un miroir aussi fidèle, un écrivain peut refléchir, connâitre ses infirmités, tâcher de les marquer le plus possible. Seulement, la leçon vient de haut, sort de la verité même du portrait el n'est plus l'enseignement gourmê d'un professeur. La critique expose, elle n'enseigne pas. Elle a compris elle-même que son influence sur le niveau litteraire était à peu prés nulle, car les tempéraments restent indociles; et elle a préféré jouer le beau rôle d'ecrire l'histoire litteraire contemporaine, expliquée et commentée._
E. Zola. _Documents litteraires_, pag. 334.
_Est critique, à notre jugement, celui qui fait effort pour comprendre et qui juge avec sympathie._
Nolet. _La vie et l'oeuvre de Chateaubriand_, pag. 673.
_...si nous possedons quelques talents, nous nous empressons de les déprécier. Après les avoir élevés au pinacle, nous les roulons dans la bosse; puis nous y revennons, puis nous les méprisons de nouveau. Nous ne pouvons souffrir de reputation; il nous semble qu'on nous vole ce qu'on admire: nos vanités prennent ombrage du moindre succès, et s'il dure un peu, elles sont au supplice._
Chateaubriand. _Essai sur la litterature anglaise_. pag. 171.
_Que la scène soit triste ou gaie, nous retrouvons toujours la même distinction entre l'émotion réelle et l'émotion esthétique. Il faut de toute necessité, pour que cette dernière soit possible, que l'autre disparaisse; il faut que l'auditeur ou le spectateur ne puisse jamais oublier qu'il y a entre le fait et lui un intermediaire dont l'impression constitue la poesie de l'oeuvre; c'est surtout au théâtre que cette distinction entre le réel et le fait poetique est essentielle. L'illusion complète, loin d'être le suprême degré de l'art, comme on l'a dit, en serait simplement la négation._
Eug. Veron, _L'Estetique_, pag. 407 e 408.
RESPOSTA Á CRITICA INDIGENA
A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade, piedosamente recolhida pelo coração á mudez da alma, que a minha intelligencia modesta crystallizou em versos froixos, que o meu sentimento fixou em drama e que a cegueira das paixões pretendeu ferir.
Devo, quero e vou defendel-a.
* * * * *
Zola, o genio, o mestre, o justo, escreveu:
«Lorsqu'on a l'honneur de tenir une plume, on se consulte avant d'ecrire, et quand on a écrit une page, on l'affirme, on la défend.»
_La critique contemporaine_, pag. 356.
A critica censurou-me porque, brazileiro e rio-grandense, fui procurar em terras de Portugal o assumpto do meu obscuro trabalho. A _Talitha_ não é uma obra nacional: nem portugueza porque o seu autor não nasceu em Portugal, nem brazileira porque a acção se passa em terra estrangeira, entre personagens de uma aldeia lusitana perdida nas serranias da provincia de Traz-os-montes.
* * * * *
A censura é futil.
A critica esquece que Portugal é a patria da nossa patria; que o nosso idioma nacional ainda não sahiu do periodo primitivo e selvagem; que a lingua de Camões foi a lingua de Gonçalves Dias e ainda hoje é a lingua de Olavo Bilac e de Coelho Netto; que os sentimentos de José de Alencar vibraram nas mesmas palavras em que vibrou a alma de Camillo Castello Branco o através das quaes se impoz á grandeza do seculo que passou a individualidade singular e forte de Eça de Queiroz, ao mesmo tempo que se impunha, em outro hemispherio, a personalidade singular e forte de Machado de Assis.
Ingenua, ignorante ou perfida, a critica esqueceu o preceito de Taine:
«Les productions de l'esprit humain, comme celles de la nature vivante, ne s'expliquent que par leur mllieu.»
H. Taine--_Philosophie de l'Art_. vol. I, pag. 11.
O homem é um producto do meio, este inflúe poderosamente na formação de seu espirito; mais que poderosamente--decisivamente.
A mocidade é mais docil em receber essa influencia natural e espontanea do ambiente--do clima, das tradições, dos costumes, da religião, da arte.
É na infancia e na adolescencia, como observa Moreau, de Tours, no seu estudo--_La Folie chez les Enfants_--que os erros e os preconceitos se apoderam do espirito e por tal forma criam raizes que difficilmente se arrancam.
Spencer, na Educação moral, intellectual e physica, affirma que a influencia do meio sobre a mocidade decide do futuro inteiro.
A minha adolescencia e a minha mocidade fluiram em Portugal, nas escolas, nas aldeias, no seio patriarchal da familia paterna.
Com os portuguezes, moços como eu, senti os pezares d'aquelle grande povo, sorri nas alegrias d'aquella boa gente.
Á sombra fresca e generosa das suas arvores adormeci e sonhei: ao calor daquelle sol aqueci as minhas esperanças; no gelo daquellas neves murcharam-me as mais perfumadas illusões; ao luar opalescente daquellas noites ouvi a musica das primeiras serenatas: ao fulgor daquellas estrellas peneirou no meu coração a voz dolentissima dos rouxinóes; com a poesia popular daquella alma lyrica de onze seculos aprendi a versejar quando a minh'alma de dezeseis annos abria para o mundo as flôres das suas aspirações incipientes; com a lithania religiosa dos orgãos ruraes nas capellas das aldeias aprendi a amar a Deus, a crer na sua olympica magestade, ao mesmo tempo que filtrava docemente no meu espirito a ternura sagrada daquelle mysticismo que reza na voz das aragens, no perfume das flôres, no marulhar das fontes, no gorgeio das aves e até no merencorio soluçar das vagas, rolando eternamente nas areias das praias.
Dezoito annos correram para a minha vida feliz e descuidosa, naquella terra santa que é a patria da saudade, e, quando o meu coração começou a sentir as amarguras do exilio, quando a minha intelligencia poude comprehender toda a magua da ausencia, foi na saudade portugueza
«o delicioso pungir de acerbo espinho,»
que eu aprendi a sentir a saudade do lar que aqui deixára, do berço que me embalára as horas da infancia, da voz materna que me acalentára a puericia, do céo que dera luz ao meu olhar e calor ao meu sangue, sangue em cujas ondas correm leucocytos de sangue lusitano. «d'este sangue abençoado», fortemente oxygenado, que me dá energia para as luctas e ampara a tranquilidade transparente da minha consciencia, limpida e superior, as investidas da injustiça e da critica.
E como poderia eu, por que estranho processo de cirurgia, arrancar ao meu organismo essa metade portugueza que constitue um nobre orgulho da minha vida?
E como poderia eu, por que estranho processo de psychologia, arrancar á minh'alma esse conjuncto essencial de elementos que durante dezoito annos se vincularam ao meu espirito, á minha intelligencia, á minha vontade, á minha sensibilidade, com a mesma delicadeza, com a mesma subtil insistencia com que a luz do sol penetra no seio da terra para fazer germinar as sementes, com que a palavra das mães penetra na alma dos filhos para transfigural-a, como o luar que transforma em espelho de prata a agua dos lagos e dos rios?
* * * * *
A _Talitha_ é uma reminiscencia da mocidade passada na aldeia traz-montana, na suave e consoladora almosphera da familia paterna; _Talitha_ não é uma creação da minha phantasia, é a copia do modelo vivo que eu conheci, que acompanhei na cegueira cruel e, depois, na luminosa redempção do seu primeiro amor.
_Ruy de Ornellas_ foi meu irmão de lettras, foi meu amigo, meu companheiro de escola, meu consocio na bohemia alegre e feliz da vida academica, nem o nome lhe occultei.
O velho cura _João Fulgencio_ foi uma realidade soberba de caridosa affeição evangelica: era um sacerdote de alma pura, um ancião de oitenta invernos consumidos em espalhar o bem emquanto muitos moços de alma nova mas precocemente corrompida ao contacto das descrenças enervadoras e fataes, na convivencia intima da politicagem, dos bordeis e dos cafés, vivem para fazer o mal, no gozo requintado de espalhar desventuras, quando é mais facil, mais dôce, mais humano, mais confortante, mais nobre, semear carinhos e affectos para fazer a colheita das sympathias e das dedicações.
A velhinha _Joaquina_, a irmã desse honrado e justo sacerdote, é o retrato fiel, copiado á intimidade da minha propria familia, em cujo seio fui buscar o modelo daquella virtude christan, na figura venerada de uma santa creatura que acalentara, ha sessenta annos, a puericia de meu Pae.
A _Marqueza de Rilma_ não é um personagem ficticio, viveu, foi a mãe de Talitha, não com o titulo de tão elevada condição aristocratica, mas de nobre linhagem, victima innocente das luctas civis de 1846 que accenderam a fogueira horrivel dos odios entre os partidos politicos. Revelar-lhe o verdadeiro nome seria uma iniquidade, além de absolutamente desnecessario ao desenvolvimento da acção dramatica: a mais rudimentar educação, a mais vulgar delicadeza de sentimentos mandavam occultar essa circumstancia, inutil á fidelidade da observação e perfeitamente dispensavel ao estudo da psychologia do personagem.
Que representa, pois a _Talitha_?
O intimo e nobre desabrochar de uma consciencia que não esqueceu o passado, que transformou um incidente da vida em pretexto para resgatar uma divida de gratidão, para abrir no seio um longo e profundo sulco de reconhecimento á terra sagrada em que dormem seus avós o somno ultimo e perpétuo, onde ficaram os primeiros dias de existencia do ancião que me deu o sêr, onde eu deixei as gerações irmans que me acompanharam na peregrinação astral das illusões academicas.
A perversidade incuravel dos zoilos, porém, occultou, de proposito deliberado, que o obscuro autor da _Talitha_, agora alvejado por haver esquecido ingratamente a sua patria, preferindo assumptos, personagens e céos estranhos, já estudara em um drama, em tres actos, intitulado _A Farça_, a sociedade da sua terra e um facto que se desenrolara no meio em que vive.
E esse drama foi levado á scena tres vezes, no Theatro S. Pedro, por uma sociedade de amadores; mereceu a critica da imprensa local e foi largamente estudado por dois homens conhecidos nas lettras: Alarico Ribeiro e dr. Sebastião Leão.
Se não teve esse modesto trabalho a ventura de ser interpretado por artistas, não pode caber ao autor a culpa de faltar entre nós uma companhia dramatica nacional constituida de profissionaes.
A critica indigena devia ter conhecimento d'esse facto; se sabe d'elle é perversa occultando-o propositalmente para ferir a _Talitha_; se não sabe, é ignorante, e uma critica _soi-disant_ competente, que desconhece o autor escolhido para a censura e os trabalhos por elle produzidos, não póde exigir consideração nem respeito do meio litterario em que pretende pontificar.
«Il y a même, au fond de la grande majorité des critiques, un producteur manqué, qui se regisne à parler des oeuvres d'autrui, quand il voit que personne ne parle des siennes.»
Zola, oeuvre cit., pag. 349.
A critica, ou ignorante, ou perfida, ou ingenua, esqueceu que Taine, o mestre supremo, havia pontificado:
«La méthode moderne que je tâche de suivre, et qui commence à s'introduire dans toutes les sciences morales, consiste a considerer les oeuvres humaines, et en particulier les oeuvres d'art, comme des faits et des produits dont il faut marquer les caractères et chercher les causes; rien de plus. Ainsi comprise, la science ne proscrit ni ne pardonne: elle constate et explique.»
H. Taine--oeuvre cit, vol. I, pag. 14.
Mas a critica levantou-se contra as leis proclamadas pelo proprio mestre invocado: condemnou, não explicou.
Sem investigar as origens do drama, sem conhecer a sua significação, sem sondar a alma que o creára, fulminou a obra e insultou o espirito que a produzira.
Para maldizer bastaram-lhe dois elementos: o assumpto que é portuguez e o estylo que não é brazileiro...
E a critica, sempre ingenua, ou ignorante, ou perfida, esqueceu que Shakespeare fôra buscar á nevoenta Dinamarca a figura culminante de Hamlet, á sorridente Italia dos laranjaes em flôr, as suaves imagens de Romeu e Julieta, e o vulto soberbamente tragico do tremendo Othelo.
Sempre com a mesma perfidia, a critica, depois de citar os nomes de Racine e Corneille, occultou que esses grandes espiritos da França foram pedir á Grecia e à Roma antigas, á Hespanha medieva e aos Barbaros a quasi totalidade dos seus heróes e das suas heroinas, deixando na obscuridade a immensa galeria de personagens illustres da propria patria: o genio desses dois sublimes cerebros andou a resuscitar, a illuminar, a galvanizar no tablado do theatro francez a grandeza épica de vultos estranhos e deixou no tumulo o vulto leonino dos immortaes filhos da França e as imagens delicadas e formosas das mulheres gaulezas.
De Corneille, _Medéa_ é uma simples imitação de Lucio Seneca, romano, que a seu turno pedira inspiração ao theatro grego; _Cid_, que é uma obra-prima, além de ser puramente hespanhola a sua acção de altissima tragedia, foi inspirada pela obra do poeta castelhano Guilhen de Castro, que o genio de Corneille deixou na sombra; _Horace_ é um assumpto romano que o poeta francez pediu a Tilo-Livio; romanos são _Polyeucte_, _Cinna_ e _Pompée_, este inspirado por Lucano; _Mentor_ é o velho personagem da legenda grega de Ithaca, já reproduzido no theatro hespanhol pelo poeta Alarcon, ao qual Corneille foi pedir o modelo; _oedipe_ e _Sertorius_, que são lampejos da constellação de decadencia de um genio, pertencem, a primeira ao cyclo da heroicidade thebana que Sophocles já havia immortalisado na scena grega, a segunda é pura historia da Iberia em que o vulto admiravel do general romano fulge num derradeiro vestigio de genio, ao lado de Viriato, o grandioso pastor dos Herminios e fundador da nacionalidade lusitana.
Nem mesmo no periodo da sua decadencia, vencido na queda da _Pertharite_ e no confronto do seu _Attila_ com a _Andromaque_ de Racine, outro genio que subia rapidamente ao zenith, nem mesmo na desventura, a alma de Corneille vibrou pela patria, o seu talento não procurou conforto na historia assombrosa da França: o seu coração voltou-se ainda para o oriente, foi á Judea estudar a grandeza sublime do Rabbino da Samaria e deixou na _Imitação de Christo_ a ultima expressão do seu genio, como o raio extremo do sol ao entrar na sepultura do occaso.
De Racine, póde-se affirmar que escreveu as suas tragedias inspirando-se, ora no theatro grego, ora na Biblia.
Assim o ensina um sabio mestre brazileiro:
«deixando respeitosamente de parte Eschylo e Sophocles, impossiveis de imitar, modelou-se por Eurypedes, menos perfeito na generalidade da concepção, porém mais tocante na pintura dos accessorios e que maior conformidade offerecia com o seu talento.»
São d'esse genero a _Andromaque_, _Mithridates_, _Phèdre_, _Iphigénie_.
São inspiradas na Biblia, a _Thébaïde_, _Esther_ e _Athalie_.