Talitha: evangelho em tres actos

Chapter 4

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Tudo é tão natural que não nos vale a pena gastar tempo a pensar em cousa tão pequena.

Joaquina

Então é cousa pouca uma pobre engeitada, ha tanto tempo céga, e sem mãe, desprezada, encontrar quem lhe dê de novo o seu olhar, e quem lhe tenha amor e a queira desposar!?

Ruy

Engeitada, que importa? O coração não pensa, ama sómente e assim não indaga a nascença da mulher que o inspirou. Mas não é desprezada a formosa Talitha; esta mansão amada serviu de lar paterno á sua dôce infancia e, se aqui respirou a magica fragrancia de uma alma aberta, em flôr, se a sua mão, Joaquina, materna, a acompanhou desde assim pequenina, pouco importa que a mãe a tivesse engeitado; amei-a, e nesse amor eu tenho baptisado o sonho do porvir...

Joaquina

Diga, e quando casar vae leval-a d'aqui?

Ruy

Seria derrancar o santo coração do velho Padre-Cura; nem tanto necessita a completa ventura das minhas illusões, nem teria coragem para tamanho mal; seria mais selvagem que a propria malvadez

_abraçando-a_

tirar ao seu amor o prazer de aspirar o aroma dessa flôr, que ao seu lado cresceu, tão branca e tão fagueira, como um lyrio do valle ao pé de uma roseira!

Joaquina

Sim; isso diz agora e depois de casado ha de pensar, de certo, em sua mãe saudosa, e para que ella veja, alegre e carinhosa, o filho salvo e bom, tão robusto e córado, o Ruy tem de levar comsigo a pequenita que nos serve de filha e que nos faz felizes!...

Ruy

Descance, boa amiga; este amor tem raizes que eu nunca poderei arrancar de Talitha, nem penso em perturbar a paz do vosso azylo que a propria mão de Deus formou assim tranquillo.

Joaquina

Se Deus que nos dôou a innocentinha, agora mandasse a Mãe aqui para leval-a embora, onde quer que ella fosse havia eu d'ir tambem, porque a trouxe no collo e quero tanto bem que passo a minha vida olhando o azul dos céos, para vêr se descubro a Santa Mãe de Deus e pedir-lhe que deixe á tremula velhice dos meus dias sem luz, ao menos, a meiguice, daquelle coração que eu vi desabrochar...

Ruy

E o céo que lhe responde?

Joaquina

O céo?... Nada! A rezar tenho passado a vida e, nesta idade, a gente já não póde chorar, as lagrimas seccaram e por isto se soffre, a dôr é mais pungente quando se quer chorar e os olhos já cançaram.

_Ouve-se a voz de Talitha, fóra_

Taitha

Ó Joaquina! Ruy, Ruy...

Joaquina

Ahi vem a traquina; E ha de chamar por tudo a pobre da Joaquina...

Ruy, _corre á porta_

Mas como vem alegre...

_Entra Talitha_

SCENA III

Os mesmos e Talitha

Talitha, _ao entrar, vendo Ruy, estaca: fica silenciosa e em seguida:_

Eu bem disse ao padrinho...

Ruy, _tomando-lhe a mão_

Que foi que tu disseste, alma da côr do linho?

Talitha

Que ninguem póde crêr na jura...

Ruy, _interrompendo com meiguice_

Das mulheres?...

Talitha, _ralhando com carinho e retirando a mão_

Dos homens... atrevido, ainda tens coragem de rir?...

Ruy, _alegremente_

Ou de chorar, se tu assim preferes...

Talitha

Mas a tua promessa? Esqueceste a homenagem da noite de Natal?

Ruy

Pois pergunta á Joaquina...

Joaquina, _intervindo_

A mim? não sei de nada...

Ruy, _a Talitha_

Ella está gracejando; sabe tudo tão bem como eu, mas imagina que tu és ciumenta e então, de vez em quando, a recordar o tempo em que era rapariga, faz pirraças á gente, armando alguma intriga...

Talitha

A verdade, porém, é que faltaste e eu não.

Ruy

Pois bem, faltei; mas tive uma forte razão: o velho reformado estava agonisante e mandou-me chamar; eu fui no mesmo instante assistir-lhe á agonia. Expirou-me nos braços: ia o sol a fugir na curva dos espaços, á hora em que soluça o sino das trindades o Angelus sagrado envolto nas saudades que a terra balbucia, agradecendo ao céo a luz que lhe mandou na flacidez do véo crepuscular e dôce, oiro tecido em gaze, sem brilho de offuscar e sem calor que abraze.

Talitha

E nunca mais o vi, nem o verei jamais!... Foi cégo como eu fui. Nas manhãs estivaes muita vez o encontrei, cançado dos trabalhos, pedindo esmola ahi por todos os atalhos. Elle ia pela mão da neta, uma creança! Era um velho senil á sombra da esperança! Eu ía recostada ao braço do padrinho e, ao sentir-me, dizia: «ampare-me esse anginho --amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja --como um velho soldado, a mendigar, rasteja --neste mundo de Christo»--. E ficava a pensar naquelle desgraçado. O meu perdido olhar novamente voltou, quando o delle se apaga na escuridão mortal que tudo cobre e alaga... Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas!

Ruy

Não faltará calor ás meigas andorinhas.

Joaquina

E quem lhes ha de dar?

Ruy

Quem?

Talitha

Deus, Jesus e nós!

Ruy, _com ingenuidade_

Nós seremos os paes:

_a Joaquina_

tu e o Cura, os avós...

Joaquina

Valha-te Deus, tontinha!

Ruy, _a Talitha_

Encantadora e casta; ó Virgem Conceição, flôr, ingenua madrasta, bemdito seja o dia em que te amei, formosa, sonho feito mulher, sorriso feito em rosa...

Talitha, _admirada_

Que tem isso de mal? Tambem elle era cégo, não podia cuidar da neta que o guiava e agora, felizmente, eu tenho no aconchego da minha mocidade a luz que me faltava e posso olhar por ella. A minha desventura não teve neste asylo o amor do Padre-Cura? Depois não tive ainda?!...

_Olha para Ruy, baixa os olhos e cala-se_

Joaquina, _beijando-a_

Ah! minha tagarella!...

Ruy

Depois tiveste ainda o teu formoso olhar que andava lá no céo illuminando a estrella d'alva. E agora tambem tens muito que narrar do que viste na igreja...

Talitha

Ah! na missa do gallo? Eu vinha exactamente aqui para contal-o... O que eu vi, Ruy, na igreja, emquanto o Padre-Cura dizia aquella missa!... Inda agora fulgura, sobre a minha retina, a vivida impressão do seu olhar tão dôce e manso, de perdão... Inda agora o sorriso, angelico e furtivo, do seu labio de rosa, orvalhado e festivo, innunda de frescor a minha vida inteira, como o rócio da noite á flôr da amendoeira.

Ruy

Quem foi que te sorriu com tamanha affeição, que fez vibrar tu'alma em tanta commoção?

Talitha

Um milagre de Deus! Se tens fé, acredita no que te vou dizer.

Ruy

Dize, minha Talitha!

Joaquina, _approximando-se_

Conta, conta o que foi.

Talitha

Pois nesse caso, ouvi: Quando eu entrei no templo um borborinho enorme encheu toda a capella; então foi que eu senti como é triste ser cégo e ter olhar que dorme tantos annos de vida, em funda lethargia, sem a benção gentil de vêr a luz do dia! Toda a gente fallava, olhando para mim, e eu muito satisfeita a caminhar assim...

_Imita o andar magestoso_

Ruy

Como tu és vaidosa!

Joaquina, _sorrindo e pondo as mãos_

E como ella é catita...

Talitha, _a Ruy, ingenua_

Mas se eu fôsse a teu lado, inda era mais bonita!... Deram-me tanto abraço e beijaram-me tanto! A capellinha estava alegre, era um encanto. Á entrada muita flôr, o altar com muita luz, e num bercinho branco o menino Jesus, tão lindo, tão mimoso e tão engraçadinho, que parecia mesmo um rouxinol no ninho. Uma velha fitou-me e disse: que princeza! Um velho lavrador olhou-me com surpreza e bem alto fallou: «Que Deus Nosso Senhor te dê um bom marido»...

Ruy

E que disseste, amor?

Talitha

Nem uma palavrinha! Eu ía bem calada, entre muito contente e muito envergonhada.

Joaquina

E depois?

Talitha

E depois... fui então ajoelhar, sósinha, nos degráos que sóbem ao altar, á espera que viesse, a meia noite, a missa. Rezando ali, a sós, com fervor de noviça, lembrei-me da promessa e as lagrimas rolaram, subindo-me do seio aos olhos que as choraram. Eu sentia uma dôr immensa, por fugir ao voto que fizera e, em vão, quiz resistir, á minh'alma affluia um extranho remorso e embora eu despendesse o mais sincero esforço, para conter o pranto, o coração vergava e, numa agitação convulsa, palpitava acabrunhado e triste...

_Ouve-se o repicar dos sinos_

Joaquina, _interrompendo_

Ai! que acabou a festa e a ceia por fazer, mas que cabeça é esta!...

_Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa_

Ruy

Mas não te lembras já que, em nome do Senhor, o Cura abençôou o nosso casto amor? Não te lembras tambem da lucida visão que te trouxe do céo a estrella do perdão?

Talitha

De tudo me lembrei; não sei que força extranha pesava sobre mim, como immensa montanha, e não deixava erguer o meu olhar medroso para encarar de frente o vulto magestoso da Virgem Mãe de Deus! Mas quando o Cura entrou parece que a minha alma

_torna o sino a repicar_

alegre despertou... Senti uma esperança illuminar-me o seio e dissipar-se então esse cruel receio! Rezei muito, rezei com tanta commoção, pedi com tanto ardor, com tanta devoção, que a minh'alma subiu, tão leve e tão submissa, aos pés da Mãe de Deus, durante aquella missa, como se fôsse presa a hostia consagrada que o Cura levantava á cruz abençoada... Com ella o meu olhar de supplica subiu. E fitando, sem medo, a face alabastrina da candida judia, eu vi que Ella sorriu com tão dôce expressão de placidez divina que me banhou de luz amortecida e calma a minha santa crença e fez vibrar minh'alma! Senti que era o perdão que vinha, n'um sorriso, abrir á minha vida um novo paraiso... Ergui-me docemente, approximei-me d'Ella e, beijando-lhe a mão que sobre o mundo vela, ouvi, como um soluço, a sua voz tão pura, dizendo-me em segredo, em intima ternura:

Que lindos olhos, Talitha, os olhos que o Ruy te deu: tem uma luz infinita, parecem feitos no céo...

_Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narrarão de Talitha, enlevada, abraça-a, lacrimosa, beija-a..._

Ruy, _emquanto Joaquina abraça Talitha_

Mas tu ouviste bem, tens a certeza plena?

Talitha, _desprendendo-se de Joaquina_

Ouvi perfeitamente; a voz era serena, tão serena e subtil que a mim se affigurava ser o proprio silencio assim que me fallava.

_Ouve-se o repicar dos sinos e começa-se a ouvir as primeiras vozes dos córos distantes._

Estremeci de alegre e acreditei então que surgira, afinal, o dia do perdão;

_Approximam-se as vozes_

desci do altar, corri, deixei a missa e vim, como se o coração cantasse dentro de mim, para dizer-te, Ruy, que a minha vida é tua.

_Corre para elle, mas detem-se e, olhando para Joaquina, baixa os olhos timida, brincando com o avental: pausa e silencio._

Joaquina, _percebendo_

Filhos, não serei eu quem assim vos destrua as santas illusões...

_ouve-se o côro muito perto_

Se Deus as abençôa!...

_Sae_

Talitha, _vendo-a sahir_

Ruy!

_Corre para elle_

Ruy, _recebendo-a nos braços_

Ah! minha Talitha!

Talitha, _abraçada, beija-o_

Oh! meu amor!

Ruy, _beijando-a_

Perdôa!

_As vózes elevam-se distinctamente com a musica das violas e gaitas de fóles; pausa, emquanto os dois, enleiados, nada ouvem._

SCENA IV

Os mesmos, Padre, raparigas e rapazes

_O Padre, entrando com as raparigas e rapazes, surprehende ainda os dois que se beijam e Joaquina que está estupefacta, junto á porta._

Padre, _fingindo que não vê e fallando alto_

Raparigas, entrai, a noite é de alegria...

Talitha, _surprehendidos ambos, desprende-se de Ruy e diz_

Tem razão, meu padrinho, nossa phantasia deve expandir-se agora...

Padre, _com caricia, baixo a Talitha_

Assim, aos beijos, não...

Talitha

Quem poderá conter o nosso coração?

_Ás raparigas_

Raparigas, cantae! A céga já tem vista; que a Virgem Mãe de Deus a todas vós assista; a freira, que devia entrar para o convento, teve hoje a redempção do seu cruel tormento!

Um rapaz

Viva a céguinha!

O grupo

Viva!

Outro rapaz

E mais o Padre Cura! Viva!

Uma rapariga

Viva quem fez este milagre!

O grupo

Viva!

Um rapaz

E a mãe Joaquina, então, que é mesmo uma ternura?!

Todos

Viva!

Joaquina

Muito obrigada!

Ruy

Olha como é altiva!

Padre

Raparigas, dançae!

Ruy, _a uma rapariga_

Pois cante a cotovia, e vibre essa garganta até romper o dia...

_As raparigas formam roda, os rapazes afinam as violas e o grupo, com Talitha e Ruy á frente, dançam a Ciranda. O Cura, sentado em uma cadeira, observa alegremente a scena._

Uma rapariga

Quem deu espinho ás roseiras não teve muita razão, antes désse ao coração, como deu ás Tarangeiras.

Deus que creou tantas flôres fez as estrellas aos centos: não dorme quem tem amores, que os amores são tormentos.

Segunda rapariga

Toda tu pareces feita com a cêra das abelhas, quando alguem d'aqui t'espreita ficam-te as faces vermelhas.

Primeira rapariga

Quem ao pé do Sol caminha anda sempre com calor, Quem á lua se avizinha póde até crear bolôr.

As tuas tranças são pretas, pareces de cêra mol, não te abeires muito ao sol, olha lá não te derretas...

_O Cura, satisfeito e alegre, ri a cada descante das raparigas e acompanha-as com um olhar de caricia. Enthusiasmado, levanta-se e encaminha-se para o grupo:_

Padre

Tambem eu quero entrar na dança, raparigas, e ser como a papoila em meio das espigas!

Primeira rapariga

Viva, viva o Sr. Cura, que é o paesinho desta aldeia, que tem a alminha mais pura, mais alva que a lua cheia.

_Neste momento ouve-se bater á porta violentamente, ao mesmo tempo que cessam os guizos denunciativos de um carro que parou á porta. Quando ouve bater, o Padre Cura soffre uma visivel transformação de physionomia que todos os circumstantes percebem._

Padre

Um carro, Santo Deus!

_Cessa toda a alegria e acercam-se do Padre que, repentinamente, põe as mãos em oração._

Ruy, _acudindo_

Senhor Cura, que tem?

_Ouve-se bater de novo_

Padre, _pensativo_

Ha tantos annos já!

_Batem novamente. O Cura, sem dar uma palavra, benze-se, vae á porta e abre-a. Entra uma senhora de lucto, acompanhada de um velho creado, com malas e agazalhos. Todos emmudecem e olham-n'a curiosamente._

SCENA V

Os mesmos, Marqueza e Escudeiro

Padre

Perdão! Procura alguem?

Marqueza

O Cura João Fulgencio! É Vossa Senhoria?

Padre

Sou eu mesmo, Senhora!

Marqueza

Inda bem, obrigada! Eu já tinha certeza, o céo me conduzia. Não quero perturbar a alegria da noite: Viajante, sósinha, e quasi desviada pela neve que tomba, eu peço onde me acoite.

Talitha

Sois bem vinda, Senhora; aqui sob este tecto encontrareis conchego e o mais sereno affecto.

Marqueza, _olhando-a_

Obrigada, creança!

Talitha

A Noite é de Natal e o nosso coração não sabe fazer mal...

Padre

Deveis estar cançada, o inverno vae tão duro!

Marqueza

Pensei que não chegava á sua residencia. A nevada é cruel, o caminho coberto, o frio é de cortar, o céo está escuro, nem um astro se vê, perde-se a consciencia da nossa propria vida, a estrada é um deserto... Nem sei como cheguei...

Talitha

Jesus a protegeu...

Marqueza

Eu creio bem que sim e dou graças ao céo!

Padre

E não quer repousar?

Marqueza

Antes, porém, quizera, Senhor Cura, dizer o que me traz aqui...

Padre

Assim seja, Senhora, e ao bom Jesus prouvera que eu pudesse remir a dôr que presenti...

_a Talitha e Ruy, fingindo alegria_

Ide com Deus, cantae!

_O grupo retira-se em silencio, curiosamente_

Talitha, _a Ruy_

Quem é? Quem te parece?

Ruy

Não sei, mas esta voz a minh'alma conhece.

_sahem_

SCENA VI

Marqueza e Padre

Padre

Senhora, estamos sós! Vossa Excellencia ordene!

Marqueza

Ouça-me, Senhor Cura! ouça e não me condemne!

Padre

E condemnar por que? Se tem algum peccado, o coração de Deus não estará fechado!

Marqueza

Pensei chegar mais cedo: hontem, pelo sol posto, estaria acabado este immenso desgosto que me tortura a vida; a asperrima inverneira embaraçou-me o passo e augmentou-me a canceira.

Padre

E vem de muito longe?

Marqueza

Ah! sim, de bem distante, anciosa, esperando este feliz instante. Ha muito tempo, um dia, ao romper da alvorada, alguem que veiu aqui lhe trouxe uma engeitada...

Padre

É verdade, Senhora!

Marqueza

Uma carta pedia ao Cura desta aldêa a esmola caridosa de guardar a creança, até que a mãe chorosa, depois, a procurasse. Afinal esse dia felizmente chegou e a mãe que a dôr humilha, Senhor Cura, a seus pés, vem procurar a filha...

Padre

E como poderei saber se esta senhora que se confessa mãe, embora peccadora, é realmente a mãe da creança engeitada ha tantos annos já, naquella madrugada tristissima d'inverno?

Marqueza

A carta igual áquella que o Senhor Cura achou no berço, junto della...

Padre, _tomando a carta_

Mas falta alguma cousa...

Marqueza

A pérola? está aqui...

_Dá-lhe a pérola_

Pois desde aquella noite eu jámais a perdi de vista e a conservei com cuidadoso afan, como alguem que resguarda um rico talisman.

Padre

Seija feita de Deus a sagrada vontade, embora se me parta o coração de dôr...

Marqueza

Essa dôr, Senhor Cura, ha de fugir vencida! Eu não quero quebrar tão dôce piedade que fez de minha filha o seu risonho amor, nem desejo apagar a luz da sua vida num soluço de magua.

Padre

Então não vem buscal-a?

Marqueza

Não, não, meu bom amigo, eu venho acompanhal-a. A minha desventura, emfim, se condoeu dest'alma cruciada e triste que viveu reclusa na saudade, apenas na esperança de vêr um dia ainda essa gentil creança... Se nunca procurei saber dessa existencia não é que se apagasse em minha consciencia, como um sonho infeliz, a lembrança dorida dessa flôr do peccado em anjo convertida. Como eu pensava nella, ah! sabe-o Deus sómente! Que lagrimas chorei por conserval-a ausente, e quanto passei eu por causa desta filha dil-o, com eloquencia, a dôr que me polvilha a cabeça de cans. Amal-a com ardor e ter de estrangular todo esse immenso amor!... Vêl-a crescer ao longe, e calcular-lhe o encanto, mas sem poder beijal-a, adivinhar que o pranto as faces lhe banhava e não poder sorvel-o, que tormento cruel, que duro pesadello... Soffri, meu bom amigo, e soffri a sorrir, que até para soffrer é preciso mentir! Não me pergunte, Padre, a origem desse amor ninguem perguntaria ao seio de uma flôr como foi que nasceu o aroma que elle exhala. Bastará que lhe diga: a dôr que me avassalla é a amiga fiel que me segue ha vinte annos, que nunca me deixou; que os tristes desenganos dessas horas sem luz foram os companheiros da minha mocidade e os filhos feiticeiros que encheram o meu lar de pranto e de amargores, como um dia sem sol, como um jardim sem flôres. Um dia, Sr. Cura, em confissão, no templo, diante do seu olhar que eu agora contemplo humilde e agradecida, hei de contar-lhe a historia da minha desventura e desta dôr ingloria, mas não exija, Padre, agora, que eu recorde o passado infeliz, que o coração acorde do somno em que repousa, e desvende o segredo que a vida me cobriu de sombras e de medo.

Padre

Nem quero desvendar, Senhora, essas torturas; mas a minha velhice acostumou-se a vêr em tão meiga creança uma filha extremosa junto de mim crescer, florir como uma rosa ao pé dum castanheiro, e fazer-se mulher. Aos dez annos cegou...

Marqueza, _interrompendo, afflicta_

É céga a minha filha?

Padre

Foi: ha dias, porém, a luz de novo brilha no seu formoso olhar. Emquanto a escuridão durou, eu sempre a trouxe unida ao coração, apoiada ao meu braço.

Marqueza

E quem foi que a curou?

Padre

Alguem que a soube amar. Um dia despontou na sua alma de flôr um novo sentimento e a pobre céga amou e foi tambem amada. Queria dedicar-se á vida enclausurada na casta região da cela de um convento, mas, sonhadora e boa, o amor venceu em breve o vago mysticismo e a Virgem que a fadou, condoendo-se della, o seu amor salvou... De modo que, feliz, dentro de pouco, deve desposar um rapaz, formoso coração...

Marqueza, _interrompendo_

Ruy de Ornellas, talvez?

Padre, _admirado_

Mas como adivinhou?

Marqueza, _depois de uma pausa_

Não importa saber; prosiga, Senhor Cura, eu contarei mais tarde essa alegre aventura, tão simples e feliz.

Padre, _proseguindo_

A mim, pobre ancião, uma alegria basta: a de morrer contente por haver feito bem á candida innocente. Do mundo nada espero, esta gentil creança era a minha formosa e unica esperança: arrancam-m'a daqui e eu sinto que a corola dessa flôr, que me dava a encantadora esmola do seu perfume agreste, arrasta a minha vida á derradeira estancia, á ultima guarida...

Marqueza

E quem lhe disse, Padre, as minhas intenções?

Padre

Ninguem. Mas adivinho. Eu sei que os corações carinhosos das mães não querem a partilha das caricias, do amor, dos beijos de uma filha. Talitha vae partir; que o Senhor a conduza e que uma boa estrella ao seu porvir reluza.

Marqueza

Attenda, Sr. Cura! A mãe que ora lhe falla tambem sabe que a dôr o coração estala e não lhe vem roubar a luz dessa velhice tão cheia de bondade e simples de meiguice. A dôr me fatigou e eu quero repousar de tantas afflicções, e venho procurar, nesta aldeia tranquilla e sem perversidade, a paz que não frui na minha mocidade. Sou rica, felizmente, e quero ter um nicho onde acaba a existencia: é, talvez, um capricho... Mas quero aqui viver ao lado desta filha que a sua alma de santo, alvissima, perfilha e nunca mais sahir deste sereno azylo tão suave e tão bom, tão feliz e tranquillo, onde mora a virtude. A filha que eu procuro tambem é muito rica e tem porvir seguro. Se a desventura um dia a separou de mim a minha vida agora ha de chegar ao fim, aqui onde ella teve um lar sagrado e nobre. E o dôce olhar de Deus que o mundo inteiro cobre, abrindo sobre nós o pallio da ventura, ha de envolver na sombra o coração do Cura que fez de minha filha a filha da sua alma, extremosa e leal. E Deus que tudo acalma ha de extinguir a dôr de todo esse passado que eu vejo, felizmente, agora terminado...

Padre, _alegremente_

Obrigado, Senhora. O coração que sente a alheia desventura e lança boamente o seu conforto amigo a quem já nada espera, tem, nas bençãos do céo, eterna primavera... E agora que sabeis que a vossa filha é viva, attendei-me, Senhora, á santa rogativa: Talitha esteve céga. O homem que salvou o seu formoso olhar o amor lhe conquistou. Ella, uma encantadora e formosa creança, concentra nesse amor toda a sua esperança: tiral-a será dar-lhe o mais cruel supplicio.

Marqueza

Não preciso pedir tão duro sacrificio ao seu bom coração. Eu quero-a vêr feliz, se quem serviu de Pae o consentiu e quiz. Procurava uma filha, encontrei um casal: para mim, que sou mãe, jámais este Natal feliz esquecerei. E agora que conhece a Mãe da sua filha, attenda á minha prece e mostre-me Talitha, anceio por beijal-a.

Padre

Louvado seja Deus, Senhora, eu vou chamal-a.

_Entra e volta com Talitha pela mão_

SCENA VII

Os mesmos e Talitha

Padre, _entrando, a Talitha_

Recordas que uma vez, em lagrimas banhada, disseste que a tu'alma andava amargurada a pensar que jámais a tua mãe verias? Recordas a palavra alegre, de conforto, que te disse a sorrir quando tu me pedias a luz do teu olhar que tu suppunhas morto?

Talitha