Talitha: evangelho em tres actos
Chapter 3
Muitas vezes, pois não; primeiro vagamente, depois com nitidez.
Padre, _alegre_
Mas então a doente Recuperou a vista!?
Joaquina
Abençoada a hora em que o menino entrou nesta pobre choupana!...
Ruy
Agradeçam a Deus!
Talitha
Doutor, porque demora esta venda cruel que o meu olhar empana?
Ruy
Pois diga-me primeiro o que pensa de mim.
Talitha
Que é muito feio e máo...
Joaquina
Bem feito!
Ruy
E da Joaquina?...
Talitha
Penso della que é santa e que tem de setim côr da neve o cabello, a pelle muito fina, como eu creio que são as santas da capella.
Ruy
E o nosso Padre-cura?
Talitha
Um velhinho bondoso, que vive para o bem e sobre os pobres vela! Supponho que elle tenha a cabeça bem branca, o olhar muito suave e d'expressão tão franca, que appareça na face enrugada e senil a dôce candidez da sua alma infantil... E, cogitando assim, parece-me que vejo, dos altos de uma torre, a uma enorme distancia, como um jardim florido, a minha dôce infancia vicejando a sorrir, a sombra do seu braço, e o seu olhar de Pae enchendo todo o espaço de luz, de muita luz, tão dôce e tão leal, como o luar banhando as ondas de um trigal numa noite estreitada, e o sangue me palpita no seio, e o coração ardentemente agita na immensa anciedade afflicta e pressurosa de poder innundar a sua mão rugosa de lagrimas febris e de beijos sem fim.
Ruy
Tantas coisas ao Cura e nada para mim!...
Talitha
Exactamente, Ruy; a saudade de vêl-o augmenta a cada instante o meu triste flagello, porque nos braços delle um dia adormeci e não despertei mais... e ao Ruy...
_baixando a voz_
eu nunca vi...
Ruy, _com caricia_
Pois vae tornar a vêr a boa da Joaquina que a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina.
_Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda_
Vae vêr o Padre-cura e matar os desejos de lhe cobrir a face e as mãos de muitos beijos... E vae me conhecer...
_Tira-lhe a venda_
_Silencio. Commoção geral. Talitha, acostumada á treva, não supporta a luz; tapa os olhos com as mãos; depois habitua a vista, levanta-se, olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos._
Talitha, _á luz, correndo á janella_
Céos! Vejo novamente a luz que me faltou durante a meninice! Ó Sol da minha infancia, a sorrir de contente torno a vêr-te de novo. Azul do céo, meiguice que ha muito não beijava o meu perdido olhar, como deves ser lindo ao dôce despontar da madrugada clara!
_Ao oratorio_
Oratorio velhinho, junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei, como sinto vontade, agora que revejo o teu branco Jesus, do amor e do carinho com que pela manhã e á noite eu te beijei, e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo!
_Passa as mãos nos olhos, como para certificar-se que vê bem_
Mas parece-me um sonho!
_Pausa. De novo esfrega os olhos_
Eu já não sou a céga...
_Pausa_
Eu vejo tudo...
_Estaca; olha as paredes_
Sim, sim tudo...
_Olha para o tecto, baixa os olhos ao chão, volta-se para os lados, palpa as cadeiras, palpa a meza, corre á commoda_
Eu não me engano. Eu vejo a minha mão!
_Olha para as mãos_
Mais branca do que o panno
_pega o avental e examina_
do meu lindo avental!
_Põe a mão sobre o peito, como que desmaiada_
Ah! coração, socega...
_Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para amparal-a, dizendo_
Joaquina
Credo! Jesus, Senhor!
Talitha, _como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vêl-a tem uma commoção e exclama_
Joaquina! ó boa e santa velhinha, dôce mãe que tanta dôr e tanta lagrima derramaste, aos pés do meu bercinho!...
_Vendo o Cura, lança-se a elle, soluçando; abraça-o, beija-o, vê-o, chora, ri, torna a abraçal-o, doida de alegria_
Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avôsinho!
_Deixa afinal o Cura e corre para Ruy_
E Ruy que me salvou...
_Vae para abraçal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio_
Ah!... Ruy... eu nunca o vi!...
Padre, _soluçando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a mão e leva-a junto de Ruy_
Beija-o, Talitha; beija, elle é digno de ti, emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha, graças por essa luz que nos teus olhos brilha.
_Sae, enxugando os olhos_
Joaquina, _a Ruy_
Á Virgem prometti uma lampada accêsa durante uma semana, e por sua intenção, se Ella daqui levasse as dôres e a tristeza, fazendo este milagre. Hei de accender o azeite e rezar a seus pés, com toda a devoção, pedindo á Virgem Mãe que este meu voto acceite. Louvado seja Deus! O Céo vos abençôe!
_Sae_
SCENA VI
Talitha e Ruy
_Depois de uma pausa prolongada_
Talitha, _sempre pudica_
Porque me encara assim? Offendi-o? Perdôe.
Ruy, _caminhando para ella_
Fitei-a porque sinto o brilho desse olhar, como um rio de luz suavissima, innundar a minha mocidade inhospita e sombria, num banho redemptor de dôce calmaria. E parece-me vêr a sombra avelludada da sua fronte branca, e pura, e macerada, fugir espavorida á luz desse clarão...
Talitha
Que eu devo tão sómente á sua compaixão...
Ruy
Esqueça que fui eu...
Talitha, _interrompendo_
Não sei como se esquece...
Ruy
Então recordará, por toda a sua vida, o nosso amor feliz?
Talitha
A sua alma duvida?
Ruy
Eu não duvido, eu peço, e vae na minha prece quanto minh'alma tem de puro sentimento...
Talitha, _curiosa_
Na sua prece?
Ruy
Sim, tão cheia de fervor como a casta oração que a sua crença augusta soluça de manhã, mais triste que um lamento, que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor, no murmurio subtil dessa bocca venusta.
Talitha
Eu nunca olvidarei a dulcida ventura daquella noite densa, atormentada, escura, em cujo manto negro a sua mão bondosa rasgou a dôce aurora alegre e luminosa... O caridoso amor, que os seus labios deixaram gravado nesta mão que tanta vez beijaram, foi um sonho feliz numa noite polar, sonho de primavera em noite sem luar: nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças. Como um beijo de mãe na face das creanças, a primeira affeição nunca se desvanece, é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce! Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!
Ruy
Talitha, minha vida, a densa cataracta não poude escurecer a lucidez suprema da sua alma christã, que vale um diadema de rainha e de santa, a cujos pés se inclina a minha alma que vae sobre a esteira argentina que o seu vestido traça ao longo da jornada, como no azul do mar as velas da jangada...
Talitha
E se a vela, batida ao vento da desdita, levar á sombra eterna essa infeliz Talitha que a sua mão salvou da mesma sombra eterna?
Ruy
Irei onde ella vá. Se a aragem fôr galerna e o nosso amor levar a gondola encantada, sobre o dorso da vaga em branca espumarada, eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêa que o seu divino olhar de candida sereia ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou. Se o vento arremessar a vela que enfunou á rude penedia e sossobrar a barca, hei de salvar, então, a pequenina arca, onde vive encerrada a pomba da alliança, que faz do nosso amor uma alegre esperança!
Talitha
Apenas esperança, e nada mais! A vida é um sonho que passa e foge; perseguida, occulta-se a esperança á sombra de um asylo, tão occulto tambem que, para descobril-o, desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaços a nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços, desapparece e vae, por esse mundo fóra, como nuvens no céo ao despontar da aurora...
Ruy
Porque razão, Talitha, os nossos pobres sonhos não poderão florir, alegres e risonhos, á plena luz do Sol?
Talitha
Sonhos são illusões que a madrugada esbate em limpidos clarões, e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas irão fazer o ninho á sombra... As andorinhas tem que mudar de clima ao começar o inverno, levando para longe o seu amor materno... A minha acostumou-se á sombra da cegueira: se na sombra passou quasi uma vida inteira! Na sombra adormeceu, na sombra soluçou e na sombra sorriu... A sua mão rasgou este sulco de luz no meu perdido olhar, e a triste, acostumada á sombra tumular, fugiu espavorida ao lucido lampejo e tão distante foi, que nem sequer a vejo...
Ruy
É o receio infantil que vem da escuridão! A esperança, Talitha, ainda um só instante não sahiu do calor que faz do coração o ninho aconchegado, o berço palpitante e o sacrario fiel do nosso casto amor! Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôr sem perder o perfume!... E a esperança, Talitha, é o perfume do amor, a essencia que dormita serena e só desperta ao carinhoso afago dum beijo a murmurar em sonho dôce e vago...
Talitha
Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus e aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhado no fervor da oração, em dia torturado, prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar. Entre nós dois agora eleva-se um altar, e eu vejo-me prostrada e envolta no burel, sorrindo para o céo, por ter sido fiel á promessa que fiz...
Ruy
E o nosso amor, Talitha, não foi uma promessa?
Talitha
Ah! foi, mas a desdita lançou-lhe a maldição no dia em que nasceu e o nosso puro amor agora feneceu.
Ruy
E a tua mão divina, angelico florão de algum ciborio astral, a tua mão de rosa e jaspe é que me vem ferir esta affeição que banhava em frescor a vida bonançosa deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia, á sombra do mosteiro, a tua phantasia volver para o passado esse formoso olhar tão cheio de candura e te fizer sonhar; quando a espiral do incenso á curva do docel subir da tua mão occulta no burel, como a dôce expressão duma saudade immensa; quando á noite o luar, vencendo a treva densa, entrar na tua cella e fôr beijar-te a face, como se por ventura envolta nelle entrasse a minh'alma saudosa a visitar a tua: quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua a pureza vestal da tua castidade, sorrindo, remontar á dôce claridade das estrellas no céo, minha gentil Talitha, recorda o nosso amor, formosa cenobita, e pensa na tortura intermina e profunda desta vaga de fel que a minha vida innunda, medita nesta noite atroz, que me apavora, e tu me dás em paga a fulgurante aurora que o meu amor te deu, sorrindo de ventura... Bemdita seja a treva, a noite de amargura, bemdita seja a dôr, para sempre bemdita, que vem da tua mão, angelica Talitha!
_Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em Talitha, ora em Ruy._
SCENA VII
Os mesmos e Padre
Padre, _junto de Talitha_
Porque choras, creança?
_Ruy, cabisbaixo, medita. Pausa, durante a qual se ouve o soluçar de Talitha._
O teu silencio abala toda a minh'alma, filha; abre os teus labios, falla...
_Silencio. A Ruy_
A sua commoção... Ruy! Mas que succedeu?
Ruy
Foi mais uma illusão que se desfez... morreu!
_Sae_
SCENA VIII
Padre e Talitha
Padre, _abraçando Talitha_
Não te apoquentes, filha! A dôr que te devora eu já previra ha muito. A noite tambem chora no calice da flôr, e o céo que tem a luz das estrellas sem fim, chorou, quando Jesus abriu por sobre a terra a sombra dos seus braços, abençoando a dôr que vaga nos espaços... Mas os teus olhos, ha pouco illuminados, não devem, por emquanto, andar annuviados que se pódem cegar de novo, sem remedio...
Talitha, _rapidamente, entre alegre e chorosa_
Então se eu lhe pedisse...
Padre
O quer que seja, pede-o... Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar...
Talitha, _lacrimosa_
Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar!
Padre
Não te apavora a noite immensa e tenebrosa?!
Talitha
Não me amedronta mais! A lua carinhosa vive na escuridão. Fui tão feliz na treva que chego a ter saudade e o coração me leva a pedir que me deixe ind'outra vez banhar na sombra eterna e mésta a luz do meu olhar...
Padre
Que blasphemia, Talitha!
Talitha
O meu labio não erra, e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra.
Padre
Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor envolva a tua crença em seu divino amor!
Talitha
Pois ouça-me um instante a confissão singela da incomparavel dôr que a minha vida gela:
_Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado_
Tinha soffrido muito; o immenso desespero de um dia de tortura, afflictivo e severo, me fez allucinar e, erguendo para os céos as mãos de quem supplica, eu implorei a Deus clemencia a tanta dôr. A noite de flagicio, que dava á minha vida o aspecto de um supplicio, parecia sem fim, sem luz e sem aurora. E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra, o aroma delicado e puro do seu seio, vencendo o meu temor e o natural anceio, eu dei, como penhor da luz que supplicava, a minha mocidade e o porvir que eu sonhava; e prometti á santa e casta Samarita votar-me para sempre ao burel carmelita... Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma despontava, sorrindo, uma esperança calma que innundava de luz o coração da céga, e commigo pensei:--Deus, de certo, não nega que veja agora a luz quem sempre foi escrava: e nesse pensamento a vida concentrava. Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa de uma dôce affeição que tem a côr da rosa; e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo, o meu amor cresceu e fez-se tão profundo que para desprender-lhe as tumidas raizes eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes... Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhos o véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos, toda em pedaços feita, a minha pobre herança, perdida para sempre a querida esperança que eu havia sonhado em dias de cegueira... Se sacrifico o amor pelo burel de freira eu desço á sepultura em plena mocidade; se não cumpro a promessa e minto á santidade do voto que levei á pedra de um altar, não devo conservar a luz do meu olhar e rogo novamente a Deus que m'a desfaça e á Virgem que conceda a pequenina graça de receber de novo esse penhor tão puro, deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!
Padre
Escuta, minha filha.--A Providencia, ás vezes, se manda aos corações as dôres e os revezes não é que se compraza em opprimir as almas para lhes dar mais tarde as viridentes palmas do martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha. Eras ainda tu mimosa e pequenita quando ficaste céga. Abrira para o mundo, apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo sorria para a luz. Assim, innocentinha, tu ias de manhã commigo á capellinha e, emquanto eu murmurava as orações da missa, tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa, á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa, bem como se a rezara o labio de uma rosa... Desse labio subia um fervor tão intenso como a espiral azul e timida do incenso... Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste á mesma hora de sempre, á missa. E que contraste; tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz! Muitos annos pediste á Madre de Jesus que te restituisse um dia o teu olhar, como se a Virgem fôsse autora da desdita que te ferira assim, minha meiga Talitha... Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tanto no dia em que perdeu o filho casto e santo te pudesse roubar dos olhos transparentes a luz que illuminava as pupillas ardentes? Pois ella que te viu de rastros, a rezar, em todas as manhãs, aos pés do seu altar, levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres, podia assim voltar a crueldade e as dôres sobre a tua cabeça ingenua e piedosa, Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!? Escuta, minha filha:--o livro do Senhor descreve que, uma feita, andava na Judéa o divino Jesus prégando a sua idéa... Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta a quem a dôr matara a filha pequenita, e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vida o cadaver da filha extremosa e querida. Abençoando a mãe que aquella dôr humilha disse Jesus então: «a tua pobre filha estava adormecida e agora está acordada; volta que a encontrarás a rir, já levantada». E a pobre mãe, que vira a pequenina morta, depois, ao regressar, foi encontral-a á porta, sorrindo alegremente, entre as demais creanças, como um bando gazil de cordeirinhas mansas! Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu sómente, não morreu. Quando a céga pediu, á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse, o seu divino olhar fitava a tua face e despertou do somno o teu formoso olhar que nunca fôra cégo e, apenas a sonhar, adormecera. E agora, agora que acordou póde fitar a mão de quem lhe descerrou, em nome de Jesus, a noite que o toldava, que te fazia triste e lacrimosa, escrava...
Talitha
E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti votar-me ao seu burel, por tanto que soffri, quererá perdoar a minha negra falta?
Padre
Escuta-me, Talitha:
_Ruy surge ao fundo e escuta_
O coração exalta, pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa muito, muito, em silencio, indaga a tua crença e faze o que disser a tua consciencia, mas não esqueças, filha, a dôce confidencia de Ruy que illuminou o teu escuro olhar, e lembra-te, depois, que, só por muito amar, o Christo perdoou á pobre Magdalena. E agora, que a tua alma está bem mais serena, attende-me!--Rezando adormeci. A aurora despertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora, um sonho que fugia, em busca de outros lares! Subia docemente, ao claro azul dos ares, o vulto da Senhora, abrindo pelo Céo o palio virginal do seu materno véo, desnastrado o cabello, um manto de rainha recamado de sóes; a nuvem que a sustinha, toda cheia de luz, deixava atraz de si um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti... Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas, ao peso esmagador das longas invernadas; e assim, postas as mãos, olhando para o vulto da Virgem que eu adoro em fervoroso culto, pedi-lhe que mandasse um raio de luar ás lagrimas de fel da tua dôr sem par...
_Talitha começa a sorrir_
E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito, baixou por sobre o meu um dôce olhar bemdito e eu vi rolar no azul da immensa vastidão, no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão...
Talitha, _correndo para a porta_
Ruy!
_Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chão_
Padre, _só, á frente da scena, mãos postas, a olhar para o céo_
Perdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa; o meu labio peccou, mas a intenção foi boa!
CAE O PANNO
TERCEIRO ACTO
Modesta sala de jantar em casa do Cura. Á direita, um oratorio sobre uma commoda antiga; á esquerda, entre portas, um orgam.
SCENA I
Joaquina, só
_Joaquina procede aos arranjos da casa para uma noite de festa; cuida do oratorio, accende-lhe as velas, começa a pôr a meza para a ceia; tudo em silencio. Depois de alguns momentos entra Ruy._
SCENA II
Joaquina e Ruy
Ruy, _entrando_
Boas noites, Joaquina!
Joaquina
As mesmas Deus lhe dê! Inda bem que chegou; pensei que não voltasse aqui á nossa casa!
Ruy
Essa agora... e porque?
Joaquina
É boa! Inda pergunta? Esteve lá por fóra durante todo o dia e sem que se lembrasse que neste pobre asylo ainda vive e mora gente boa e christã...
Ruy, _interrompendo_
E quem lhe disse tanto? Vão vêr que foi intriga ou treta de algum santo!...
Joaquina
Hereje! brinque, brinque assim com Jesus Christo e ha de vêr se é feliz! Não sabe que o Natal é a noite sagrada?
Ruy
É, sei! Não foi por mal que faltei. Pela vez primeira não assisto á missa desta noite. Ha bem vinte e seis annos que falleceu meu Pae: rompia a madrugada. Começaram-me assim os tristes desenganos e a lucta da existencia abriu-se amargurada. Desde então, minha Mãe, boa e santa velhinha, recorda tristemente, apenas se avizinha a noite do Natal, a dôr daquella aurora, e emquanto tudo ri, ella soluça e chora...
Joaquina
Sem mesmo a conhecer eu tenho pena della.
Ruy
E hoje que eu sou feliz a pobresinha vela. Creio que neste instante os seus labios de crente envolvem numa prece encantadora e mesta, num templo illuminado, ao celebrar da festa, o esposo que morreu e o proprio filho ausente.
Joaquina
Devera ser então mais um grande motivo de não faltar á missa.
Ruy
E creia que é bem vivo o meu pezar. Entanto a razão dessa falta foi sagrada e vae vêr como ella tanto exalta a minha consciencia.
Joaquina, _ironica_
Eu imagino bem!
Ruy
Não posso vêr soffrer o coração de alguem... Attenda-me, Joaquina, e diga se eu podia negar-me, sem peccar, ao dever que exigia de acudir pressuroso ao leito d'um enfermo ardendo em alta febre e bem proximo ao termo duma longa existencia asperrima e deserta, onde apenas a dôr tinha uma entrada aberta. Conhece aquelle atalho escuro e retirado que vae dar á capella?
Joaquina, _benzendo-se_
Onde foi enforcado O marido da Emilia?
Ruy
Exactamente, ahi. Mesmo nesse logar em que ficou a cruz existe uma choupana á qual me recolhi para fugir á chuva. O caminho conduz, pela esquerda, á Capella; a direita, ao moinho do velho reformado! Entrou-me na choupana a neta do sargento a dizer que o avosinho quasi estava a expirar. Fôra maldade insana deixar morrer o velho á mingoa de cuidados. Fui. Mas antes não fôsse. Em nada lhe valeu a visita que fiz, o velho falleceu... Como devem morrer os bravos e os soldados assim elle expirou, fitando bem a morte, firme como um leão e simples como um forte. Uma miseria extrema; os netos quasi nús, com fome e sem comida ha dois dias!
Joaquina, _benzendo-se_
Jesus! E aqui tanta fartura!
Ruy
A Patria é bem madrasta! Esse velho, que a morte aos netos hoje afasta, tem no peito e na face algumas cicatrizes das lanças do inimigo.
Joaquina
Ah! são bem mais felizes os soldados que vão á guerra e que lá morrem no campo da batalha.
Ruy
Exacto. Os outros correm o perigo maior de morrer desprezados, como esse pobre velho.
Joaquina
E estão abandonados os netos, Sr. Ruy?
Ruy
Não estão; felizmente fallei ao regedor e tudo se arranjou; demais a mais tambem, segundo me informou, têm direito á pensão que o velho Avô doente não poude receber.
Joaquina
E quem receberá essa triste pensão, se o velho que serviu não poude recebel-a e nem sequer a viu?
Ruy
Tambem já pensei nisso e tudo se fará, minha boa Joaquina. Assim, o moribundo me obrigou a faltar á missa do Natal. Se um pobre que estivesse a deixar este mundo lhe pedisse um amparo, a sua alma leal negaria essa esmola?
Joaquina
Ainda m'o pergunta?
Ruy
Á sombra desse olhar tudo se abriga e junta e eu leio na pupilla esmaecida e pura, num misto de mudez, de pranto e de ternura, que o seu bom coração tambem acudiria. E por isso faltei; tenho, porém, certeza que Talitha por mim, ao menos, rezaria. E quando assim se tem tão lucida pureza a interceder por nós aos pés da Divindade, parece que a nossa alma, em dôce alacridade, mergulha no baptismo, em aguas de um Jordão todo feito de amor, de beijos e perdão!
Joaquina
Ah! quando eu penso em tudo o que se tem passado depois que aqui chegou!... Como isto está mudado!
Ruy