Talitha: evangelho em tres actos
Chapter 2
E não é cemiterio maior a escuridão deste pavor funereo, sem vêr o sol que doira as nuvens do poente, sem vêr a lua assim como um berço dolente embalando no azul um sonho que não morre, não vêr duma colmeia o mel que filtra e corre como um rio de luz nascendo num enxame, sentir e adivinhar a suprema belleza da madrugada em flôr, das noites constelladas, dos mares e do céo, de toda a natureza, ter olhos e não vêr, inda haverá quem chame vida a tal vida? Não! Mais negras, mais cerradas do que esta noite immensa e triste, sem estrellas, não póde ser, de certo, a solidão das cellas, e o sol que tudo aquece, aquecerá de leve a macerada fronte á monja que não teve nem um seio de mãe que um dia a amamentasse, nem a luz d'um olhar na pallidez da face, e nem um coração...
Ruy
Talitha!
Talitha, _ingenua_
Meu doutor!
Ruy, _com intenção_
Um coração?
Talitha, _ingenua_
Qual foi?
Ruy, _tomando-lhe a mão_
O meu...
Talitha, _comprehendendo, envergonhada_
O seu?
_Retira a mão_
Ruy, _enleiado_
Perdoe.
_Pausa prolongada_
Talitha, _implorando_
Que mal lhe fiz?
Ruy
Rasgou-me o coração, Talitha; e pensará, talvez, que não me fere a dôr de vêl-o assim rasgar?
Talitha, _humilde, implorando_
Mas creia, Ruy, que foi sem que eu desse por isso. E se o mal está feito seja agora gentil e não me rasgue o peito. Esqueça a minha falta, esqueça esta maldita, não se lembre da céga e deixe-a definhar na torva escuridão desta noite polar...
Ruy
E se eu não conseguir tirar do pensamento o seu casto perfil, celeste e macilento, se a minh'alma quizer viver escravisada unindo o meu destino á corrente doirada que me prende, sorrindo, ao seu cruel martyrio, se o meu olhar prefere esse apagado cirio dos seus olhos de céga á lucida manhan do amor sentimental de alguma castellan, como esquecel-a então?
_Joaquina apparece ao fundo_
Talitha, _triste_
Não creio...
Ruy
Mas porque? Já tão cedo a sua alma angelica descrê da minha que, arrastada á fimbria azul da sua, por toda a parte a segue e a seu lado fluctua? Não recorda, Talitha, o dia amargurado em que eu entrei aqui perdido e quasi morto? Não se lembra da noite em que eu fui condemnado? Não se lembra talvez das horas de conforto que os seus olhos sem luz e a sua bocca em flôr me trouxeram a rir, como um remedio santo da minha vida enferma á cruciante dôr? Não recorda talvez que esse supremo encanto, essa graça divina, aligera e bemdita a vida me salvou?
Talitha
Não creio...
Ruy, _curioso_
É tão cruel! Porque razão não crê, a minha alma fiel simplesmente traduz o que a sua entendeu?
Talitha, _com intenção_
Só porque a sua mão na minha não tremeu.
Ruy
Entretanto, Talitha, eu amo-a...
Talitha, _tremula_
Ruy!...
Ruy, _apertando-lhe a cintura_
Talitha!
_Beija-lhe docemente a mão_
Talitha
Ah! E eu sem poder vêr o labio que me beija!... Que destino fatal, que desgraçada eu sou!
Ruy
Não foi a minha bocca ardente que a beijou. Foi o dôce rumor da abelha que voeja sugando á sua mão de branca flôr de liz o magico licôr, o aroma delicado, que vem do rosicler florido e perfumado, no sangue que palpita em vibrações subtis!!
Talitha
Mas, Ruy, o seu amor não ve como eu sou pobre!!
Ruy, _interrompendo_
Pobre sou eu que peço a esmola angelical desse affecto gentil que a vida transfigura.
Talitha
Tão pobre que não tenho um Pae que me conforte, nem caricias de mãe que veja esta tortura...
Ruy
A sua alma divina essa tortura encobre...
Talitha
Tão pobre que este olhar perdido é glacial como um floco de neve, e a desfazer fluctúa...
Ruy
Os seus olhos sem luz tem mais fulgor que a lua.
Talitha
Engeitada ao nascer vivo esperando a morte...
Ruy
Alma branca de luz que illuminaste a ventura das minhas esperanças, bemdito seja o véo de negras tranças que sobre a minha vida desnastraste!
Bemdito seja nesse dôce engaste das palpebras subtis brancas e mansas o mesto olhar que cobre de bonanças a vida deste amor que tu salvaste!
És para mim a linha do horisonte, curva do céo, á noite, constellada, agua lustral de uma sagrada fonte,
toda a ambição dest'alma allucinada, e a nuvem que circumda a minha fronte como um disco de treva avelludada...
Talitha, _de mãos postas_
Meu Deus, e nunca mais, nunca mais hei de vêl-o!...
Ruy
Sim, Talitha, verá; o meu maior desvelo ha de ser o fulgor do seu formoso olhar.
SCENA VII
Os mesmos e Joaquina
Joaquina, _que tem ouvido tudo, feliz e contente, vem descendo com lentidão e junto de ambos exclama:_
Caia a benção de Deus neste formoso par...
_Ruy e Talitha, surprehendidos, afastam-se_
Ruy, _recuperando a serenidade_
Talitha assim o quiz!
Talitha, _perturbada_
A culpa não foi minha...
Joaquina, _sorrindo e acariciando-a_
A culpada fui eu que te deixei sósinha!
CAE O PANNO
SEGUNDO ACTO
Sala de visitas em casa do Cura; tudo muito simples. Janellas e portas. Um oratorio com lampada. Um pequeno orgam.
SCENA I
Joaquina e Padre João
_Conversando alegremente_
Joaquina
Graças a Deus, chegou por fim o grande dia...
Padre
É verdade, é verdade! irmã, quem nos diria que a linda pequenita...
Joaquina
A formosa engeitada...
Padre
Que Deus nos enviou naquella madrugada inclemente de inverno...
Joaquina, _interrompendo_
E parece-me ainda vêr a neve a cahir num pó macio e branco no cestinho de vime, ali, ao pé do banco...
Padre
E eu tenho aqui no ouvido aquella prece linda que rezaste ao Senhor quando ella adormeceu depois de ter mamado...
Joaquina
E, lembras-te, que fina! Tão branquinha, tão loira, a rir, tão pequenina!
Padre
Se me recordo, irmã!?... Pois então, se fui eu quem primeiro velou, durante o dia inteiro, o somno encantador da candida innocente!... Se me recordo, então?!...
Joaquina, _sorrindo_
Mansa como um cordeiro!... Mas uma coisa eu sei que esqueceste...
Padre, _curioso_
Qual é?
Joaquina
Não te digo, adivinha...
_Pausa prolongada_
É do primeiro dente...
Padre, _alegre_
Ó Joaquina! É verdade! O que se fez!... Até parece que a alegria andava á tentação; e nós a rir, a rir, a rir perdidamente... Sempre ha coisas, meu Deus!...
Joaquina
A vida é uma illusão, ligeira como o vento, ás vezes nem se sente, não é verdade?
_Pausa_
Falla?...
Padre
É, de certo, Joaquina.
Joaquina
Pois então que mal faz que a gente esteja agora a rir do que lá vae por essa vida fóra?!... Pois agora é que é rir, que passou a desgraça, quando a gente é feliz té na morte acha graça.
Padre
Por causa desse dente esteve a pequenina tres dias por um triz...
Joaquina, _triste_
Bem ás portas da morte...
Padre
Valeu-lhe a vela benta...
Joaquina
Inda foi uma sorte eu ter guardado aquella...
Padre, _rapidamente alegre, interrompendo_
Ó! mana, e o baptisado?... Que festa! E que jantar! Aquelle frango assado, com rodellas de paio; inda me estão lembrando aquelle arroz de forno e aquelle vinho brando... Recordas?
Joaquina, _com malicia_
Bem me lembro, até nesse jantar o vinho começou a subir e a trepar...
Padre, _interrompendo, com gravidade_
Ó mana...
Joaquina, _saudosa_
E já lá vão uns bons dezeseis annos...
Padre, _pensativo_
Mas como corre o tempo!
Joaquina, _nostalgica_
E como a gente muda!...
Padre
A vida não é nada! A magua, os desenganos, a enfermidade e a dôr fazem a gente velha; e não ha santo algum no céo que nos acuda!
Joaquina
Pois sim, sim, mas depois os filhos vão crescendo e os paes a cada instante, a rir, vão-se revendo na luz do seu olhar em que tambem se espelha o tempo que passou...
Padre, _interrompendo_
Como o tempo é cruel! E aquelle immenso mal que um dia nos feriu?... Recordas? Que manhã! Mais amarga que o fel!
Joaquina, _olhando o céo_
Se me lembro, Senhor, quando ella ficou céga, que só podia andar guiada por alguem!... Não hei de recordar? Recordo muito bem! Quanta vez, coitadinha, a chorar me pediu que lhe fôsse comprar dois olhinhos melhores para trocar os della...
Padre, _limpando os olhos_
Até se me despega o coração de dôr!...
Joaquina
E nenhum dos doutores atinou de a curar, nem sequer as promessas deram com ella a vêr...
Padre
Quantas vezes subi os tres degráos do altar e rezando pedi ferventemente a Deus, por amor de Jesus, que lhe tornasse a dar aos seus olhos sem luz a visão que perdera...
Joaquina
E agora tu confessas que a sorte a perseguiu sem dó nem piedade, apezar de ella ser um mimo de bondade?
Padre
Confesso. Até que Deus mandou a desventura da sua juventude a alvorada feliz desse primeiro amor...
Joaquina
E se Elle assim o quiz!...
Padre
Que seja feita a sua energica vontade, nos céos como na terra e que um dia a tortura tenha fim!
Joaquina
Pois não teve, afinal?...
Padre
Eu não sei... Dizem vocês que teve e a operação deixou o melhor resultado...
Joaquina
Elle diz que a curou! O que elle fez não sei, nem mesmo perguntei mas que ella torne a vêr...
Padre
É isso o que deseja a minh'alma sincera, é vêl-a venturosa! Entretanto, meu Deus, por que Talitha o seja é preciso, talvez, que a vara da desgraça me toque o coração e a fonte caprichosa das lagrimas estale. A dôr que me ameaça enche-me de pavor. Tenho um presentimento que me não abandona um dia, um só momento!
Joaquina
Isso não vale nada...
Padre
Entretanto eu medito naquelle casamento.
Joaquina, _interrompendo_
O casamento?...
Padre
Sim; o casamento, sim, que vae arrebatal-a á nossa pobre vida... Está, porém, escripto, e Deus que o destinou ha de por fim leval-a e nunca mais trazel-a aqui, junto de mim.
Joaquina
E quem nos diz a nós que essa desconfiança não seja apenas medo?
Padre
O coração, irmã!...
Joaquina
Ah! Sim o coração... o coração tambem cança! Já não regula o teu, nem serve de evangelho, é coração de padre e padre muito velho...
Padre
Pois bem, não servirá, mas inda esta manhã, por occasião da missa, as lagrimas vertidas tombaram-me da face ao calix consagrado, ao recordar, então, que um dia, angustiado, hei de vêl-a partir! Como fôram sentidas essas bagas leaes que, em silencio, chorei e que juntas ao vinho eu mesmo consagrei! Eu creio em Deus e espero o golpe do destino como um favor do céo purissimo e divino!
Joaquina
Descança, meu irmão! O Ruy é bom rapaz, tem muito amor á gente, ha de ficar, verás! Parece alma de santo e só pensa no bem.
Padre
Póde ser, póde ser, mas recorda tambem a promessa que fez a nossa pequenita e, se ella conseguir outra vez a visão, lá se nos vae embora a meiga Carmelita...
Joaquina
Ah! disso eu não receio; então crês que o convento tenha força capaz de virar-lhe a razão o fazel-a esquecer, assim, o casamento?
Padre
Mas se não a levar o voto de noviça ha de a levar o amor que quanto vê cobiça. De certo a chamará, talvez para bem longe, a palavra inspirada e convicta do monge que nos fez o milagre e deu olhos á céga... É por isso, meu Deus, que est'alma não socega!
SCENA II
Os mesmos e Ruy
Ruy, _entrando_
Bons dias, Senhor Cura.
_A Joaquina_
E a mãe Joaquina, então, como passou a noute? Aposto que sonharam muito commigo, sim?
Padre
Foi tal qual!...
Joaquina
Pois eu, não; tive mais que fazer, dormi regaladinha durante a noite inteira...
Ruy
E bem conchegadinha?
Joaquina
Nem mais!...
Ruy
E claro então que nem, sequer, cuidaram de Talitha...
Joaquina
Cuidei, sim senhor...
Ruy, _prazenteiro_
Não entendo... se dormiu toda a noite...
Padre, _a rir_
É, eu não comprehendo tambem como se possa, a um tempo só, dormir e velar!... É bem certo o rifão: mais depressa se agarra um mentiroso...
Ruy, concluindo
Exacto; do que um coxo...
_Ambos riem muito_
Joaquina
Mas eu é que não sei que tanto tem que rir!
_A Ruy_
Nem é da sua conta
_ao Padre_
e nem da sua! Peça a Deus Nosso Senhor que dê mais tento aos dois:
_batendo com um dedo na testa_
talvez haja por lá um parafuso frouxo...
Padre, _com gravidade comica_
Ó mana, isso é demais...
Ruy, _abraçando-a_
Não vá subir á serra; deixemos essa historia a resolver depois e vamos conversar da luz que se descerra e que hoje ha de fazer toda a nossa alegria...
Padre
Fallava eu nisso mesmo antes da sua entrada.
Joaquina
E quer saber, menino, o que elle me dizia?...
Ruy
Pois diga, francamente, e não esqueça nada...
Padre
Não havia segredo, era tão natural e tão simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco...
Joaquina
Deixe-o fallar, menino, anda que é mesmo um louco; não diz coisa com coisa, a tudo julga mal e já pelo peior!
_Contando pelos dedos_
Primeiro, que a pequena breve nos deixará, que o Ruy vae desposal-a, e depois, o convento: ora veja se cabe uma cantiga assim na cabeça d'alguem? Se ella ha de preferir aquella quarentena á casa dum marido!... A mim já não abala essa ideia!...
_Ao Padre_
Você nunca soube, nem sabe um marido bonito os encantos que tem...
_A Ruy_
Finalmente, receia...
Padre, _interrompendo_
Eis onde pega o carro!... E sabe Deus, Doutor, que se não fôsse a crença!!...
Ruy
Pois bem, Joaquina, diga, em que é que o Cura pensa?
Joaquina
Que depois de casada...
Padre, _interrompendo_
Ouça-me então, eu narro: Receio, é natural, que ella siga o marido, e venha a solidão morar nesta choupana onde eu mesmo não sei como tenho vivido! E que será de mim e que será da mana, diga-me, Ruy, tambem o que será de nós, dois velhos, nesta casa, enfermos e tão sós?... vendo, a cada momento, a lucta nos escolhos da saudade e da dôr, sem ter no dia extremo aquella mão leal que feche os nossos olhos?!... Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo...
Ruy
Sim, mas não tem razão, pensemos na ventura, nessa immensa ventura...
Joaquina, _interrompendo_
É mesmo assim que eu penso...
Ruy
Que vae sentir Talitha ao vêr a luz do sol, tantos annos depois de longa noite escura, envolto o dôce olhar num véo pesado o denso! Vamos fallar de nós, deste novo arrebol que nos ha de banhar o coração e a alma, como um luar de outomno, uma alvorada calma, quando ella abrir á luz a languida pupilla dos olhos ideaes, tão doces e tão flavos, que são como um casal de abelhas que assimilla, nas flôres dos jardins, o loiro mel dos favos. Pensemos na expressão que o seu olhar vae ter quando ella vir ao sol tão brancos os cabellos do Senhor Cura...
Padre
Assim como a neve a descer sobre a minha cabeça, em flócos e novellos...
Joaquina, _saudosa_
E nós dois a curvar ao peso da nevada, o corpo já pendido, a procurar a estrada que váe á eternidade...
Ruy, _interrompendo alegremente_
E já pensou, Joaquina, no famoso jantar?
Joaquina
Não, depois se combina. Como faltam ainda uns dias ao Natal vamos tratar primeiro...
Padre, _atalhando_
Isso! do nosso almoço, porque eu já estou sentindo um enorme alvoroço cá por dentro.
_A Ruy_
Que diz?
Ruy
Tudo quanto fizer a mãe Joaquina, está bem feito.
Joaquina, _ironica_
Agradecida! Eu já volto.
_Sae_
SCENA III
Padre e Ruy
Padre
Então, Ruy, pensou no resultado que vae ter para nós a sua operação?
Ruy
Tenho pensado muito e só me felicito: parece que se abriu um vasto rosicler, enchendo de perfume o lar da minha vida; descanta-me no peito o coração alado tão viva, tão alegre e limpida canção, que me parece ouvir palpitar o infinito e a dôce voz de Deus abençoar-me o nome...
Padre
Pois bem, Ruy, entretanto a duvida consome os meus dias; medito e tenho muito medo de uma lucta que vae ser travada, em segredo, no seio de Talitha...
Ruy
E então que lucta é essa?
Padre
O encontro, á luz do Sol, do amor e da promessa. Conheço-a muito bem. Alma branca de pérola, possue alguma coisa assim divina e cérula. Foi creada por mim, na dôce região em que repoisa a crença á sombra da oração... e sei que a pobresinha, um dia, prometteu professar e vestir o burel carmelita, se a Virgem lhe voltasse o seu perdido olhar. A Mãe de Deus ouviu a prece, mas agora que um novo dia aponta a curva azul do céo, mostrando-lhe o porvir numa formosa aurora de amor e de ventura, a angelica Talitha verá, na sua frente, erguer-se e fluctuar, constante, pertinaz, energica e severa, a promessa que fez, a consciencia austera a exigir-lhe que a cumpra e o seu primeiro amor a sorrir e a tental-a...
Ruy
Esse mesmo receio tambem me preoccupa. Eu já presinto a dôr que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio. Assim a Providencia ás vezes desconhece o proprio mal que faz e como que se esquece da victima innocente e nessa lucta enorme a desgraça feroz que não cança, nem dorme, de certo vencerá, se nós que a divisamos ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer tão alto, que domine aquelle pobre ser. E preciso pensar e vêr bem se afastamos da sua intelligencia a ideia do convento, como se afasta a flôr dos impetos do vento.
Padre
E quem terá prestigio e força de arrancar áquella consciencia, a dôce, a delicada, a candida expressão da promessa sagrada que ella espontaneamente ergueu junto ao altar?
Ruy
Nao desejo arrancar essa illusão formosa á crença da sua alma... A raiz dessa rosa não é muito profunda, apenas esbraceja á flôr do coração, por isso não viceja ainda como o seio altivo e perfumado de uma corola aberta!... Um botão delicado agora principia a despertar á luz... Dessa casta missão, que moverá Jesus, sómente, Senhor Cura, a sua phrase austera se póde encarregar; o prestigio da idade, a alvura de luar das cans alabastrinas, a palavra de amor, piedosa e severa, do seu conselho bom, tão cheio de amizade, a sua consciencia e as affeições divinas que avizinham do céo o seu viver de santo, a fé que o seu olhar inspira a quem o fita, hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto, nos olhos virginaes da mimosa Talitha.
Padre
Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos, nas duras provações, na dôr, nos desenganos, sem nunca haver mentido uma só vez na vida, tenho medo que a voz de commoção me trema, que me fuja o valor á hora assim blasphema de entregar á mentira esta fiel guarida...
Ruy
Caridosa mentira, ó culpa dôce e casta que salva uma esperança e mais um anjo afasta á amargura cruel de um grande sacrificio! Responda, Senhor Cura, em sua consciencia, acredita que Deus condemne uma existencia purissima de flôr, a tamanho supplicio? Que peccados terá Talitha a redimir que precise descer em vida á sepultura, agora que brilhou a estrella do porvir aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura? Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva: é aspera a mentira e tem a côr terrena, ao passo que a sua alma é branca, de açucena, e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva! Em vez de sacerdote, a confessar a freira, seja Pae que dirige o coração da filha! Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira, desviou-lhe a razão para diversa trilha. Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho, traga de novo a rola ao palpitar do ninho!
Padre
E pensa, Ruy, que um Pae, se tiver consciencia, deva pedir que a filha afaste da lembrança a promessa que fez, com tanta segurança, quando implorava a Deus piedade e clemencia?...
Ruy
Meu amigo, nao vê que esse immenso fervor nascia do tropel da magua e do pavor? Que, assim feita, a promessa, além de não ser santa, as almas enlanguece e os corações quebranta? Não vê que faltou luz áquella intelligencia? Que aquella alma vergou á estolida exigencia do desespero intenso e bárbaro, que a ancia de revêr inda o sol da sua alegre infancia envolver-lhe a cabeça em nimbos de ventura a levaram, talvez, nessa hora de tortura, á extrema tentação de dar a mocidade por um dia feliz de viva claridade? Levita, cuja mão diariamente eleva ao throno do Senhor a hostia consagrada, levanta esse sacrario á curva constellada, a flôr que pede sol não viverá na treva!...
Padre, _depois de uma pausa_
Pois seja assim, meu Deus! e tu que o vês perdôa, porque ha no meu peccado uma intenção tão boa, tão pura e tão leal, que eu sinto adormecido o velho coração por nunca haver mentido...
SCENA IV
Os mesmos e Joaquina
Joaquina, _entrando_
Que grandes trapalhões, aqui a badalar numa palrice enorme e toda a gente á espera que o doutor mais o cura acabem de fallar...
Ruy
Por que ha de ser assim tão má e tão severa?
Padre
Rabugice de velha!...
Joaquina
É só meu o proveito...
Ruy, _abraçando-a_
Deixe-o fallar, Joaquina, aquillo é tudo inveja... da sua mocidade!...
_Riem ambos_
Joaquina, _entre risonha e severa_
Ai, ai! o malcreado! Esquece a obrigação e falta-me ao respeito! E a culpada sou eu! Ora não ha! Pois veja que emquanto está gastando o seu palavreado, seria bem melhor que cuidasse da enferma, que vive ali no escuro abandonada e erma.
Padre
E você que fazia?
Joaquina
Eu fui tratar do almoço; não andei de conversa á espera que o maná nos cahisse do céo.
Ruy
Por isso falla grosso!
Joaquina
Não é da sua conta, ouviu?
Ruy, _com a maior gravidade_
Ouvi...
Joaquina
Pois vá tratar do seu dever porque não faz favor...
Padre
Então que succedeu?
Joaquina, _amenisando a voz_
É que a pobre pequena já cançou de esperar e quer vêr se o doutor lhe permitte que venha até aqui á sala.
Padre
Que diz, Senhor Doutor?
Ruy
Que se Talitha ordena...
Padre
Pois faça-se a vontade...
Joaquina
Então, eu vou buscal-a...
_Joaquina sae.--O Padre, ancioso, passeia ao longo da sala; Ruy, encostado á meza, olha para a porta por onde sahiu Joaquina.--Pausa cheia de anciedade._
SCENA V
O mesmos, Joaquina e Talitha
_Talitha entra de olhos vendados, pelo braço de Joaquina. Ruy e Padre vão ao seu encontro e tomam-lhe as mãos para conduzil-a a uma cadeira. Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha e conversam um pouco._
Padre
Como te sentes, filha?
Talitha
Afflicta, muito afflicta por ver a luz do dia...
Ruy, _tomando-lhe a mão_
A mesma curiosa de sempre!...
Talitha
Se parece á sua intelligencia que não tenho razão!... Ha tantos annos céga!...
Joaquina
Deixa-o fallar, Talitha, isto é mais tagarella do que as creanças, vês?
Ruy
Pois não creia, Talitha!...
Padre, _tomando Ruy á parte_
Prepare o coração e veja que anciosa aquella vida está... tenha a maior prudencia!
Ruy
É muito natural; só emquanto não chega o instante de tirar a venda que lhe vela o dulcissimo olhar...
_A Talitha_
Diga, Talitha, ainda sente alguma dôr?
Talitha
Não! apenas a impressão do lenço que me causa a maior afflicção, a vontade feliz, viva, crescente, infinda de vêr de novo a luz...
Ruy
E não ha quinze dias que lhe descubro a vista?
Talitha
Ha, sim, mas lá no escuro, onde eu não vejo nada...
Padre
Assim é que convem... Depois de tanto tempo, então, já pretendias vêr livremente o sol? Seria prematuro...
Joaquina
É muito perigoso!...
Ruy
E sentia-se bem? Chegou a distinguir, alguma vez, o aspecto ou a forma geral de qualquer um objecto?
Talitha