Talitha: evangelho em tres actos

Chapter 1

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Produced by Pedro Saborano

Pinto da Rocha

TALITHA

EVANGELHO EM TRES ACTOS

Segunda Edição

LIVRARIA CHARDRON DE LELLO & IRMÃO Carmelitas, 144-Porto 1909

TALITHA

Pinto da Rocha

TALITHA

EVANGELHO EM TRES ACTOS

Segunda Edição

LIVRARIA CHARDRON DE LELLO & IRMÃO Carmelitas, 144-Porto 1909

O _accordo_ assignado no Rio de Janeiro, em 9 de Setembro de 1889, entre o Brazil e Portugal, assegurou o direito de propriedade literaria e artistica em ambos os paizes.

A presente edição está devidamente registada nas _Bibliothecas Nacionaes_, de Lisboa e Rio de Janeiro.

Imprensa Moderna, de Manoel Lello R. da Rainha D. Amelia, 61--PORTO Grande premio na Exposição do Rio de Janeiro de 1908

PERSONAGENS

TALITHA, céga 18 annos JOÃO FULGENCIO, cura da aldeia 80 " DR. RUY DE ORNELLAS, medico 25 " JOAQUINA, irmã do cura 65 " MARQUEZA DE RILMA 50 " Um escudeiro--Camponezas--Lavradores

A acção passa-se em uma aldeia da Provincia de Traz-os-Montes, Portugal

ACTUALIDADE

INTERPRETAÇÃO

NO RIO DE JANEIRO EM 1906

Talitha Maria Falcão Joaquina Jesuina Saraiva Marqueza de Rilma Barbara Wolckart João Fulgencio Chaby Pinheiro Ruy de Ornellas Henrique Alves

NO RIO GRANDE DO SUL EM 1907

Talitha Maria Falcão Joaquina Maria Pinheiro Marqueza de Rilma Olivia de Almeida João Fulgencio Chaby Pinheiro Ruy de Ornellas João Lopes

A _Talitha_ subiu á scena, pela primeira vez, no Theatro Apollo, do Rio de Janeiro, em Agosto de 1906, na festa artistica da eximia actriz Maria Falcão.

E tomando a mão da menina disse-lhe: --Talitha cumi:--Filhinha levanta-te.

_Novo Testamento._ S. Marcos, V. 41.

PRIMEIRO ACTO

Jardim, na residencia do Cura.--Á direita, um banco de pedra junto a um poço: á esquerda, frontaria da casa. Grade ao fundo, com portão.--Vista de estrada e campo.

SCENA I

Joaquina e Ruy

Joaquina

Louvado seja Deus! Como está bello e forte!

Ruy

É verdade, Joaquina, o clima aqui da terra encheu-me novamente o coração de alento. Posso dizer que entrei neste bondoso lar vigiado, sem dó, pelos olhos da morte. E agora, a luz do Sol, os perfumes da serra, as aguas desta fonte, o sadio alimento, o seu cuidado santo, amigo e tutelar, fizeram-me robusto.

Joaquina

E Deus não lhe fez nada?

Ruy

Foi elle quem salvou a minha mocidade, porque a divina mão que fez os céos e os montes, que deu flores á terra e deu frescura ás fontes, que faz vibrar a luz e a voz da passarada, que impelle a nuvem branca em plena immensidade, um dia vos creou as almas caridosas que vivem nesta casa, humildes e serenas, felizes com o Bem, suaves como as rosas, mais simples do que o trigo, a neve e as açucenas!

Joaquina

Então, menino, crê tambem que Deus existe?!

Ruy

De certo, minha amiga.

Joaquina

E não é um hereje, dessa raça maldita e negra que desmente as obras do Senhor?

Ruy

Ingenua creatura! É tão alegre a crença e não crêr é tão triste, que mesmo sem querer o coração da gente acredita num Deus que todo o mundo rege, num Pae que assim te deu alma simples e pura! Faz tanto bem, Joaquina, acreditar em Deus e adormecer á noite abrindo a consciencia aos beijos do luar, sorrir de madrugada á frescura que vem do azul ethereo e vasto, que o nosso olhar ascende ás amplidões dos céos sem esforço nenhum, como a espiral da essencia que se evola da flôr, se a abelha delicada lhe poisa na corolla o vôo leve e casto!

Joaquina

Bemdito seja Deus! Não póde imaginar como eu fico contente ouvindo assim fallar!...

Ruy

Mas que idéa fazia então de mim? Julgava talvez que eu fosse atheu?

Joaquina, _benzendo-se_

Deus me perdôe... pensava!

Ruy

Como poude a sua alma angelica e tão boa fazer-me, sem motivo, essa enorme injustiça?

Joaquina

Ah! mas não foi por mal, nem o pensei á tôa: eu nunca o vi rezar, eu nunca o vi na missa... E a gente vê só cara e não vê corações...

Ruy

E se o visse, Joaquina!...

Joaquina

E que é que me servia o ver-lhe o coração?

Ruy

Nada, é certo. Entretanto conheceria bem as minhas intenções, a esperança que faz brotar, em cada dia que passa, um pensamento alegre, puro e santo...

Joaquina, _interrompendo_

É, mas diz o rifão que está o inferno cheio de boas intenções!...

Ruy

Tem razão; mas não minto se lhe disser tambem, lealmente, o que sinto: ás vezes mais parece um verdadeiro inferno este peito infeliz...

Joaquina, _benzendo-se_

Abrenuncio, menino!... Mas que blasphemia a sua e que peccado feio!... Um homem que acredita em Deus, bondoso e eterno, em Deus Nosso Senhor, não diz tal desatino!... Virgem Maria! Credo!

Ruy

Alma boa de santa!... A tua vida inteira adormeceu. A aurora já para ti não tem aquelle brilho vivo que a primavera, em luz, alastra pelos campos... Tudo se transformou em outra vida; agora a fonte já soluça, a brisa já não canta; aos teus olhos a lua é d'um fulgor esquivo, o sol não tem calor, o céo já não é glastro, as estrellas febris parecem pirilampos; trazes o teu olhar constantemente a rastro; sómente a fé te anima; é por isso que extranhas o inferno abrasador que muita vez domina a minha mocidade.

Joaquina, _com sorriso_

Isso me bacoreja algum amor perdido ahi por essas eiras...

Ruy

É possivel, quem sabe? Os ares das montanhas tem caprichos assim, póde bem ser, Joaquina!

Joaquina, _cariciosa_

E diga-me, que olhar é esse que negreja a sua vida alegre? Ha tantas feiticeiras!...

Ruy, _enleiado_

Que olhar?

Joaquina, _interrompendo_

Mas é segredo?

Ruy

É, por ora é segredo...

Joaquina

Ah! não confia em mim?! bem sei, bem sei, tem medo que eu descubra o mysterio, a princeza encantada que assim lhe traz a vida em tantas amarguras...

Ruy

Não é mysterio, não. É... cousa complicada!...

Joaquina

Faz muito bem zelar a flôr dos seus amores; não os conte a ninguem; se acaso as desventuras lhe roubarem o somno agarre-se com Deus...

_tomando-lhe a mão e fallando-lhe ao ouvido_

Reze constantemente á Senhora das Dôres. Acceite este rosario e tenha-o por bordão. É bemaventurado aquelle que padece, porque é delle, menino, o reino azul dos céos... E Deus a quem promette estende sempre o pão; reze e será feliz... Essa alma bem merece...

Ruy

Santa velhinha, santa...

Joaquina, _tapando-lhe a bocca_

E nem um ai, silencio... Olhe quem vem ali...

Ruy, _voltando-se_

O Padre João Fulgencio e Talitha; meu Deus!... Pobre, infeliz Talitha!...

Joaquina, _a Ruy_

Parece que ficou um tanto atrapalhado...

Ruy, _encobrindo a verdade_

Sempre que a vejo, assim tão cheia de bondade e céga...

Joaquina

Então, que sente?...

Ruy

Uma dôr inaudita, que reveste de luto as minhas alegrias:

Ha tanta luz espalhada na concha astral dos espaços! E os olhos della tão baços! E a fronte tão macerada!

SCENA II

Os mesmos, Padre João e Talitha

_Talitha vem apoiada ao braço de padre João_

Padre

Pois Deus Nosso Senhor nos dê muitos bons dias.

_assenta Talitha: a Ruy, apertando-lhe a mão_

Como passou a noute?

Ruy

Assim; mais descançado... Sonhando... E o Senhor Cura?...

Padre

Eu? Ah! na minha idade já se não dorme; eu passo a noute toda em claro, de rosario na mão, pedindo a Deus por nós! E quando surge o dia e mal o Sol desponta, dando o braço a Talitha, encaminho-me á Egreja.

Talitha

Diz a missa que ou ouço...

Padre

E é raro, muito raro, voltarmos ella e eu, da Egreja a casa, sós. Ás vezes vem comnosco esse infeliz sargento que arrasta por ahi o longo soffrimento, velho e cego tambem, e eu, mortiça candeia, a conduzir os dois pelas ruas da aldeia!

Talitha

Mas o senhor doutor, por mim nunca dei conta, nem uma vez, sequer, nos acompanhou! Veja! No emtanto está comnosco ha sete mezes, não?

Joaquina

Isso mesmo eu já disse...

Ruy

Eu dei a explicação...

Talitha

E poder-se-á saber? Não é curiosidade?

Padre

Talvez seja, talvez...

Ruy

Não é!

Talitha

Então ouçamos!...

Ruy

Eu rezo no silencio o santo sacrificio, no fundo de minh'alma elevo o meu altar, sob o docel azul das minhas esperanças!...

Padre

E eu sem conhecer mais essa novidade!...

Talitha

Qual?

Padre

Esta que o Doutor nos deu, mas aprendamos...

Ruy

Padre não é sómente aquelle que a rezar esgota uma existencia ao peso do cilicio e vae pelas manhans, feliz como as creanças, curvar humildemente a fronte e a consciencia, na sombra da capella, aos pés do Redemptor...

Talitha

Mas ha d'outros, então?

Padre

Eu não conheço, filha!

Ruy

Sacerdote é tambem aquelle que tem culto ao qual offereceu toda a sua existencia. Padre, quem se dedica um dia com fervor a amar alguem na terra a cujos pés se humilha, tambem é sacerdote...

Padre

E eu, sacerdote, exulto ouvindo do seu labio esta expressão severa.

Joaquina, _que tem guardado silencio, enlevada pelas palavras de Ruy_

Bemdito seja Deus! menino, quem me dera conhecer a mulher que tem um filho assim...

Talitha

Só eu não posso vêl-o!...

Ruy, _entre alegre e enleado_

Obrigado, Talitha!

Talitha

Não tem que agradecer, disse-o sinceramente! Que póde desejar mais uma céga, diga?...

Padre

Mas conforma-te, filha, espera que o Senhor, ouvindo-me a oração, tenha pena de mim e acuda com remedio ao mal dessa desdita!

Ruy

Como eu fôra feliz...

Joaquina

E eu seria contente!...

Ruy

Se pudesse voltar, ó minha boa amiga, aos seus olhos de céga o perdido fulgor!...

Talitha

Nunca mais, nunca mais...

Padre

Porque é que te condemnas se toda a nossa vida é uma esperança apenas?...

Talitha

Se é toda de esperanças esta vida, já me fugiu aquella que voava bem junto do meu seio e que roçava sobre a minh'alma a aza foragida.

Nem sei onde ella vae, talvez perdida nao volte a mim por não morrer escrava na escuridão da noite immensa e cava dos meus olhos sem luz e sem guarida...

Nunca mais fulgirás, dôce promessa, na minha treva densa e prematura, como o branco luar em noite espessa.

Se vive, o olhar dos cégos não fulgura, dorme na sombra e de sonhar não cessa na tristeza sem fim da noite escura!

Ruy

Não descreia, Talitha, as suas illusões não fugiram, por ora, esparsas na lufada! Quem foi que lhe roubou a ultima esperança, que braços sem caricia, ou duras privações lhe puderam vibrar tão rude punhalada? Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalança a dizer-lhe, Talitha:--o seu formoso olhar tão cheio de fulgor, um dia ha de voltar...

Joaquina

Só milagre de Deus!

Padre

E Deus póde fazel-o: é Pae de todos nós!

Talitha, _com desanimo_

Tenho rezado tanto!

Ruy

Implore mais ainda, espere, tenha crença!

Talitha

Tenho pedido muito e tanto me flagello que banho as orações nas bagas do meu pranto e aqueço-as ao calor da minha dôr immensa. A mesma escuridão tremenda me apavora, nem um raio do luz, nem um vago lampejo; nunca mais hei de vêr o campo que se inflora nem do luar terei um luminoso beijo...

Padre

A tua redempção ainda não surgiu...

Joaquina, _pondo as mãos_

Eu tenho tanta fé!

Ruy

O meu presentimento não sei o que me diz...

Talitha

Que o coração sentiu, que a sua alma pensou nessa dôce ventura, eu creio porque sei quanto é nobre e bondoso. Mas eu creio tambem que o meu cruel tormento sómente acabará no chão da sepultura, onde tudo tem fim, embora tenebroso!...

Padre, _olhando o céo_

Perdôa-lhe, Senhor, ella ignora o que diz... Se tem soffrido tanto esta pobre infeliz!...

Talitha

Eu sei bem o que disse; a minha crença é essa. Ha muito que eu imploro ao céo a protecção e rezo com fervor á dôce Conceição, pedindo-lhe, a chorar de dôr, que não esqueça a minha noite escura e tristemente agreste como a sombra que faz a copa de um cypreste. Aos pés do seu altar curvei-me como escrava e emquanto pela igreja o incenso espiralava, e as simples orações subiam na espiral, fechei-me na mudez do meu fervor mental e fiz uma promessa...

Ruy, _com interesse_

E então qual foi, Talitha?

Talitha

Votar a minha vida ao divino serviço, se um dia terminasse o meu padecimento; nem peço mais a Deus, é tudo o que cubiço.

Ruy

E se tornar a ver?

Talitha

Entrarei num convento a vestir o burel de freira Carmelita.

Padre, _crente, pondo as mãos_

Se Deus te ouvisse, filha!

Joaquina, _com uncção religiosa_

E o Bom Jesus quizesse!...

Ruy, _com amargura_

Se tivera valor a minha humilde prece!...

Talitha, _curiosa_

Se tivera valor, que lhe faria, Ruy?

Ruy

Não pediria a Deus esse milagre extremo...

Talitha

Porque?

Ruy

Porque seria arrancal-a da treva e lançal-a de novo em mais cruel negrura. Juntando toda a fé que de minh'alma flúe eu iria pedir, como um favor supremo, que as almas alevanta e os corações eleva, que me guiasse a mão na lucida aventura de devolver-lhe um dia ao seu olhar perdido aquelle brilho antigo e aquelle ardor de outr'ora que faziam inveja ao proprio olhar de Flóra!

Padre

E seria capaz?

Joaquina

Credo!

_Sae_

SCENA III

Padre João, Ruy e Talitha

Ruy

E tão convencido estou de que o Senhor a mão me guiaria nesse instante feliz, que não hesitaria um momento sequer... A simples catarata é facil de operar e em dez dias exactos Talitha voltaria á luz que o céo desata e que dá vida á terra, aos fructos e aos regatos!... Pense, Talitha, pense e permitta que eu faça esse dôce milagre.

Talitha

E eu tornarei a vêr o presbyterio, a fonte, a madrugada, as aves, as abelhas sugando o mel dos jasmineiros?

Ruy

Os seus olhos verão a luz da eterna graça no sorriso gracil da alvorada, ao nascer nas bandas do oriente em nuvens tão suaves, como um rebanho astral de timidos cordeiros!

Talitha

E que mais hei de vêr?

Ruy

Que mais? Verá tambem um velhinho a sorrir com lagrimas na face, e uma velhinha branca e trémula a chorar, e ao pé delles, alegre, o olhar de mais alguem, numa dôce oração tão leve e tão feliz, como se a propria brisa aqui se demorasse um momentinho só tambem para rezar!

Talitha, _alegre_

E eu voltarei de novo aos encantos da luz? E hei de vêr tambem o jardim do mosteiro onde floresce a fé que a nossa vida arrima, as rosas enfeitando a Virgem que as anima, o corpo de Jesus exanime e trigueiro, entre cirios a arder, deitado sobre a cruz?... E então assim feliz...

Ruy, _interrompendo_

E então, Talitha, e então?

Talitha

Rezarei pelo Ruy, tão bom, tão generoso, que trouxe ao meu olhar escuro e tormentoso a esmola angelical d'um lucido clarão!

SCENA IV

Os mesmos e Joaquina

Joaquina, _entrando_

Padre Cura, uma carta.

Padre

Uma carta? Mas donde?

_recebe-a e examina_

Hum! e de quem será?

Talitha

Joaquina, dê-me o braço...

_Joaquina dá-lhe o braço. A Ruy_

Dr. Ruy, até já.

_ao cura_

Até já, meu Padrinho...

Ruy, _que se tem conservado triste_

Talitha!...

Talitha, _voltando-se_

Meu Senhor!...

Ruy, _indo a ella_

Perdão, Talitha... nada!

Talitha

Arrependeu-se, não? E tambem não responde... Desconfia de mim?... Outro tanto eu não faço Doutor, a seu respeito; eu bem sei, adivinho...

Ruy, _com interesse_

Que foi que adivinhou?

Talitha, _com malicia_

Uma coisa adorada... que só tres corações conhecem bem: o seu, o della, e o Senhor que tudo vê do céo...

Ruy, _admirado_

Della, Talitha, quem?

Joaquina, _com intenção_

Daquella princesinha d'olhos da côr do céo, vestida de andorinha...

Talitha

Ouviu, Doutor, ouviu?

Ruy

Juro...

Talitha, _interrompendo_

Não jure falso!...

_a Joaquina_

Vamos, Madrinha, embora: é tempo de almoçar.

_sahem_

SCENA V

Padre João e Ruy

_Desde que recebe a carta, Padre João lê com a maior attenção. Pela sua face corre toda a expressão de espanto que vae recebendo. Quando sahem Joaquina e Talitha, o Padre conclue a leitura e fica a meditar. Ao approximar-se Ruy, suspende-se._

Padre

Esta agora é que foi!

Ruy

E que foi, Senhor Cura?

Padre

Quem sabe? Póde ser um pequeno precalço, mas póde ser tambem que venha de mistura alguma dôr maior. E não posso evitar!...

Ruy

O que essa carta diz deixou sua alma afflicta: um segredo talvez que vive no seu seio?!...

Padre

Foi, sim, mas ja não é. Agora só receio que m'a levem daqui...

Ruy

Que a levem? quem?

Padre

Talitha...

Ruy

E quem a levará deste remanso augusto? O convento, a promessa?...

Padre

Oh! não...

Ruy

Não tenha susto! E quem mais poderá, nesse caso, arrancal-a do lar em que nasceu?

Padre

A Mãe...

Ruy, _surprehendido_

Ah! mas... então...

Padre, _baixinho_

Então... já percebeu?! Ella foi engeitada... Eis aqui o segredo em que esta vida abraço.

_baixa a cabeça, scismando_

Ruy, _depois de uma pausa_

Oh! meiga creatura!

Padre

E não poder salval-a!...

Ruy

Engeitada!...

Padre

Sim, sim. Ao romper da alvorada. Ha muito tempo já. Inda no céo brilhava a estrella da manhã; vieram procurar-me; bateram ao portal com desusado alarme... Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava os campos e eu pensei que um pobre moribundo, no momento supremo em que deixava o mundo, quizesse receber da minha propria mão o balsamo final da santa extrema-uncção, e abri desta choupana a porta sempre franca. Parecia o jardim uma toalha branca. Era um frio cruel, cortava como fôsse o gume de uma faca e o fio de uma fouce... Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem. No céo luzia só a estrella de Bethlem! Não sei porque a fitei nesse feliz momento. Um silencio profundo amordaçava o vento; dormia a natureza um somno indefinido, vibrou então no espaço um timido vagido... Estremeci de horror...

Ruy, _com anciedade_

Era a pobre Talitha?!

Padre

Approximei-me e vi, aqui junto do banco um cestinho de verga envolto em panno branco. Banhou-me o coração uma dôr infinita. Na tragica mudez da alvorada deserta tomei nas mãos, tremendo, a delicada offerta e agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a como quem agasalha o corpo de uma estrella que tombasse do céo...

Ruy, _com mais anciedade_

E esse penhor amigo?!...

Padre

A meu lado cresceu e formou-se o thesoiro, alma rica de luz, feita de amor e d'oiro. Parece que ao romper daquella madrugada tão fria, tão cruel, mas tão abençoada, que eu lembro com saudade e que inda hoje bemdigo, teve o banho castalio, o baptismo de luz da mesma estrella exul que baptisou Jesus. Por isso é que minh'alma agora não sopita a magua de perdel-a...

Ruy

E quem terá coragem energica e viril de arrebatar Talitha ao seu amor leal e bom, dôce miragem, no deserto feliz desta velhice austera?

Padre

A mãe que a vem buscar...

Ruy

A mãe não tem direito... A mãe que engeita a filha é peior que uma fera!

Padre

Mas é mãe!...

Ruy

Sim, será, sem coração no peito.

Padre

Engana-se, doutor, a mãe que hoje a reclama, depois de tanto tempo, é que lhe tem amor...

Ruy

Como a engeitou, então?

Padre

A fera tambem ama... Quem sabe o que terá soffrido essa mulher? Sabe-o sómente o céo, calcule-o quem puder. E diz-me o coração que vou perdel-a em breve.

_Erguendo as mãos ao céo_

Não me tires, meu Deus, esse gentil penhor! Repara que já tenho os cabellos de neve, tão tremulas as mãos, e os labios descorados, como sonhos que vão batidos e levados num extremo soluço... O que eu tenho no mundo, pouco mais é que um ai e o golpe agora é fundo!

_Enxuga os olhos e sáe_

SCENA VI

Ruy e Talitha

_Ruy vê sahir o Padre e fica pensativo, fitando os olhos no chão, sentado no banco de pedra. Depois de uma pausa, Talitha desce, tacteando, até junto delle._

Talitha

Padrinho, então não vem?

Ruy, _sobresaltado_

Ah! Talitha...

Talitha

Perdão! Pensei que estava aqui...

Ruy

Já se foi...

Talitha

Obrigada...

_Vae retirar-se_

Ruy

Talitha!

Talitha

Senhor Ruy!

Ruy

O seu bom coração inda não lhe contou, baixo, muito baixinho, quasi a tremer de medo e susto, um segredinho, diga, não lhe contou?

Talitha, _com muita simplicidade_

Que pergunta engraçada!

Ruy

E vive então sereno?

Talitha

Ah! Sim, tenho certeza!

Ruy

É bem feliz, Talitha, a sua singeleza! Outro tanto, porém, ao meu já não succede que o sinto palpitar acceleradamente, como quem vae fallar e o soffrimento impede.

Talitha

Eu bem lh'o disse ha pouco...

Ruy

Entretanto eu lhe juro...

Talitha, _interrompendo_

Não jure que é peccado a jura de quem sente que não diz a verdade. É mais bello e mais puro não negar.

Ruy

Tem razão, mas eu não disse, ainda qual era o juramento...

Talitha, _ingenua_

E qualquer que elle seja...

Ruy

Diga, diga o que sente...

Talitha

Ha de ser...

Ruy, _curioso_

Ha de ser?

Talitha

Não digo...

Ruy

Diga, sim, a sua voz bemvinda ha de me dar a esmola honesta e bemfazeja que a minh'alma sem luz precisa de viver. E do seu labio casto apenas um sorriso vale mais que uma estrella e rasga um paraiso.

Talitha

Assim o quer, direi; jamais o seu protesto póde ser verdadeiro...

Ruy

E porque não, Talitha?...

Talitha

Não sei, não sei porque. A jura é como o gesto que abala fortemente, a nossa vida agita, mas passa e foge...

Ruy

Ah! sim, quando falla sómente o labio, sem fallar tambem o coração... Ah! de certo que assim o labio sempre mente. Mas quando o sangue estúa e faz tremer a mão de quem jura, Talitha, ou quando a fronte em braza, apenas num momento, empallidece e tomba, bem como se a roçára a ponta fria da aza feita de gelo e dôr de alguma extranha pomba, quando um homem que sempre olhou de frente o sol tem medo de encarar o olhar de um rouxinol, e treme até de ouvir-lhe a voz encantadora, quem sempre ouviu sorrindo a furia rugidora do vento e dos trovões...

Talitha, _interrompendo_

Então?...

Ruy

Assim revela que é grande, generoso e casto o sentimento que apenas se traduz e que tão mal se vela na gaze pueril d'um simples juramento!

Talitha, _ingenua_

Quem foi que o ensinou a fallar assim?

Ruy, _timido_

Digo?...

Talitha, _ingenua_

E porque não? Quem foi?...

Ruy, _timido_

Nem mesmo eu sei, Talitha!

Talitha, _insistido_

Nem sabe onde aprendeu?

Ruy, _sorrindo_

Quer aprender commigo?

Talitha, _ingenua e triste_

Não me quer responder, nem confessa, nem nega... Se eu pudesse aprender, de que valera á céga saber fallar assim?

Ruy, _triste_

Á céga?

Talitha, _simples_

E á Carmelita?...

Ruy, _ancioso_

Á Carmelita!... e quem lhe disse que os seus olhos recuperando a luz, como duas estrellas, irão illuminar as fragas e os escolhos das montanhas da Syria, entre as monjas Carmellas? Quer sepultar-se em vida?

Talitha