Sustos da Vida nos Perigos da Cura
Part 2
Finalmente, por nao cansar mais a V. m. e eu estar tambem já cansado de escrever, naõ digo o muito, que me occorre a este respeito, e só peço a V. m. que tenha muito cuidado em conservar sem desordens a vida, para lograr hum estado de perfeita saude, e naõ chegar a ter necessidade de cahir no erro commum de chamar Medico, que naõ seja Medico, que lha destrua de todo; e esta diligencia de chamar Medico bastará que V. m. a reserve para a ultima enfermidade, para mostrar que naõ deixa de morrer à moda; ou tambem, quando por muito velho, e achacado se enfastiar de viver, quizer livrar-se desse embaraço por meyos competentes, que fique salva a sua consciencia, porque elles teraõ todo o cuidado de lhe dar a morte embrulhada em alguma emulsaõ, ou dentro de hum frango, lembrando-se que obraõ nisto huma especie de caridade, verificando que a respeito de huma vida cheya de padecimentos naõ he pena a morte, mas sim o fim, e complemento de todas as penas, como escreveo hum discreto: _Mors non poena, sed ultima poenarum est._ Mas se por acaso, ou fatalidade lhe succeder o contrario, que antes disto lhe seja preciso recorrer a elles pelo costume, encolha os hombros, e console-se com Ouvidio, dizendo: _Me quoque fata ligant._ Ainda que lhe recommendo muito, e me cuide em fugir, quanto lhe for possivel, destes tres inimigos do corpo, assim como Christaõ deve fugir dos da alma, pois se os da alma, que saõ mundo, diabo, e carne, a arruinaõ por natureza, assim o Medico, Cirurgiaõ, e Boticario tem por officio destruir a saude, e arruinar o corpo. Eu terei grande gosto de saber que V. m. passa livre de necessitar valer-se de semelhantes inimigos, que eu, graças a Deos, por agora escapei por occulta providencia dos ordinarios effeitos das suas obras, e fico muito prompto para me empregar no serviço de V. m. que Deos guarde muitos annos. Lisboa, 20. de Abril de 1756.
De V. m.
Muito amigo, e criado
_Jozé Acursio de Tavares._