Suicida

Chapter 2

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N'esta visualidade de Elisa ha uma coincidencia memoravel. Na casa que ella indicára como escondrijo do condemnado, hospedára-se Vieira de Castro com sua senhora, quando chegaram a Portugal. Morava então alli seu irmão Antonio. No anno seguinte, foi habital-a Gonçalves Basto, attrahido pela belleza do sitio e prazeres da jardinagem em que se occupava todas as horas vagas dos seus labores de escrivão de fazenda.

Aqui viveu tres alegres annos o fatigado lidador do jornalismo, cultivando flôres, morangaes, parreiras, e fabricando elle mesmo, na qualidade de lagareiro, o seu vinho, com que, no estio, deliciava os hospedes.

N'esta innocencia de patriarcha, o assalteou um dia a esposa, ao cabo de nove annos de divorcio, intimando-lhe que sahisse d'aquella casa que era d'ella. O fleugmatico marido enfardelou alguns objectos de primeira necessidade e mudou-se, como quem foge. Tinha juizo. Aquella visão etherea de J. Janin, olorosa de violetas, recendia agora á polvora e phosphoro dos rewolvers, desde que o rapazio da Foz lhe pegou de apupar as abas amorphas e infinitas de uns chapéos de palha mastreados de escumilhas variegadas.

Magôa-me verdadeiramente desfazer algum tanto na sentimentalidade com que, em alguns periodicos, se lastimou a miseria de Elisa Weimar. Vi escripto que a suicida experimentára as agonias da fome, da casa sem aconchego, do desamparo dos indigentes. Não é exacto isto. Ha de haver quatorze annos que ella foi a Paris instaurar um pleito sobre a herança de seu irmão. A acção intentada terminou por conciliação, lucrando a irmã de Loeve-Weimar uma pensão annual e vitalicia de 3:000 francos. Além d'isso, recebia 18$000 reis mensaes que lhe dava o marido. 750$000 reis bastariam ao decente passadio de uma senhora com regular entendimento para governar-se; porém, se os proprietarios dos predios que ella habitava recorriam ao expediente das penhoras, é porque M.^me Elisa Weimar não pensava normalmente ácerca dos senhorios; ou, no estado informe das suas idéas embaralhadas, não podia conciliar as obrigações impostas pelo Codigo civil, no artigo 1608, que reza: _O arrendatario é obrigado a satisfazer a renda, etc._

De mais a mais, esta senhora presumia-se muito rica e muito perseguida pelos jesuitas--talvez reminiscencias delirantes da familia do general Simon de E. Sue. Á volta do Porto, reputava propriedades suas, rusticas e urbanas, as campinas mais ferteis e os _chalets_ mais imbrincados. Afóra isto, dava-se como directa senhora e emphyteuta de terrenos na Foz e outros pontos convidativos a edificação. De modo que, se lia no _Primeiro de Janeiro_ ou _Commercio do Porto_ o annuncio d'uma propriedade á venda, no dia seguinte contra-annunciava que a propriedade era sua, ainda mesmo que a não tivesse arrolado no tombo imaginario dos seus haveres litigiosos. Aqui ha mezes, um padre que se dizia procurador do meu amigo Custodio Teixeira Pinto Basto, replicando a um desses contra-annuncios, allegou, na imprensa, que a snr.ª D. Elisa Loewe-Weimar estava enganada; pois que os predios, quintas e chãos que ella reputava seus, eram indisputavelmente do seu constituinte o snr. Pinto Basto. Em resultado d'este desmentido, _assignado por um padre_, me escreveu M.^me Elisa confirmando-me na guerra que os jesuitas lhe moviam, confederados em espolial-a porque era protestante e estrangeira desprotegida das authoridades portuguezas. Em virtude do que me rogava que sahisse em sua defeza e lhe communicasse os alvitres a seguir mediante cartas que, a uma hora determinada, eu devia introduzir pela fresta d'uma das suas janellas ao rez do chão, visto que a sua correspondencia lhe era subtrahida no correio pela Companhia de Jesus.

Ás vezes, parava na rua, e detinha-se a examinar a frontaria d'um predio. A final, recordava-se que era um dos seus, entrava no pateo, sacudia rijamente a campainha, e fazia saber ao morador que estava alli a senhoria para vêr se eram precisas obras na sua casa. Era inoffensiva; mas não deixava de ser incommoda esta maneira de doudice.

Ha quatro annos ainda, vestia-se singularmente. Quando a saia era azul com requifes encarnados, o corpete era branco, e verde o filó do chapéo. Gostava muito do vestido de velludo preto e botinas brancas. Os transeuntes paravam descaridosamente a rir, e ella passava, triste e solemne como o symbolo da desgraça n'um baile de carnaval. N'estes dous annos derradeiros, trajava menos que modesta, pobremente, um capotilho côr de castanha, apresilhado na cintura, e um chapéo campestre de palha côr de bronze. Não erguia os olhos, nem correspondia aos cortejos, quando algum raro encontradiço com memoria e coração reconhecia, n'aquella mulher encanecida e trôpega, a esbelta e irrequieta franceza de ha trinta annos, e machinalmente se descobria como se faz a um esquife coberto de crepe e assignalado por uma cruz amarella.

* * * * *

José Joaquim Gonçalves Basto, no fim do anno passado, alegrou a minha mesa com a sua jovialidade, com as suas épicas faculdades digestivas. Estava comnosco Placido de Freitas Costa, um galhardo espirito com todas as graças petulantes dos rapazes de 1850. Não tem ainda trinta annos, e protesta contra o marasmo dos homens da sua geração--uma gente que tem o coração em modôrra e a alma anhelante no dominio de quatro inscripções.

Não havia ahi distinguir entre os dous na competencia de festivas rapazices. Alta noite, sahiram de braço dado, percorreram os theatros e passearam as ruas até ao romper da aurora. Gonçalves Basto perfizera setenta annos n'esse mez. Ao outro dia, Placido de Freitas dava um jantar ao decano da imprensa portuense no _Hotel do Louvre_. Os commensaes eram todos rapazes e alguns estrangeiros. Gonçalves Basto brindava-os nas suas linguas, e as risadas estrondeavam quando elle salgava os discursos com as facecias que se usam lá fóra nos lautos banquetes britannicos em que o corpo, mais debil que o espirito, resvala para debaixo da mesa, e todo homem se fica então parecendo com Horacio ou Numentano a resonar no triclinio.

Dous mezes depois, estando eu enfermo, disseram-me que José Joaquim Gonçalves Basto adoecera, pela primeira vez na sua vida. Ao outro dia, mandei saber como passára a noite. Tinha morrido ás cinco horas da manhã.

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A viuva, participando-me que seu marido era defunto, relatava o caso tão glacialmente como se historiasse o trespasse do seu quinto avô. Todavia, tinha magoados toques o seu estylo quando o arguia de haver deixado hypothecadas fraudulentamente as propriedades em beneficio de varias mancebas.

A falta do marido, que para ella representava quatro libras mensaes, verdadeiramente não authorisa a hypothese da pobreza. Os numerosos e extensos annuncios que publicava, em resalva das suas propriedades, eram pagos. Visitava as livrarias e comprava livros. Tinha uma casa decentemente trastejada, e servia-se com criados a quem pagava talvez, não os confundindo com os senhorios.

Quando o proprietario da casa lhe enviou mandado de despejo e sequestro no dia ultimo de setembro, Elisa Weimar fez trancar as avenidas. N'esse momento, a sua alma aterrada pelo estrondo dos esbirros que arrombavam as portas, estremeceu, e... acordou. Eis o momento da lucidez! Ao cabo de seis annos de demencia, relampagueou-lhe na razão o fulgor d'um corisco; e então, vendo-se desgraçada e ridicula, matou-se.

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Adeus, minha «formosa das violetas»! O teu Julio Janin, o teu cantor, quantos te amaram e admiraram são já mortos, desde Henri Heine até Philarète Chasles. Como devias ter morrido antes da velhice, a tua alma sempre juvenil desamparou-te; e emquanto ella gemia nos cyprestaes do _Père-la-Chaise_ a cada sahimento dos teus amigos da mocidade, o teu corpo inerte e estupido immergia no pesadêlo das sonhadas riquezas! Ias ser baldeada aos apódos das turbas, e levada pela policia á caverna das doudas, quando a tua alma regressou nas suas azas de luz, radiou por sobre a área negra da tua suprema desgraça, e ahi te alumiou o suave reclinatorio da sepultura. Era a hora bemdita ou maldita da morte. Abraçaste-a. Descansas. Em uma das tuas cartas me escreveste ha vinte annos, estas palavras de Balzac: _Cada suicida é um poema sublime de melancolia..._ Adeus! quando eu souber onde a caridade te sepultou, irei levar-te um ramo de violetas.

FIM

[1] Setembro de 1875.

[2] Outro biographo, peor informado, diz _duque_.

[3] O snr. visconde de Soveral.

[4] Fallecido no dia 2 d'abril de 1879.

[5] Julio Janin pintou-nol-o _corpulento_. Modos de vêr; mas M.^me Elisa Loeve-Weimar disse-me que seu irmão era de baixa estatura.

[6] Traslada a versão de Luthero correspondente a cada verso.