Sonetos de Anthero

Chapter 2

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Só Deus póde acudir em tanto dano: Alimente-se a esprança d'outra vida, Seja a terra degredo, o ceu destino.

XX.

Ignoto Deo.

Senhor! eu sou teu filho! eu sou aquele Que tanta vez pecou, porem, contrito, Tanta vez tem erguido a ti o grito Da aguia que o tufão no alto compele.

E a aguia sofre tambem, como ave imbele, E mais que ela (que pôe mais alto o fito) Mas da aguia, que lutou, o brado aflito. Senhor! o teu ouvido não repele.

Eu não cáio, meu Deus, sem ter lutado; Fraco sou, por que sou de barro e limo, Porem na tua _Lei_ medito e sismo.

E eu sou teu filho! A um filho desgraçado Que ha-de um páe recusar? Oh, dá-me arrimo, Estende-me tua mão por sobre o abismo.

XXI.

A Germano Meyrelles.

Só males são reáes, só dor existe; Prazeres só os gera a fantasia; Em nada--um imaginar--o bem consiste; Anda o mal em cada hora, e instante, e dia.

Se buscamos o que é, o que devia Por natureza ser não nos assiste; Se fiamos n'um bem, que a mente cria, Que outro remedio ha hi senão ser triste?

Quem comsigo podesse que não vira, Que esta vida nos sonhos lhe passasse... Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fôra tão ditoso que olvidasse... Mas nem seu mal com ele ali dormira, Que sempre o mal pior é ter nascido!