Sol de Inverno ultimos versos : 1915

Part 5

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É audácia no Heroe; resignação no Sancto; Som e Côr, ondulando em formas immortaes; No mármore rebelde abre em folhas de acantho, E esmalta de candura a flora dos vitraes.

Oh Belleza! Oh Belleza! as Horas fugitivas Passam deante de ti, aladas como sonhos... Que importa onde ellas vão, d'outra força captivas, Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente, Brilham as aves como estrellas, e as estrellas, Como flores enchendo a noite refulgente, Deixam-se resvalar sobre quem vae colhê-las...

És tu que ás illusões dás juventude e forma, Tu, que talvez do ceu, d'onde vens, te recordes Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma Dissonáncias de dor em immortaes accordes.

Vejo-te muita vez,--luz d'aurora ou de raio,-- Com um gládio de fogo a avançar no horizonte; Ou então, em manhãs transparentes de maio, Naiade toda nua a fugir d'uma fonte.

Outras vezes, de noite e a occultas, appareces, Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha, Trazendo no regaço inexgotaveis messes, Que Elle por tuas mãos sobre a miseria espalha...

Podesse eu revelar-te em estrophes aladas, Que partissem ao sol refulgindo em lavores, Com rimas d'oiro, em blau e purpura engastadas, Como versos que vão desabrochando em flores!

Mas a lingua não é sumptuosa bastante Para nella deixar teu génio circumscripto; Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante, E a voz nem mesmo tem a eloquencia d'um grito!

Mas se para o teu culto, em esplendor externo, Não encontro uma prece altamente expressiva, Por ti meu coração arde d'um fogo eterno, Como chamma a tremer de lampada votiva!

HYMNO Á DOR

_Aos Condes de Sabugosa_

HYMNO Á DOR

Sorri com mais doçura a boca de quem soffre, Embora amargue o fel que os seus lábios beberam; É mais ardente o olhar, onde como um aljofre, A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Sôa, como se um beijo ou uma caricia fôsse, A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu; E não ha para nós consolação mais doce, Que o regaço de quem muito amou e soffreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágua, Ao nosso coração nunca pode chegar... Mas o pranto, ao caír d'uns olhos razos d'agua, Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria, É frio, como o olhar de quem nunca chorou; A Bondade é uma flor que se alimenta e cria Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça, Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime Que torna immorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida, Dor sem resignação, Dor de estoico ou de santo, Só de a vermos passar no tumulto da Vida Deixa os olhos da gente ennublados de pranto.

HYMNO Á ALEGRIA

_A Carlos Malheiro Dias_

HYMNO Á ALEGRIA

Tenho-a visto passar, cantando, á minha porta, E ás vezes, bruscamente, invadir o meu lar, Sentar-se á minha mesa, e a sorrir, meia morta, Deitar-se no meu leito e o meu somno embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos, Quasi meiga, apesar do seu riso constante, D'olhos a arder, labios em flor, cabellos soltos, A um tempo é cortesã, deusa ingenua ou bachante...

Quando ella passa, a luz dos seus olhos deslumbra; Tem como o sol d'inverno um brilho encantador; Mas o brilho é fugaz,--scintilla na penumbra, Sem que d'elle irradie um facho creador.

Quando menos se espera, irrompe d'improviso; Mas foge-nos tambem com uma presteza egual; E d'ella apenas fica um pállido sorriso Traduzindo o desdem d'uma illusão banal.

Onda mansa que só á superficie corre, Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda! A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre, Se em nós crava a raiz exhaustiva e profunda!

No entanto, eu te saudo e louvo, hora dourada, Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa, Como chuva a cair numa planta abrasada, A fornalha em que a Dor se transmuta em Belleza!

Pensar, é certo, eleva o espirito mais alto; Soffrer torna melhor o coração; depura Como um crysol: a chispa irrompe do basalto, Sae o oiro em fusão da escoria mais impura.

A Alegria é fallaz; só quem soffre não erra, Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que o louve; A Alma, na oração, desprende-se da terra; Jamais o homem é vão deante de Deus que o ouve!

E comtudo,--illusão!--basta que ella sorria, Basta vê-la de longe, um momento, a acenar, Vamos logo em tropel, no capricho do dia, Como ébrios, Evohé! atrás d'ella a cantar!

Mas se ella, de repente, ao nosso olhar se furta, Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso; A Alegria perfeita é uma aurora tão curta, Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

Ás vezes, essa luz de tão fragil encanto, Vem ainda banhar certas horas da Vida, Como um iris de paz numa névoa de pranto, Crepitação, fulgor d'uma estrella perdida.

Então, no resplendor d'essa aurora bemdita, Toma corpo a illusão, e sem áncias, sem penas, O espirito remoça, o coração palpita, Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

Mas ephémera ou vã, a Alegria... que importa? Deusa ingenua ou bachante, o seu riso clemente, Quando, mesmo de longe, echôa á nossa porta, Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

Momentánea ou fallaz, é sempre um dom divino, Sol que um instante vem a nossa alma aquecer... Podesse eu celebrar teu louvor no meu Hymno! Momentáneo, fallaz encanto de viver!

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos, E eu não sei traduzir a ventura que exprimes! Nesta sentimental lingua que nós falamos, Só a Dor e a Paixão têm accordes sublimes!

HYMNO Á SOLIDÃO

_Ao Padre João Ignacio de Araujo Lima_

Vive ut vis, sed cum aegrotabis Justis lachrymis damnabis Omnes mundi insulas. O beata solitudo, O sola beatitudo, Piis secessicolis!

Cornelius, Martyr.

HYMNO Á SOLIDÃO

Diz-se que a solidão torna a vida um deserto; Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existencias povoam: Imagens, concepções, formas do sentimento, --Sonhos puros que nelle em belleza revoam E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra Esse fecundo chão onde se esconde e medra A semente que vae germinar na Palavra, Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça A semente que jaz na sua leiva escondida, Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça, De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha O mesmo brilho, o mesmo impulso creador, Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, Vivendo como um Deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que elle se agita! Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou, E em cuja creação o seu sangue palpita, Que não ha Deus estranho aos orbes que formou.

Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora... O passado e o porvir são ancias e saudades: Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não attinge, Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar, Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge, E o seu mystério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, innundando essa penumbra dôce, De não sei que sublime esplendor sideral, Como se a emanação d'um ser divino fôsse, Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria, Pára alguem para ouvir um coração que bate? No seio mais formoso, o olhar que se extasia Vê o mundo que nelle em ancias se debate?

É só na solidão que a alma se revela, Como uma flor nocturna as pétalas abrindo, A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella, Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo...

E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura, Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, Como das mãos do artista, animando a esculptura, O mármore recebe a sua alma--a Belleza.

Se soffrer é pensar, na paz do isolamento, Como d'um calix cheio o liquido extravasa, A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento, E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio, Á superficie nunca o seu teor revela; Só depois de sondado e fundido o minério Se conhece a riqueza accumulada nella.

Corações que a Existencia em tumulto arrebata! Esse oiro só se extrae do minério candente, No silencio, na paz, na quietação abstracta, Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente...

HYMNO Á MORTE

Meorum amicorumque pié manibus

HYMNO Á MORTE

Meorum amicorumque pié manibus.

Tenho ás vezes sentido o chocar dos teus ossos E o vento da tua asa os meus labios roçar; Mas da tua presença o rasto de destroços Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu animo trouxe Esse aspecto de horror com que tudo apavoras, Nas tuas mãos erguendo a inexoravel Fouce E a ampulheta em que vaes pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos, Tão proxima de mim que te respiro o alento, --Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços, E a arrastar-me comtigo ao teu leito sangrento...

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta, Para mim não é mais que o refluxo da Vida, Noite da noite, d'onde esplendida desponta A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta á Luz; sae d'esse hiato de sombra, Como o insecto da larva. A Morte que me aterra, Essa que tanta vez o meu animo assombra, Não és tu, com a paz do teu oásis de terra!

Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca O teu suave dormir sob a leiva de flores!... A Morte, que sem dó me tortura e suffoca, É outra,--essa que em nós cava sulcos de dores.

Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata, Como um tufão que passa, as nossas affeições. E, deixando-nos sós, lentamente nos mata, Abrindo-lhes a cova em nossos corações.

Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada, Morrer, é ter vivido, é renascer... O horror Da Morte, o horror que gera a consciencia do Nada, Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos, Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça, --Somos nós que a sua morte implacavel soffremos, É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

Só então, da tua asa a sombra formidavel, Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece Uma noite sem fim, uma noite insondavel, Noite de soledade em que nunca amanhece...

Só então, succumbindo á dor que me fulmina, A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio, Se a tua asa não é d'um Anjo de rapina, Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!

Inflexivel e cego, o poder do teu sceptro Só então me desvaira em cruel agonia, Ao ver com que presteza elle faz um espectro D'alguem, que ha pouco ainda, ao pé de nós sorria.

Mas se n'essa tortura, exhausto o pensamento, Para ti, face a face, ergo os olhos contricto, Passa deante de mim, como um deslumbramento, Constellando o teu manto, a visão do Infinito.

E de novo, ao sair d'essa angustia demente, Sinto bem que tu és, para toda a amargura, A Euthanasia serena em cujo olhar clemente Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva, Que a Alma se liberta, e d'esplendor vestida --Borboleta celeste, ébria de Deus,--s'eleva Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!

EPILOGO

EPILOGO

Como um captivo, aqui te deixo, Pensamento, As asas d'oiro amarfanhadas, Com o esforço que fiz de forma e sentimento, Nestas estrophes mal rimadas...

Os meus olhos, a noite immensa perscrutando, Viram-te bello e refulgente; E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando, Illuminou-se de repente.

A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa, Fundiu-se ao beijo que lhe deste; E a alma liberta, ao sol da Graça e da Belleza, Abriu, cantando, a asa celeste!

Descendo para mim d'outras espheras, vinhas Banhado ainda em luz sublime; Via-te bem, sentia os encantos que tinhas, Mas a palavra não te exprime.

E quem hoje te vê, n'estas imagens frias, Encarcerado em duro engaste, Nem por sombras suppõe com que esplendor fulgias, Quando aos meus olhos te mostraste!

Nem as outras visões que ficaram sem forma Em nebulosa inconsistente, A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma O pó da terra em oiro ardente... */

LENDAS E FABULAS

PRELUDIO

PRELUDIO

Ferreiro velho e cansado Deixa a forja, não trabalha; O fogo, quasi apagado, Poucas faúlas espalha; Mas do ferro trabalhado Vae recolhendo a limalha. Ferreiro velho e cansado Deixa a forja, não trabalha.

Como á luz do sol doirado É poeira d'oiro a limalha, A todo o olhar angustiado Em que a Saudade se espalha, Parecem d'oiro e brocado Lentejoulas de mortalha... Ferreiro velho e cansado Deixa a forja, não trabalha; Mas do ferro trabalhado, Vae recolhendo a limalha.

O AMOR E O TEMPO

(CHRISTOPULOS)

O AMOR E O TEMPO

Pela montanha alcantilada Todos quatro em alegre companhia, O Amor, o Tempo, a minha Amada E eu subiamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante Já se viam indicios de cansaço; O Amor passava-nos adeante E o Tempo accelerava o passo.

--«Amor! Amor! mais de vagar! Não corras tanto assim, que tão ligeira Não pode com certeza caminhar A minha doce companheira!»

Subito, o Amor e o Tempo, combinados, Abrem as asas trémulas ao vento... --«Porque voaes assim tão apressados? Onde vos dirigis?»--Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume: --«Tende paciencia, amigos meus! Eu sempre tive este costume De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»

FABULA ANTIGA

_A Manuel d'Oliveira Monteiro_

FABULA ANTIGA

No principio do mundo o Amor não era cego; Via mesmo através da escuridão cerrada Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada, Num impeto de furia os seus olhos vazou; Foi a Demencia logo ás feras condemnada,

Mas Jupiter, sorrindo, a pena commutou. A Demencia ficou apenas obrigada A acompanhar o Amor, visto que ella o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada. Unidos desde então por invisiveis laços, Quando o Amor emprehende a mais simples jornada, Vae a Demencia adeante a conduzir-lhe os passos.

CLEOPATRA

_A José Coelho da Motta Prego_

CLEOPATRA

Como a concha de nácar luminoso. Em que Venus surgiu, risonha e nua, A Galera vogava ao sol radioso Com a graça d'um Cysne que fluctua.

Soltas ao vento as velas de brocado, Ao som das Lyras, sobre o rio immenso, Dos remos d'oiro e de marfim sulcado, O destino do Mundo ia suspenso!

Como nuvens correndo, as horas passam; Já se divisa o porto; o sol declina, E emquanto as velas, marinheiros, cassam, Ella que um sonho de poder domina,

Deante do espelho, a reflectir, perscruta Do seu corpo a belleza profanada, Como o rufião nocturno, antes da lucta, Examinando a lamina da espada!

MOIRO E CHRISTÃ

_A Antonio de Barbosa de Mendonça_

Abou-el Hassan, Ali, fils d'Abdalla, Elzagouni, raconte ce qui suit...

Ebu-Abi-Hadglat, _Divan Oriental_.

MOIRO E CHRISTÃ

O pobre moiro enamorou-se D'Ely, môça christã, sendo filho do Emir... Tamanha dor sentiu, que o misero exilou-se, Como se alguem podesse á propria dor fugir!

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memoria A imagem da mulher que a vida lhe prendeu, Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de gloria, Mas no esplendor de um ceu que nem mesmo era o seu...

Por sua vez, Ely nunca pôde esquecê-lo, E nesse immenso amor, com presagios de agoiro, Sentia-se morrer, como um lirio no gêlo, Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo Que a Morte os separasse, em tão oppostos ceus, Elle invocou Jesus, cheio de fé, morrendo; E a christã murmurou: «Allah! só tu és Deus!»

A RESPOSTA DO ÁRABE

_A João Gomes d'Abreu e Lima_

Quelqu'un demanda un jour à Arouâ-Ben-Hezam, de la tribu d'Asra: Est-il bien vrai que vous êtes de tous les hommes ceux qui avez le coeur le plus tendre en amour?--Oui, par Dieu! cela est vrai, répondit Arouâ, et j'ai connu dans ma tribu trente jeunes gens que la mort a enlevés, et qui n'avaient d'autre maladie que l'amour.

Ebu-Abi-Hadglat, _Divan de l'Amour_.

A RESPOSTA DO ÁRABE

«De que país és tu?»--A um árabe dizia Sahid, filho d'Agbá, na estrada, ao fim do dia.

Era a hora em que o sol se fecha no Occidente Como o olhar moribundo e triste d'um doente.

E o árabe respondeu, banhado na piedosa Claridade da luz, quasi religiosa:

--«Sou da raça que tem o excepcional fervor D'amar eternamente e de morrer d'amor.»--

--«Então és tu de Asrá.»--accrescentou Sahid; --«Sim, por Kaaba! Foi essa a tribu onde eu nasci.»

E de novo Sahid o interrogava attento: --«Por que motivo, pois, tão nobre sentimento

Nunca se muda em vós n'uma paixão nefasta?»-- O crepusculo enchia o ceu meio estrellado, E o árabe tornou, como que illuminado: --«Porque a mulher é bella e a juventude é casta!»

A VOCAÇÃO D'IBRAHIM

_A Aristides da Motta_

Outros a quem impugna Genebrado, _in Chronologia_ dizen que fue Abraham Idolatra como su padre, y le ayudava a su padre Thare a hazer Idolos de barro, y San Clemente Alexandrino, en el _lib. I recognitionem_, y Suydas, _in verbo Abrahan_: dizem que fue primero infiel empero que fue tan eminente en el Astrologia, que por el conocimiento natural de las estrellas conveiò al verdadero Dios.

_Prosapia de Christo_, por el L.^{do} Diego Matute de Penafiel, fol. 109.

A VOCAÇÃO D'IBRAHIM

Vendo, mudos á Dor, os Idolos grosseiros, Que o oleiro antigo e rude em barro modelava, Ibrahim despedaça os Deuses derradeiros, E as terras de Ur, familia e patria, abandonava.

Só, na noite profunda e num amplo deserto, Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça, --Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,-- Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça.

E absorto nessa luz que do alto cahia, Como um pressentimento augusto a illuminá-lo, Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia: --«Eis o Deus verdadeiro!»--e prostrou-se a adorá-lo.

Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua, Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro; E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua: --«Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!»

E outra vez, como chuva em calcinada areia, A paz, ao seu turbado espirito baixara; Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia, Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.

Mas a Lua descreve a orbita marcada E some-se ao primeiro esplendor do arrebol; Borda todo o horizonte uma fimbria doirada, E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.

Como o homem que sae d'um longinquo desterro, E de subito encontra o lar e encontra os seus, Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro, E de joelhos proclama:--«Eis o unico Deus!»--

Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros, Perdido na abstracção do seu culto fervente, Quando os olhos ergueu já luziam os astros, E do Sol mal se via um clarão no occidente.

Então, no seu assombro, o espirito perplexo, Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu Viu em tudo o que existe apenas o reflexo D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu...

PRINCESA ENCANTADA

_A Alfredo da Cunha_

PRINCESA ENCANTADA

Formosa Princesa dormia ha cem annos; Dormia ou sonhava... Ninguem o sabia. Passavam-se os dias, passavam-se os annos, E a linda Princesa dormia, dormia, Dormia ha cem annos!

Em torno, sentadas, dormiam as Damas, Cobertas de joias, cobertas de lhamas;

Com formas e aspectos de finas imagens, Esbeltos e loiros, dormiam os pagens.

E ás portas de bronze, por terra halabardas, Num somno profundo dormiam os guardas.

Lá fóra, na sombra dos parques discretos, Nem aves gorgeiam, nem zumbem insectos.

As arvores sonham, na sombra dos poentes, Immoveis, á beira dos lagos dormentes.

E as fontes que d'antes sonoras gemiam, Somnambulas mudas, apenas corriam...

Um dia, de longe, de terras distantes, Com pagens, arautos, donzeis, passavantes,

Bandeiras ao vento, clarins, atabales, Echoando a distancia por montes e valles,

--Um principe, herdeiro d'um throno potente, Com olhos suaves d'aurora nascente,

Excelso e formoso, magnanimo e moço, --Correndo aventuras, num grande alvoroço,

Chegou ao Castello, que ha tanto dormia, Como uma alvorada, prenuncia do dia...

E ao ver a princesa, sentada em seu throno, N'aquelle profundo, extactico somno,

Tomado d'estranha, indizivel surpresa, Na boca entreaberta da linda Princesa,

Tremendo e sorrindo, seu labio collou-se N'um beijo, que ao labio a alma lhe trouxe.

Accorda a Princesa; despertam as Damas, As faces ardentes, os olhos em chamas.

Despertam os Pagens, nos seus escabellos, Com halos de fogo nos loiros cabellos.

Accordam os guardas; e, tudo desperto, A vida renasce no parque deserto.

Suspiram as fontes; gorgeiam as aves, Das áleas profundas nas sombras suaves.

As arvores tremem, no ar transparente, Á brisa que sopra, como halito ardente.

Nas torres, os sinos repicam de festa; O povo em choreias enchia a floresta...

E a linda Princesa, seus olhos fitando No Principe excelso, sorrindo e còrando,

--«Sonhava comtigo...» Porque é que tardaste? Mas já nesse instante, formando contraste,

Quando isto dizia, erguendo-se a medo, A voz parecia trahir o segredo

De quem, num relance, talvez lamentasse Que sonho tão lindo tão cedo acabasse!...

A linda Princesa sonhava ha cem annos, E fóra do Sonho só há desenganos...

O ROMANCE DA PASTORA LINDA

_Aos Condes de Bertiandos_

Och hör du, liten Carin! Säg, vill du blifva min?

Liten Carin, Folkvisa.

O ROMANCE DA PASTORA LINDA

A linda Pastora, guardando o seu gado, Andava esquecida num alto montado.

E o Rei, que voltava, sombrio, da caça, Com seus falcoeiros e galgos de raça,

Detem-se, pensando, de subito, ao vê-la, Em ermo tão alto, que fôsse uma estrella.

--«Oh linda Pastora dos olhos castanhos, Que passas a vida guardando rebanhos!

A tua belleza deslumbra os meus olhos, Como uma tulípa no meio de abrolhos.

Teus labios parecem cerejas vermelhas, E a pelle é mais fina que a lã das ovelhas.

Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras São duas papoilas em searas maduras.

Estrella ou Pastora, se queres ser minha, Terás as riquezas que tem a Rainha!»

--«A flôr dos vallados é sempre modesta E a humilde zagalla presume de honesta.»

--«Terás equipagens, palacios, castellos, E joias a arderem nos fulvos cabellos;

Um throno de esmaltes em oiros massiços, Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...»

--«Ás vossas riquezas, perdidas nos montes, Prefiro mirar-me no espelho das fontes;

As joias, que valem, se eu guardo o meu gado, Com rubras papoilas a arder no toucado?...

De nada me servem fidalgos, escravos, Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.

Segui vosso rumo, que a tarde caminha; Guardae as riquezas que são da Rainha».

--«Não rias, vaidosa, das minhas promessas, Que a forca tem visto mais lindas cabeças...»

--«Talvez que mais lindas já visse pender, Mas nunca tão firme nenhuma ha-de ver,

Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente, Ampara, sorrindo, quem morre innocente,

E os anjos, descendo do ceu a voar, Á forca viriam minh'alma buscar!»

E a linda Pastora, que a ser ultrajada A morte prefere,--vae ser enforcada!

Levaram-na, á força, das suas ovelhas, Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas,

Com gritos de escarneo, no meio da turba... Mas nada os seus olhos serenos perturba.

E toda inundada na luz que irradia, Sorrindo, os estrados da forca subia...

Então, n'um relance, do azul transparente, Surgindo mais alvas que a lua nascente,

Duas pombas que descem e voam a par, Nos braços da forca vieram poisar...

E a linda Pastora dos olhos castanhos, Tão longe da serra, cercada de estranhos,

Sem ter um gemido, sem ter um lamento, Expira na forca... Mas n'esse momento,

No grande silencio que a morte causara, Aos olhos de todos que attonitos viram Tão grande prodigio, coragem tão rara, Dos braços da forca--três pombas partiram!

A LENDA DOS CYSNES

_A Julio Dantas_

Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben versagt ist, weil Du es nicht ertragen könntest, giebt Dir der Augenblick Deines Todes.

Herder.

A LENDA DOS CYSNES

Da praia longinqua, na areia doirada, O Cysne pensava, fitando a Alvorada: