Sol de Inverno ultimos versos : 1915

Part 4

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A SELVA ESCURA

Perdi-me no caminho solitario D'uma floresta immensa e fria... Medrosa ainda, a Noite lívida descia, E o clarão do luar, como um pranto mortuário, Pelas folhas das árvores corria. No silencio da Noite, o silencio da Selva Enchia-se de vozes enigmáticas... E os meus pés vacillavam sobre a relva, Entre as sombras das árvores extácticas. Numa clareira funda, aguas dormentes, Como um lago lunar, tremeluziam Nas lágrimas de luz, altas e ardentes Que das estrellas pálidas caíam. Nem ruido de mar, folhas ou vento... O mystério, porém, da Noite e da Floresta Enchia de terror meu pensamento, Como um sopro boreal que me gelava a testa. Não sei se era visão, filha do Mêdo, Se verdadeira apparição nocturna; Mas da sombra profunda do arvoredo, Que o luar tornava muito mais soturna, Vinham surgindo mysteriosamente Phantasmas espectraes que eu distinguia Através do sudário transparente Como o primeiro alvorecer do dia... E por deante de mim todos passavam, E olhavam-me e choravam... De mágoa ou compaixão,--não sei dizê-lo; Mas tudo o que aos meus olhos evocavam Parecia-me um longo pesadelo... Eram os Sonhos, as Chimeras mortas Na minha morta Phantasia, Que do vasto sepulcro abrindo as portas, Passavam nessa funebre theoria... Projectos, Intenções, Ideias, Planos, --Illusões d'um passado esquecido e desfeito, Na areia que rolou da ampulheta dos annos E que um vento de morte espalhou no meu peito. Era a Noiva feudal esquecida a scismar Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu, Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar, Como um tropheu perdido o espadim de Romeu! Illusões juvenis d'odaliscas e fadas, Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas, E tu, Willi immortal das florestas sagradas, Loira d'olhos azues, como duas estrellas! Era a Glória, mas já sem a tuba estridente, Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar; Era a Ambição, captiva a sua asa fremente, Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar. Era o Orgulho... o Poder... a Riqueza... loucuras, Chimeras juvenis do meu abril risonho, Borboletas azues, larvas escuras Que deslisaram no meu sonho... Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos, Por deante de mim, lentas, passavam... E olhavam-me e choravam, Como espectros de longos desenganos Que os meus olhos das trevas evocavam... E olhavam-me e choravam, Sumindo-se nas sombras da floresta, Aos primeiros clarões da madrugada Como um rumor de festa, Despertavam, partindo em revoada, As aves a cantar. O sol rompia E as derradeiras névoas dissipava... Tudo cantava e ria! Só eu chorava... só eu chorava... Só no meu coração não despontava o dia. Só eu chorava... só eu chorava... Só eu soffria...

O LIVRO DA VIDA

_A Antonio de Cardiellos_

O LIVRO DA VIDA

Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia... --Lia o «Livro da Vida»,--herança inesperada, Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto, Todo o humano tropel num clamor ululando, Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto, Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos; E elle sempre,--inclinada a dorida cabeça,-- A ler e a meditar postulados eternos, Sem um fanal que o seu espirito esclareça!

Cada pagina abrange um estádio da Vida, Cujo eterno segredo e alcance transcendente Elle tenta arrancar da folha percorrida, Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os annos vão correndo; Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão... E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo! E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta: Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos, Nem o humano soffrer, que outras almas enluta, Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!

Só depois de voltada a folha derradeira, Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado, É que o Sábio entreviu, como numa clareira, A luz que illuminou todo o caminho andado...

Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas, Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento, --Tudo viu num relance em imagens perdidas, Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

Mas então, lamentando o seu esteril zêlo, Quando viu, a essa luz que um instante brilhou, Como o Livro era bom, como era bom relê-lo, Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou...

II

DYPTICO

EU E TU

DYPTICO

I

M. ***

Perguntas d'onde vem a timidez estranha, Este quasi terror com que te fallo e escuto, Como se a sombra hostil d'uma grande montanha, Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão d'este absurdo respeito Com que te beijo a mão, que estendes complacente, --Fria do ardor que tens concentrado no peito, Que mão fria é signal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo, --Se passas como um sol de planetas cercado-- Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta Se vista de recato ou de pudor mesquinho... Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta, Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade É uma intima oblação, pois nas almas piedosas O Verdadeiro Amor é feito de humildade: Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.

II

EU E TU

Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como Brasa e carvão, scentelha e lume, oceano e areia, Aspiram a formar um todo,--em cada assomo A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva --O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute, Ou o orvalho inundando as verduras da relva-- Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te!

Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce, O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo, O vinho e a sêde, o vinho onde tudo se esquece, --Nós dois, d'amor enchendo a noute do degrêdo,

Como partes d'um todo, em amplexos supremos Fundindo os corações no ardor que nos inflamma, Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos, Como se eu fôsse o lume e tu fôsses a chamma...

PALADINOS

_A Senhora Condessa d'Arnoso_

PALADINOS

I

CONDE D'ARNOSO, JOÃO

Como um dos seus avós, em justas e em torneios --Paes d'Abranches, que foi dos Doze d'Inglaterra-- Com uma ancia de gloria, em altos devaneios, Corre o mundo, de mar em mar, de terra em terra.

Não leva escudo, o moço illustre, nem couraça, Que o tempo é vil; mas como arnez de paladino, Leva a honra e o valor de toda a sua raça, --Grande exemplo a apontar-lhe o mais nobre destino!

Mão na espada, a entrever combates, a alma pura, Já bello, d'essa estranha e amarga formosura Que o fim proximo imprime aos vencidos da Sorte,

Vae na tolda a sonhar,--sonho feito em pedaços! --Paes d'Abranches voltou com a noiva nos braços, Elle... voltou tambem, mas nos braços da Morte!

II

CONDE D'ARNOSO, BERNARDO

Este nunca buscou, na lucta ingloria,--fama Ou proveito. A Ambição, mesmo a mais alta e pura, Nunca o cegou. Jamais uma ephemera chamma De orgulho vão tremeu na sua nobre figura!

Foi cortesão; mas da Honra e do Dever escravo. Nunca esgar de lisonja o seu lábio manchou; E entre vis defecções, elle só, como um bravo, Luctou, soffreu, mas nunca o Mestre renegou!

Alma de Campeador! Num disfarce mundano, Nunca ninguem sonhou coração mais humano, Mais terno, e ao mesmo tempo, altivo coração!

Ultimo Cavalleiro, á hora em que morria, No Pantheon Real, da lampada que ardia Extinguiu-se de todo o ultimo clarão...

CABELLOS BRANCOS

_A D. Thomás de Mello Breyner_

CABELLOS BRANCOS

Não repares na cor dos meus cabellos Sem ler primeiro Anacreonte; Verás que os sonhos juvenis, mais bellos, Tambem se evolam d'enrugada fronte.

O espirito do Poeta é sempre moço; O Coração nunca envelhece... Basta um sorriso, um nada, um alvoroço, E tudo nelle se illumina e aquece.

Deusas d'eterna graça adolescente, Jamais as Musas desdenharam Da luz que treme incendiando o poente, Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.

Fina e fragil vergontea melindrosa, Que foi na ceifa abandonada, Ruth, apesar de moça e de formosa, Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores d'inédita fragrancia Em mãos provectas vão abrindo... Abisag, ao sair quasi da infancia, No leito de David entrou sorrindo.

E d'esse beijo, inverno e primavera, D'esse connubio, oh maravilha! Como se a ruina fecundasse a hera, Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.

Esculpturaes patricias, d'olhos ledos, Quem as lembrara, se deixassem Que mãos obscuras, mercenários dedos, A velhice d'Horacio engrinaldassem?

Quantos nomes illustres! quantos casos! Mas que direi mais eloquente? Não ha dias tão pallidos, e occasos Como explosões d'uma cratera ardente?

Não repares na côr dos meus cabellos; A branda luz que nelles arde, Como o poente, das nuvens faz castellos, Tinge d'alva o crepusculo da tarde...

Muita vez os cabellos embranquecem Na dor d'horriveis soffrimentos... Não são os annos que nos envelhecem; «São certas horas más, certos momentos...»

SOMNAMBULA

(Noite de S. João)

_A João Caetano da Silva Campos_

Leia estes versos, cantando. --Quem canta seu mal espanta! Alma em saudades penando, Só tem alivio se canta...

SOMNAMBULA

(Noite de S. João)

_Passarinho trigueiro, Põe-te na areia_!...

A areia é d'oiro,--painço loiro... Leito macio... Vê como o Rio Vae socegado, todo enlevado, Todo encantado na areia fina!

_Passarinho trigueiro_! Olha o salgueiro Como se inclina, A ver se as aguas Pode beijar! E o velho choupo, todo curvado, Todo engelhado, De tantas mágoas Que viu passar!

Nas aguas mansas, folhas cahidas, Como esperanças desfallecidas, Lá vão perdidas nas aguas mansas, Como esperanças Desfallecidas...

_Passarinho trigueiro, Põe-te na areia_!...

A velha ponte talvez te conte Lindas historias para encantar, Lindas historias da Lua Cheia, Quando na areia põe a corar O alvo linho Do seu tear... Passarinho trigueiro! pia baixinho! Ouve as cantigas, que as raparigas, No S. João, Soltam ao vento como um lamento Do coração!

............................ _A vossa capella cheira, Cheira ao cravo, cheira á rosa, Cheira á flor da laranjeira_...

Laranjeira desfolhada Numa noite de orvalhada, No leito d'algum linhar... Mas a alcachofra cortada Sabe alguem se vae seccar?!

_Passarinho trigueiro, Põe-te na areia!_

A areia é doce como se fosse Vergel macio para noivar... E dorme o Rio... praia deserta... Cuidado! Alerta! que a Lua espreita, Nunca se deita, sempre a rondar.

_Passarinho trigueiro_,

Olha a estrella do boieiro Que nunca dorme no ceu, A ver se do seu rebanho Alguma rêz se perdeu... Olha o Rio! é côr d'estanho Como um espelho a brilhar;

Cuidado! se é muda a areia, Pode o Rio murmurar, E ás noites a Lua Cheia Vem com elle conversar...

Já vae alto o sete-estrêllo, Vae despontar a alvorada; Mas uma voz desgarrada, Como um grito sem appêllo, Passa a cantar pela estrada:

«Esta noite, na novena, S. João pôs se a chorar... Da minha dor tinha pena, Sem me poder consolar.

As andorinhas voltaram, Desabrocharam as flores, E as andorinhas contaram Que tinhas novos amores...

Ninguem mais penas soffreu Nem dor maior supportou; Quem amou nunca esqueceu, Quem esqueceu nunca amou!

Ai! infeliz de quem passa! Ninguem seu amor escolhe, Pois o amor é uma desgraça, Que sem se esperar nos colhe...

Ai, infeliz de quem passa!... ............................»

_Passarinho trigueiro_,

Não ha amor como o primeiro... Vôa, vôa sem parar! Deixa a Lua estremunhada, Deixa o Rio a murmurar... O amor tem a asa ligeira, E antes que rompa a alvorada. Leva o ramo de oliveira Àquella dor desgarrada!

CYSNE BRANCO

_A Alberto d'Oliveira_

CYSNE BRANCO

Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte, Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro, Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte, Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro.

O gêlo, no lençol todo immovel das ondas, Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas, Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas, Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas.

Vê que o torpor do frio o invade lentamente; Debate-se, procura o cárcere romper; Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente: Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.

Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute; Solta gritos de dor em que lhe foge a vida; Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute, Parece uma canção no silencio perdida...

Melodia que a voz da Saudade acompanha, Amarga e triste como o exilio onde agoniza, Longe do claro sol que outras paysagens banha, Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.

Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas: --Tardes occidentaes de sanguínea e laranja, Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas, Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!

Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade, Tão esbatida vae essa triste canção, Que não desperta já commoção nem piedade: Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.

E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira, Hallucinado e só, sob o silencio agreste, Pensando que no azul, como um mar de saphira, Os astros a luzir são a geada celeste...

SÚPPLICA AO VENTO

_A Luiz de Magalhães_

SÚPPLICA AO VENTO

Grito ao Vento que passa a galopar na treva: --«Escuta a minha dor!»--rouco, de braços hirtos, A ver se elle ouve e ao longe esta Saudade leva!

«Meus queixumes, oh Vento, hão de em ancias ouvir-t'os Esses campos que amei, vinhas, rios suaves, Pomares, laranjais, bosques de louro e myrtos,

Onde, inverno e verão, nunca emmudecem aves, Onde nunca se extingue o murmurar das fontes, Todo o anno a correr entre rosaes e agáves...

Vento largo, que vens d'ignotos horizontes! No teu rugido absorve o meu grito pungente! Vae repeti-lo ao mar e aos pinheiraes dos montes,

Para tornar mais triste o seu gemer plangente, Mais expressivo e humano o seu lamento amargo, Como um echo, a expirar, d'esta noite inclemente!

Leva comtigo, oh Vento, este gemido ao largo, A ver se nelle alguem a minha voz conhece, Nessas terras de luz, sem hiemal lethargo,

Onde o Estio a cantar longos meses se esquece, E onde o Sol não é só lampada que illumina, Mas o Ágni creador que tudo anima e aquece!

Debalde, sobre mim, na sua graça divina, Almas puras, abrindo a plumagem das asas, Com o ardor que nenhuma angustia contamina,

Espalham no meu lar como um calor de brasas... --Para fundir de todo esta geada tão densa, Só tu, meu claro Sol, que até d'inverno abrasas!

Vento frio, que vaes da minha noite immensa, Tenebroso e a rugir!--leva a minha Saudade, Como uma estrella a arder, na tua asa suspensa!

Quando essa luz passar, com que magua não ha de Reflecti-la o meu rio, e acariciá-la, vendo Que vae dos olhos meus a tenue claridade!

Mas então, Rio amado, as tuas aguas descendo Nessa luz reflectida, a tremer como um luar, Todo o passado irei nas tuas margens revendo,

E o coração talvez se esqueça de chorar, Como nauta que a voz de Loreley enleva, E para a morte vae nesse enlevo a cantar...

Vento surdo, que vaes a galopar na treva! Pára um momento! Escuta a minha voz clamante Vê como soffro, e ao longe esta Saudade leva!»

Mas o Vento não ouve o meu grito alarmante! Ai de mim, que sou eu?! pobre louco exilado, De toda a parte vendo o meu país distante, Como se lá tivesse os meus olhos deixado!

GOTA DE AGUA

_À memoria de Antonio Rodrigues Braga_

GOTA D'AGUA

Sobre a urze silvestre, ao subir da montanha, Uma gota d'orvalho, em manhã d'esplendores, Lucitremia ao Sol numa teia d'aranha, Como um prisma em que a Luz se decompunha em cores.

Universo em resumo, essa gemma preciosa Que a Noite alli deixou do seu manto cair, Continha em miniatura a paysagem radiosa Que no alvor da manhã despertava, a sorrir.

Em que obscuro crysol, esse pranto isolado, Crystallizou com tal pureza e resplendor? Caiu da Lua? É um ai de luz polarizado? Ou rolou d'um olhar num soluço de dor?

Quem sabe o seu mysterio ou sonha a sua mágoa? Lava de desespero ou suor d'agonia; --Orvalho ou pranto--é sempre a mesma gota d'agua, A tremer e a brilhar no resplendor do dia...

Tenha d'odio e rancor nublado o olhar mais vivo, Ou em fogo escaldado a face onde correu, Ninguem vê no diamante o carvão primitivo, Nem na água a cantar o abysmo em que nasceu.

Em breve, á luz do sol, vae em fumo desfeita, Ser nuvem, confundir-se em cúmulos no poente, Ou em névoa através de que a Alvorada espreita A ultima estrella a arder, do seu balcão no Oriente.

E outra vez percorrendo os circulos da Vida, Pranto de heroe, suor de martyr ou de santo, De novo ha de voltar, e, de novo esquecida, Sobre as urzes rolar, gota d'agua ou de pranto...

A VENTURA

_A Anthero de Figueiredo_

A VENTURA

A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos, Nunca, em alto lavor, Nos meus versos deixou cariatides ou frisos De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor.

Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando No meu lar se installou; A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando, E d'amor nunca mais um só verso rimou.

Mas d'essa adoração em que vivia absorta, Um dia, ao despertar, Viu que tinham levado a minha Noiva morta, E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.

Chorou... Sempre que a dor nos empolga e sacode Como um arbusto ao vento, Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento.

Chorou... E desde então, a Musa dolorida Vive numa anciedade A ouvir a minha dor no seu canto escondida, Mansamente, a chorar, como chora a saudade...

ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES

_A meus sobrinhos, Salvato e Ruy_

ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES

Entre pinheiros e cyprestes Fundi em lagrimas os olhos... Onde estaes vós, almas celestes, Que entre pinheiros e cyprestes Em vão procuram os meus olhos?

Na terra fria aqui descansam Os corações que tanto amei... Mas os meus braços não alcançam Na terra fria em que descansam Os corações que tanto amei.

As vezes ponho o ouvido attento A ver se os ouço ainda bater... Mas só me fala a voz do vento, Sempre que ponho o ouvido attento A ver se os ouço ainda bater...

Elles que sempre e a toda a hora Tão nobremente palpitaram... E já nem sombra resta agora D'elles que sempre e a toda a hora Tão nobremente palpitaram!

Mas todo o amor, toda a bondade, Que em vida as almas enobrece, Torna a ser luz na immensidade, Irradiação d'amor, bondade, Que em vida as almas enobrece...

E nessa luz, a alma que chora D'um brilho augusto se illumina, Como uma esprança ou uma aurora, Em cuja luz, a alma que chora D'um brilho augusto se illumina...

E ao nosso olhar, d'entre cyprestes, Estrellas novas apparecem... Sois vós talvez, almas celestes, D'entre pinheiros e cyprestes, Essas estrellas que apparecem...

RIO AMARGO

_A meu irmão, Julio de Castro Feijó_

RIO AMARGO

A pouco e pouco a Dor, no coração do Homem, Vae como um rio amargo escavando o seu leito, E dia a dia, o sulco em que as mágoas se somem Mais profundo se faz, mais escarpado e estreito.

A principio trasborda e alastra: é uma torrente! Nada a pode conter--nem diques, nem escolhos; Submerge o coração num tumultuar plangente, E onda a onda rebenta em lagrimas dos olhos.

Mas o tempo transforma em profunda ravina O leito onde mais viva a torrente passou; A onda continua a correr nessa ruina, Mas, de funda que vae, aos olhos se occultou.

Desde então não se escuta o bramir da tormenta, Mas da face tranquilla e dos olhos enxutos Ninguem inveje a paz que essa calma apparenta: Vae cheio o coração de lagrimas e lutos!

Ditoso o Homem a quem, na primeira investida, A Dor, como uma vaga, envolveu na ressaca, Em vez de o arremessar, como «épave» perdida, De soffrer em soffrer, mas que nunca se aplaca!

A Dor que mata, a Dor que d'um golpe redime, É compassiva; o mal, que cessa, não é grande... Mas a Dor que não pára, a Dor que nos opprime Sem esp'rança de ver que o seu martyrio abrande,

Essa Dor, não ha som, na palavra que chora, Para a exprimir; é a Dor que mil dores condensa: Trazer a Morte em nós, senti-la a toda a hora, E viver! E viver no horror d'essa presença!

Onde o peito de heroe, onde o animo forte Para uma dor egual sem revolta afrontar, Tendo a pesar sobre elle a mão fria da Morte? E sem poder fugir! e sem poder luctar!

Só o Homem que espera em Deus, martyr ou santo, Pode um supplicio tal resignado soffrer, Com o labio a sorrir, com os olhos sem pranto, Mas a angustia no olhar, mas a boca a gemer...

Só esse a quem a Graça illuminou, na etherea Luz immortal d'estrella ignota alvorecida, Pressente da Alma Humana o Infinito e a Miseria Na eterna expiação d'este peccado--a Vida!

III

HYMNO Á VIDA

_A Agostinho de Campos_

HYMNO Á VIDA

Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga Preso a ti, como o feto ao seio em que germina... Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga, Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?

Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio, Quem quer que sejas,--flôr d'inefavel deleite, D'ódio ou de fel,--és sempre o mesmo augusto seio Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!

Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho! --Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,-- Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho, O vinho e a embriaguez da primeira revolta!

Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes, Na immarcessivel luz que os orbes incendeia; Passas no largo vento a derramar perfumes, Choras no vasto oceano a rebentar na areia!

O teu Genio, que o barro amolda e purifica, Enleva os corações de jubilo e transporte, Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica, Se em Belleza sorri na máscara da Morte:

Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve, Mais obscuro se faz quanto mais o investigo; --Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve, Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!

Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem, O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça, Da treva apenas sae, dissipada a vertigem, Um immenso clamor que blasphema e soluça!

És o raio de sol, a tempestade e o vento; Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada; Ancia no coração, lava no pensamento, O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,--és Tudo e és Nada!

Mão potente, que a rocha endurecida escarva, Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores; Fada occulta que tece o casulo da larva E aos insectos iria as asas de esplendores...

Beijo d'onde a traição como um veneno escorre; Riso que se desfaz num amargo travor; Larga estrada sem fim que a Ventura percorre, Como um cego a cantar pelo braço da Dor!

Quem quer que sejas,--tudo ou nada,--eu te bemdigo! Pelo esforço immortal da tua heroica belleza, Que, no revolto chão do soffrimento antigo, Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!

Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse, Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos, A onda humana através da historia se lançasse, Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!

Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo! Occulto coração, graça, illusão suprema! Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo, --A solução que importa? O que é grande é o problema!...

HYMNO Á BELLEZA

_A Eugenio de Castro_

HYMNO Á BELLEZA

Onde quer que o fulgor da tua gloria appareça, --Obra de genio, flôr d'heroismo ou sanctidade,-- Da Gioconda immortal na radiosa cabeça, Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

--Como um pagão subindo á Acropole sagrada, Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso, Ou seja o Heroe que leva uma aurora na Espada, Ou o Sancto beijando as chagas do Leproso.

Essa luz sem egual com que sempre illuminas Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio Do mesmo foco em mil parábolas divinas: --Raios do mesmo olhar, ancias do mesmo seio.

Alta revelação que, baixando em segredo, O prisma humano quebra em angulos dispersos, Como a água a caír de rochedo em rochedo Repete o mesmo som, mas em modos diversos.