Sol de Inverno ultimos versos : 1915
Part 3
Em 8 de janeiro de 1916, conta-me, mais demoradamente, o estado desesperado da sua dôr. Vive como um somnambulo, não sabendo distrair-se senão com a recordação do passado. «É só,--escreve-me,--e a remexer na minha memoria attribulada, que as horas me passam menos atormentadoramente.» Eu aconselhava-lhe uma viagem a Portugal. Elle objecta: «Ir a Portugal agora é absolutamente impossivel, e essa viagem não serviria senão para aggravar o meu soffrimento. Não ha sitio nenhum por ahi, nem casa amiga, que me não desperte recordações e saudades pungentes.» Fala-me, além disso, da educação dos filhos, que não deseja perturbar, e vê-se que procura nelles a razão de viver, que a dôr destruiu. Mas não o consegue. Conta-me com pormenores, pela primeira vez, o que foi o enterro de sua mulher e reproduz-me o telegramma que lhe dirigiu um illustre escriptor sueco, John Bettiger, velho de mais de 60 annos, casado e sem filhos, tão grande admirador de Dona Mercedes, que pensou sériamente em adoptal-a elle e a mulher, para lhe deixarem a fortuna. Feijó sabe o telegramma de cór e transcreve-m'o no original sueco e em traducção. É assim, e parece, na verdade, como elle me dizia, um epitaphio de anthologia, escripto em estylo lapidar: «Receba expressão da minha mais profunda sympathia no acerbo lucto que o feriu. Nunca se encontraram, assim reunidas no mesmo ser, bondade, candura e belleza, como na sua incomparavel Mulher. Tel-a conhecido é uma ventura que nunca ninguem poderá esquecer.»
Em 15 e 20 de janeiro, em 7 de fevereiro, novas cartas que não annunciam melhoras. Deu-lhe um minuto de prazer a sua eleição para a Academia Brasileira, «pela espontaneidade, diz-me elle, e pelo momento em que foi votada.» Feijó era muito amigo do Brasil, onde vivera alguns annos ardentes da sua mocidade, e tinha aqui amigos dedicados. Considerou a homenagem da Academia como um desejo requintadamente affectuoso de offerecer algum conforto á angustia que soffria. E esse terno pensamento commoveu-o. Mas a Dôr era sempre a sua nova companheira: «Vou vivendo, com a minha tristeza e a minha saudade. _Vou vivendo_ não é a expressão justa. _Deixo-me viver conforme Deus quer_, é mais exacto.» Distrai-se relendo as cartas antigas dos seus amigos, que colleccionava cuidadosamente, e, entre as quaes, muitas vezes, se referia aos grossos pacotes das minhas. Escrevia-me, em 29 de fevereiro: «É a leitura dessas cartas, como já lhe disse, a minha unica distracção. Quando ellas acabarem, não sei o que vai ser de mim. Escrever (eu pedira-lhe que, na receita de Goethe, puzesse a sua dôr em poemas) é-me absolutamente impossivel. Estas dores não cabem dentro de moldes litterarios. _Quem attende ao concerto do que diz não sente o que diz_, sentenciava um velho frade gongorico. Creio que, para mim, os versos acabaram. É bem possivel que não torne a escrever mais uma linha. _Pena, que póde explicar-se, perto está de não sentir-se_, como diz o mesmo frade, alludindo a circumstancias identicas.»
Carta em 3 de abril: «Não tenho forças para nada. Escrever uma carta é como se tivesse de deslocar uma montanha. O tempo não me tem curado. Dá-me, por vezes, uma certa paz, mas intervalos curtos, de que saio para um recrudescimento de amargura e de saudade angustiosa. Sinto que parta. (Eu ia regressar de Lisboa ao Rio). Parece-me que tudo quanto amei e amo se vai afastando de mim, cada vez mais.»
Nova carta, em 10 de julho: «A minha cabeça, como a minha alma, andam profundamente enfermas. Sinto-me cada vez mais só, cada vez mais desconsolado e mais triste. O estio era, nesta terra, a estação em que a minha vida de familia mais se accentuava. Como todo o movimento mundano cessava, estavamos sempre juntos, ou no campo, em algum sitio isolado e pittoresco, ou em excursões pelos arrabaldes da cidade. Tudo acabou agora. Do estio septentrional ficou-me apenas a inenarravel melancolia. Não imagina como pesa no meu espirito esta paizagem, composta monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pallida, mixto de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus infeliz. Para evitar recordações, a que não poderia resistir, lembrei-me de ficar na cidade. Com esse intuito, mandei os pequenos para o campo, acompanhados por uma tia; mas estou arrependido. Não posso viver só. Amanhã vou partir, não sei bem para onde, fugir de aqui, talvez para a Laponia, para alguma terra onde não encontre lembranças do passado. Perdoe este desabafo. Na verdade, não ha outra coisa a fazer senão a gente resignar-se; tenho filhos, que precisam de mim; mais do que nunca, é preciso viver. Mas, o peior, é que não encontro nada que me interesse ou me distraia. Os proprios versos, que sempre me encantaram, parecem-me ás vezes, agora, estultas frivolidades.»
Escreve-me, em 6 de setembro: «Contava ir este verão a Lisboa, mas esta guerra, que ameaça de se tornar chronica, obrigou-me a pôr de parte os meus projectos. Fiquei aqui. Ausentei-me apenas durante duas semanas, numa excursão pela provincia, mas o passeio não me serviu de consolação. Era a primeira vez, após 15 annos, que viajava só. Tão angustiado me sentia nos vagões do caminho de ferro e nos quartos de hotel, que preferi voltar logo para o meu ninho meio desfeito, apesar da desolação que nelle me esperava, pela ausencia dos meus filhos, que eu tinha mandado para o campo. De maneira que estive aqui só, completamente só, desde julho até hontem, porque só hontem elles regressaram. Este mez é para mim todo cheio de terriveis recordações. Fez, no dia 4, um anno que regressei do campo com a minha querida doente. Não imagina quanto essa viagem me impressionou, no curto trajecto de automovel com Ella, o medico, a _garde-malade_ e uma cunhada minha. Trazia já a impressão de que era o ultimo passeio que dava com Ella... E, n'esse estado de espirito, se foram passando os dias até á morte, no dia 21 do corrente. Na vespera esteve todo o dia ali, naquela _chaise-longue_, com o sorriso e o bom humor de sempre. E lá está, ha quasi um anno, na capela do cemiterio catholico, tambem á espera que a guerra acabe, para ser transportada para Ponte do Lima (terra natal de Feijó e que elle adorava), onde eu desejo tambem dormir o meu ultimo somno. Não me consolo, querido amigo. Toda a dôr contém, em essencia, o esquecimento. Mas eu não quero esquecer. Os mortos não morrem completamente emquanto a gente se lembra delles. E eu não quero que Ella morra emquanto eu andar neste mundo. Perdoe este desabafo. Perante estranhos, os desgraçados são sempre ridiculos. Mas V. não é para mim um estranho, e, diante dos outros ninguem é capaz de ler o que me vai na alma, através da minha serenidade e compostura. Nunca deixei ver a ninguem os recantos intimos do meu coração.»
Escreve-me de novo, em 25 de setembro, agradecendo o meu telegramma no primeiro anniversario do seu lucto. E continúa: «A 21, foi o primeiro anniversario da morte da minha querida Mercedes; a 24 o anniversario do nosso casamento em 1900; hoje, é o anniversario do enterro. Imagine o estado do meu espirito, e, por isso, perdoe-me se lhe não escrevo mais. Vivo numa angustia perpetua. O tempo passa, mas não me consola; socega-me, ás vezes, por intervallos, mas o _retour_ da memoria é sempre inevitavel, e o soffrimento torna-se mais agudo porque, dia a dia, a sua falta se me afigura maior.»
Em 1 de dezembro queixa-se de ter estado doente, com o seu velho mal da gota. Manda-me uma photographia, em que me apparece vertiginosamente envelhecido. «Contemple essa ruina, accrescenta. Não imagine, porém, que foi só a gota que me deixou assim. A gota entra por pouco no esboroamento da minha velha carcassa.» Espera ir no verão a Lisboa. Deseja encontrar-se commigo: «Parece que já estamos separados pelo outro mundo.» Dá-me as boas festas de Natal e Anno Novo: «Como para mim não ha festas, e faço tudo para não me aperceber do que este periodo do anno significa para o meu coração attribulado, ia-me esquecendo de cumprir este dever. Lembre-se de mim nessa noite de graça e de mysterio, em que um pouco de infancia parece reflorir na nossa alma, quando o infortunio a não devastou. Lembre-se de mim!» E na noite de Natal volta a escrever-me, dizendo-me que se fechou só no seu gabinete, com os seus pensamentos e a sua memoria, cheia de infinitas amarguras...
Emfim, tem a data de 21 de março de 1917, dezoito mezes justos depois da morte de sua mulher, tres mezes justos antes da sua propria morte, a ultima carta que recebi deste querido amigo, antes de perdel-o: «Estamos tão longe um do outro, sinto-o tão distante de mim, que parece que já estamos separados pelo outro mundo», repete elle, como quem adivinha. Continua a queixar-se da gota e mostra-se resolvido a ir fazer uma cura de aguas em Portugal de ali a mezes. Fala-me da guerra e da politica sueca, dando-me informações interessantissimas. Recomeçou a fazer versos, mas não os que desejava. Só lhe saem da penna _bailatas_, versos de zombaria, nos quaes transforma a tristeza em riso. Não o consolam. E a doença de alma, a verdadeira, não cessa de minal-o: «Faz hoje anno e meio que deixou esta vida de lagrimas a minha querida Mercedes. Parece que foi hontem. Não ha esforços que consigam afastar o meu pensamento dessa hora terrivel. Não é o desespero dos primeiros tempos; mas é uma saudade, uma tristeza de que nem mesmo o trabalho consegue distrair-me. Precisava de sair de aqui; precisava de ir passar algum tempo em Portugal, ver os amigos, ver a minha terra; mas ao mesmo tempo tenho receio dessa viagem. Quantas pessoas queridas mortas! Quantas coisas mudadas!»
Alguns dias depois de receber esta carta foi um telegramma dos jornaes que me deu o golpe, apesar de tudo não esperado, da morte de Antonio Feijó. Elle era um homem robusto e ainda são, tinha apenas 55 annos, e eu, tomando os meus desejos pela realidade, acreditava que a educação dos filhos e o desabafo dos versos iriam devagar transformando em doce saudade a sua dôr dilacerante. Feijó não se estava _deixando viver_, como elle dizia; estava-se deixando morrer, sem dar por isso. E o amor incuravel, o amor de perdição tão caracterisadamente portuguez, o amor da nossa raça e tradição matou-o como a mais fatal das doenças physicas. Esta carta postuma, que elle me escreveu em 27 de abril e que só recebi hontem, como que me chega de além-tumulo. E como me doe o coração e se me orvalham os olhos ao lel-a! Bom e fiel amigo, que ainda te affligias com o meu silencio, de que só a falta de communicações era culpada, e te inquietavas com a minha saude, quando era a tua que devia absorver todos os teus cuidados! Que feliz me sinto ao ver-me rodeado no mundo de tantas almas que se affeiçoaram á minha, mas quanto me pesam, e me desterram pouco a pouco da vida, estas mortes que começam a povoal-a! Feijó, ao menos, foi para onde queria, reuniu-se emfim Áquella sem cuja companhia desaprendera de viver. Deus lhe haverá concedido todas as bem-aventuranças, promettidas aos que muito soffreram e choraram n'este valle de lagrimas.
Não peço perdão a quem me haja lido ou ouvido, do espaço que consagrei a este romance vivido e sincero, tão digno de ser sentido e meditado por cabeças e corações ao seu nivel. Perdoa-me, estou certissimo, a memoria do alto poeta do _Cancioneiro chinez_ e da _Ilha dos Amores_, que eu me haja occupado, nesta hora afflicta, muito mais do seu amor que dos seus versos, e que a sua vida me pareça, como a de todos os seres de eleição, mais bella ainda que a sua obra. Mas não me despeço de versar um dia esse capitulo da historia literaria portugueza, onde Antonio Feijó figurará sempre como um dos nossos poetas ao mesmo tempo mais subjectivos de temperamento e mais perfeitos e cultos de expressão. O nome de um Feijó illustrou já a historia do Brasil na pessoa do Padre-Regente, que era porventura da familia do poeta e até se parecia com elle no porte da cabeça profundamente encravada entre os hombros. Hoje então são as nossas Letras irmãs que registram, em caracteres indeleveis, esse mesmo velho e illustre nome.
Ainda uma justificação para esta longa pagina de memorias. Ha muitas pessoas, enthusiastas da Vida e da Arte livres, que julgam os transportes do Amor e da Paixão incompativeis com a regra e o pacto do casamento, e que não são capazes de exprimir a poesia, de que as suas almas transbordam, senão em versos errados. Longe de mim o intuito de contradizel-as. Mas não ha mal em que aqui lhes offereça este _espelho de casados_, no qual poderá remirar-se, ao menos uma vez por outra, a sua perfeição.
Alberto d'Oliveira.
Dans quelques instants de loisir, j'ai fait des vers inutiles; on les lira peut-être, mais on ne retirera aucune leçon pour nos temps...
C.^{te} Alfred de Vigny.
Le vers est une création mystérieuse dont l'habitude seule nos empêche de nous étonner.
Ernest Hello.
[Figura: D. Mercedes de Castro Feijó]
A MINHA MULHER
_Romam tu mihi sola facis_.
MART. LIV. XII. EPIGR. XIX.
_Folhas mortas d'outono ou d'inverno precoce, No teu regaço amigo, estes versos deponho, Para que o teu amor lhes dê vida e remoce, Porque a Arte começa e acaba num sonho... É pouco; mas eu torno a homenagem mais bella, Pondo, como uma flor, nas folhas sem aroma, O verso em que Martial diz á Esposa Marcella: Tu, tu só, para mim, vales mais do que Roma_!
ELEGIA DE ABERTURA
_Elegia d'abertura_
_A minha Lyra tinha uma corda: Emquanto môço tanto cantei, Que a pobre corda despedacei.
Agora, ás vezes, se a Musa accorda, E quer de novo pôr-se a cantar, Ninguem a corda pode emendar.
Era uma corda que só vibrava Quando a minh'alma toda chorava, E tantas mágoas, tantas, cantei, Que a pobre corda despedacei.
O Amor e as penas da Mocidade, Chimera ou Sonho de cada dia, Eram os themas que ella escolhia.
Porém um dia veio a Saudade, D'olhos vidrados e humedecidos, Poisar-lhe os dedos emmagrecidos...
Então, vibrando, toda chorosa, Sob esses dedos, brancos de cera, Mais angustiada nunca gemera!
E uma alma nova tão dolorosa, Com tanta mágoa nella ressôa, Que um ai supremo despedaçou-a!
Desde esse instante, nas minhas penas, Sem essa corda que me sustinha, --Pobre Saudade! chora sósinha...
Manhãs d'estio, tardes serenas, Occasos d'oiro, nocturno ceu, Para os meus olhos, tudo morreu!
Mas a Saudade, no meu tormento, Geme e soluça com tanta mágoa, Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'água,
E sem um grito, sem um lamento, Minh'alma vive na dor que a enleia, Como uma aranha na sua teia...
A minha Lyra tinha uma corda: Emquanto moço tanto cantei, Que a pobre corda despedacei.
Agora, ás vezes, se a Musa accorda, E quer de novo pôr-se a cantar, Ninguem a corda pode emendar...
A Mocidade não pensa em nada, E a pobre corda vi-a quebrada Quando tocava mais afinada...
A Mocidade não pensa em nada_!
I
DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO
_A João Arroyo_
Hvad er en Digter? Et ulykkeligt Menneske, der gjemmer dybe Qvaler i sit Hjerte, men hvis Laeber ere dannede saaledes, at idet Sukket og Skriget strömme ud over dem, lyde de som en skjöne Musik.
Kirkegaard.
DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO
Quando moço, cantei, mas em formas discretas Que nunca o meu segredo ousassem revelar, Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar.
Feliz, o Amor... nem mesmo ephémero sorriso Deixou nessas canções memoria do seu rastro; Desditoso, ficou como um luar indeciso, Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.
A Dor, mal comprimida em gritos suffocados, --O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume-- Ennublou muita vez os meus olhos magoados, Mas se ao labio acudia, era apenas queixume...
Éstos do coração, sobresàltos do instincto, --Amor ideal, vehemente impulso do desejo,-- Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto, No meu verso expirar, como um simples arpejo.
Se a angustia me opprimia em continua tortura, Para allivio a esse mal, que ninguem consolava, Como alguem que a si proprio illudir-se procura, Precisando de ouvir a minha voz--cantava!
Echo do meu soffrer, de tão fundo partia, Que deixando ao passar todo o amargo travor, Essa voz, rara vez, murmurando trahia O secreto pungir da primitiva dor.
Mas de cada palavra ou gesto contrafeito Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca Os lamentos e os ais suffocados no peito, Todos os gritos vãos que morreram na boca!
No escrinio da Canção as lagrimas vertidas, Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma, Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas, A tremer no cristal transparente da Fórma.
Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste; Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza; A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste, Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.
Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio Da phrase que a primor o artista cinzelou, Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio, O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.
A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos; Muda em graça verbal todo o grito pungente; --Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos, Que a um sopro vão partir da pupilla dormente...
Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento, Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo... --Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!
D'esse beijo profundo, as angustias e as dores, Se em imagens procura o artista convertê-las, Espinhos entrelaça em grinaldas de flores, E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.
Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel, O espirito banal, nunca pode sentir, A mágoa que por trás da palavra insensivel, Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!
Só almas d'eleição commungam no mysterio Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova, Como á flor que sorri num chão de cemiterio, O amargo coração que se desfaz na cova.
Só ellas, através d'um molde tão restricto Como esse em que a palavra as emoções fixou, Alcançam entrever não sei quê d'infinito No minuto de sonho em que a Dor se embalou...
A ARMADURA
_Ao Dr. Góran Björkman_
A ARMADURA
Desenganos, traições, combates, soffrimentos, Numa vida já longa accumulados, vão --Como sobre um paúl continuos sedimentos, Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.
E a cinza com o tempo attinge uma espessura, Que nem os mais crueis desesperos abalam; É como tenebrosa, impavida armadura Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam.
Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava, Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados; Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava Que nesse duro arnez se não faça em bocados.
E no entanto, através d'essas rijas camadas, Ou rompendo por entre as junctas da armadura, Escorrem muita vez gotas ensanguentadas Que o coração verteu d'alguma chaga obscura...
A CIDADE DO SONHO
_Ao Visconde de Pindella_
A CIDADE DO SONHO
Soffres e choras? Vem commigo! Vou mostrar-te O caminho que leva á Cidade do Sonho... De tão alta que está, vê-se de toda a parte, Mas o ingreme trajecto é florido e risonho.
Vae por entre rosaes, sinuoso e macio, Como o caminho chão d'uma aldeia ao luar, Todo branco a luzir numa noite de estio, Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
Se o teu animo soffre amarguras na vida, Deves emprehender essa jornada louca; O Sonho é para nós a Terra Promettida: Em beijos o maná chove na nossa boca...
Vistos d'essa eminencia, o mundo e as suas sombras, Tingem-se no esplendor d'um perpetuo arrebol; O mais esteril chão tapeta-se de alfombras, Não ha nuvens no ceu, nunca se põe o sol.
Nella mora encantada a Ventura perfeita Que no mundo jámais nos é dado sentir... E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita, A propria Dor começa a cantar e a sorrir!
Que importa o despertar? Esse instante divino Como recordação indelevel persiste; E neste amargo exílio, através do destino, Ventura sem pesar só na memória existe...
BEATITUDE AMARGA
_A Silva Ramos, da Academia Brasileira_
BEATITUDE AMARGA
Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos E imagino que estou sentado á beira mar: Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos, Naufragios, temporais, mar de leite e de luar...
Medroso, o coração tenta fugir, mas treme: O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente, Despenha-se no mar, como um barco sem leme, D'onda em onda, á mercê do vento e da corrente.
Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma, E sinto uma impressão d'angustia e de pesar, --Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma-- Por suppor que partiu para não mais voltar!
Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto; Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida, Com o vago terror e o pensamento incerto Do naufrago que á praia ainda chegou com vida.
CASTELLO BÁRBARO
_A Josè d'Azevedo Castello Branco_
CASTELLO BÁRBARO
Um a um sobrepondo os tormentos mais altos, Da minha propria dor fiz uma Fortaleza, Que podesse afrontar tempestades e assaltos, Imponente de rude e bárbara grandeza.
Desde então, sem receio, a tudo invulneravel, Depondo na panóplia o escudo e as armas rôtas, Vivo occulto no meu torreão inexpugnavel, Recompondo em annaes combates e derrotas.
Nenhum grito ou rumor attinge essa eminencia; Nenhum desejo vão escala essas alturas, Onde, antigas visões, andam como em demencia Do passado a evocar saudades e amarguras.
Comtudo, alguma vez, se uma illusão funesta Um echo juvenil faz em mim despertar, Como som matinal de campanário em festa Que no meu coração vem de longe vibrar,
Então,--luz sem egual que tudo em tôrno abrasa-- A Ventura de novo aos olhos meus se ostenta, --Raio de sol suspenso a tremer numa asa Que um instante pairou sobranceira á tormenta.
E atrás d'essa chimera ou sonho allucinante, Vou, numa ancia de goso, um momento arrastado, Como o condor lançando o vôo fulminante Á presa que entreviu do píncaro escarpado.
Mas a luz, que brilhou, logo se esconde e apaga, E eu regresso trazendo ao meu refugio, exangue, Mais uma nova dor, mais uma nova chaga, Rutilante de vivo e generoso sangue.
E outra vez, d'essa altura em taes ruinas erguida, Sem sobresaltos vejo os meus dias correr, De saudades velando o entardecer da Vida, Que o ter-se sido môço é a dor do envelhecer.
Mas occulto no meu solitário reducto, Ao abrigo de toda a investida ou traição, Se de fóra não vêm tempestades nem lucto, O meu proprio soffrer enche o meu coração.
E assim, na sua noite o espirito submerso, Sem que uma estrella nova aos olhos meus desponte, Vou, com o pensamento em mil vôos disperso, De saudade em saudade alargando o horizonte.
E tudo, mesmo a Dor, nessa amplidão se esfuma, Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol... Toda a nuvem, de perto, é um farrapo de bruma, A distancia, parece oiro e púrpura, ao sol!
Sob o contorno ideal que o espelho empresta á imagem, Projectados ao longe, os tormentos e as dores Surgem aos olhos meus na ilusão da miragem, Como ruinas de sonho em que brotaram flores...
Ruinas que uma luz tão serena illumina Como se as envolvesse um luar de esquecimento; E é tão doce a illusão, que nessa hora divina, Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!...
A AGUIA PRISIONEIRA
_A Manoel da Silva Gayo_
A AGUIA PRISIONEIRA
Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo, Num ocio de tyranno, os olhos arrancou! E, a gosar d'esse feito o delicioso travo, Da jaula hedionda a férrea porta escancarou...
A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra, Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava, Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.
Mas na ancia de luz que a devora sem treguas, Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia, Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas, Sem poder dissipar a treva que a rodeia.
E tão alto subiu no seu vôo desfeito, Que de repente, não podendo respirar, Sentiu que lhe estalava o coração no peito, E veio aos pés do escravo exanime rolar...
Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade, Por mais alto que eleve o desvairado arrojo, Quando julga atingir a suprema verdade, No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!
A SELVA ESCURA
_A João Chagas_