# Sol de Inverno ultimos versos : 1915

## Part 2

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Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de tão largo folego. Os que accusavam Feijó de frio e impassivel teem, n'elle, como em muitas outras composições do _Sol de Inverno_, um formal desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente, essa torturada e angustiada _Supplica ao Vento_, de que transborda toda a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando, tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doçura radiosa do céu do Lacio, uma voz de desterrado cantou mais amargamente e com tão empolgante emoção as suas mágoas, as recordações da terra natal, a ancia de a rever em toda a sua surprehendente formosura. São queixumes elegiacos, perdidos apellos d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar vertiginosamente nos espaços, e supplicando-lhe que leve á terra risonha e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir á vida, o seu amor soluçante e lacrimoso. Não se leem esses patheticos tercetos sem uma crispação dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas.

Já, na _Alma Triste_, essa incuravel nostalgia transparece em algumas poesias alli reunidas. É ella, mesmo, como um _leit-motiv_ favorito. _Domingo em terra alheia_, _Soliloquio do Outomno_, _No mez de Abril_, _Silencio_, _No campo_, _Inverno_, ressumam as melancholias d'um espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante.

Ouçamos as lindas quadras finaes do _Inverno_, onde esse sentimento tão docemente se exprime:

Nasci á beira do Rio Lima, Rio saudoso, todo crystal; D'ahi a angustia que me victima, D'ahi deriva todo o meu mal.

É que nas terras que tenho visto, Por toda a parte por onde andei, Nunca achei nada mais imprevisto, Terra mais linda nunca encontrei.

São aguas claras sempre cantando, Verdes collinas, alvôr d'areia, Brancas ermidas, fontes chorando Na tremulina da lua-cheia...

É funda a mágoa que me exaspéra, Negra a saudade que me devora... Annos inteiros sem primavera, Manhãs escuras sem luz d'aurora!

Oh meus amigos, quando eu morrer, Levae meu corpo despedaçado, Para que eu possa, já sem soffrer, Dormir na Morte mais descansado!

V

A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos portuguezes.

Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,--Feijó pode chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de mestre Theo: _Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait_. Mas o que elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico, na mais ampla plenitude da designação.

Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da galanteria,--são a substancia psychica da sua poesia.

Essas emoções sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi não variam de tonalidade. O verso de Feijó é ricamente polymorpho e a escala dos seus tons muito extensa. A sua versificação tem amplitude e largueza; mas, tem, egualmente, elegancia, frescura e graça. Esculpe poderosamente o alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com arte, as mais extranhas formas da estrophe composita.

Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia ser um poeta popular. O seu publico, de _conhecedores_ e _dilettanti_ da arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a todos os secretos manejos de notoriedade banal.

Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo. Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma qualquer _camelotte_, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular com abundancia.

Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes.

VI

A litteratura era a sua vocação. A diplomacia foi, na sua vida, um occasional desvio de destino.

Quando se formou, Feijó pensou em advogar. E buscou iniciar-se no officio, praticando no escriptorio de seu irmão José, que era, n'esse tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. Não se entendeu, porém, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver mundo... por conta do Estado, já que, para isso, lhe faltavam os meios proprios. Pensára em ser consul.

A carreira consular tornara-se, então, a carreira favorita dos nossos litteratos: eram consules o Barão de Roussado, Eça de Queiroz, Batalha Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,--talvez ainda outros que me não lembram agora. Feijó foi aos concursos e, poucos mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por essa occasião, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado nosso ministro no Rio. Feijó fez com elle a viagem e, antes de ir para o seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legação.

Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado em diplomata n'essa côrte do extremo Norte. E ahi, á morte do seu velho chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para sempre a sua promoção a ministro, determinada por uma reforma dos serviços diplomaticos.

Nestas altas funcções, Feijó deu as mais seguras provas da sua competencia. Infelizmente, aquella legação não tinha importancia correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer plenamente as suas faculdades e talentos. «Estou aqui encalhado, a apodrecer»--escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado, inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto, a uma situação subalterna, quasi que ao simples serviço de expediente e á representação protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados encargos e mais arduos trabalhos--e doía-se de se não ver utilisado. O seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e trabalhador como poucos, não era, positivamente, o gôzo d'uma sinecura.

Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade; tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola--o bom-senso.

Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.

E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros. A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que contava uma anedocta, o _humour_ ligeiro, e levemente malicioso ás vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a expansiva jovialidade do seu forte temperamento--faziam d'elle um _cavaqueador_ irresistivelmente atrahente.

Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre, um _dyonisiaco_, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista, gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica. Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas, devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua ascendencia, do que do d'esse _Feijóo escudeiro_, do tumulo de Celanova, _bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro_, a quem o poeta consagra a poesia final da _Alma triste_.

O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a _joie de vivre_. Junqueiro chamava-lhe, então, o _opiparo_ Feijó...

VII

Mas um dia, um grande infortunio,--a viuvez inconsolavel, o seu pobre lar em ruinas,--devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes que tanto o torturavam e entristeciam,--a elle, filho d'estas bemditas terras do Sul!...

O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que, através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.

Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto, que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel torrão de Portugal!

N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.

Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito, immobilisado para sempre!

E de novo ao sahir d'esta angustia demente, Sinto bem que tu és, para toda a amargura, A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva, Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida, --Borboleta celeste, ebria de Deus--se eleva Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!

Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que ficará como uma das maiores glorias da sua lyra.

Assim deve ter sido a sua--uma transição insensivel, uma serena Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura, sempre voltada para o Amor e para a Vida!

Luiz de Magalhães.

ANTONIO FEIJÓ, O QUE MORREU DE AMOR

(Lido na Academia Brasileira, sessão de 28 de Junho de 1917)

A Morte astuciosa--ou caridosa?--antes de apoderar-se finalmente da nossa vida, enceta a sua tarefa inexoravel hospedando-se pouco a pouco nos melhores recantos d'ella. Todo o homem que dobrou os quarenta annos conhece essa primeira visita e tem de preparar-se para essa longa hospedagem. Cada coração, que só carinhos e affectos alojava, eis que um dia recebe ordem de aboletamento para a pavorosa Intrusa, de que lhe cumpre fazer companheira de casa. E o espaço, a principio exiguo, que ella reclama, nunca mais deixa de alargar-se em seu proveito. Os seres mais queridos, os mais amados, temos de perdel-os para que ella lhes ocupe o logar. Vão faltando os parentes, vão morrendo os amigos, um a um, em periodos cada vez menos espaçados. Começamos, ao romper da vida, crendo-nos donos do Universo, e com que pressa o nosso dominio se limita, se estreita, até n'elle nos sentirmos demais! Quando emfim a nossa hora chega, já não é senão um fragmento ultimo e minimo da vida que abandonamos á Morte. O coração, a que ella faz parar a fatigada corda, estava tão atravancado de cadaveres que já não podia bater livremente.

Estou experimentando o sobresalto d'esses avisos sinistros, e já não são os primeiros. Ha seis annos era o conde d'Arnoso, deixando um claro, que nada e ninguem mais preencherão, na calma felicidade dos meus dias. Em 1915 foi Ramalho Ortigão, esse ao menos depois de uma longa e bem aproveitada vida. Quasi ao mesmo tempo, em 21 de setembro do mesmo anno, morria em plena mocidade e formosura Dona Mercedes Feijó, a mulher querida de um dos meus mais fieis amigos. E agora, a 21 do mez, vinte e um mezes exactos depois da desgraça a que não conseguiu mais resignar-se, é António Feijó que morre por sua vez, que morre de amor e de saudade por aquella que era o raio de sol da sua vida.

Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fôra tambem creada á beira da poesia e da melancholia tão lyricas do Rio Lima. Morreu de amor o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas gerações de cavalleiros e trovadores, cuja antiga formação affectiva e moral nunca se alterou no seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feijó, tão verdadeiramente como se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua morte. Morreu de amor, começou a morrer de amor no momento em que viu para sempre

Deitada no caixão estreito, Pallida e loira, muito loira e fria,

aquella mulher tão amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o commovedor necrologio.

Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero Roiz, Antonio Feijó vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos. Mas Dona Mercedes Feijó era em tal grau a imagem da Belleza e da Graça que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor, tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feijó sabia, podia medir com dolorosa precisão o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas vezes encontrei creatura feminina tão seductoramente bella. Dona Mercedes era filha de pai sueco e de mãe equatoriana. Cruzamento do Polo e do Equador, como alguem disse, não é possivel imaginal-o mais feliz, alliando a pureza quasi divina das raças do norte á exhuberancia e alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse o namorado companheiro. Não o sentiam talvez em toda a verdade senão os intimos da casa, porque Antonio Feijó era pouco expansivo e resguardou sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que, por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem completamente a sua missão. Feijó era ha mais de 20 annos ministro de Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e excedendo a tradição deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como um sueco honorario. Madame Feijó era, uma vez ainda, como um raio do sol equatorial n'aquellas sombrias regiões polares. A alegria e a vida da sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres côrtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e graciosa capital sueca.

O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dôr, sentiu chegar até ella as lagrimas e os carinhos de tantos corações e não poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna consideração de que todo um povo estrangeiro o rodeava em tão amarga hora. Mas não tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga em que se convertera o seu coração. N'ellas viu apenas que o encanto da sua querida mulher era tão amplo e universal que até aos mais indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez--formas terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero--que o seu lucto não era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez para escapar-lhes.

Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na maior commoção, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou só hontem, como sobrenatural visita, já depois de fria e inerte a mão que a traçou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? Não vejo, no entanto, melhor maneira de render ao grande coração de Antonio Feijó o preito que lhe devo. Não ha n'ellas uma palavra que possa parecer indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficarão sendo o epitaphio.

Antonio Feijó tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos em papel de carta de formato e côr sempre differentes. A sua ultima carta despreocupada e alegre é de 28 de fevereiro de 1914 e está escripta, como que por estranho presentimento, em papel côr de rosa. Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma côr. A carta seguinte, datada de 20 de abril, é amarella, côr de outomno e de morte, e traz as primeiras apprehensões duradouras sobre o estado de saude de sua mulher, que, mezes antes, já lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa amarga correspondencia:

_18 de julho de 1914_: «Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas, porque, no estado de espirito em que ando, não queria affligir as suas primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentações e amarguras, a que o seu coração amigo não póde dar remedio. A minha querida doente vai melhor, já póde sair, já quasi póde fazer a sua vida habitual. Mas... este _mas_ é que é a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que seja a natureza e gravidade da doença, as recaidas anteriores não me dão a menor garantia para o futuro. É mais que provavel que a doença se reproduza. Não sei o que ha de ser de mim. A _Imitação de Christo_, que eu leio assiduamente, diz que _à chaque jour suffit sa peine_; mas eu estou longe de ser um bom christão, e a resignação é uma virtude que Deus só concede aos eleitos.»

Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia tão proxima, e que absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas occupações e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflicção intima. Em 23 de outubro escreve-me:

«De saude vamos indo, graças a Deus; mas, sempre naquella preoccupação de que lhe tenho falado, não consigo horas de paz, já não digo perfeita, mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha, são apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam, todos nós ambicionamos passal-as tranquillamente.»

A 1 de janeiro de 1915, dando-me as boas festas, accrescenta logo: «Sinto-me num estado de espirito tão desolado e abatido que nem posso conversar á vontade com os amigos mais queridos. A Mercedes anda outra vez doente e eu estou com immenso receio que seja uma nova _poussée_ do antigo mal. Trago o coração em sobresaltos.»

Abre-se, então, um longo silencio, que as minhas cartas não conseguem quebrar e que me inquieta progressivamente. Em julho, cedendo ás minhas instancias, vêem duas palavras pelo telegrapho: «Mercedes sempre doente. Estou desolado.» E em setembro, uma carta, de 26 de agosto, com tristes noticias: «Tem razão para se queixar do meu silencio, mas não escrevo a ninguem. Vivo apenas para a minha doente e para a minha dor. Parece, de facto, injusto o martyrio que ella soffre, mas neste mundo os que padecem são sempre os melhores e ella era a melhor de todos. Ha longos mezes que a vida é para mim um suplicio, e sem esperança de lhe ver um termo. Deus sabe o que terá succedido quando esta carta lhe chegar ás mãos!»

Com effeito. A previsão não falhou. Foi a 22 de setembro, na hora em que eu embarcava para a Europa, que me chegou ás mãos um telegramma de Stockolmo, datado da vespera, com estes dizeres apenas: «Tout est fini». A censura de guerra não os deixára transmittir na nossa lingua; mas nem assim me soavam menos tragicos aos ouvidos. Fiz toda a viagem com este desgosto, não podendo crêr que uma tão luminosa e formosa mocidade se pudesse assim bruscamente extinguir, e vendo naquella morte maldita um verme hediondo que se houvesse introduzido, para o roer, na rosea polpa do mais fresco e dourado fructo. A electricidade do mar, sempre para mim tão contagiosa, não se me communicou desta vez. Fiz uma travessia melancholica; e, ao desembarcar em Lisboa, esperava-me a noticia da morte do meu venerado amigo Ramalho Ortigão, a quem eu queria como a um avô, e que, poucos dias antes, se finara entre afflictivos soffrimentos.

Não sei, nem agora me importa saber, se é monotona a descripção de uma dôr humana, para os desconhecidos de quem a soffreu. Monotona será, mas ai de quem lhe não sentir a grandeza e a belleza! Desde a morte de sua mulher, as raras cartas de Antonio Feijó são um lamento continuo, cuja leitura impressiona mais do que a mais perfeita litteratura. Percebe-se que o viver assim já não tem de viver senão o nome, e verifica-se uma vez mais que, sem o ponto de apoio do ideal, do sentimento ou da fé, a vida a que o nosso instincto animal tanto se apega por vezes, é coisa nenhuma. A primeira carta, sem data, diz assim, para não a copiar toda: «Se um dia nos encontrarmos--do que duvido--então lhe contarei o que foi o martyrio da minha pobre mulher, e o supplicio que foi a minha vida, vendo-a soffrer sem remedio, para lhe esconder a natureza do mal e alimentar-lhe a esperança da cura, que nunca, felizmente, a abandonou. Morreu subitamente, sem agonia e sem perceber que era o fim. Não tenho forças para lhe responder como desejava, nem para tomar qualquer resolução. O futuro, na minha idade, como V. costuma dizer, são 24 horas. Rapidas ou curtas, que ellas se passem como Deus quizer. Da minha parte nada farei para as tornar menos pesadas, porque tudo é inutil.»

